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derrota

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.12.22

O anúncio feito pelas autoridades chinesas de abandono da política de tolerância zero, com o afastamento radical de medidas que ainda há dias eram consideradas essenciais, só foi possível devido à conjugação de duas ordens de razões.

Por um lado, a verificação de que essa política se revelava em cada dia que passava mais desajustada da realidade à medida que os casos aumentavam por todo o país, na ordem das dezenas de milhares, e a situação económica se agravava.

Depois, porque o povo se começou a manifestar nas ruas em múltiplas cidades contestando a política oficial, o regime de clausura que lhes foi imposto há quase três anos e o seu empobrecimento generalizado.

Ao contrário do que aconteceu em Junho de 1989, em que tudo se resumiu a um foco de revolta e contestação de jovens localizado e centrado na Praça da Paz Celestial, o que facilitou o envio de tropas e a "limpeza" que se seguiu, desta vez todos viram que a revolta popular contra a política de tolerância zero e os seus defensores se estendeu a dezenas de cidades, com milhares de pessoas nas ruas. A contestação foi generalizada e começou a assumir contornos violentos, como se viu pelas imagens que nos chegaram do que se passou em Guangzhou e noutros locais, com violência contra as próprias autoridades policiais.

Não fosse isso e não teria havido qualquer inflexão nas medidas. A contestação social generalizada continua a ser o pesadelo de qualquer autocracia.

Recorde-se que ainda há menos de dois meses, no XX Congresso do Partido Comunista Chinês, havia sido reafirmado que a política de tolerância zero seria para manter

Também em Macau, na Assembleia Legislativa, o Chefe do Executivo manifestava há três semanas a continuação da política de tolerância zero dinâmica e que, ao contrário de Hong Kong, prosseguiriam em Macau as políticas determinadas pelos autoridades centrais.

Tão pouco tempo depois e a RAEM é obrigada a abrir. Era inevitável que o erro teria de ser corrigido. O que ainda há dias era verdade, científico e patriótico, para ser seguido de olhos fechados, afinal hoje já não convém. Num ápice tudo mudou

A lição a retirar é a mesma de sempre: quando a inteligência, o bom senso e a justiça desaparecem das políticas governativas, para darem lugar ao seguidismo acrítico e à arbitrariedade, e aquelas apenas representam a medida da teimosia, constituindo um espelho da insensatez, do atavismo e do provincianismo, torna-se muito mais difícil dar resposta às necessidades da comunidade. E isto é válido para qualquer governante e qualquer regime independentemente da respectiva latitude.

A RAEM perdeu mais uma boa oportunidade de reconquistar a sua autonomia e mostrar o caminho a tempo e horas.

A derrota da política de tolerância zero é uma vitória da razão e da cidadania, uma derrota da arbitrariedade a coberto da lei.

Tivessem as medidas agora anunciadas, embora insuficientes, visto que as quarentenas para quem chega do estrangeiro continuam, sido tomadas há um ano, quando em todo o mundo se percebeu que o vírus tinha vindo para ficar e era preciso mudar de políticas para salvar a economia e o ganha-pão da maioria, e ter-se-ia encetado o caminho da mudança muito mais cedo, com muito menos prejuízos e poupando a todos os elevadíssimos custos sociais, económicos e financeiros que nos foram impostos. 

É preciso voltar à vida rapidamente. Sem medo, não chorando sobre o tempo perdido. Quem não se vacinou que se vacine, que se proteja, e que acorde para a realidade. O mundo não pára, não espera por nós.

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distúrbios

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.11.22

Em Macau nunca houve qualquer problema em matéria de segurança, fosse antes ou depois da aprovação da Lei n.º 2/2009 (Lei Relativa à Segurança do Estado). Esta lei nunca foi aplicada.

Recentemente, algumas sumidades criaram a ideia da necessidade da sua revisão e alteração para fazer face a umas ameaças que nunca ninguém disse claramente quais eram. Mas ontem, na Assembleia Legislativa, de acordo com o relato da imprensa, o Chefe do Executivo disse que "[Em 2022] foi, de forma abrangente e eficaz, prevenida a interferência e a destruição de Macau por forças externas e elementos relacionados com o terrorismo". 

Não sabemos que interferência e destruição seriam essas, que forças externas estariam tão interessadas em ocupar o Clube Militar, apropriarem-se do nosso minchi e da água do Lilau, em especial sabendo-se que devido às restrições pandémicas continuamos praticamente fechados ao exterior, o que, todavia, não invalida que fiquemos satisfeitos e sumamente agradecidos, enquanto residentes, por termos sido protegidos, por mim falo, dessas ameaças.

Em Hong Kong, onde não havia legislação que desse cumprimento ao artigo 23 da Lei Básica, Pequim encarregou-se de aprovar a legislação necessária, substituindo-se ao Legislative Council, e acabou com as manifestações, com os pró-democratas, correu com os arruaceiros, com os cortes de estrada, com o sistema eleitoral anti-patriótico e colocou travão à destruição de propriedade pública. Agora, felizmente, é só progresso e prosperidade.

Ontem, curiosamente, aqui na provincía ao lado de Macau e de Hong Kong, onde existe uma lei de segurança nacional em vigor há vários anos, onde o acesso à Internet é limitado, onde as redes sociais são censuradas, onde existe um sistema socialista, onde não há forças externas, onde impera a tolerância zero e a liberdade de imprensa é, diria, a suficiente para a prosperidade e felicidade do povo, ficámos a saber que os casos de Covid-19 continuam a ser aos milhares – quando se estão quase a perfazer 3 (três) anos sobre os primeiros registos do vírus – e que as pessoas violaram as regras do confinamento imposto pelas autoridades, foram para as ruas, destruíram propriedade pública, manifestaram-se, provocaram distúrbios, viraram um carro da polícia, enfim, fizeram tudo o que não era natural fazerem numa "democracia que funciona" com boas leis, com boa governança e tolerância zero.

Não se compreende a sua insatisfação e tão despropositada reacção estando as autoridades a protegê-las. 

Em que ficamos? Então para que servem as leis numa "democracia que funciona"?

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desumanidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.03.22

A decisão das autoridades de Hong Kong de obrigarem crianças de tenra idade diagnosticadas com Covid a terem de fazer quarentenas afastadas dos pais e ao cuidado de estranhos é de uma desumanidade e crueldade a toda a prova.

Impor aos pais a separação de uma criança de onze meses, permitindo-lhes apenas um contacto por telemóvel, três vezes ao dia, como se de um comprimido se tratasse, raia o absurdo, aumentando o desgosto e a insegurança da criança, que para todos os efeitos está a cumprir uma "pena" afastada dos pais numa idade em que mais carece deles e em que o sentimento de impotência e desprotecção é total.

Não sei se uma situação como a que está a ser vivida pela criança não lhe deixará sequelas. Não tenho meios nem qualificações para o poder avaliar. Mas sei, porque as vi, que as imagens divulgadas pela CNN, de onde apenas ressalta o drama da criança e dos pais, são de uma grande violência, revelando a total insensibilidade, para já não dizer, neste caso específico, a total anormalidade de quem decide a aplicação de uma política de tolerância zero a uma criança de onze meses.

Não acredito que tal seja do interesse da criança, nem para sua protecção e bem-estar.

Além de que uma decisão dessas violará, estou em crer, de forma grave os instrumentos internacionais para protecção dos direitos da criança, designadamente a Convenção da UNICEF, também em vigor em Hong Kong.

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inimaginável

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.22

Hong Kong enfrenta el peor brote de covid-19 desde el inicio de la pandemia  | Sociedad | EL PAÍS(créditos: El Pais, Miguel Candela/EFE)

Dois anos depois do aparecimento em Wuhan do vírus da Covid-19, e de uma apertada política de tolerância zero, Hong Kong enfrenta a sua pior vaga.

Os casos são aos milhares, diariamente, já desencadearam o auxílio do interior do país, motivaram o adiamento do calendário para escolha do próximo Chefe do Executivo, e têm gerado múltiplos apelos à vacinação por parte das autoridades locais e do próprio Governo central, incluindo do Presidente Xi Jinping, que veio lembrar ser a tarefa primordial de Carrie Lam o controlo da situação.

Curiosamente, esta vaga acontece num momento em que as fronteiras continuam fechadas, não há ligações por barco a Macau há dois anos, os movimentos pró-democracia de Hong Kong foram entretanto desmantelados, os seus líderes processados, silenciados, presos ou "exportados" para um qualquer local de exílio, o sistema eleitoral foi mudado e o Legislative Council só tem patriotas. Aparentemente estariam criadas todas as condições para que o combate à pandemia se tivesse processado de uma forma simples, segura e eficaz.

Porém, aquilo que se verifica é que esse combate está a revelar-se um fracasso. É verdade que um bandido à solta, um perigoso estudante do movimento pró-democracia ou um assaltante de ourivesarias não é o mesmo que um vírus, em qualquer uma das suas variantes, e o que serve para apanhar os primeiros não se aplica ao último. Mudar o sistema eleitoral também não serviu para ajudar a combater o vírus.

Não obstante, a semana que findou mostrou que o encarceramento social e cívico, o cerceamento de direitos e liberdades e uma política de tolerância zero, ou aparentada, que nem sequer poupou as desgraçadas das trabalhadoras filipinas, sempre com o aval do Governo central, não impediu o reaparecimento do vírus e o espectáculo deprimente dos últimos dias. As políticas de combate à pandemia, e controlo desta, impostas ao longo destes anos provocaram um rombo fortíssimo na economia e no tecido social, gerando inclusivamente problemas de natureza psicológica em muitos residentes.

Ver uma cidade como Hong Kong, rica e poderosa, uma das mais importantes praças financeiras da Ásia, em tempos uma referência mundial, actualmente governada exclusivamente por patriotas, ser chamada à atenção pelo Presidente Xi face às imagens de caos e incapacidade dos seus serviços de saúde, mostrando pacientes na rua em dias frios de Inverno, como se de uma metrópole do terceiro-mundo se tratasse, é uma tristeza que há alguns anos seria inimaginável. Mas é um bom sinal do desgoverno e do desacerto das políticas. Não é por se apertar a malha que se melhora a governação, ou os impreparados se tornam capazes.

Com a autonomia e o governo pelas suas gentes há muito hipotecado pela suas elites, seria bom que também em Macau, onde só agora se acordou para a vacinação, e o sinos tocaram a rebate, se ponha os olhos no que se está a passar em Hong Kong. 

Se aqui não se for capaz de ver o filme, continuando-se à procura de "turistas" para encherem os hotéis de Macau e a distribuir medalhas a eito aos amigos, há quem se arrisque a ser declarado incapaz para todo o serviço.

Os custos estão a ser demasiado elevados e persistentes sem qualquer garantia de recuperação a curto ou médio prazo. E uma coisa é certa: na hora de apreciação da governança o critério também será de tolerância zero. E não apenas por parte dos residentes de Macau.

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