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natal

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.17

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 E há vários anos que é sempre assim por esta altura. Houve um ano em que até lhe escrevi. Ele, simpática e educadamente, respondeu-me com algumas linhas emocionadas na volta do correio. Talvez seja essa liberdade interior que de forma tão vibrante se manifesta nesta altura do ano e acaba por nos aproximar. Quando isolado no meu próprio espírito natalício olho para mim e para os outros com um pouco menos de rigor e exigência, celebrando o sossego, o silêncio, a paz que só está ao alcance dos poucos que ainda conseguem percorrer aquela linha ténue que nos dias de hoje separa o humanismo redentor da miséria moral que nos envolve em todos os outros dias e todas as infindáveis horas de trezentos e sessenta e cinco dias rigorosamente repetidos todas as vinte e quatro horas. Assim se torna possível continuar a vislumbrar o caminho, transportando connosco a memória de outras vidas. Traçando destinos, sulcando mares, que outros navegaram sem passarem pelos mesmos portos. Como a espuma branca que atravessa rápida a rebentação, subindo pela areia até parar junto aos meus pés, como que convidando à travessia. Com o espírito de sempre. Porque de certa forma, como ele também escreveu a propósito do Torga, esse maçico incontornável da lusitaneidade, "(...) o verdadeiro inconformismo, alheio a tutelas e ortodoxias, radica - nunca é de mais repeti-lo - nessa espécie de liberdade interior que, sem abdicar das suas convicções, não cede ao sacerdócio dos bem-pensantes, recusa a censura das maiorias, rejeita palavras de ordem e desdenha as modas culturais" (Marcello Duarte Mathias, Caminhos e Destinos, A memória dos outros II). É mais ou menos isto o que vai fazendo estes dias por estas bandas. E a seguir há que voltar a ser exigente, comigo mais do que com os outros, também com estes, para que todos os anos isto continue a ser verdade, a ter sentido sendo sentido. Para que volte a ser Natal sem nunca se ter saído dele. Apanágio de homens livres.

25/12/2017, Bophut, Surat Thani

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vénus

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.12.13

Dia de Natal. A deslocação concretizou-se hoje. Tinha-a programado no primeiro minuto que soube da sua visita. Começámos por subir a escada larga do Rossio onde somos recebidos por um par de sorrisos que nos oferece um pequeno prospecto anunciando a aproximação à imagem que se acredita ter sido de Simonetta Vespucci. Sobre um mármore impecavelmente luminoso penetramos na sala que, por um largo corredor, nos transporta até à Florença renascentista. Primeiro é o próprio retrato de Botticelli, depois o de Rafael, a seguir vejo a imagem de Leonor de Toledo com seu filho Giovanni di Mantua num retrato imortalizado por Agnolo Bronzino. De caminho ainda me posso deliciar com as imagens da Madonna e Criança com Oito Anjos, com La Calumnia, com Madonna Magnifica, Criança e Cinco Anjos, com Il Porcellino de Pietro Tacca e o Nascimento de Vénus. Uma viagem que à medida que avançava se ia tornando esplendorosa pelas recordações que trazia à memória. Com excepção do Porcellino, junto do qual, assim que me abeirei fui convidado a esfregar o focinho não fosse a boa estrela não querer nada comigo, tudo o resto eram fotografias em tamanho real que preparavam o caminho até Vénus. De relance a recriação da Piazza della Signoria e eis que entramos na sala escura onde ela nos recebe. Apenas alguma luz marcando-lhe as formas voluptuosas. Ali estava ela em toda sua beleza. Tal qual como Sandro a vira. I Uffizi ou a Sabauda não se mudaram para Macau, é claro que não. Mas ali estava ela enquanto os meus olhos se deixavam enternecer pela imagem.

Há presentes de Natal que parecem caídos do céu.

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natal

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.12.13

Há lugar para tudo. Para todos também, embora alguns nunca cheguem lá. Durante meia dúzia de horas trocam-se abraços, sorrisos, palavras piedosas, votos e presentes, muitos, sobretudo inúteis, porque faz parte da quadra, do espírito. Tretas. De permeio empanturram-se de bacalhau, de broas, bolo-rei e afins, esquartejam perus, desafiam as leis da natureza com as quantidades colossais de álcool e de doces que ingerem e ficam no ponto para atacar o Ano Novo com redobrado vigor. Até que a sua parte mais genuína volte ao caminho de sempre, ao alheamento, à rotina, aos números, aos atropelos diários, ao esquecimento, à intolerância. Ao ano civil.

O resto é a revisitação do apelo. O reencontro. O que me faz levantar os olhos e olhar para o lado. Não os ver sentindo que estamos juntos. Como se fora aqui. Sem chorar. Saber que apesar de tudo ainda é capaz de gostar de mim mesmo quando não O reconheço nas entrelinhas, no caminho que me fez chegar até aqui. Não será uma bênção. Mas é seguramente uma parte boa. Talvez a única que me consegue confortar.   

 

Feliz Natal.

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