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Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.
Em 24 de Outubro p.p., a TDM deu a notícia de que nos primeiros três trimestres de 2025, a RAEM tinha recebido 29,67 milhões de visitantes.
Visitantes não são turistas, não é exactamente a mesma coisa, mas é gente que não vive em Macau e por cá passou, não deixando esse número de ser em qualquer caso impressionante.
Pois bem, esta manhã, o jornal Ponto Final escrevia que "Macau recebeu 36,5 milhões de visitantes entre Janeiro e Novembro, mais do que em todo o ano de 2024", dado fornecido pela directora dos Serviços de Turismo.
A mesma notícia, com origem na agência LUSA, referia que nos primeiros dez meses de 2025 "Macau recebeu quase 2,97 milhões de turistas vindos do estrangeiro, mais 14,9% do que no mesmo período do ano passado", apontando Helena de Senna Fernandes como meta a atingir "mais de três milhões de visitantes".
E ainda hoje, outro matutino, o Jornal Tribuna de Macau, noticiava que "em 2025 um total de 20,4 milhões de visitantes “internacionais” viajou para Macau". A notícia esclarece que para a fonte se "considera “visitante” internacional qualquer pessoa que visite uma cidade noutro país ou região pelo menos por 24 horas".
Este critério não é sério e não serve a informação. Já se percebeu que alguém anda a vender ilusões e a confusão que por aí grassa, aumentada com notícias deste teor, só serve para se atirar poeira para os olhos das pessoas.
Se queremos ser sérios temos de distinguir nesses números, em primeiro lugar, os meros visitantes, entre os quais certamente se incluem os que diariamente atravessam as fronteiras de Macau de manhã e à noite para aqui virem trabalhar ou, simplesmente, visitarem um mercado e comprarem umas couves do outro lado da fronteira, e os que mesmo aqui pernoitando não pagam alojamento, dos verdadeiros turistas e viajantes que demandam a RAEM para a conhecerem, visitarem os seus pontos de interesse cultural e turístico, fazerem compras, refeiçoarem e pernoitarem pagando pela dormida e gerando receitas dignas desse nome.
A seguir, é preciso saber o que são visitantes "internacionais". O JTM na notícia refere 20,4 milhões de turistas "internacionais".
O que é isto quando ontem o PF escrevia que 2,97 milhões de turistas vieram do estrangeiro e a meta da DST é ultrapassar os 3 milhões? Como se podem contabilizar turistas "internacionais" de forma séria se os números misturam nacionais, residentes de Zhuhai e Hong Kong com estrangeiros. Que números são estes, que raio de critério se adoptou, e para que servem esse números que o JTM divulgou?
Não vejo qual o interesse destas estatísticas. Seria bom que se acertassem os critérios para que as pessoas não sejam confundidas com os números.
Turismo internacional é, creio, só o que vem de fora do país, isto é, aquele que não vem do interior, nem de Hong Kong, nem da região de Taiwan. Todos estes ou são "visitantes" internos ou "turistas nacionais", se lhes quisermos chamar turistas.
É importante ser rigoroso neste tipo de notícias. Macau não tem, nunca teve, 20,4 milhões de turistas "internacionais" em 2025, menos ainda quando tão-pouco chegámos ao final do ano.
A imprensa não pode estar ao serviço deste tipo de notícia propagandística e com fins pouco claros – como alguns "prémios" que se atribuem a empresas e personalidades – porque essa atitude em nada contribui para o esclarecimento das pessoas e a seriedade estatística dos números.
Sob pena de os números que se vão divulgando a eito, a toda a hora e mais alguma, sem qualquer critério, apenas servirem o histerismo de alguns lambedores de selos, a fraude e a propaganda para incautos.
Uma notícia da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) da RAEM chamou a minha atenção.
No primeiro trimestre de 2020, em Macau, foram constituídas 1046 sociedades, totalizando um capital social de 249 milhões de patacas (cerca de 28,6 milhões de euros). Isto dá uma média de mais de MOP 238 mil patacas por sociedade, valor que só por si já seria muito interessante.
Mas mais significativo é o facto de MOP 120 milhões (+ de 48%) terem chegado de Portugal, e apenas uns "parcos" 13 milhões serem encaminhados a partir da R.P. da China. De Hong Kong vieram 21 milhões. A investidores de Macau pertencem 75 milhões, e o restante será de outros países e regiões.
Uma vez que estes milhões não são canalizados para a indústria do jogo, pergunta-se a que tipo de investimento estão estes valores associados.
A DSEC só esclarece parcialmente essa questão. Os dados em relação a alguns meses e actividades aparecem como “confidenciais” (#), mas daquilo que consegui apurar, penso que sem erro, mais de 50 milhões dizem respeito a capital social de sociedades que prestam serviços a outras entidades, cerca de 20 milhões são de empresas dedicadas ao comércio por grosso ou a retalho, e 16 milhões a entidades inseridas na rubrica do transporte e armazenamento. Os restantes valores são todos muito inferiores. Em relação a Janeiro sabe-se apenas que 21 milhões pertencem ao capital social de empresas da área informática, desconhecendo-se os valores desta rubrica para os meses de Fevereiro e Março.
Com estes dados seria curioso obter resposta a duas questões:
1) Sabendo-se que a taxa máxima de imposto aplicada em Macau às sociedades é de 12%, será que a gula do fisco português estará na razão de ser desta exportação de capitais lusos?
2) E se os empresários patriotas do interior da China, que o ano passado canalizaram para o capital social das empresas de Macau cerca de 722 milhões de patacas, equivalentes a 17% do total, deixaram de ter interesse em investir localmente depois da mudança de Chefe do Executivo, ou a redução verificada será já uma consequência das novas políticas de Pequim em relação à RAEM?
Quanto à última dúvida, quem está na área do jogo pode também começar a pensar no assunto. O COVID-19 vai servir de justificação para muita coisa, mas não para aqueles números, nem para as políticas que estão delineadas para a RAEM. Salvo algum cataclismo que se verifique a partir de 22 de Maio, quando está agendada a reunião magna anual do NPC (National People's Congress).

(créditos: JTM)
Duas notícias, ambas relacionadas com o sector do turismo e publicadas ao lado uma da outra, na edição matinal do HojeMacau (22/08/2019), chamaram a minha atenção.
A primeira dessas notícias, com o título “Despesas – Turistas gastam menos 20,7% per capita”, dava conta de que os gastos médios por visitante durante o 2.º trimestre de 2019 tinham caído 20,7%, ou seja, menos 1583 patacas por visitante comparando-se com o mesmo período do ano passado. Acrescentava-se, curiosamente, que as despesas dos visitantes de Singapura, Coreia, EUA e Reino Unido cresceram em termos anuais.
Já a segunda notícia, com o título “Entradas – Número de visitantes cresce mais de 20 por cento até Julho”, informava que mais de 23 milhões de pessoas visitaram a RAEM nos primeiros sete meses do ano, correspondendo esse número a um aumento de mais de 20% face a igual período do ano transacto. Sendo feita a distinção entre “excursionistas” e “turistas”, admitindo eu que os segundos viajem sozinhos, verifica-se que aqueles aumentaram 33,6%. Todavia, este aumento teve como contrapartida que estivessem menos tempo em Macau. O grosso do fluxo veio da RPC, quase 17 milhões, representando este número um acréscimo de 21,7%.
Compulsados estes dados, afigura-se evidente concluir que o aumento do número de turistas que se verificou foi triplamente negativo. Não só gastaram menos, como permaneceram menos tempo, ainda contribuindo para a degradação das condições de circulação e de vida dos residentes e um aumento da poluição gerada, visto que os “excursionistas” deslocam-se de autocarro.
Os números divulgados mostram bem o baixo nível do turismo que chega a Macau. É cada vez pior.
Eu preferia ter menos turistas, mas mais qualificados, gastando mais e permanecendo mais tempo.
As multidões de “excursionistas” que enxameiam as nossas ruas e largos, falando alto e dando encontrões em quem passa, podem servir para fazer as delícias das estatísticas da DST, da Dra. Helena de Senna Fernandes e do Secretário Alexis Tam. Mas tirando algumas caixas de bolos e cosméticos que comprem, só servem para nos darem cabo do sossego e da cidade.
Já era tempo de olharem para os números dos “excursionistas” que vêm do interior da China e perceberem que a continuarmos com um turismo tão desqualificado não iremos a lado nenhum, e acabar-se-á por dar cabo do pouco que ainda resta de agradável na RAEM.

Há os que se sentam numa e nunca mais se levantam. Ficam colados ao fundo, como umas lapas. E só se erguem, com manifesta dificuldade, quando os fundilhos começam a arder. Ou caem da cadeira. Outros há que não se chegam a sentar. Para não perderem tempo e irem acumulando cadeiras.
Em comum têm a mesma coerência, o mesmo amor aos números.
É-lhes incontrolável. Vem da massa do sangue.