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sondagens

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.06.23

A propósito da notícia de um jornal de que "as autoridades insistiram ontem na necessidade de criminalizar a realização de sondagens", entretanto corrigida, de acordo com um esclarecimento revelado pela TDM, de que "o Governo não quer impedir a realização de inquéritos de opinião ou sondagens eleitorais, mas apenas proibir e punir a respectiva divulgação durante os períodos de eleições", remeto os leitores para o capítulo VII (Ma vie de sondeur de opinion), já aqui referido, do livro recentemente publicado de Roland Cayrol.

Como o autor tem sobre a matéria alguma autoridade, conhecimento e experiência, deixo nesta breve nota alguns extractos do original em francês, mas com tradução para português, de modo a que os nossos governantes e legisladores possam, eventualmente, interessar-se pela sua leitura e melhorarem os seus conhecimentos, afastando as ideias erradas e os preconceitos em que possam laborar.

Nada como as pessoas se esclarecerem antes de começarem a opinar e a legislar sobre o que não sabem, embora todos percebamos quais são as intenções por detrás das medidas tomadas e das que se anunciam.

A bem dizer, sempre me fizeram confusão os elefantes que têm medo de formigas.

 

"Il faut aussi dire et redire que le sondage ne prévoit rien! Entre la date de la publication d'un sondage et un scrutin, il peut s'écouler des heures, des jours, où l'opinion peut encore être sensibilisée, modifiée, se cristalliser, décider d'aller ou non voter et infléchir ce qui semble devoir être les résultats attendus. Cela peut expliquer des écarts entre les derniers sondages et les résultats réels du scrutin.
(...)
Le plus important est évidemment que les sondages permettent de suivre les évolutions de l'opinion et des intentions de vote, de dessiner les courbes qui montrent comment et à quel moment se prennent progressivement les décisions électorales, quelle est la sociologie du vote, à quel degré les citoyens s'impliquent dans une élection ou dans la politique en général, et là les sondages sont irremplaçables.
(...)
L'activité sondagière est liée à l'existence même de la démocratie. Aucun pays autoritaire, quelle que soit la nature de l'autoritarisme, n'autorise des sondages libres. Le sondage n'existe que parce que la démocratie politique existe. La démocratie libérale n'est pas complète si n'existe pas l'intervention de l 'opinion. (...) Les dirigeants politiques sont au service de l'opinion et craignent forcément l'opinion, qui est leur juge permanent. Parfois trop d'ailleurs. L'important pour le personnel politique devrait être de savoir garder un cap, au lieu de s'arrêter à chaque mini-événement, d'imaginer à chaque fois une petite mesure pour colmater une brèche et espérer que 'ça se calme'.

Le sondage, pour peu qu'il soit correctement mené, exerce une fonction essentielle dans nos démocraties modernes , il donne la parole au peuple, il porte sa parole. Grâce aux sondages, on ne peut plus avoir des orateurs qui prétendent que 'l'opinion ne comprendrait pas que ...'ou que 'l'opinion n'admet pas que ...', faisant parler les électeurs comme s'ils faisaient campagne depuis le fond d'une arrière-salle de bistrot. L'opinion s'exprime désormais directement. "

(tradução)

"Também é preciso dizer, uma e outra vez, que uma sondagem não faz previsões! Entre a data de publicação de uma sondagem e uma eleição, podem passar-se horas ou mesmo dias, durante os quais a opinião pública pode ainda ser sensibilizada, modificada, cristalizada, decidir se vai ou não votar e influenciar o que parece ser o resultado esperado. Este facto pode explicar as discrepâncias entre as últimas sondagens e os resultados reais.
(..)
O mais importante, evidentemente, é que as sondagens de opinião permitem seguir a evolução das opiniões e das intenções de voto, traçar as curvas que mostram como e quando as decisões eleitorais são gradualmente tomadas, qual é a sociologia do voto e em que medida os cidadãos estão envolvidos numa eleição ou na política em geral, e aqui as sondagens de opinião são insubstituíveis.
(...)
A actividade de sondagem está ligada à própria existência da democracia. Nenhum país autoritário, seja qual for a natureza do seu autoritarismo, permite sondagens de opinião livres. As sondagens só existem porque existe a democracia política. A democracia liberal não está completa sem a intervenção da opinião. (...) Os dirigentes políticos estão ao serviço da opinião pública e temem inevitavelmente a opinião pública, que é o seu juiz permanente. Por vezes demasiado. O importante para o pessoal político deveria ser saber manter o rumo, em vez de parar em cada mini-acontecimento, inventando sempre uma pequena medida para colmatar uma lacuna e esperar que "as coisas acalmem".

As sondagens, desde que sejam bem conduzidas, desempenham uma função essencial nas nossas democracias modernas: dão voz ao povo, transmitem a sua mensagem. Graças às sondagens de opinião, já não podemos ter oradores que afirmam que "a opinião pública não compreenderia isso..." ou que "a opinião pública não admite isso...", fazendo com que os eleitores falem como se estivessem a fazer campanha nas traseiras de um bar. A opinião é agora expressa directamente.

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paralelos

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.17

Não leio chinês. Aquilo que tenho aprendido não me chega para isso. Nem para coisa que se pareça. Estou por isso mesmo totalmente dependente do que me traduzem em relação ao que se vai publicando na imprensa chinesa sobre o processo do antigo Procurador, Ho Chio Meng, caído em desgraça e já desgraçado.

Curioso é, por isso mesmo, que em relação ao que se tem passado no Tribunal de Última Instância, os jornais chineses tenham tanto pudor em relatar o que lá se diz, alguns dos factos, e em apontar os nomes que vão sendo falados na audiência, dessa forma evitando identificar alguns dos intervenientes.

Uma coisa já se percebeu: os familiares da actual e da ex-Secretária para a Administração e Justiça são só isso. Isto é, "familiares". Gente sem nome. Em contrapartida já toda a gente sabe o nome do sobrinho do ex-Procurador.

Entretanto, também registara que igual pudor não têm tido com os familiares de um deputado macaense, a propósito de uma outra situação que nem sequer lhe diz respeito, mas que envolve os seus filhos, por sinal maiores e trintões, ou muito perto disso. Como se o pai tivesse de responder pelos disparates de filhos maiores e emancipados.

Não sei porquê fiquei com a ideia de que a imprensa chinesa de Macau, e alguma que se publica em língua inglesa, receia sempre alguma coisa quando se refere ao poder político, o que não sucede quando se referem a quem caiu em desgraça, sejam eles chineses, macaenses, portugueses ou outros estrangeiros.

E quanto a este caso do ex-Procurador, não há dúvida de que tratam o assunto com pinças. Tantas que até têm dificuldade em relatar para a opinião pública o que efectivamente se passa no julgamento.

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masoquismo

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.07.14

Ainda um luto não acabou e de novo o pranto recomeça. E quando as lágrimas ainda frescas se preparam para ir secando na face, logo os olhos se humedecem de novo. Ultimamente, há sempre qualquer coisa nos céus que se abate sobre a Terra. Seja por causa do combustível, da cegueira ou de um tufão. Deus é grande, a gravidade incontornável e a estupidez humana incomensurável. Alguém que lhes diga que a segurança tem um preço.

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medo

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.10.13

Raul Rêgo (Diário Político), estando preso, falava de incompreensão relativamente a Angola e aos movimentos que na década de sessenta do século passado lutavam pela autodeterminação e a independência, não se esquecendo de referir que do outro lado da sua cela também estava preso Agostinho Neto. Quatro décadas volvidas e de novo se fala em incompreensão. Mas incompreensão de quê?

Fátima Campos Ferreira fez desfilar no Prós e Contras de ontem à noite uma multitude de figurantes, entre gente séria e laparotos, para discursarem sobre as relações entre Portugal e Angola e as pretensas incompreensões que "poluem" as relações entre os dois países. No final, bastaram duas palavras para demonstrar o tempo que se perdeu naquele estúdio. Entre a ingenuidade e a "cabotinice" - que terá o bacalhau a ver com as relações entre Estados? - a apresentadora fez questão de sublinhar a dificuldade que era ter outros convidados em estúdio e que muitos havia que, tanto de um lado como do outro, mesmo depois de se comprometerem acabavam por rejeitar a comparência em estúdio.

Como alguém ajuizadamente referiu, a literatura pode ter algumas respostas aos problemas recentes, incluindo para a ausência dos convidados que se fazem desconvidar e para a forma pressurosa como alguns empresários, cujas laranjas não apodrecem dentro do porão dos navios à vista de Luanda,  correm a deitar água na fervura. A leitura das memórias do dia-a-dia de Angola desse grande artífice das relações entre os dois povos, recentemente desaparecido, que foi o embaixador Pinto da França, pode ser um bom começo para quem queira perceber o que se esconde por detrás do actual relacionamento e das declarações do senhor "dos Santos". 

Não há nisto nada de incompreensivo. Como não havia no tempo de Raul Rêgo.

O que há, sempre houve, é o medo a pairar sobre as relações ente Estados e sobre o carácter dos homens. Há medo nos negócios, como há medo nos compromissos políticos. Há medo do que possa vir do outro lado. Sobretudo há medo das palavras. Quer se queira quer não as relações entre Portugal e Angola são relações assentes no medo. Não é preciso ler o Jornal de Angola nem o Expresso para se perceber isso. O medo de um é a liberdade do outro.

Enquanto prevalecer o medo não haverá estratégia, não haverá perenidade nas relações, inexistirá a confiança, que é a base de qualquer relação. Porque é a confiança que torna credíveis as expectativas, porque é a confiança que aproxima os homens. Os povos já perceberam isto. As actuais elites nunca perceberão. 

O mau político tem medo. Da mesma forma que o corrupto também tem. O medo é a força dos cobardes, dos fracos, dos receosos, da gente de carácter mole. As relações entre Portugal e Angola desde 1975 que assentam no medo. Por isso não passam de relações circunstanciais e interesseiras.

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