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Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.
Quando virem este táxi a aproximar-se de uma passadeira é melhor terem cuidado.
Hoje à hora do almoço não fui atropelado por muito pouco em plena Alameda Dr. Carlos D' Assumpção.
Quando saí do escritório, e me preparava para atravessar para o jardim, não parou na passadeira no sentido descendente, seguindo em direcção ao rio, embora houvesse outros veículos parados.
Depois, minutos volvidos, do outro lado do jardim, no sentido ascendente, quando os carros das outras duas faixas também já estavam imobilizados, e os peões haviam iniciado a travessia, só parou travando a fundo no sítio que a imagem documenta.
Passado o susto fica o registo.
As câmaras do sistema "olhos no céu" terão registado tudo.
A fotografia foi tirada às 13:08. Havia muitos peões a circularem e a atravessarem a passadeira.
E é evidente que o facto do tipo ter saído do carro para me pedir desculpa não serviu para nada porque vai voltar a fazê-lo noutra passadeira qualquer.
A PSP se quiser que actue.
(créditos: Macau Daily Times)
As notícias são da semana passada, mas não devem por esse motivo merecer menos atenção face à urgência de resolução do problema e ao estado calamitoso a que chegou o serviço de táxis e de rádio-táxis em Macau.
De Hong Kong chegou a notícia, via Macau Daily Times, de que os seus legisladores aprovaram um diploma para regulamentar os chamados "online ride-hailing services", visando o licenciamento de plataformas como a UBER no sentido de se permitir que os seus veículos e motoristas sejam habilitados à prestação de serviços de táxi, colocando-se um ponto final na resistência dos lobbies locais à sua introdução.
Em Macau continua tudo por fazer.
E em cada dia que passa são piores as notícias que chegam, apesar de há dias nos ter sido dada a promessa de que alguma coisa irá mudar.
Enquanto não se sabe quando, esta manhã lá veio mais um dado assustador e que devia envergonhar os dois anteriores Chefes do Executivo e os titulares da pasta dos Transportes e Obras Públicas: os taxistas praticam cada vez mais irregularidades e o número de infracções aumentou quase vinte vezes nos últimos quatro anos. É obra.
Ou seja, o serviço de táxis é mau, não há veículos em número suficiente e apesar disso as infracções cometidas pela casta aumentaram desmesuradamente.
Este é um bom indicador da impunidade em que os taxistas têm vivido e do total desinteresse de anteriores governos em resolver satisfatoriamente tão candente problema em benefício de toda a população e dos que nos visitam.
Esperemos que com a mudança de titular na Direcção dos Serviços de Assuntos de Tráfego, e a nomeação de Chiang Ngoc Vai, seja possível dar resposta às exigências do serviço público de táxis numa cidade de turismo. O Natal está aí à porta.
(créditos: daqui)
A justificação dada à comunicação social pelo responsável da Assembleia de Apuramento Geral das eleições legislativas para impedir a verificação pública dos votos nulos realtivos às eleições do passado domingo, 14 de Setembro, é no mínimo incompreensível.
A Comissão Eleitoral até podia impedir essa verificação, mudando a prática seguida nos anos anteriores, visto que nada na lei obriga a que os votos nulos sejam mostrados à comunicação social. Estes devem ser verificados nos termos do art.º 119.º da Lei n.º 3/2001(Regime Eleitoral da Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau), com as alterações introduzidas pela Lei n.º 8/2024, integralmente republicada por Despacho do Chefe do Executivo n.º 94/2024, em 03/06/2024. E nada mais.
Quer isto dizer que após terminadas as operações de escrutínio, os "candidatos, os mandatários de candidatura ou os delegados têm o direito de examinar, em seguida, os lotes dos boletins de voto separados, sem alterar a sua composição, e de suscitar dúvidas ou deduzir reclamações quanto à contagem ou quanto à qualificação dada ao voto de qualquer boletim, que devem fazer perante o presidente e, neste último caso, se não forem atendidas, os reclamantes têm o direito de, juntamente com o presidente, rubricar no verso do boletim de voto em causa".
Embora sem obrigação de amostragem dos votos nulos à comunicação social, é certo que numa sociedade aberta essa até me parece uma prática salutar para que não restem dúvidas sobre a sua qualificação e uma maior transparência do processo eleitoral.
Que se impedisse que esses votos fossem fotografados, em especial para se evitar a divulgação daqueles que contivessem insultos ou palavrões, também não me pareceria mal, ainda que se fosse contra uma "tradição" de anteriores apuramentos eleitorais. Desde que houvesse fundamento legal, obviamente.
Mas a proibição pura e simples cai sempre muito mal. Em especial quando a justificação apresentada não tem suporte jurídico e a invocação do dever de sigilo me parece descabida.
Sigilo de quê, perguntar-se-á, se ninguém sabe quais foram os eleitores que anularam os seus votos? Ao contrário do que se disse, a votação não deixou de cumprir o dever de sigilo. Além do mais, o dever de sigilo aqui não está em causa porque já estamos no âmbito de uma operação de contagem e qualificação dos votos. Os votos não têm nome, número de telefone, morada, número do BIR, fotografia, assinatura. O que é que se quer proteger? Ou retirar ao escrutínio público? Não faz sentido invocar o sigilo.
Não se esqueça, por outro lado, que o dever de sigilo não só não é absoluto como se desdobra em duas dimensões: (i) primeira, ninguém é obrigado a revelar o seu voto, antes ou depois; (ii) segundo, nada na lei impede um eleitor de revelar em quem votou mesmo no próprio dia das eleições, desde que esteja a mais de 100 metros do edifício onde esteja localizada a assembleia de voto. É o que resulta em termos inequívocos no art.º 100.º da referida lei.
Parece-me, pois, que o princípio continua a ser o oposto, o da transparência. Ou deveria ser, que é aquele, estou certo, que a maioria dos residentes defende.
O problema está em que todo este processo, penso eu, está ainda condicionado por algumas mentalidades que, apesar de toda a sua abertura, voluntarismo e adequação ao segundo sistema, admitamos, foram formatadas numa cultura de opacidade, temor, subserviência a quem quer que mande e dite as ordens, com manifesta falta de flexibilidade na hora de encarar e resolver problemas quando estes se colocam.
O resultado acaba por ser transportado para decisões, com as quais não foram anteriormente confrontadas, que apenas se apoiam em argumentos de autoridade, sendo por isso reveladoras de insegurança e que, não raro, radicam no domínio do arbítrio. E quando são pedidas explicações muitas vezes refugiam-se no silêncio.
É sempre a aposta no grande salto em frente, com ou sem suporte legal. Se não houver norma atira-se qualquer coisa, invoca-se um princípio qualquer. Os residentes engolem tudo, pensam. E não há mais perguntas.
Seria interessante saber por que razão os votos julgados inicialmente nulos foram depois repescados para que se pudesse perceber qual o critério que esteve na base dessa decisão. Se houve critério, e acreditamos que sim.
Sem isso estar-se-á a abrir a porta, uma vez mais, a que amanhã, não a uma dezena e meia mas a milhares, votos nulos possam vir a ser considerados válidos por alta recriação do mandante e assentimento servil dos candidatos, mandatários e delegados das listas que assistem.
Note-se, ainda, que em 30 de Julho pp., na sequência da conferência de imprensa do dia anterior, os jornais referiam que a CAEAL dizia que não via qualquer sinal de uma elevada taxa de abstenção nas eleições que se aproximavam (vd. Macau Daily Times – CAEAL sees no signs of lower voter turnout for Sept. 14 election, p. 4 – e Ponto Final – CAEAL recebeu 18 queixas de propaganda eleitoral, p. 3). O resultado foi o que se viu.
Seria interessante, por isso mesmo, tanto mais que "há muitos factores", que ainda não foram esclarecidos, depois de todo o excelente trabalho realizado, da alteração das leis eleitorais, da exclusão de candidatos e de listas, para se garantir que Macau seria governada por patriotas e se reforçar o princípio "um país, dois sistemas", alguém responsável desse a cara e viesse justificar a terceira taxa de participação mais baixa de sempre (mesmo com a eliminação de 4500 eleitores dos cadernos eleitorais), assim como o elevadíssimo número de votos brancos e nulos.
Desta vez não havia pandemia, não havia mosquitos, os transportes eram à borla, houve imensa informação, criminalizou-se o apelo à abstenção e ao voto nulo e em branco, instaram-se as concessionárias e empresas a facilitarem a saída dos seus trabalhadores para votarem, apelou-se aos funcionários públicos, em suma, houve uma campanha como nunca antes se viu.
E no fim, num ambiente "justo, imparcial e íntegro", disso ninguém duvide, com um ambiente eleitoral melhorado e a participação incentivada, com mais oitenta câmaras de voto, quem ganhou o sufrágio directo foi a Nova Esperança e o José Pereira Coutinho. Não sei se era isto que esperavam, mas ao vencedor são devidos parabéns. E aos vencidos está reservada a glória.
Recorde-se que com a revisão da lei eleitoral se pretendia, de acordo com os termos da consulta pública, entre outros objectivos e melhorias, o "aperfeiçoamento do mecanismo de apreciação da qualificação dos candidatos a deputados da Assembleia Legislativa" e o "combate ao incitamento público ao acto de não votar, votar em branco ou nulo".
Perante este cenário, e com os resultados alcançados, é de perguntar o que falhou na participação? O que falhou na revisão das leis eleitorais? Por que razão aumentaram tantos os votos nulos e brancos? Não havia alternativas suficientes? A população não confiou nos candidatos aprovados e apresentados a concurso? Falhou o mecanismo de apreciação dos candidatos? Os qualificados não eram suficientemente bons? Os esclarecimentos da CAEAL aos eleitores foram insuficientes? Quais serão os próximos passos para melhorar a participação e reduzir os votos nulos e brancos? Prevêem-se novas alterações legislativas? Vão tornar o voto obrigatório? Vamos ter em futuras eleições um sistema de lista única sem possibilidade de uso de qualquer carimbo, caneta ou de recurso ao voto em branco, como se fez na Associação dos Advogados de Macau? E isso será "democrático"?
Durante os últimos meses não me pronunciei sobre estas questões. Aguardei para ver. É este o momento para voltar a pensar em voz alta. Sem tibiezas. Com a lealdade de sempre para com quem governa e os residentes. Com frontalidade. Sem enterrar a cabeça na areia, não fazendo de conta que nada aconteceu, sem folclore, porque aquela também não é a forma de se melhorar o que quer que seja na RAEM.
Dito isto, como residente, estudioso destas questões e cidadão interessado, gostaria de conhecer as explicações oficiais dos talentos que engendraram estas soluções. E ver quais as respostas para os problemas equacionados.
Para que todos possamos, em conjunto, continuar a aprofundar o princípio "um país, dois sistemas", com toda a transparência, até ao final do período de transição previsto na Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, assinada em 13 Abril de 1987, e depositada pela República Popular da China junto das Nações Unidas. Estamos todos no mesmo barco.

Ao longo dos anos têm sido inúmeras as vezes em que os residentes e os turistas se queixam da falta de táxis em Macau. Neste momento, não me vou aqui referir à péssima qualidade do serviço prestado, à falta de educação e de simpatia da maioria dos condutores, aos modos rudes e ordinários de muitos destes, às irregularidades que aumentaram 17 vezes em três anos, ao mau estado de muitas viaturas e à poluição que os veículos mais antigos provocam, vendo-se sair nuvens de fuligem dos escapes quando arrancam ou nas subidas das pontes; enfim, veículos que em cidades que funcionassem com normalidade, com uma supervisão e fiscalização eficientes, e não estivessem à mercê dos lobbies, já teriam ido para abate.
Pois bem, ontem à noite, ao ver o Telejornal da TDM fiquei a saber que numa cidade onde há uma falta imensa de táxis, na maior parte das horas do dia, mas em especial entre as 17:30 e as 20:00, talvez porque os motoristas resolvam todos render e ir jantar à mesma hora, vamos passar a ter ainda menos táxis. Isto porque há 100 licenças de táxis que irão expirar já em Setembro.
Neste cenário, a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), que é uma entidade que vive completamente à margem da realidade, graças à incompetência de quem a tutelou e dirigiu na última década, e continua a dirigi-la, veio dizer que como no ano passado foram atribuídos 500 alvarás de táxis, e que estes já estão todos ao serviço, isso "compensa, praticamente, o número de táxis cuja licença expira". Então se compensa escusavam de ter aberto concurso para 500, porque já então teriam 100 em excesso.
É claro que na DSAT nenhum dos patriotas que lá trabalha tem de andar de táxi, nem nunca precisou de chamar um táxi entre as 17 e as 20 horas para ir até ao terminal da Ponte Macau/HK/Zhuai para apanhar um autocarro que o leve até ao Aeroporto Internacional de Hong Kong. Ou num dia de chuva. É que nem mesmo o agendamento funciona. Ainda agora tentei agendar um carro e como se pode ver pela foto da aplicação está tudo "full". O cenário de hoje repete-se para amanhã e todos os dias até ao final da semana. Será que alguém acredita que a aplicação que utilizei ou as outras funcionam bem? Tirando no momento de lançamento do serviço nunca mais foi possível agendar um carro na aplicação para as horas e dias que necessito. E já me aconteceu agendar, confirmarem e depois não aparecer ninguém à hora marcada.
Parece-me, pois, mais do que manifesto que na DSAT e em quem a tutela se padece de um défice de compreensão da realidade envolvente. Atente-se ademais no seguinte:
1. Em 29 de Outubro de 2024, o "director da DSAT, Lam Hin San, disse no final de Setembro que existem actualmente cerca de 1.500 táxis em funcionamento e haverá um aumento para 1.700 a 1.800 táxis depois da entrada em funcionamento de todos os novos táxis", acrescentando que "o número de táxis em Macau “tem vindo a aumentar”, e que serão feitos ajustamentos no futuro de acordo com as necessidades da sociedade". (...) "[A] DSAT recordou que a RAEM lançou “atempadamente” o concurso público para a atribuição de licenças gerais de táxis ao abrigo da nova lei de transporte de passageiros em automóveis ligeiros de aluguer, visto que alguns alvarás de táxis viram o seu prazo terminado sucessivamente, respondendo assim à procura do público no que se refere ao serviço de táxis".
2. Essa mesma entidade, em 8 de Janeiro de 2025, revelou que "até ao final do ano passado, cerca de 1.700 táxis estavam em operação em Macau, sendo que o número vai aumentar para cerca de 1.800 este mês, com mais 100 táxis a prestar serviço para responder à procura do público".
3. Em Fevereiro deste ano, 2025, em resposta a uma interpelação escrita do deputado Leong Sun Iok, a mesma DSAT veio dizer que "está a preparar um novo concurso público para substituir as licenças que vão caducar este ano. As autoridades indicaram também que estão a estudar formas para aumentar a taxa de resposta dos táxis às solicitações."
4. Nessa ocasião, a DSAT acrescentou que “continuará atenta à actualização legislativa e os trabalhos complementares relacionados com a prestação de serviços de transporte de passageiros por marcação online nas regiões vizinhas”, indicando que vai proceder aos “estudos necessários em tempo oportuno” e que estava a estudar “o número de táxis especiais e formas para aumentar a sua taxa de resposta à chamada, continuando a auscultar as opiniões da sociedade e a apresentar sugestões, no sentido de responder às necessidades dos residentes e turistas”.
Perante isto, seria de esperar que a DSAT tivesse realizado os estudos que prometeu à população e que a urgência impunha, em tempo oportuno, como referiu, e que já tivesse estudado as formas de aumentar a taxa de resposta dos táxis às solicitações, estando neste momento em condições de fazer os ajustamentos e dar resposta às necessidades de residentes e turistas.
Em vez disso, temos a DSAT a dizer que só agora vai encomendar um estudo – que andou a fazer desde Fevereiro de 2025? –, embora não se saiba quando, nem a quem, nem quanto tempo esse estudo vai demorar e custar. E, como se isso não bastasse e andasse a brincar com a população, a DSAT ainda vem dizer que afinal os cem táxis que faziam falta em Janeiro de 2025 já não são precisos!
Eu sei que os dirigentes desta terra estão habituados a tratar os residentes como gente estúpida, ou como crianças sem formação adequada e destituídas de massa cinzenta, que precisam de ser orientadas e esclarecidas com aqueles cartazes, anúncios e vídeos publicitários infantilizados, que dir-se-ia preparados para mentecaptos, com que somos diariamente brindados pelas instituições públicas. Como se não fossemos todos adultos, com suficiente capacidade de entendimento e compreensão, podendo raciocinar sem a ajuda dos dirigentes. Escusavam era de ir tão longe.
O sector dos taxistas, diz esta manhã o Ponto Final, "tem uma opinião completamente diferente e acredita que é necessário repor as licenças de táxi de acordo com a situação real do mercado". O Presidente da Associação de Auxílio Mútuo de Condutores de Táxi sugere atribuir mais licenças aos táxis pretos, realçando o tempo que leva o processo de concessão de novas licenças.
O vice-presidente do Conselho Consultivo do Trânsito, Lam Chi Chiu, "concorda com a necessidade complementar o número de táxis, uma vez que os cidadãos e turistas em Macau continuam a encontrar dificuldades em apanhar táxis", acrescentando que "o número de turistas tem vindo a subir os residentes relatam sempre que não conseguem apanhar ou chamar táxis", pelo que "em breve [se] vai intensificar a falta de táxis".
A reportagem que a TDM ontem passou no Telejornal mostrou cidadãos chineses a compararem, em chinês, a falta de táxis em Macau com o bom serviço oferecido no Interior do país. Numa terra onde toda a gente critica sempre com medo, esses cidadãos não se coibiram de apontar o dedo ao péssimo serviço de táxis que aqui temos e que toda a gente vê menos os Secretários para as Obras Públicas e Transportes, a DSAT e os seus dirigentes, passados e actuais.
Toda a gente se apercebe do estado miserável em que está o serviço de táxis e da gritante falta de oferta, mas tal como acontecia antes, na equipa governativa que saiu e com ex-titular da DSAT, os actuais dirigentes continuam a querer fazer dos residentes estúpidos.
É com os táxis, mas é também com a poluição dos lagos Nam Van, com as obras nas estradas, com a falta de escoamento de águas de cada que chove um pouco mais, quase que reeditando o que aconteceu no tempo do tufão Hato, com tudo entupido e os carros a boiarem. A RAEM está em obras permanentemente. A região farta-se de gastar dinheiro. Aos empreiteiros, aos fiscais e aos consultores não falta trabalho. Todos enriquecem e continua-se a não se fazer nada de jeito. Os problemas são recorrentes e passam de um ano para o outro, de um Chefe do Executivo para o seguinte, sem solução e com o maior desplante de quem é pago, e bem pago, para servir os residentes.
O Comissariado de Auditoria em 30 de Junho passado dizia que a DSAT, nem mesmo com um medíocre serviço de táxis como o que temos nesta aldeia, foi capaz de cumprir “adequadamente as suas atribuições de fiscalização”, que "o problema é particularmente grave durante os horários de pico diurnos de tráfego” e que "prejudicou a realização do interesse público".
Perante isto, numa democracia decente, só haveria uma solução. Não, não me interpretem mal, não me refiro a "dar-lhes com um pano encharcado na fronha", que com isso não se resolveria nada, embora fosse o que muitos esperariam.
O que se impunha era demiti-los com o máximo escarcéu, como fazem com aqueles que "violam a disciplina do partido", pois que isto que se passa em Macau é tão ou mais grave, atentos os elevados salários que recebem e o pouco ou nada que produzem.
Impunha-se que se mostrasse à população que vão ser tomadas medidas urgentes, sérias e eficazes para se poder ter um serviço de táxis civilizado e normal, que se corrigissem todos estes desmandos, discursos, comunicados e respostas da DSAT que envergonham qualquer governação patriótica, ofendem os residentes e são uma afronta ao bom serviço de táxis que é oferecido aqui ao lado e nas principais metrópoles chinesas aos cidadãos e aos turistas que as visitam. Isso seria o mínimo.
Não há desculpa para tanto desprezo pelos cidadãos e o interesse público. Não há desculpa para tanta falta de vergonha.
Algumas tinham começado anteriormente não obstante a contestação. Outras estão em curso. Há quem não se aperceba disso, mas importa que as mudanças não passem despercebidas. E há algumas que devem ser aplaudidas. Outras nem tanto.
Havia patriotas, locais e poderosos, que ainda pensavam que tudo ia ficar como antes. Despia-se um casaco Armani, fazia-se uma declaração mais emotiva, vestia-se uma túnica zhongshan, se necessário trocava-se de passaporte, e o assunto estava resolvido.
Tudo se traduziria, no final, em trocar uns quantos peões e seguir-se-ia em frente com os negócios. Fazendo-se o que sempre se fez. Fazendo de conta. E, como até há bem pouco tempo, os responsáveis máximos da governação e os representantes oficiais da RPC continuariam a confraternizar alegremente com as elites locais, frequentando os seus salões nos momentos festivos. Cortando fitas. Porque em Macau era essa a lei da sobrevivência e dos negócios e o status quo tinha muita força.
O Despacho do Secretário para os Transportes e Obras Públicas n.º 30/2025, publicado no Boletim Oficial de ontem, 6 de Agosto, está mais uma vez aí para provar que esse tempo acabou. Desta vez não estava em causa uma concessão para desenvolvimento imobiliário ou a construção de um qualquer hotel de luxo à sombra da promessa de umas mesas de jogo.
A Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, onde todos os poderosos tinham assento, fazia o que queria. Se durante dezenas de anos, pese embora a "caridade", fez como muitos outros, o despacho publicado é mais um sinal de mudança.
A imprensa também deu conta do seu conteúdo, que consistiu na declaração de rescisão e reversão de uma concessão, que desta vez fora atribuída gratuitamente, sublinhe-se, por causa da "caridade", em 1996, no tempo da administração colonial, situada nas cercanias da Rua do Barão, para "a construção de um parque para a Escola «Kiang Wu Peng Man Luen Hap»". Era utilizada como local de estacionamento de viaturas. A alguém serviu durante dezenas de anos a utilização indevida do espaço sem que daí viesse qualquer benefício para a comunidade. E com os fiscais, sempre os mesmos, a "fecharem os olhos". Até ontem.
A escandaleira e o comprometimento eram tão grandes que, di-lo o despacho, "a concessionária não se pronunciou, em sede de audiência escrita, sobre o sentido da decisão de declarar a rescisão da concessão", por "violação do dever de utilização do terreno em conformidade com os fins consignados no título da concessão".
Poderá vir a fazê-lo, é verdade, em sede de reclamação e/ou recurso, mas se houver vergonha nada fará. E continuará em silêncio. Por causa da caridade de que se queixam tantos pobres e remediados da terra.
Longe vai o tempo dos seminários e das conferências de imprensa de dedo esticado por causa das declarações de caducidade das concessões desaproveitadas e transaccionadas à pala da especulação, e que serviam para tudo menos para o seu aproveitamento em tempo útil e de acordo com as respectivas finalidades. Caiu o pano, acabou-se a lata.
Este é um bom sinal.
Pena é que não haja outros igualmente bons para darem ânimo e esperança à população.
E que, ao contrário, aqui e ali se confirmem uns quantos muito maus. Para todos.
E de que quase ninguém se quis aperceber. Ou apercebendo-se silenciou, quando se esperava que falasse, devendo falar, sempre à espera que alguém, outro, fosse para a cara do touro. Para não se comprometerem e passarem entre os pingos da chuva.
Hoje a chuva já não pinga. Hoje chove torrencialmente. Diariamente. E o céu de chumbo, os raios e os trovões entram-nos pelos olhos, seguindo até aos ossos.
Ninguém escapará a uma boa molha. Mesmo os inocentes. Com Portugal, de terço na mão, a ver-nos.


“Beleza e Drama”, em inglês apresentada como “Beauty & Drama”, assim se intitula a exposição integrada na 4.ª edição da Bienal Internacional de Macau que está patente ao público no mastodôntico Grand Lisboa Palace, no Cotai, até 26 de Outubro de 2025.
Trata-se de uma mostra de 143 artefactos pessoais, fotografias, gravuras, desenhos, esboços, esquiços, litografias, esculturas, peças de cerâmica, que visam apresentar um tempo diferente e menos conhecido de Pablo Picasso, da sua infância e da sua relação com sua andaluza Málaga natal.
Com curadoria de Mario Virgilio Montañez Arroyo e o apoio do Museo Casa Natal Picasso, da Agencia Pública para la Gestión de la Casa Natal de Pablo Ruiz Picasso y otros Equipamentos Museísticos y Culturales e do Ayuntamiento de Málaga, a exposição está dividida em sete áreas temáticas.

Começando por nos apresentar a sua genealogia, percorremos imagens da sua meninice, das suas primeiras roupas e sapatos de bebé, datados de 1882, aqueles com os quais começou a andar e ganhou liberdade para descobrir o mundo, e recordam-se os seus primeiros anos na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, em Madrid, adolescência que lhe deu formação no realismo clássico dos grandes mestres. Por aqui acedemos ao conhecimento de detalhes de um mundo desconhecido da maior parte dos seus admiradores, que no entender do curador se mostram fundamentais para compreender a sua obra e evolução.

“Mulheres”, assim se chama a primeira área temática, presta homenagem às mulheres mais importantes da vida de Picasso, com especial destaque para Françoise Gilot e Jacqueline Roque. Seguem-se “Cerâmicas”, incursão tardia na vida do artista, explorada quando caminhava já para os 70 anos, “Beleza” e “Mitos” – “bons artistas copiam; grandes artistas roubam”. Aqui fica-se a conhecer a sua reinterpretação de narrativas antigas , antes de se chegar à quinta secção, e uma da mais belas, intitulada “Touros”, onde é possível ver fotografias do pintor com alguns dos toureiros que admirava, e uns quantos dos seus fantásticos desenhos de touros, cavalos e picadores, hoje controversos, mas nem por isso menos belos, da festa brava e de todos os seus protagonistas.

As duas última secções são “Técnica” e “Top Ten”. A primeira revelando-nos as suas experiências na gravura, impressão e recursos a técnicas mistas. “Top Ten” é um conjunto de obras essenciais, no entender do curador, demonstrativas do seu génio artístico, apego à família, à tradição e à sua maneira de estar revolucionária. São elas Figure with a Striped Bodice (1949), Paloma with her doll, Black Background (1952), Painter Picking up his Brush, and Model with Turban (1927-28, provavelmente início de 1930), Cavalier and Horse (1952), Flute Player (1951), Luncheon on the Grass (after Manet) II (1962), The Fauns and Centaurs (1947), The Great Bullfight (1949), Games and Reading (1953) e Bust of Woman with Bodice (Jacqueline in Profile) (1957-58).

Um dos pontos, que diria alto e polémico, aliás na sequência de uma série da BBC, já com alguns anos, reside no desenho (talvez mais correctamente sketch), da pequena Raymonde, com 13 anos, que Picasso e a sua companheira Fernande Olivier terão pretendido adoptar e acabou devolvida a um orfanato em virtude de se ter descoberto que a pintara nua.
Com um interessante e apropriado recurso à Inteligência Artificial, facultando o acesso a ecrãs interactivos, registo a excelente ideia de se fazer a ligação entre secções com painéis onde se vêem reproduções de edifícios andaluzes, laranjeiras e bancos típicos dos jardins andaluzes, numa atmosfera que permite ao visitante a experiência sensorial de deixar envolver pelos aromas do jasmim, tão típico daquela região espanhola e também da China. Existe um espaço próprio para crianças, bastante conseguido e bem decorado, para aquelas poderem entreter-se e desenhar. E no final quem quiser poderá ainda adquirir reproduções e múltiplos brindes numa pequena loja junto à saída.


Numa exposição única, original e imprescindível, fica uma nota menos para a dimensão quase minúscula e a fraca iluminação de muitas placas com os detalhes das obras, em especial nalgumas que estão em língua inglesa, e para a total ausência do português, língua oficial de Macau, e do castelhano nessas mesmas placas. Ponto a rever em futuras exposições.
Por fim, seria interessante conhecer os custos desta mostra. É público que as concessionárias de jogo estão obrigadas a múltiplos investimentos nas áreas social, cultural e de espectáculos, mas a nova política de tornar tudo confidencial deixa o público sem conhecer os contratos de concessão, que por natureza e tradição deviam ser públicos, e os valores dos investimentos que estão a ser feitos.
Até para se poder comparar as opções de cada concessionária e os custos relativos dos investimentos.
Porque uma sociedade onde tudo de repente se torna secreto e confidencial, mesmo as coisas mais corriqueiras, que sempre foram públicas e que devem ser do conhecimento público, é uma sociedade doente e de gente doente. E isso nunca é bom para ninguém.
Não sei se já repararam, mas há dois temas crónicos no noticiário local: táxis e turistas. E quase sempre pelas piores razões.
Quando são referidos não é pela melhoria da qualidade de serviço dos primeiros, por os motoristas se terem tornado mais educados, prestáveis, polidos e corteses, ou pela subida de nível dos segundos, que começaram a gastar mais e a passar mais noites nos hotéis da cidade, ou porque são agora mais civilizados e estamos todos a beneficiar com a sua presença.
Esta manhã ao ler as notícias fui rapidamente confrontado com uma realidade que demonstra a falta de vontade e incapacidade, arrastadas ao longo de mais de uma década, dos responsáveis governativos para resolverem os problemas dessas áreas.
É verdade que Sam Hou Fai só está em funções há sete meses; só que também tardam aos olhos da população os verdadeiros sinais de mudança. Tirando, é claro, os que chegam da Assembleia Legislativa e que envergonham qualquer parlamento dos sistemas capitalistas.
Aliás, a indiferença pela mudança dos motoristas de táxi, que nas datas festivas da RAEM e da RPC correm a engalanar os seus veículos, é notória e comprovada pelos números revelados: o Ponto Final esclarece que o "número de irregularidades praticadas por taxistas aumentou 17 vezes em menos de três anos", que "em comparação com o primeiro semestre do ano passado, o aumento de infracções foi de 168%" e que já ultrapassou o total de 2024. Uma vergonha de que ninguém no sector se envergonha.
A estas "ninharias" junte-se a natureza das infracções dos senhores dos táxis: desrespeito pela ordem de chegada dos utentes às praças – irregularidade que aumentou seis vezes em relação a 2024 –, recusa de transporte, onde se verificou um aumento de 72%, e irregularidades atinentes ao "evidente desvio de trajecto, cobrança abusiva e velocidade inadequada". Se a isto somarmos a dificuldade que é conseguir-se um táxi, o não atendimento de telefones nas centrais e o desrespeito pelas marcações, ficamos com a imagem completa do caos.
É por isso importante que se diga a quem aprovou o último aumento das tarifas de táxis que o problema não estava no seu valor. O serviço, a oferta e a postura dos motoristas não melhoraram por via desses aumentos. Pagamos mais por mau, e até pior, serviço. Podem continuar a fazer a vontade às associações e aos proprietários de táxis, aumentando as tarifas, que os infractores continuarão ao volante e a fazerem das suas para prejuízo de toda a população e enriquecimento das empresas.
Quanto ao turismo, um estudo citado pelo jornal Tribuna de Macau e pela TDM refere que mais de metade dos sectores económicos não beneficiou com a recuperação turística pós-pandemia e que apenas os sectores do jogo, da hotelaria e da restauração saíram a ganhar. Sempre os mesmos a ganharem: concessionários, seus associados, e patriotas milionários que dominam esses sectores.
Quer isto dizer que a esmagadora maioria da população e o comércio tradicional não retiram qualquer benefício da inundação dos seus passeios pelas hordas de excursionistas indigentes que invadem o centro, atravessando as ruas com o semáforo no vermelho, e que ocupam os passeios para se relaxarem de cócoras à porta das lojecas de bugigangas e de sopas de fitas nas proximidades do Centro Cultural enquanto comem umas sopinhas.
Táxis e turismo são duas áreas com problemas crónicos e cuja resolução é crucial para a melhoria da qualidade de vida de quem aqui vive e de quem nos visita.
Enquanto não se perceber por onde se deve começar, se não se apostar na resolução de problemas básicos da população, não vale a pena prometer o desenvolvimento de uma indústria tecnológica fabulosa, dizer que esta vai dar novo ímpeto a Macau e que vamos viver no melhor dos mundos.
Se não houver transportes decentes para os trabalhadores poderem ir trabalhar, táxis que funcionem para os residentes e para quem queira ir visitar essa futura indústria, e turistas e empresários estrangeiros com poder para adquirirem as maravilhas que ela um dia irá produzir, não vale a pena estar a prometer "disneylândias".
Basta de conversa. E de estudos que não servem para nada. Há problemas que têm de ser resolvidos hoje.
Haja coragem, vontade política e capacidade de decisão.

O mês que há dias findou findou, desde há alguns anos dedicado a Portugal nesta terra que nos acolhe, trouxe algumas boas surpresas até Macau.
Quero aqui destacar a exposição de Cláudia Falcão, na Livraria Portuguesa, artista cuja obra desconhecia por completo e que apresentou os seus trabalhos em "Pequenos Mundos em Estado Sólido".
Por me encontar ausente da RAEM não me foi possível estar na sua inauguração, nem visitá-la mais cedo, mas importava aqui deixar esta breve nota.
Merece-o a artista, pelo seu trabalho original e minucioso, que consistiu no recurso às tão populares pedras de calcário usadas na pavimentação dos passeios portugueses, acolhidas ainda no século passado em muitos locais da cidade, entretanto reduzidos, como aconteceu no Bairro de São Lázaro, devido à excelência de um crânio que passou pelo IAM e conseguiu deixar a marca da mediocridade da sua gestão espalhada pela cidade, em monos e na falta de higiene urbana, facto que sempre passou despercebido a alguma imprensa durante o respectivo mandato. Mas deixemos essa ladainha para outros rosários.
Cláudia Falcão conseguiu com o seu talento e engenho construir uma colecção de fotografias da cidade, dos seus espaços mais icónicos e do seu dia-a-dia, que como a própria expressou no belíssimo catálogo, ou livrete, não sei como lhe chamar, da sua apresentação, ficou dividida em seis séries, cada uma delas assim eternizadas na pedra, marcas de um tempo e de um mundo que aos poucos se vai tornando cada vez mais fugaz e que se acomoda a um lugar nos livros de história muito diferente daquele que foi.
Os trabalhos da exposição "Pequenos Mundos em Estado Sólido" merecem mais divulgação, tal como a sua criadora, e a sua arte devia ser levada a outros locais onde possa ser igualmente apreciada e valorizada.
Pela minha parte irei ficar à espera de uma próxima mostra dos trabalhos da autora, daqui lhe enviando os meus parabéns pelo resultado conseguido, com algumas fotos que só não fazem justiça à originalidade e beleza do trabalho exibido por manifesta falta de jeito do fotógrafo.






Numa interessante entrevista à TDM, o presidente da Federação de Indústria e Comércio, Lei Chok Kuan, veio dizer-nos que "há cada vez mais pessoas a consumir do lado Norte da fronteira e que isso é um problema para Macau", referindo que "a disparidade de preços é enorme" e que o Governo devia investigar quais as causas que levam a tão grandes diferenças.
O entrevistado não se ficou por ali; e na extensa e detalhada entrevista que concedeu enfatizou que "o consumo total foi de 75,6 mil de milhões de patacas, o que representa uma diminuição de 15 % em relação a 2023", no que constitui, apesar do considerável aumento do número de pseudo-turistas, uma quebra de receita de "mais de 10 mil milhões de patacas".
O Sr. Lei, do alto dos seus 70 anos, com a sua experiência de vida, um mestrado em Economia e empresas nas áreas da restauração e joalharia, sabe do que fala. Não é por se baterem recordes na entrada de "visitantes" e se esgotarem as tripas nalgumas tabancas que alguma coisa vai melhorar. A estatística só por si não traz qualquer benefício à cidade, nem tem algum interesse para a maioria dos residentes, chegando a ser ridículas e deprimentes as aberturas de noticiários radiofónicos e de telejornais consecutivos com referências aos números de entradas e saídas pelos postos fronteiriços.
A entrevista tem pano para mangas e contém menção a todo um conjunto de problemas que há mais de uma década exigem resposta, sem que os crânios que estiveram em funções até há bem pouco tempo se tivessem apercebido do mal que estavam a fazer à RAEM.
A "batata quente" ficou para Sam Hou Fai que está confrontado com uma série de situações acumuladas, que causaram um sério agravamento das condições económica e sociais, devido à profunda incompetência, nalguns casos, noutros à simples ignorância e má vontade, de quem exercia o poder e controlava as decisões, sempre com continuidade mimética nos subalternos.
Alguns, inexplicavelmente, ou talvez não, por castigo ou vontade de lhes ser dada uma segunda oportunidade, ainda continuam a fazer o que sempre fizeram, criando entraves e problemas sem justificação – verifique-se o que se passa com a acção de alguns senhores nas conservatórias – pelo que nem o Sr. Lei, nem ninguém, irão ver quaisquer melhorias. As perguntas continuarão.
O único que parece ter capacidade e vontade de lhes dar resposta é o Chefe do Executivo, cuja herança não lhe invejo, mas que deverá estar sempre atento e vigilante aos escolhos que se lhe irão erguer pelo caminho.
A resistência à mudança, o medo da inovação, ou o receio de nadar fora de pé são comportamentos recorrentes, enraizados e de difícil afastamento, em especial em contextos cacicais, de ignorância paroquial e vontade de não destoar da carneirada.
Acho muito bem que se questione a razão para as diferenças de preços entre Macau e Zhuhai, embora haja uma que me pareça óbvia e que resulta da falta de intervenção do Governo no mercado da especulação imobiliária, para além da absurda inoperância nos últimos anos do Conselho de Consumidores.
As disparidades de preços são notórias e nalguns materiais, produtos e equipamentos inexplicáveis, sabendo-se que muitos dos aqui se adquirem e são imprescindíveis à RAEM vêm exactamente do Interior do país. O custo da produção e do frete não pode ser superior ao que resulta da importação de produtos que vêm da Europa, de outros países da região Ásia-Pacífico ou até mesmo de Taiwan.
É preciso acabar com a protecção rentista de algumas famílias e dos senhorios sentados na Assembleia Legislativa, pois que sem isso não haverá verdadeiro mercado habitacional ou comercial que permita a introdução de um clima de estabilidade às famílias e/ou às pequenas e médias empresas que assegurem condições para o seu desenvolvimento equilibrado num ambiente de justiça e de onde resultem benefícios sociais para todos.
A preocupação do Sr. Lei com o destino do pessoal dos casinos-satélites é compreensível. Os das associações do sector e de alguns deputados próximos dos sectores tradicionais igualmente. A decisão do seu fim é uma opção política inquestionável e que não poderá ter continuidade sob pena de se voltar a "empurrar o problema com a barriga", tal como antes aconteceu com o Macau Jockey Club, cujo penoso fim só deixou ficar mal o Governo da RAEM, único que tinha uma imagem a proteger.
Macau tem de voltar a ser uma região onde se possa investir com segurança e estabilidade, com qualidade de vida e preços acessíveis à generalidade da sua população, dispondo de uma oferta habitacional, cultural, de entretenimento e educativa de nível internacional, com serviços de saúde, de transporte – não se vêem melhorias no serviço de táxis – e de justiça decentes para todos, cobrindo residentes, não-residentes e simples "blue cards", com produtos e serviços que sirvam os seus moradores, recebendo um turismo civilizado e qualificado, oferecendo incentivos a empresários sérios, com visão de médio e longo prazo, que criem emprego, riqueza, tragam inovação e não andem sempre a pedinchar subsídios e apoios enquanto enriquecem rápida e desmesuradamente ao mesmo tempo que enganam os consumidores.
Alguma coisa, entretanto, começou a mudar. As preocupações manifestadas por quem manda e as recentes iniciativas do IAM, cuja actividade é de novo visível no cuidado com os espaços verdes, e reconhecendo publicamente a necessidade de se melhorar o controlo de pragas, eliminar ratos, baratas e mosquitos, e elevar o nível da higiene urbana, são bons sinais. Mas muito mais será preciso fazer em diversas áreas da actividade governativa.
Os dados recentemente revelados sobre o aumento, em vez da diminuição, do grau de dependência do jogo, mostrando que este atingiu um valor superior a 86%, quando em Janeiro de 2024 o peso dos casinos nas receitas da RAEM era de 70% (vd. Ponto Final, 12/03/2025, pág.ª 7), revela bem o rotundo fracasso das políticas seguidas, que têm de ser questionadas e de ter responsáveis.
Enquanto isto não acontecer será imprescindível que muitos Sr. Lei façam perguntas, em chinês, para que chegue aos ouvidos de quem manda sem necessidade de tradução. E que jamais tenham medo de perguntar e apontar caminhos.
De outro modo continuarão a medrar a inoperância, o conformismo, as más práticas, o desprezo pela comunidade, o ar insalubre e o nevoeiro. Ninguém quer isso.

Começou muito bem, depois foi piorando, até naufragar nos maus leitões, no mau vinho e no preço sem justificação para uma culinária medíocre que se apresentava como "cozinha tradicional portuguesa".
Quando se preparava para lentamente arder, como tantos outros, na comida ordinária e no preço exorbitante que oferecia, alguém se lembrou, felizmente, de repescar o Chef Telmo Gongó; que, entretanto, andara a espalhar a sua arte por outros tascos.
De regresso à casa que o viu chegar, voltou a fazer dela um lugar apresentável, amesendável, e com uma boa relação qualidade/preço. Com ele trouxe nova gente para o serviço e para a cozinha. Renovou alguns pratos, acrescentou outros à ementa, e o resultado coloca hoje o Tromba Rija entre as melhores casas da cidade de genuína cozinha portuguesa.
Das irrepreensíveis pataniscas de bacalhau, aos gulosos cogumelos recheados com farinheira, às tapas variadas, ao tradicional bacalhau, sem esquecer a carne de porco à alentejana, umas ameijoas à Bulhão Pato, os superlativos mexilhões de escabeche, o arroz de pato desfiado, tudo sequinho como mandam as regras, sem peles, osso ou cartilagens, com o chouriço bem assado, ou o robalo no forno, imaculadamente fresco, há muito por onde escolher e confortar.
Os vinhos, que melhoraram bastante, e ultimamente com preços mais acessíveis, bem como as sobremesas, onde brilham muito alto as melhores farófias da terra e os fantásticos quindis, de chorar e pedir por mais, são complementos indispensáveis.
Mas onde o apuro do Chef Telmo e seus ajudantes mais se revela é no cabrito assado, no fantástico arroz de miúdos, nas batatas assadas e nos grelos salteados que os acompanham.
Uma melhoria na acústica da sala, com aquela vista sobre o rio e a esplanada, e ainda num ou noutro detalhe, faria dela um espaço perfeito.
Temos na cidade alguns muito bons restaurantes, com preços elevados e nalguns casos proibitivos para as bolsas do padrão mediano. Outros que, estupidamente, perderam qualidade, descurando o passado, subindo os preços e tornando-se em messes para os novos régulos e demais oficialato, sem gosto nem maneiras; espaços onde nem sequer falta uma iluminação de hospital e o boné na cabeça. E há ainda uma infinidade de tascas e cantinas pirosas, oleosas e mal cheirosas, que vendem tripas e afins para os pés-descalços que os Serviços de Turismo tanto acarinham.
Seria bom que, desta vez, não estragassem o Tromba Rija. Com modernices.
Nem sempre se pode ter tudo, mas isso não é razão para que não se cuide do pouco e bom que temos.
Espero que o Chef Telmo ali continue, pela Torre Macau, enquanto puder e lhe derem o que precisa. E que os seus proprietários tenham aprendido a lição.
É pela qualidade do serviço, a frescura e boa confecção do que é oferecido aos comensais e um preço adequado ao que serve que um restaurante se impõe e mantém durante muitos e bons anos.
Para felicidade dos que lá trabalham e dos que o procuram. Seja para celebrar, seja para se esquecerem dos desgostos do quotidiano ou da distância a que se está do rectângulo, reconfortando os olhos e o estômago.

Não tenho informação que me permita saber se os problemas laborais anteriores estão resolvidos, mas se há coisa que se pode dizer da chegada do maestro Lio Kuokman à Orquestra de Macau é que os programas parecem ter melhorado e há uma energia renovada nas suas performances. Isso notara-se anteriormente, hoje denota consolidação, o que será bom sinal.
O motivo para estas linhas é o excelente programa co-organizado pelo Centro Cultural de Macau e o Instituto Cultural, com o patrocínio das seis concessionárias dos jogos de casino, designado "Homenagem a Brahms", e que está a decorrer desde o passado dia 7 de Março.
Muito embora, até agora, não apresente salas esgotadas, talvez por uma insuficiente divulgação, as performances da orquestra e dos solistas convidados têm sido de alto nível.
O formato escolhido para este evento mostrou estarmos perante uma aposta ganha e que deverá ser prosseguida no futuro. Não tenho dúvida nenhuma de que a música, a grande música, pode desempenhar um papel crucial na internacionalização de Macau e na diversificação da sua economia e oferta cultural. Tal como o cinema, a literatura, o bailado, a pintura ou a escultura, será fundamental para colocar a RAEM no mapa mundial de eventos de excelência.
Exige-se, porém, mais insistência nos avisos ao público e na educação deste. Muito se fez nos anos mais recentes quanto a este último aspecto, havendo mesmo a inserção de notas nos programas e avisos sonoros. Importa insistir. É preciso impedir as correrias escada acima quando os acordes finais ainda se sentem no ar e os artistas estão a agradecer. Ou as entradas tardias quando as peças já começaram o seu caminho. O visionamento e o envio de mensagens sms durante os espectáculos não pode continuar. A luminosidade dos ecrãs e as inexplicáveis e frequentes quedas dos aparelhos perturbam a concentração, constituindo desrespeito para com os artistas e demais público.
Quanto ao que interessa, depois dos concertos de sexta-feira e de sábado, o domingo trouxe-nos algo de diferente, fazendo-me recordar outros eventos já distantes.
Pese embora a excelente acústica, o pequeno auditório é particularmente desconfortável devido ao exíguo espaço entre as filas e cadeiras para acomodação das pernas, o que torna penoso o acompanhamento de espectáculos mais longos, ligeiramente minorado com os intervalos de desentorpecimento.
Todavia, não foi por isso que os músicos deixaram de emprestar todo o seu talento e virtuosismo à música de Brahms, exibindo-se em altíssimo nível. Surpresa foi o próprio maestro titular da Orquestra de Macau se ter sentado ao piano para acompanhar o sublime violino de Alexandra Conunova, e executar uma peça a quatro mãos com o talentoso Niu Niu, antes de finalizar com o violino do checo Josef Spacek o terceiro andamento – Scherzo Allegro – da Sonata F-A-E.
O ambiente mais intimista e aconchegante realçou a magia de Alexei Volodin e o som genial que um pianista de excepção consegue extrair do Steinway. Com Alexandra Conunova e o extraordinário violoncelo de Pablo Ferrandéz, vencedor do XV Concurso Internacional Tchaikovsky e considerado um génio maior da sua geração, assinaram um dos momentos da tarde quando interpretaram o Trio para Piano n.º 1, em Sí Maior Op. 8.
Duas curiosidades realçadas pelas notas do Programa: o violino de Conunova é um Guadagnini de cerca de 1785, anteriormente utilizado pela falecida Ida Levin. Aquele que Spacek usa foi emprestado pela Ingles & Hayday, será de 1732, e é um Gurneri del Gesú “LeBrun; Bouthillard”. Qualquer um deles com um som, garanto-vos, do outro mundo.
Nos próximos dias 14 e 15 de Março ainda poderemos voltar a ouvir a Orquestra de Macau, dirigida pelo maestro convidado Christian Arming. No programa estarão as Sinfonias n.ºs 3 e 4, para além da estreia mundial de duas peças da compositora Bun-Ching Lam, e dos Concertos para Piano n.ºs 1, em Ré menor, Op. 15, e 2, em Si bemol Maior, Op. 83, respectivamente com Niu Niu e Volodin.
Se ainda não arranjou bilhetes, espero que tenha sorte nessa busca.
Momentos destes não se podem desperdiçar. A organização merece ser recompensada pelo trabalho e programa que nos trouxe, assegurando-se a continuidade e o nível dos eventos.
O naipe de artistas é de casa cheia e o nosso aplauso devido pela visita.


Saiu há dias um trabalho da jornalista Luciana Leitão, no Ponto Final, sobre os blogues de Macau. Esta morada mereceu destaque, tal como o Delito de Opinião, que não sendo da terra bebeu da água do Lilau que o Pedro Correia lhe deu, pelo que daqui cumpre-me agradecer a atenção concedida aos dois. E desejar que nasçam mais, com interesse e actuais. Como os ali referidos, mas também como o Devaneios a Oriente, do Pedro Coimbra, a quem daqui saúdo, e que ano após ano se vai mantendo sempre atento e actual.
(créditos daqui)
Está a começar um novo ano. Macau tem um Chefe do Executivo e um novo Governo que foi empossado há dias pelo Presidente Xi. Muitos dos que residem na RAEM lutam diariamente por contribuir para a melhoria das suas condições de vida e darem o seu contributo à região.
Todos sabemos qual o peso dos lobbies e dos grupos de interesses nesta cidade, mas é preciso que cada um de nós contribua, de algum modo, para que as coisas melhorem.
Entendi, por isso mesmo, iniciar aqui, regularmente, uma coluna de ideias exequíveis para que o Governo da RAEM possa constituir um exemplo de verdadeira e efectiva boa governação.
A primeiro sugestão que aqui trago vem do Luxemburgo. País pequeno, menos populoso que Macau, constituindo uma democracia parlamentar numa monarquia constitucional, no coração da Europa, onde vivem dezenas de milhares de portugueses.
Pois bem, o Luxemburgo tem apenas um único casino autorizado a funcionar, o Casino 2000, em Mondorf-les-Bains. Em 2023, as receitas do jogo no Luxemburgo ascenderam a pouco mais de 24,2 milhões de Euros, que equivalem, grosso modo, ao câmbio do dia, a pouco mais de MOP$200 milhões de patacas. Um número rídiculo para Macau.
O que há aqui de especial é que nesse pequeno país, de pouco mais de 500 mil habitantes, todos os transportes públicos, sim, leram bem, todos os transportes públicos (autocarros, metro ligeiro e comboios) são inteiramente gratuitos tanto para residentes como para turistas.
Em 6 de Dezembro de 2018, o jornal New York Times anunciou a intenção do Governo luxemburguês, pela voz do primeiro-ministro Xavier Bettel, de ser o primeiro país a oferecer transportes públicos gratuitos face ao número crescente de automóveis privados em circulação (662 por cada 1000 habitantes).
Dois anos depois, em 29 de Fevereiro de 2020, quando a pandemia do Covid-19 se instalou em todo o mundo, o Luxemburgo concretizou esse objectivo e desde então todos os transportes públicos são gratuitos.
Em Belgrado, na Sérvia, solução idêntica entrou ontem, 1 de Janeiro de 2025, em vigor. Em Canberra, na Austrália, está-se a pensar no assunto.
Ora, se o Luxemburgo, sozinho, conseguiu fazê-lo, por que razão a RAEM, que ainda por cima conta com o apoio do Governo Central, não pode seguir o mesmo caminho?
Há quem em Macau se preocupe com a construção e gestão de cidades inteligentes e amigas do ambiente e pode-se sempre aprender alguma coisa com a experiência luxemburguesa.
Há cada vez mais carros a circular em Macau. Muitos chegam de fora, com condutores que não sabem conduzir e que se limitam a deslocar os veículos de um ponto para outro sem cuidarem das regras estradais vigentes na RAEM. O número de acidentes continua a crescer; o de vítimas também, que pode ser qualquer um de nós, como ainda há dias se viu com uma alta funcionária do Governo, pessoa estimada e, ao que me dizem, servidora pública exemplar.
O que pergunto é se não será possível, com as verbas astronómicas que os casinos pagam à RAEM, encontrar para Macau uma solução semelhante à do Luxemburgo e de Belgrado?
Não seria possível ao Governo de Macau arranjar vontade política e mandar alguém ao Luxemburgo para lhes perguntar como é que por lá fizeram, quanto custou e como conseguem manter esse sistema que não discrimina residentes de não-residentes e turistas?
Talvez – já que nem um serviço de táxis decente para toda a população e os turistas os dois últimos Chefes do Executivo conseguiram concretizar em 15 anos! – o novo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, e a sua equipa possam pensar neste assunto.
Estou certo de que se solução idêntica à do Luxemburgo fosse transportada para Macau ficaríamos todos a ganhar, aliviando a cidade de muitos veículos, dando menos trabalho aos senhores polícias, e, em especial, contribuindo para reduzir os elevadíssimos níveis de poluição atmosférica da RAEM, cuja qualidade do ar nos últimos dias, desconheço se em razão da saída de Raymond Tam da Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental, passou a ser sistematicamente insalubre, de acordo com a classificação adoptada pelas próprias autoridades locais, não sendo recomendadas actividades ao ar livre.
Não há que ter medo de fazer de Macau uma cidade melhor para viver. Fundamental, como diz um amigo, é acabar com a "bandidagem".
(Hoje, no Macau Daily Times)
China today has the longest and fastest high-speed rail network in the world. More than two-thirds of the world’s high-speed rail lines are here. Over 46,000 kilometers of railway have been planned and built since 1997, a process that has continued to grow without pause since 2007. The Shanghai Maglev is the fastest passenger train in the world, capable of reaching a speed of 431 km/h. A gem of cutting-edge technology.
If we look at the highways of the People’s Republic of China (PRC), we will see that by the end of 2020, more than 161,000 kilometers had been built since the mid-1980s. Remarkable.
Some other social and economic indicators are equally impressive and have drawn admiration from the international community.
It is natural for China and the Chinese people to feel pride in these achievements, to celebrate them, and to promote international awareness of their successes.
However, there are other accomplishments which, while deserving applause, also provoke some apprehension and, in certain cases, distrust and disillusionment.
As we mark 25 years since the establishment of the Macao Special Administrative Region (SAR) and the transfer of administration of this former Portuguese-ruled territory to the PRC, it is appropriate to celebrate this moment. But beyond the success and the example of peace and social harmony maintained in a peaceful handover—where the rights and expectations of residents were generally respected—it is also important to analyze what has not gone so well, what remains unfinished, and what needs to be adjusted.
Without going into too much detail, I will say that while Macau’s GDP grew from $6.43 billion (2000) to $47.06 billion (2023, source: Statista), and its population increased from 425,518 (1999) to 704,129 (2023)—providing living conditions and security for those able to move here—some other indicators should, in certain cases, cause concern, and in others, shame.
Inequalities remain glaring. Labor rights are severely lacking in various aspects. It is unacceptable that labor legislation provides for only 6 days of paid annual leave for most workers, while the public administration has expanded, and the few who access it enjoy 22 days of annual leave. Workers in the PRC and Hong Kong, on average, have more paid annual leave, as a legislator recently pointed out in the Legislative Assembly. The same applies to maternity leave. Similarly, it is outrageous that public servants, with shorter working hours, enjoy more public holidays and compensatory days off than workers in the private sector.
Real estate speculation has grown uncontrollably because it benefits elites and property owners, to the detriment of most residents and disadvantaged classes. Air quality, surrounding waters, traffic flow, and the environment have all worsened. Diseases associated with underdevelopment that had been eradicated have reemerged. Traffic is chaotic, buses are always full, and parking spaces are lacking. Supermarket prices have risen significantly.
Too many cases of corruption have damaged the image of Macau and its governance. The privileged relationships with certain economic groups and disreputable individuals were regrettable.
The use of Portuguese, an official language, has declined in courts and public administration. Unnecessary and unforeseen barriers have been created for its speakers, complicating their lives and harming residents who need it to defend their rights and legitimate interests.
Secrecy in governance procedures, which should be transparent, has increased. The contracts with gaming concessionaires are not public, which never happened before.
Certain civic and political rights have been curtailed without justification, driven by prejudice, narrow-mindedness, insecurity among decision-makers, and incorrect interpretations of the 1987 Sino-Portuguese Joint Declaration—deviating from both its spirit and letter—and the Basic Law. Qualified and well-meaning individuals, who served Macau and China well for decades, have been lost.
Electoral reform has reduced participation and representation of broad sectors of the population, distancing Macau from the capitalist system’s norms that were to remain unchanged for 50 years. Opportunities for economic growth, diversification, and development have been lost due to incompetence and disregard for public funds by some leaders. Autonomy has been undermined.
Twenty-five years on, most of us, myself included, will say with satisfaction that it was worth it. The creation of the Macau SAR was, and is, a success.
However, as with all things in life, there must be balance, good sense, and good faith. Risks must be managed before decisions are made, not after consequences arise.
In recent years, the speed of integration has matched that of the Shanghai Maglev, but the results have not been brilliant. If a train departs before its time, it leaves passengers behind, frustrating expectations. If it arrives at its destination station at 300 km/h, it risks failing to stop and crashing into the façade.
It is wise to mitigate this risk if we do not want the identity of the Macau SAR to dissolve definitively, becoming an insipid, ugly, and polluted place by the end of the transition period.

Durante anos ocupou o seu espaço na Rua de S. Paulo, famosa durante as décadas de oitenta e noventa do século passado pela concentração de lojas de antiguidades, velharias e bugigangas. E também pelos alfaiates. Ele, Meng Cheong, e o vietnamita do outro lado da rua, há muito desaparecido.
Entretanto, os tempos mudaram; muitos desses estabelecimentos mudaram de donos.
A alfaiataria do senhor Meng Cheong manteve-se ao longo de décadas, servindo vasta clientela, na sua maioria altos funcionários da administração colonial e empresários chineses ligados ao imobiliário.
Era um homem simples, educado, acolhedor, paciente com os cortes mais teimosos, as dobras e os vincos, e sempre sorridente.
Depois da transição, em 1999, com a chegada de outros senhores, de gente ligada às novas concessões de jogo e à hotelaria começou a diversificar, mas também atendeu algumas senhoras que iam até ele com o recorte da fotografia da Vogue à procura do modelo ideal, seguindo a moda dos blazers masculinos.
Diplomatas, políticos e dignitários lusos, fugindo de outros alfaiates mais careiros e mais centrais, aproveitavam uma passagem pela cidade para o procurarem por indicação de alguém e renovarem os guarda-fatos.
Ele ia tirando umas fotografias que depois exibia orgulhoso. Comigo também quis tirar algumas, em especial quando me viu regressar após alguns anos de ausência da terra.
As camisas nunca foram o seu forte devido aos colarinhos demasiado macios e aos esticadores moles que se dobravam com facilidade, embora nos modelos sem mangas tivesse bastantes seguidores em razão dos bons tecidos de algodão que lhe chegavam de Hong Kong.
Com os meus múltiplos afazeres, quando não podia deslocar-me até à sua loja, o senhor Meng Cheong pegava na mota e lá vinha ele até ao meu escritório armado de giz e fita métrica. Trazia-me amostras, tirava-me as medidas, e passados dias entregava-me o resultado.
Em dada altura chegou a confeccionar togas para alguns advogados, mas as primeiras que dali saíram mais pareciam umas batinas.
Um dia trouxe-lhe um exemplar de Portugal, naquela fazenda pesada e incómoda em que as faziam por lá. Pedi-lhe que me fizesse uma mais leve, por causa do calor, e dias volvidos o senhor Meng Cheong entregou-me uma exactamente igual num tecido fino e com um forro ligeiro, bem mais adaptada às temperaturas desta zona da Ásia. Ainda hoje a tenho.
Nos últimos tempos, que a idade não perdoa, arranjou uns ajudantes trapalhões e as coisas começaram a não lhe sair tão bem. As encomendas tornaram-se cada vez mais raras.
Quando há dias, passeando pelas imediações da Rua de S. Paulo, vi a fachada despida dos tradicionais caracteres e das letras que lhe identificavam a casa, percebi que o seu ciclo ali chegara ao fim.
O senhor Meng Cheong fez muita gente feliz.
Espero que a saúde não lhe falte, tenha uma boa reforma, acompanhe os netos e mantenha o sorriso de sempre.