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lamento

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.12.22

thumbs.web.sapo.io-2.webp(créditos: SAPO/Fabricce Cofrini/AFP)

A cena não é nova. De vez em quando, o tipo amua, torna-se ordinário, e comporta-se como um vulgar badameco desmerecedor do seu talento, sucesso, honras e encómios.

Confesso que não percebo porquê.

Todos temos os nosos egos. De um modo ou de outro vivemos os nossos momentos, os bons e os menos bons. Mas há alturas em que se exige a todos e a cada um de nós a superação. Não tanto enquanto desportistas ou heróis; antes como simples e discretas peças de um todo muito maior, que em cada dia nos obriga a elevarmo-nos, a procurar fazer sempre mais, a dignificarmos a nossa herança e a preparar o futuro das gerações vindouras na base do trabalho, da preserverança e do exemplo.

Vê-lo sair assim do campo, como se a festa não fosse também dele, como se não tivesse contribuído para o êxito, torna-o pequenino e distante. Como se afinal não fosse mais um de nós, um dos poucos que conseguiu elevar-se da medriocridade institucionalizada pela força do trabalho e carácter.

Os portugueses, a Nação, dispensavam estes amuos em final de carreira.

Tudo perdoamos, tudo esquecemos, e muitas vezes ignoramos o que não pode passar despercebido. Porque não somos ingratos e continuamos a acreditar. 

Certamente que não deixaremos de fazê-lo, de enaltecer os seus méritos e virtudes, porque os possui, dando-lhe toda a gratidão pelo que de bom fez e tem feito, talvez elevando-nos, algumas vezes, muito acima daquilo de que efectivamente somos merecedores. Mas depois de tudo o que dias antes aconteceu, que de tão feio deverá ser rapidamente esquecido, ao ver a atitude dos seus companheiros, sempre, que nunca lhe regatearam estatuto, apoio e aplausos, exigia-se outra grandeza na hora da celebração, dispensando-se desculpas estafadas, respostas para cretinos.

E quando se olha para a forma como um Hajime Moriyasu se dirigiu aos adeptos que acompanharam a sua equipa na hora da derrota, e o modo como os outros o viram, não deixa de ser penoso e triste, para mim, ver o princípe abandonar o campo da maneira que o fez.

É nos momentos difíceis que se reconhecem os que são capazes de se elevar acima do mundo, os que pela criação se fizeram e aprenderam a perdurar para além do tempo, os que à sua dimensão e no seu lugar, com a sua humildade e génio, foram absolutamente excepcionais. Em quase tudo; sempre no que é essencial, estruturante e nos define.

Eusébio foi um deles. Pelé também, uma espécie de segundo nós quando não havia mais Eusébio.

Gostava que Cristiano também o tivesse sido. E gostava, ainda mais, que fosse capaz de ainda o ser. Para bem dele, dos seus filhos, e satisfação de todos nós quando um dia falarmos dos seus feitos aos nossos, aos que um dia hão-de vir para nos ajudarem a recordá-lo. De sorriso largo e reconfortante. Como tantas vezes o vimos.

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cumprimentos

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.03.20

A decisão já tinha sido anunciada em Inglaterra. No fim-de-semana passado repetiu-se em Portugal. Dizem os responsáveis das ligas e da Federação Portuguesa de Futebol que estão proibidos os cumprimentos, o tradicional aperto de mão entre as equipas e os árbitros, antes do início dos jogos. Deixaria de ter lugar por razões que visam evitar a propagação do Covid-19, o novo coronavírus. 

Confesso que não percebo de todo essa decisão.

Se um dos intervenientes no jogo estiver infectado não será por essa medida que se salvará alguma coisa.

Futebol não é ténis, em que cada um está na sua metade do campo, com os jogadores normalmente afastados umas dezenas de metros uns dos outros e com o árbitro longe deles e sentado numa cadeira mais alta.

Durante os jogos de futebol são inúmeras as vezes que os jogadores tocam nos árbitros. Há choques casuais, muitas vezes com os próprios árbitros e fiscais. Há quedas que não se podem evitar junto às linhas laterais. E também acontece que os jogadores estão permanentemente em contacto corporal. O futebol é um desporto de contacto.

Depois, estão todos juntos na pequena área nas marcações de livres e cantos, quando protestam, falando na cara do árbitro e dos colegas, e há dezenas de faltas por jogo.

Os jogadores e os árbitros também transpiram, passam as mãos pelas roupas suadas, deles e dos adversários. Quando correm podem largar milhares de gotículas, não usam máscara, podem tossir, alguns cospem, outros assoam-se com os dedos, caem, e logo vêm os colegas e adversários dar-lhes uma mão, ou as duas, para os ajudarem a levantarem-se. A seguir ajeitam a melena, a camisola e os calções, e abraçam-se efusivamente de cada vez que há um golo...

Talvez pudessem obrigá-los a todos a usarem luvas ou a passarem as mãos por um produto desinfectante imediatamente antes de entrarem em campo. Para se poderem cumprimentar.

Eu farto-me de lavar as mãos. E ultimamente de me desinfectar.

Na nossa vida social já somos muitas vezes obrigados a comportar-nos como bichos. Nunca pensei que se fosse ainda mais longe.

Eles é que devem estar correctos.

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tabela

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.03.20

Durante horas e dias a fio, canais de rádio e de televisão e inúmeras páginas em jornais, revistas e blogues dissertaram sobre os insultos a Moussa Marega proferidos no jogo entre o Vitória de Guimarães e o Porto. A indignação foi real, pelo que li, vi e ouvi. Menos real é a conclusão do episódio.

Depois de tudo o que anteriormente aconteceu com muitos outros jogadores (Hulk, Semedo, Renato Sanches, Quaresma, por exemplo), e tendo em atenção o que se vai vendo lá por fora, cujo último exemplo chegou da Alemanha e do jogo entre o Hoffenheim e o Bayern de Munique, que levou a uma "greve" em campo dos jogadores das duas equipas antecipando o final do jogo, estava convencido de que em relação ao que se passou em Guimarães viria sanção pesada.

Pura ilusão.

De acordo com a notícia de A Bola, pelo que aconteceu, no total, os "vimaranenses foram multados no valor de €17,941", dizendo as multas respeito a "deflagramento de potes de fumo e flashlights (€4017)", "entrada de materiais pirotécnicos (€3392)", "arremesso de dois fachos (€2678)", "arremesso de cadeiras (€7140)", e "insultos a Marega (€714)".

Como se vê pela discriminação das parcelas, arremessar cadeiras ou atirar uns fachos para o relvado é mais grave do que proferir insultos racistas ou imitar os urros de símios dirigidos a um dos protagonistas do espectáculo.

Para os senhores do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, os insultos a Marega não valem um corno. O valor da multa é um estímulo a que os energúmenos das claques continuem a sua acção cívica. Meia dúzia de euros resolvem o problema.

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nível

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.10.19

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O futebol português é cada vez menos notícia pelas boas razões. E até passaria despercebido, de tão mau que é a nível interno, não fossem os seus actores, os que actuam dentro mas também os que andam pelos balneários e pelas televisões, apostarem em dar nas vistas.

Compreende-se que alguns tendo o tamanho da Betesga acreditem possuir um ego maior do que o Rossio, mas ainda assim há limites que não deviam ser ultrapassados.

O treinador do F.C. Porto até podia ter toda a razão contra a arbitragem do jogo com o Marítimo, o que eu duvido porque já se tornou habitual só se queixar dela e do anti-jogo quando perde pontos; só que as  suas declarações deviam levar a uma tomada de posição da Liga de Clubes e dos adeptos.

A linguagem de carroceiro e o estilo azeiteiro do fulano não constituem nada de novo. Os presidentes de alguns clubes, incluindo do meu, por vezes também se esforçam bastante. Mas o à-vontade com que o treinador do FCP o faz regularmente envergonha muita gente honrada e educada adepta do clube do Norte.

Sei que não é caso único, e em Macau também temos quem, sendo mais velho e com muito mais responsabilidades sociais e profissionais, teime em se colocar no mesmo patamar de cada vez que lhe colocam um microfone à frente.

Desconheço se será um novo padrão. Sinal de mau gosto é com toda a certeza. E será sempre um mau exemplo para um desporto que tem milhões de apaixonados, muitos deles crianças, em todo o mundo. Bem podem falar de fair play, de respeito, do futebol como escola de virtudes. O que ultimamente se vê é apenas disto.

A forma como depois alguns alunos e os seus pais falam com os professores e se comportam nas escolas, ou a linguagem que se ouve dentro dos autocarros entre os miúdos que vão ou vêm das aulas, é apenas um reflexo do que disse o treinador do FCP alto e bom som. A frase mereceu acolhimento na primeira página do mais lido jornal desportivo português.

Por esta e outras é que o futebol se assume cada vez mais como um desporto destinado a gente ordinária, trapaceiros e arruaceiros. E isto é triste.

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infelicidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.06.19

Há muito tempo que o futebol de Macau anda por umas ruas contíguas à da amargura. Agora, a Associação de Futebol de Macau (AFM) resolveu não comparecer à segunda mão de um jogo de qualificação para o Mundial de Futebol de 2022. O argumento foi o da falta de segurança em razão dos atentados ocorridos no Sri Lanka em Abril passado.

Creio que, todavia, depois das garantias dadas pela FIFA, pela Confederação Asiática e pela Federação de Futebol do Sri Lanka, em que inclusivamente se referiu que o exército asseguraria a segurança da comitiva macaense, não há de facto razões que justifiquem nesta altura, dois meses volvidos sobre os atentados terroristas, e depois do reforço de segurança no país, a não deslocação e a exposição do futebol de Macau a pesadas sanções desportivas, a somar ao desencanto dos jogadores e à exposição da RAEM a mais uma vergonha internacional.

No imbróglio criado não deixa de ser inesperada, e até mesmo grotesca, a invocação de que existe um alerta de viagens de nível 2 para o Sri Lanka emitido pela Direcção dos Serviços de Turismo. Isto é, esse alerta é emitido pela mesma entidade que licenciou o Hotel 13, o qual se encontra de portas fechadas ao público e cujos fundos já nem devem ser suficientes para manter acesa a iluminação nocturna, e que continua a pensar que o número de pseudo-turistas em Macau pode subir todos os anos.  

Convém ter presente que nesse nível de alerta (2) também estão o Egipto e a Turquia e que, de acordo com o esclarecido pela própria DST, deslocações aos países de nível 2 são as deslocações que devem ser reconsideradas se forem não-essenciais, traduzindo-se para os residentes de Macau num aumento da ameaça à sua segurança pessoal.

Ora bem, estes avisos da DST destinam-se a turistas e para viagens não-essenciais. Não a comitivas da RAEM, desportivas ou outras, em viagens oficiais ao estrangeiro, organizadas pelas entidades oficiais, sob a supervisão de organizações internacionais idóneas e com garantias extraordinárias de segurança que não estão ao alcance, em regra, nem do turista individual nem do excursionista.

Uma viagem ao estrangeiro de uma comitiva oficial da RAEM, salvo desvio de poder, abuso de poder, corrupção ou outras peculiaridades de idêntico calibre, são por natureza essenciais. De outro modo não deviam sequer ser encaradas como possíveis.

Também não consta que as agências de viagem de Macau organizem viagens de grupo ao Sri Lanka com protecção da polícia e do exército locais.  

E se não fosse já suficientemente absurdo, talvez mesmo destinado a idiotas, o argumento invocado para cancelar a viagem da selecção de futebol da RAEM, bastaria verificar que no nível 1 dessa lista de alertas estão países com a Bélgica e o Reino Unido, e que países como a Coreia do Norte, o Iémene, o Congo ou o Sudão do Sul não aparecem em nenhum dos três níveis de alerta.

Não vou aqui discutir os critérios da DST usados para elaboração da lista, não é isso que aqui interessa. Mas certamente que, na óptica de quem se guia por essa lista, e a invoca como sendo fiável, os países que dela não constam deverão ser considerados como seguros. Conclusão lógica, penso eu, dos dirigentes da AFM.

Perante isto, vale a pena poupar na adjectivação. Duvido de que entre os destinatários houvesse alguém habilitado a entender aquela que, assim de repente, me veio à cabeça.

Digamos que é apenas mais uma infelicidade a somar a tantas outras de cada vez que por estes dias se olha para o que se passa na vida pública da RAEM. E não há ninguém que dê a volta a isto.

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garimpo

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.07.14

(Reuters)

Depois de ter sido elevado aos píncaros da auto-estima nacional, entre santinhos e bandeirinhas, rumou a Inglaterra, de onde foi liminarmente despachado para uns meses nas Arábias. Acabou por cometer a proeza de entrar no Guiness encaixando 7 (sete) no Mineirão. Pode ser que agora os detractores de Paulo Bento percebam com quem este aprendeu a construir equipas para jogarem futebol de praia em campos relvados. A sorte não é eterna. Os barbeiros são.

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imoral

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.02.14

Leio numa curta notícia os nomes das entidades que beneficiaram de subvenções estatais em 2012. Desconheço as razões que estarão por detrás desses donativos que saem do bolso de todos os portugueses numa altura de tão grande crise, mas tirando uma ou outra que é susceptível de gerar desconfiança, a maioria até será compreensível. Contudo, há um caso que pela sua imoralidade diz muito da forma como o dinheiro público é gerido. Refiro-me à subvenção de mais de nove milhões de euros para a Federação Portuguesa de Futebol.

Todos sabemos as receitas que o futebol gera, os milhões que se movimentam na sua sombra e como a gente a ele ligada, e não só nessa entidade, se costuma tratar. Se a subvenção à FPF em si já é questionável, e eu sou adepto de futebol, ainda o será mais sabendo-se agora que cerca de 8,8 milhões foram dados por nós, contribuintes, para serem pagas as dívidas dos clubes ao fisco. Os mesmos que compram jogadores em todo o mundo pagando milhões pelos passes e oferecendo aos contratados salários principescos, sendo que alguns daqueles são de mais do que duvidosa qualidade na sua arte.

Em anos de tantos sacrifícios, com tanta gente a passar mal, o que esta subvenção nos diz é que o patamar em que este Governo e a sua camarilha operam em nada o distingue dos anteriores que conduziram o País à situação actual. Triste sina a do meu povo.

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