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gravatas

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.08.25

Há quem não as use. Por opção, feitio ou espírito revolucionário. Há quem seja obrigado a usá-las e se sinta contrariado. Há quem fique desconfortável quando as coloca. Há quem prefira laços e lacinhos. Há quem não saiba fazer nós. Há quem pura e simplesmente não goste delas. E há, ainda, quem não gostando de se sentir apertado aprecie tecidos, cores e padrões, não passando sem elas. Por gosto, obrigação e culto.

No Estio, nos dias de mais calor, ou porque a estação apela a vestimentas mais ligeiras, podem tornar-se desconfortáveis. Noutras épocas suportam-se bem. Falo por mim.

Já terão percebido que me estou a referir a gravatas. E hoje lembrei-me delas por duas coincidências.  Por causa de um filme de Sorrentino e de um documentário – Uma vetrina chi guarda il mare – realizado por Massimiliano Gallo. Ambos, aliás, belíssimos, e trazendo-me à memória recordações de uma passagem pela cidade onde todos são, como alguém disse, filhos de Parténope.

Tanto no filme do primeiro, como no documentário do segundo, as personagens, o perfume da fotografia, o recorte das imagens, as vozes que se tornam familiares, a música e o azul vesuviano deslocam-nos para uma outra dimensão do tempo e do espaço. Dir-se-ia que estes vêm e vão ao longo do fio das histórias, mergulhando na profundidade do tempo para sempre regressarem à leveza dos dias que acompanham as marés, à aurora e ao entardecer.

E falar de gravatas é lembrar Nápoles e a Via Riviera di Chiaia, 287, próximo da Piazza della Vittoria, assim chamada em homenagem ao final da I Grande Guerra.

É nessa morada que fica um pequeno estabelecimento comercial onde são produzidas algumas, sendo certo que o gosto é algo sempre muito aleatório e discutível, das melhores, mais finas e bonitas gravatas deste planeta, sem que eu saiba se haverá outro onde tal coisa se produza com tanto esmero.

Também lá se fazem camisas e fatos, e ultimamente houve um alargamento do universo da clientela, que deixou de ser exclusivamente masculina, a avaliar pelo que actualmente se encontra disponível na Internet para quem não queira ou não possa deslocar-se até lá, ou visitar uma das lojas que entretanto abriram noutras paragens.

Tudo começou em 1914, quando o fundador, Eugenio Marinella, se lembrou de começar a importar de Inglaterra gabardinas da Aquascutum, perfumes e águas-de-colónia de Floris e Penhaligon’s, guarda-chuvas da Bridge e da Brics, sapatos de J & Dawson e chapéus da Lock & Co., fazendo camisas e fatos de homem por medida. Pretendia-se que ali ficasse “un piccolo angolo di Inghilterra a Napoli” (Matilde Serao).

Endividou-se junto de Banco de Nápoles e ali abriu um estabelecimento de apenas 22 metros quadrados, que aguentou duas guerras, sobreviveu ao fascismo, a bombardeamentos, assistiu à chegada das tropas aliadas a Salerno, em 1943, ao desembarque das brigadas marroquinas, à libertação e, mais recentemente, a uma cimeira dos G-7, até produzir em 2021, numa colaboração com a Orange Fiber, os presentes oficiais dos G-20, em Roma.

As gravatas tornaram-se no principal objecto de produção a partir do final da II Guerra, inserindo-se na melhor tradição artesanal italiana. Feitas à mão, num trabalho cuidado e paciente, numa empresa em que “tudo o que ali nasce vem do passado”, e este é respeitado em “atenção ao futuro”, tornando-se num objecto de culto para os seus amantes.

E de tal forma é assim que entre os seus clientes estão registados nomes de reis, de presidentes, de famosos de todo o mundo, uns mais antigos, outros mais actuais, uns com boa fama, outros que ganharam má fama, dos Kennedy a Chirac, de Berlusconi a Clinton, de Obama a Sarkozy, de Giovanni Agnelli a Alberto do Mónaco, de Juan Carlos de Espanha a Aristóteles Onassis, de Carlos III a Trump, de Gorbatchev a Putin e Mubarak. Maurizio Marinella diz mesmo que fez gravatas para todos os presidentes dos EUA desde John Kennedy.

Os tecidos continuam a chegar de Inglaterra e a casa está hoje na sua quarta geração, com a cidade a ver abrir a sua loja, todas as manhãs, às 6:30. Até nisto se mantém o peso da tradição.

A qualidade da sua produção, o estatuto e prestígio conquistados, e a sua fama, levaram quatro gravatas da casa Marinella à exposição “Items: Is fashion modern?”, no Moma, em Nova Iorque, em 2017/2018.

Para a divulgação internacional das gravatas, que se espraia em várias línguas, em revistas e jornais de todo o mundo, foi fundamental o contributo de nomes como Enrico de Nicola, Francesco Cossiga e Giulio Andreotti. Famosas ficaram as ofertas dos dois primeiros, enquanto Presidentes de Itália, de conjuntos de cinco ou seis gravatas aos seus homólogos, que por essa via se terão tornado nos principais embaixadores da marca, hoje um símbolo da tradição, da qualidade e da excelência italianas.

Mas de que serviria tudo isso, como ascender a tal patamar, perguntar-se-á, se o produto em causa, as gravatas, não fossem elas próprias um hino ao bom gosto, à elegância e à beleza, ou a mais do que isso, à classe e ao culto de um certo estilo que jamais passa de moda e terá sempre os seus admiradores. Quantas empresas, marcas, produtos alcançaram sucesso e desapareceram no espaço de um século, sem que hoje ninguém saiba o seu nome nem o que foi produzido?

Há uma particularidade que aqui convém referir e que é o seu preço, acessível a quase todas as bolsas, sem atingir os valores estapafúrdios e disparatados de outras marcas que sem igual história, peso ou qualidade, muitas vezes com padrões horripilantes e materiais desconfortáveis e desagradáveis ao toque vendem as suas gravatas por valores absurdos para gente normal, e só ao alcance de ricos, novos-ricos, cleptocratas africanos, autocratas asiáticos, labregos endinheirados e criminosos à solta.

Nada é normal em Nápoles”, diz-se no documentário que acima referi, no que não se deverá estar muito longe da verdade.

Mas numa cidade em que não há meio-termo, que se ama ou se odeia, e em que muitas vezes se tem a sensação de que tudo ali oscila entre extremos, da paixão ao ódio, da riqueza à miséria, da alegria à tristeza, da luz à escuridão, a história da Marinella, pelas vicissitudes por que passou, é modelo de equilíbrio e perenidade, cuja história será, à sua dimensão e salvaguardadas as distâncias, uma parte da própria história da cidade, e que com ela se confundiu a partir do momento em que se tornou, pela paixão e ousadia de um homem, em sua extensão e símbolo.

E se no final destas linhas ainda tiverem curiosidade, estando nós em Agosto e pela silly season, vejam então o filme de Sorrentino, com os olhos e a distância de quem vê cinema, e o documentário que vos recomendo.

Deliciem-se com as imagens, dêem um mergulho nas águas do golfo, aproveitando os dias quentes e longos, e atentem, em especial, no segundo, na belíssima canção que se escuta a partir do minuto vinte e dois.   

 

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