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consequências

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.20

Pese embora tivesse criticado pública e asperamente Alexis Tam, o anterior Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, chegando ao ponto de dizer, não sem alguma razão, que o ex-titular da pasta fizera gastos desnecessários e uma “gestão de desperdício” – não foi o único mas os outros escaparam às críticas –, acusando-o de esbanjamento e equiparando esse modo de gestão a um crime tão grave como a corrupção, o Chefe do Executivo nomeou-o para chefiar as delegações Económica e Empresarial de Macau e junto da União Europeia, em Lisboa e em Bruxelas.

Uma punição exemplar atendendo ao facto, penso eu, de nesses lugares o esbanjamento ser mais controlado.

Agora, lendo o Despacho do Chefe do Executivo n.º 46/2020, de 18 de Fevereiro, publicado no Boletim Oficial da RAEM, fico a saber que a prática do “crime de esbanjamento”, um crime que para o Chefe do Executivo está entre os mais graves, o levou a inexplicavelmente punir de novo Alexis Tam, mas desta vez nomeando-o para chefiar a Delegação de Macau junto da Organização Mundial do Comércio. Em acumulação, vejam só.

Como até hoje não ouvi uma palavra ao visado sobre as acusações públicas que lhe foram imputadas, será normal concluir que o seu julgamento decorreu dentro da legalidade e a condenação transitou em julgado.

Pese embora a gravidade das acusações e a natureza do crime praticado, Alexis Tam ter-se-á conformado com a sentença, viajando para os locais de degredo, e sujeitando-se a esbanjar controladamente, pelo que as sanções aplicadas ao antigo governante, que ainda por cima e incompreensivelmente se prolongam no tempo, no que deverá ser visto como mais uma violação dos mais elementares direitos humanos, só poderão entender-se como consequências naturais da prática do “crime de esbanjamento”.

Eu quero daqui manifestar a minha solidariedade ao antigo governante pela forma como foi tratado e acatou o veredicto. Sem um ai, sem um lamento. É preciso ter estofo.

Não fosse o facto dessas nomeações, perdão, sanções contribuírem para o enriquecimento do seu currículo e o recebimento de uma tença considerável durante o período de cumprimento da pena, ainda por cima em cidades tão horríveis como Lisboa e Bruxelas, e poder-se-ia pensar que em Macau o crime compensa. Se não todo, pelo menos o de esbanjamento.

E os enxovalhos também. Pelo que tenho visto, ao longo dos anos, estes ainda compensam mais. Dentro e fora da Administração Pública. Basta que um tipo não sacuda a cerviz e vá fazendo os fretes, mesmo sem querer a coisa. E que depois se vá calando. O contrato, a nomeação, a avença, o cheque, chegarão logo a seguir.

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enteados

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.09.17

Cento e quarenta mil patacas por viatura pode ser considerada uma belíssima verba. À primeira vista seria uma forma de compensar quem sofreu prejuízos nos seus automóveis por causa do tufão Hato e, obviamente, com a incompetência de quem durante dezenas de anos não cuidou do que devia. Mas é mesmo só à primeira vista porque a medida apenas se aplica à compra de veículos novos.

Compreende-se que haja mais dificuldade por parte do Governo da RAEM em encontrar soluções para aqueles que pretendem adquirir um veículo em segunda mão, só que isso terá de ser feito sob pena de uma vez mais se estar a discriminar entre ricos e pobres, entre filhos e enteados. Dizer que a medida de atribuição de benefícios fiscais só se aplica a quem adquirir veículos novos porque a compra em segunda mão não está sujeita a qualquer imposto não constitui justificação para a inacção.

Os mais carenciados, os que ficaram sem os seus motociclos e automóveis dentro de silos públicos concessionados e em parques subterrâneos inundados em razão dos maus projectos que a Administração da RAEM aprovou, autorizou e licenciou, certamente que gostariam de também poder comprar um veículo novo e de gozarem dos benefícios fiscais. Se o não fazem e se vêem constrangidos a comprar um veículo em segunda mão para substituírem o que perderam é porque mesmo com esse apoio governamental não conseguem ter meios para chegarem a um em primeira mão. 

Impõe-se por isso que o Governo da RAEM encontre uma solução para esta gente, até porque quem vai beneficiar com a venda dos veículos novos são os mesmos de sempre, isto é, os poderosos das famílias tradicionais, empresários e amigos do poder político, alguns com assento nos conselhos que apoiam a acção do Chefe do Executivo e por este nomeados, que têm na mão o negócio da importação de automóveis e motociclos. 

Quem mais precisa de ser apoiado não é quem perdeu o Lamborghini, o Porsche ou o Mercedes no auto-silo do Porto Exterior, mas sim quem ficou sem o motociclo ou o automóvel urbano de gama baixa que diariamente usava para ir trabalhar, às compras e buscar os filhos à escola, e que não tem dinheiro para comprar um novo nem sequer com isenção do imposto. 

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