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qualidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.04.21

(créditos: GCS)

Na reunião plenária da Assembleia Legislativa de 13 de Abril pp., o Chefe do Executivo (CE), de acordo com o relatado pela comunicação social, admitiu a eventual entrada de trabalhadores domésticos não-residentes desde que vacinados contra a COVID-19 e após a realização de quarentena.

Ao mesmo tempo, noutro passo da sua intervenção, voltou a sugerir que os residentes de Macau que tenham os respectivos cônjuges e filhos no estrangeiro, se quiserem estar com os seus familiares deverão fazê-lo lá fora.

Eu ouvi e fiquei comovido com a sensibilidade e argúcia do CE.

Por um lado, o CE considera que é mais importante o regresso de um trabalhador doméstico não-residente do que o convívio entre casais ou entre pais e filhos. Ou seja, na perspectiva do CE faz mais falta uma empregada doméstica para passear o cão e apanhar os excrementos daquele do que a assistência e acompanhamento de um pai ou de uma mãe ao seu filho residente e que está há um ano ou mais privado do contacto com o/a progenitor/a. Como se isto não tivesse também efeitos psicológicos e para o bem-estar das crianças e demais familiares residentes.

Mas, ao mesmo tempo, quando diz que os residentes se quiserem podem apanhar um avião, o CE também se esquece dos custos que uma decisão dessa natureza poderia acarretar. Desde logo os económicos, porque certamente seria mais oneroso para uma família pagar duas ou três viagens para o exterior do que comprar apenas uma para permitir a entrada do familiar retido no estrangeiro.

Depois, porque se o outro membro do casal que é residente em Macau quiser apanhar o tal avião, com a generosidade dos empregadores locais, seus amigos deputados, ficaria privado de rendimentos, e no regresso, à custa dos vinte e um dias de quarentena, o mais provável seria que também perdesse o emprego e fosse engrossar a lista de desempregados. E os filhos que se tivessem ausentado para ver o pai ou mãe ainda perderiam o ano lectivo.

Acresce que não se vê que mal poderia haver para a saúde pública se o familiar que regressasse a Macau viesse vacinado, realizasse à partida e à chegada testes de despistagem à COVID-19 e ainda por cima se sujeitasse a quarentena. Numa situação destas, testando negativo e sujeito a tanto controlo, seria perfeitamente irrelevante de onde viesse.

Mais do que a falta de razoabilidade e lógica dos argumentos do CE, fica no ar a ideia de que o problema não é de saúde pública. É outro.

Ninguém quer dizer abertamente qual é. Ninguém no Governo o assume, mas em cada dia que passa vai-se percebendo que o problema não é a COVID-19. 

Duvido que seja bom para Macau, pois não me parece que a descaracterização da identidade da região, dos seus traços próprios, que a distinguiam das outras cidades chinesas e atraíam tantos visitantes de outros cantos do mundo, fazendo-a perder as características que a marcam há séculos, seja uma atitude patriótica.

Qualquer que seja o prisma de observação.

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balanço

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.03.20

Os primeiros cem dias do mandato do Ho Iat Seng como Chefe do Executivo (CE) da RAEM foram devidamente assinalados pela generalidade dos órgãos de comunicação social e constituíram objecto de breves comentários sobre a sua actuação.

O elogio foi consensual. Há razões para isso.

O tempo é curto para se fazerem apreciações detalhadas, em especial porque ainda nem sequer foram apresentadas as Linhas de Acção Governativa. E também porque pouco se sabe sobre as acções para concretização do seu programa eleitoral. 

Não obstante, como em qualquer situação da vida, é a primeira impressão que marca e acaba por condicionar o futuro. No caso de Ho Iat Seng, o facto da RAEM ter sido apanhada no turbilhão do COVID-19 serviu para colocá-lo à prova, assim como à sua equipa.

O teste a que o Executivo foi submetido desde o final de Janeiro, e que continua e vai exigir a prestação de provas diárias, a uns mais do que a outros, não foi fácil, mas revelou capacidade de gestão, acerto no controlo da crise e rapidez na tomada de decisão. Nada mau comparado com o que se viu nos últimos dez anos.

De assinalar é a verificação de uma atitude mais aberta na relação com a comunicação social e com a população. A diferença em relação ao anterior CE, que não saía do casulo e fugia das pessoas e da decisão, é abissal.

Essas foram boas surpresas. 

As críticas que neste momento poderiam ser feitas a alguns aspectos da acção governativa, como por exemplo sobre a forma como se tratou da situação dos trabalhadores não-residentes, não invalidam o que se afirmou. E certamente que numa outra ocasião poderão ser objecto de análise.

Sabemos que os tempos que correm não se afiguram fáceis, que será necessária uma dose apreciável de resiliência e indispensável uma gestão criteriosa dos recursos para se enfrentarem as vagas que se perspectivam no horizonte a nível local, regional e internacional.

Mas registo com agrado a última conferência de imprensa de Ho Iat Seng e o modo como sem rodeios se dirigiu às concessionárias e subconcessionárias. É mais fácil falar assim quando se tem uma agenda a cumprir, própria ou soprada, e daquelas não se quer depender no futuro.

Posto isto, fique-se por aqui. A procissão ainda não começou e até ao seu final haverá muito que andar. Os calos virão depois.

Aquilo que de mais negativo aconteceu, e que para já se pode apontar, não foi da responsabilidade dele.

Admitindo-se que ninguém lhes encomendou o sermão, Ho Iat Seng não pode responder pela intervenção que Davis Fong Ka Chio, Pang Chuan e Chan Wa Keong resolveram fazer no hemiciclo na passada semana.

É preciso não ter a noção da gravidade do que se disse quando se apela, sem concretizar e sem nomear, à necessidade de mais regulamentação complementar à Lei de Segurança Nacional, para prevenir "actos prejudiciais à segurança nacional", por parte de “determinadas associações políticas e civis em Macau”, apontando como caminho o recurso "a meios jurídicos, à observação perspicaz e a estudos meticulosos".

O desconchavo não poderia ser maior.

Não se disse o que devia ser dito. Que actos tão graves são esses que estão em causa e quais são as associações políticas e civis que colocam em causa a segurança nacional? Haja coragem de o esclarecer.

Desconheço que outro meio haverá para regulamentar uma lei que não seja por "meios jurídicos".

A "observação perspicaz" seria mais aconselhada para ornitólogos, além de que já aqui temos a, inominável, que é feita aos jornais, às televisões e redes sociais pelos inúmeros "espiões", candidatos a censores e bufos de ocasião das mais variadas etnias e em múltiplos idiomas.

E quanto aos "estudos meticulosos", se forem tão meticulosos como a intervenção que conduziram, o melhor seria ficarem quietos porque para desgraça já basta o que se tem visto vindo dali.

Essa intervenção teve, todavia, o mérito de ilustrar, pela boca dos próprios, a necessidade de substituição, se não de todos pelo menos de alguns dos nomeados pelo anterior Chefe do Executivo. Se antes, a avaliar pelo número e qualidade das suas intervenções, para pouco serviam, hoje, com um Chefe do Executivo activo e com uma equipa a funcionar, tornaram-se absolutamente dispensáveis se persistirem em manter o mesmo registo.

A Assembleia Legislativa precisa de gente que compreenda a acção governativa e as suas prioridades. E que, nomeada ou não, seja capaz de apresentar um trabalho de mérito à população. A começar pelas intervenções que se preste fazer.

Certo é que numa próxima oportunidade se aconselharia a dispensa dos patriotas que à força de o quererem ser só desajudem. Como também não escaparão os que se predisponham a funcionar como relógio de ponto ou câmara de ressonância do que ouvem nos fóruns radiofónicos e televisivos sem apontarem soluções adequadas e exequíveis para os problemas que nos afectam.

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campanha

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.07.19

O prazo para apresentação de candidaturas a Chefe do Executivo só termina amanhã, o que não impede que a pré-campanha, ou mesmo campanha eleitoral, já tenha começado. É preciso reconhecê-lo.

Embora tivesse sido anteriormente referido que os candidatos não podiam fazer campanha antes do período eleitoralmente definido, tendo-se esclarecido que não lhes seria  possível "promover os respectivos programas políticos", o certo é que a campanha efectivamente iniciou-se mesmo sem promoção do programa político. Sim, para quê perder tempo a promover o programa político e a discutir ideias com antecedência?

O candidato Ho Iat Seng teve o cuidado de esclarecer que só iria revelar o seu programa durante a campanha, até para não infringir a lei. Só que este compromisso constitui uma falácia. Na realidade, o candidato Ho Iat Seng está em pré-campanha, não havendo ninguém na Comissão Eleitoral que, perante as notícias e reportagens que vão sendo feitas, e que uma forma ou de outra vão promovendo o candidato, tenha lançado um aviso à navegação. 

Não faz qualquer diferença em termos de resultado final, confesso. Mas dizer que o candidato Ho Iat Seng está apenas a recolher opiniões, quando objectivamente se está a promover publicamente, e à sua candidatura, junto de múltiplas associações, é apenas mais uma forma de fazer de conta. 

E de tal forma assim é que, por exemplo, até o insuspeito Jornal Tribuna de Macau (JTM), pela pena do seu director, e o Ponto Final interpretam essas acções do candidato Ho Iat Seng como campanha eleitoral.

Vejamos: no JTM, no passado dia 19 de Julho, o seu administrador, en passant, depois de todo o espaço que concedeu, e tem concedido ao candidato (não tenho nada a ver com as opções editoriais mas nada me impede de comentá-las), escreveu (não foi um simples sms) que a visita ao seu jornal fora mais uma de recolha de informações, "no âmbito da sua campanha eleitoral".

Por seu turno, o matutino Ponto Final, no passado dia 4 de Julho, titulava que "Ho Iat Seng vai visitar Associação dos Advogados em pré-campanha".

Eu nunca tive dúvidas de que o candidato estava efectivamente em campanha antecipada ou em pré-campanha. Outros observadores, como se vê, pensam e escrevem o mesmo.

E a melhor prova de que em causa estão verdadeiros actos de campanha confirma-se pelas declarações que esta manhã li, também no Ponto Final, proferidas por uma fonte ligada "à comunicação de campanha do candidato" e por um deputado, "um dos três elementos que lideram a comissão de campanha". A "fonte" referiu que não vão ser visitadas associações ligadas aos chamados democratas porque "o programa de visitas" já está "completamente cheio". O segundo, embora dizendo que essas visitas não estão postas de parte, tratou de avançar que "há mais de 10 mil associações", como que a avisar que àquelas o candidato não irá.

Compreendo a posição. Não esperava que fosse de outra forma. E no que se tem visto só têm faltado as crianças com as bandeirinhas e as flores para oferecer ao candidato.

Estivesse verdadeiramente em causa a recolha de opiniões para elaboração de um programa eleitoral sério e credível, e houvesse um pouco de decoro, e certamente que o candidato Ho Iat Seng e a sua comissão de campanha teriam agendado visitas a outras associações, para além das antecipadamente escolhidas, de maneira a contemplarem a associação do deputado Sulu Sou e outras ligadas, ou não, aos democratas.

Até porque, por maioria de razão, se o candidato estivesse preocupado com todos os residentes e quisesse mesmo recolher opiniões, então não poderia também deixar de visitar as associações ligadas aos democratas, como as do deputado Sulu Sou ou do deputado Ng Kuok Cheong. Porquê? Porque estas foram a votos pelo sufrágio directo, tiveram muitos milhares de apoiantes e são muito mais representativas da população de Macau do que aquelas que o candidato escolheu visitar durante este período de "pré-campanha".  

Mas não era nada disso que estava em causa.

A pretensa "recolha de opiniões" é apenas o pretexto para as visitas e a visibilidade do candidato. As associações dos democratas não lhe dão votos no Colégio Eleitoral. E também não fazem parte do establishment de Macau que fez, ou fazia, negócios com a Administração, com a banca e os empresários conhecidos. Nem havia que ir agradecer apoios ou futuros votos, opino eu. Por isso não interessa saber o que pensam, quais as suas preocupações, nem que propostas têm para apresentar.

Deixemo-nos, pois, de espertezas.

Os cidadãos não são todos uns labregos, vindos sabe-se lá de onde, à procura de negócios ou de promoção social, embora haja alguns com idade, educação, dinheiro q.b. e que sem qualquer necessidade se esforcem por parecê-lo para se manterem nas boas graças do candidato. E ainda que fossem uns patuscos seriam tão residentes como os outros. Há quem esteja genuinamente preocupado com o futuro dos cidadãos da RAEM e com o cumprimento da Lei Básica. Há quem não queira fazer parte da banda de suporte ao candidato a troco de uns pastéis de bacalhau. Há quem tenha outras preocupações, também quem tenha filhos e esteja interessado no futuro destes e no das próximas gerações.

Repare-se que não sou um fundamentalista da lei. Sejamos claros. Eu entendo que proibir acções de pré-campanha e a discussão e debate de ideias de um futuro programa eleitoral antes do curto período de campanha é um perfeito disparate decorrente das "especificidades" locais. Mas o que está na lei deve ser cumprido até que a lei seja, se o for, um dia, alterada. Sempre pensei assim. E é assim com tudo. Posso criticar, não deixo de cumprir por muito que me custe. Não faço de conta para me poder safar entre os pingos da chuva. 

Não posso, por isso, deixar de registar que a candidatura nasceu mal, confessadamente sem ideias e, aparentemente, por imposição autocrática. E que muito mal continua.

Fosse outro o candidato e já teria sido, no mínimo, chamado à atenção. Como Ho Iat Seng é o candidato do regime, goza da simpatia dos "capitalistas patriotas", dos que são contra a existência dos sindicatos previstos na Lei Básica, de alguns abrilistas de ocasião e das igrejas locais, calculo que esteja tudo bem. 

Antes assim. É preciso que continue tudo a correr de feição. Sem ondas. Façamos, pois, de tolos. Amén.

(Nota: O texto do JTM é do administrador, não do seu director, como aliás resulta do acesso ao link, por isso foi corrigido no texto) 

 

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