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alexandre

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.10.22

Alex Q.jpg

Nascera em S. Tomé, quando o pai por lá andara, mas era Angola que admirava. Falava-me de Luanda e do Lobito com a mesma paixão com que eu lhe falava do Benfica, dos meus fugazes amores de Verão, dos livros de Pessoa, da música de Brel ou de Leo Ferré, das viagens que fiz e das que ansiava fazer.

Um dia, quando eu quis ir de férias, depois de deixar duas cadeiras para a segunda época e a Mélita me disse que não haveria "subsídio de férias", foi ele quem me arranjou uns 400 ou 500 marcos que contribuíram para uma volta à Europa. Os marcos eram do pai, tinham sobrado de uma viagem, andavam lá por casa numa caixa. Lembrou-se deles, falou com o pai, que concordou e considerou a causa justa, e combinei devolvê-los logo que pudesse. À responsabilidade dele, disse-lhe o pai com a bonomia habitual. Assim foi, embora essa ajuda não tivesse evitado o meu repatriamento de Milão. Coisas da vida; e da "melhor juventude".

Foram tempos de sonho e de sonhos, de muito estudo, de muita discussão, de muita alegria. Depois, rumei a Oriente, primeiro, a seguir ao Sul, e de novo a Oriente. Ele virou-se para Angola, terra que amava. Víamo-nos de tempos a tempos, quando se proporcionava, mas a amizade ficou para sempre. Quando por Portugal, na minha ausência, muitas vezes visitava o meu irmão, outros familiares e amigos comuns. A Mélita gostava muito dele. Apreciava nele a simpatia e a boa disposição. Eu também, que não sou diferente dela. E lá em casa todos os outros. Sempre educado, atencioso e disponível.

Não me disseram no dia. Soube-o depois, naquele que terá sido um dos mais fantásticos domingos da minha vida, em que a tristeza da notícia se misturou com a alegria e exuberância do momento que vivi. 

De regresso à normalidade dos dias e das noites, pude então recordar a sua memória, levada de forma tão inexplicável, para mim, quanto terá sido pensada e reflectida a sua partida.

Lamento muito. Deus, se existe, saberá quanto. E o que se poderá aproveitar de um testemunho doloroso de uma amizade de corpo inteiro construída nos bancos da faculdade, nas idas a Coimbra, à "Queima", nas noites de estudo e de folia, em tantos e tão vividos momentos. 

Poderei nunca vir a saber o que aconteceu, nem o porquê dessa tarde de 28 de Setembro, no Lubango.

Nem nunca lhe poderei contar como foi a minha experiência de conduzir, em Portimão, o Porsche 911 GT3 CUP. Contá-la-ei ao Zé e ao Palma, quando estiver com eles.

Também será o que menos interessa.

Porque aqui, o que importa, é mesmo recordar o que foi uma bela amizade, entre o seu sentido prático da vida e o meu lirismo sonhador, que ele tão bem transmitiu ao nosso caricaturista quando fui confrontado com a surpresa de ver na projecção da minha sombra os traços do autor da Ode Marítima. Foi o Alexandre quem teve a inspiração de dizer ao caricaturista quais os pontos a destacar na minha figura. E eles ficaram. Até hoje. Perseguindo-me como uma segunda pele. Vida fora, por muito errante que fosse.

Durante todos esses anos fomos companheiros inseparáveis. Estudávamos juntos, partilhávamos sebentas e livros, a minha casa foi a dele, e vice-versa.

A bem dizer, eu, que fui seu amigo, e continuarei a ser, irremediavelmente até ao fim da minha hora — porque se há alguma coisa que seja eterna, para lá dos abraços da Mélita, é a verdadeira e fraterna cumplicidade de um amigo, de uma amiga, aqui ou em qualquer outro lugar por onde passe —, irei "falar nisso a todos, / Com um orgulho legítimo, com uma confiança invisível", porque no relatório e contas do Além, repescando o que o outro escreveu, "tudo isso terá um sentido"; "um sentido mais belo e mais vasto Que apenas o ter-se perdido o barco onde" ele ia.

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