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cantão (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.14

Quando por mero acaso, na antevéspera da minha partida, me cruzei no elevador do edifício onde agora resido com um amigo que me recordou a necessidade de não deixar escapar uma visita à Ópera de Cantão, não me passava pela cabeça rever a cidade e não passar por esse novo ex libris, para mim uma completa novidade. Creio que a arquitectura, conjuntamente com a música, com o cinema e com a literatura, é uma das marcas civilizacionais mais intensas e duradouras, simbolizando o espírito de mudança, a revolução e profundidade do pensamento, o traço indelével dos costumes de uma época, das suas prioridades e preocupações.

Tenho tido a sorte, felizmente, de ao longo da minha vida, pese embora algumas circunstâncias adversas que muito a marcaram, de poder ver, com total liberdade, sem o favor do Estado ou subsídios de empresas públicas ou privadas, apreciar e sentir algumas das mais emblemáticas e maravilhosas obras da arquitectura mundial de todos os tempos. E gostando de grandes espectáculos, de grandes realizações e desempenhos de excepção, em especial de ópera e de música clássica, pensava que depois de ter visitado, por altura do bicentenário da Austrália, a Ópera de Sidney, que já nada me impressionaria. Nada de mais errado, começando mesmo por Portugal e por algumas realizações das últimas duas décadas que todos devemos à arquitectura nacional.

Fruto de um concurso internacional, cuja short list incluiu os nomes de Rem Koolhaas, da cooperativa austríaca HImmelb(l)au e a aclamada arquitecta iraquiana Zaha Hadid, foi a esta última que coube a tarefa de a partir de 2002 e até 2010, ano da sua inauguração, em Maio, dar corpo ao projecto que, 200 milhões de US dólares depois, se transformaria na maior e mais expressiva casa de espectáculos do Sul da China e que hoje discute a primazia das grandes produções e eventos na cena chinesa com o Teatro Nacional de Xangai (ou Shanghai, se preferirem) e com o Centro Nacional das Artes Performativas de Beijing. Infelizmente, não tive possibilidade assistir a nenhum espectáculo, mas em agenda está um concerto de aniversário com a Sinfónica de Boston e Charles Dutoit (6 de Maio), a que se seguirá uma grande produção da Carmen (27 a 29/06/2014).


Um desenho estupendamente arrojado, uma estrutura impressionante de granito, vidro e cimento, com uma localização soberba, rodeada de espaços verdes e com o novo centro financeiro colado, tendo do outro lado do jardim a nova Biblioteca Municipal de Cantão e o Museu da Cidade, e a sul o rio e a novíssima Torre de Cantão, fazem do edifício uma obra de envergadura e classe mundial. Como me dizia o meu amigo PCT, trata-se de uma obra que merece uma visita de dia ou de noite, a qualquer hora, ao que eu acrescentaria, em quaisquer condições atmosféricas.

Vista do outro lado do rio, ao seu nível, ou a 430 metros, do alto da Torre, a sua integração na paisagem é perfeita e revela um oásis numa metrópole que, para os leitores que não conhecem ficarem com uma ideia, tem a área da cidade de Londres e cerca de treze milhões de habitantes, de acordo com os últimos dados que me foram transmitidos.

Ali, paredes meias com o Consulado dos Estados Unidos, senti-me perfeitamente esmagado pela expressividade do traço, pela beleza do conjunto, pelo modo harmonioso da conjugação dos materiais, e por me aperceber da forma como o passado e o presente, a modernidade e a tradição, conseguem conviver num diálogo permanente e sem sobressaltos. Entre o chilrear dos pássaros e o sorriso simpático e acolhedor dos vendedores de água de coco e de ananazes, descascados na hora, vendidos inteiros ou em quartos, e que de Macau desapareceram.

Quando recordo algumas construções horripilantes das nossas cidades, com projectos de um mau gosto atroz e ofensivo da sensibilidade do mais ignorante dos trolhas, com projectos que foram assinados por engenheiros e aprovados pelas autarquias, foi-me particularmente gratificante ver que o novo-riquismo dos primeiros anos da era Deng, e depois do curto período de desenvolvimento conduzido pelo "liberal" Hu Yaobang, afastado em consequência dos acontecimentos do 4 de Junho de 1989 e que foi este mês recordado pelo seu pragmatismo, arrojo e visão, embora sem referências a Tiananmen, foi-me particularmente gratificante apreciar a nova arquitectura de Cantão e o quanto ela pode representar para a construção de um espírito de modernidade, de reconhecimento do passado e das suas tradições, e de uma visão de futuro sensata, ao mesmo tempo que vai moldando o gosto (bom) das futuras gerações, até mesmo nas coisas mais elementares. Talvez por isso é que nos prédios mais recentes já não se vejam as feias grades de outrora, os aparelhos de ar condicionado de todas as formas e feitios no exterior das fachadas dos prédios, nem a profusão de estendais e de marquises de vidros espelhados, castanhos, amarelos e, por vezes, azuis fumados, que foram voga há vinte anos e ainda hoje poluem a paisagem visual de muitas cidades portuguesas, destruindo o encanto destas e as obras de muitos arquitectos anónimos e preocupados. Faro, última cidade portuguesa onde vivi, e uma bela cidade que tem sido paulatinamente destruída pelos patos-bravos com a conivência dos partidos políticos, é disso mesmo um bom (mau) exemplo, como aliás tive oportunidade de chamar a atenção, sem sucesso, é certo, ao longo de anos, a pelo menos três presidentes de Câmara.

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