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Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.
Algumas tinham começado anteriormente não obstante a contestação. Outras estão em curso. Há quem não se aperceba disso, mas importa que as mudanças não passem despercebidas. E há algumas que devem ser aplaudidas. Outras nem tanto.
Havia patriotas, locais e poderosos, que ainda pensavam que tudo ia ficar como antes. Despia-se um casaco Armani, fazia-se uma declaração mais emotiva, vestia-se uma túnica zhongshan, se necessário trocava-se de passaporte, e o assunto estava resolvido.
Tudo se traduziria, no final, em trocar uns quantos peões e seguir-se-ia em frente com os negócios. Fazendo-se o que sempre se fez. Fazendo de conta. E, como até há bem pouco tempo, os responsáveis máximos da governação e os representantes oficiais da RPC continuariam a confraternizar alegremente com as elites locais, frequentando os seus salões nos momentos festivos. Cortando fitas. Porque em Macau era essa a lei da sobrevivência e dos negócios e o status quo tinha muita força.
O Despacho do Secretário para os Transportes e Obras Públicas n.º 30/2025, publicado no Boletim Oficial de ontem, 6 de Agosto, está mais uma vez aí para provar que esse tempo acabou. Desta vez não estava em causa uma concessão para desenvolvimento imobiliário ou a construção de um qualquer hotel de luxo à sombra da promessa de umas mesas de jogo.
A Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, onde todos os poderosos tinham assento, fazia o que queria. Se durante dezenas de anos, pese embora a "caridade", fez como muitos outros, o despacho publicado é mais um sinal de mudança.
A imprensa também deu conta do seu conteúdo, que consistiu na declaração de rescisão e reversão de uma concessão, que desta vez fora atribuída gratuitamente, sublinhe-se, por causa da "caridade", em 1996, no tempo da administração colonial, situada nas cercanias da Rua do Barão, para "a construção de um parque para a Escola «Kiang Wu Peng Man Luen Hap»". Era utilizada como local de estacionamento de viaturas. A alguém serviu durante dezenas de anos a utilização indevida do espaço sem que daí viesse qualquer benefício para a comunidade. E com os fiscais, sempre os mesmos, a "fecharem os olhos". Até ontem.
A escandaleira e o comprometimento eram tão grandes que, di-lo o despacho, "a concessionária não se pronunciou, em sede de audiência escrita, sobre o sentido da decisão de declarar a rescisão da concessão", por "violação do dever de utilização do terreno em conformidade com os fins consignados no título da concessão".
Poderá vir a fazê-lo, é verdade, em sede de reclamação e/ou recurso, mas se houver vergonha nada fará. E continuará em silêncio. Por causa da caridade de que se queixam tantos pobres e remediados da terra.
Longe vai o tempo dos seminários e das conferências de imprensa de dedo esticado por causa das declarações de caducidade das concessões desaproveitadas e transaccionadas à pala da especulação, e que serviam para tudo menos para o seu aproveitamento em tempo útil e de acordo com as respectivas finalidades. Caiu o pano, acabou-se a lata.
Este é um bom sinal.
Pena é que não haja outros igualmente bons para darem ânimo e esperança à população.
E que, ao contrário, aqui e ali se confirmem uns quantos muito maus. Para todos.
E de que quase ninguém se quis aperceber. Ou apercebendo-se silenciou, quando se esperava que falasse, devendo falar, sempre à espera que alguém, outro, fosse para a cara do touro. Para não se comprometerem e passarem entre os pingos da chuva.
Hoje a chuva já não pinga. Hoje chove torrencialmente. Diariamente. E o céu de chumbo, os raios e os trovões entram-nos pelos olhos, seguindo até aos ossos.
Ninguém escapará a uma boa molha. Mesmo os inocentes. Com Portugal, de terço na mão, a ver-nos.