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leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.06.23

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À la fin de la séance, un auditeur est venu me dire qu’il était le responsable des études de la télévision publique, et me demandais si j’étais libre le soir. C’est ainsi que j’ai fait la connaissance de Pavel Campeanu, qui est ensuite devenu un ami, ainsi que de son épouse, Stefana Steriade, sociologue.

Le soir, Pavel m’a entrainé au siège de la télévision, où nous avons retrouvé quelques collègues à lui. Il m’a présenté en affirmant que j’étais un ami, et qu’on pouvait parler librement devant moi. Tous étaient des démocrates convaincus. En plein Bucarest, dans un organisme public, au pire moment de la dictature de Ceausescu, nous avons ainsi échangé tranquillement et, je dirai, chaleureusement.

Pendant des années, nous avons travaillé ensemble. Notamment en construisant un échantillon national de la population roumaine et en organisant des sondages libres. La Roumanie étant un pays rural, mes amis ont demandé à des acteurs de films ou de séries connus du public d’être leurs ambassadeurs auprès d’habitants de leur village, pour leur poser des questions dont on leur garantissait que les réponses ne seraient transmises à l ‘État, ni au parti. Progressivement, l’échantillon bricolé est devenu représentatif. Des résultats ont été reproduits en ronéo, à l’intention de démocrates choisis.  Parfois, les questions étaient les mêmes que celles posés par des organismes officiels. Nous avons souvent enregistré des différences de cinquante points de pourcentage entre ces organismes et notre méthode !

Pour vérifier leur légitimité, l’équipe de Pavel a parfois demandé aux répondants de se livrer, à heure dite, à une action : éteindre cinq minutes leur téléviseur, marcher quelques minutes autour de la fontaine de leur village … À chaque fois cela fonctionnait, les citoyens le faisaient !

J’ai acquis la conviction que, dans les pires régimes autoritaires, l’opinion publique existait et que l’information circulait…J’ai pu vérifier cela dans d’autres pays   – au Chili, au Maroc, j’y reviendrai.

J’ai donc toujours été sceptique, par exemple aujourd’hui concernant la Russie pendant la guerre d’Ukraine, devant ces affirmations, chez nous, selon lesquelles les peuples seraient abrutis par la propagande et ne sauraient pas ce qui se passe réellement.”    (p. 182/184)

 

Escolhi esta passagem por razões pessoais que alguns compreenderão. Poderia ter sido outra que serviria do mesmo modo para ilustrar a riqueza do texto. E muito embora outra ordem de preocupações me tenha impedido de aqui vir com mais regularidade para vos dar conta do que ainda vou lendo de interessante, acontece que este livro cuja sugestão vos deixo me prendeu da primeira à ultima linha e não merecia ficar esquecido.

Trata-se do último livro de Roland Cayrol, da editora Calman-Levy, e que constitui uma "espécie" de exercício auto-biográfico em final de carreira.

Digo uma espécie exactamente porque na verdade não é uma auto-biografia, mas antes um exercício de memória e reflexão que percorre a sua infância em Marrocos, na Rabat onde viveu os seus primeiros 17 anos ("... cette étonnant mélange de bonheur de vivre lá et de soucis sociaiux et politiques très rudes, un mélange détonant d'insouciance adolescente et de prise de conscience politique précoce, face aux violences entendues et aux injustices observées"), enquanto filho de um alto funcionário da administração pública e de uma professora de árabe, ambos pieds noirs nascidos na Argélia, antes de ingressar no mundo novo e efervescente de Sciences Po e do Direito, em Paris, e de realizar um percurso académico, cívico, empresarial, literário e jornalístico a todos os títulos notável.

Estou a falar de um homem que foi secretário do Clube Jean-Moulin, membro da Fondation nationale des sciences politiques, director de investigação do Cevipof, que publicou mais de duas dezenas de livros sozinho e tem mais uns tantos em colaboração com outros autores, cuja socialização, como escreve, se deu com De Gaulle e Pompidou, mas com quem nunca se encontrou e jamais trabalhou.

Em contrapartida, porém, e daí o principal interesse da obra, trabalhou directamente com aqueles a quem chamou os seus presidentes – Giscard d'Estaing, Mitterrand, Chirac, Sarkozy, Hollande e Macron –, relatando agora pequenas histórias e revelando detalhes curiosos desses anos de vivência e convivência, em diversos papéis, o que faz com inteligência, sentido de humor e numa escrita que tem tanto de elegância e correcção quanto de simples e clara.

Não vou aqui dar conta dessas histórias, algumas passadas em França com esses personagens, outras no exterior, em épocas e locais tão diversos como na Roménia de Ceuasescu, numa Polónia a sair do comunismo, no Chile, em Marrocos ou na Argélia, nem os interessantíssimos detalhes de quem escreveu três romances de grande sucesso sob pseudónimo retratando pessoas vivas, pelos seus próprios nomes, e com títulos tão sugestivos como Meurtre à l'Élysée e Meurtre à TF1, cinq jours qui ébranlèrent la Repúblique, o que retiraria aos potenciais leitores o prazer da sua leitura e da fina ironia dos seus relatos.

Gostaria, todavia, de sublinhar dois capítulos que deviam merecer a atenção de universitários, professores e alunos, politólogos e especialistas de sondagens e de comunicação social, bem como de jornalistas e simples curiosos, e que são os capítulos VII (Ma vie de sondeur de opinion) e VIII (Le goût de la transmission: enseignement et médias), que nalguns pontos quase parecem tirados de manuais académicos e desmistificam, sem deixar de questionar, o universo das sondagens e do papel da comunicação social, de cronistas e comentadores.

O pequeno prefácio de Arnaud Mercier é um aperitivo e um convite à leitura de uma obra que seria lastimável não conhecer uma tradução portuguesa. Espero que haja algum editor disposto a correr um risco que vale a pena ser corrido, até porque temos muita gente em Portugal, de São Bento à Gomes Teixeira, da São Caetano ao Largo do Rato ou à Soeiro Pereira Gomes, do continente às ilhas, do interior ao litoral, de norte a sul, que não lendo em francês precisa como de pão para a boca de ler este e muitos mais livros como este devidamente traduzidos.

Porque essa será a única forma, já que não estudaram antes e não estudam agora, de poderem alargar horizontes e de se cultivarem aprendendo algo de útil.

Pena que entre nós não haja "senadores" dispostos a fazerem o mesmo exercício de Roland Cayrol com a classe e a distância com que ele o fez. Teríamos todos a ganhar.

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1 comentário

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De Pedro Coimbra a 26.06.2023 às 08:48

E até teríamos uns quantos na nossa República que o poderiam fazer.

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