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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quarta-feira, 11.04.18

laus* (1)

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Não se tratava de cumprir nenhuma promessa, embora de há muito surgisse de tempos a tempos a hipótese de ir até lá. Estava fora de causa fazê-lo durante a época das chuvas, ou numa altura em que as altas temperaturas tornassem demasiado tormentosa as jornadas. A oportunidade surgiu e havia que agarrá-la antes que se perdesse no ramerrão quotidiano. Em matéria de viagens só lamento as que ainda não fiz. E a perspectiva de encarar uma outra face da Indochina, de cujas viagens guardo as melhores memórias desde há mais de um quartel, levou-me a rapidamente agarrar em meia dúzia de peças de roupa e fazer-me ao caminho.

Sem voo directo vi-me obrigado a pernoitar em Banguecoque, recuperando os cheiros e sabores de há algumas semanas, antes de pela primeira vez começar a vislumbrar a generosa cordilheira que circunda Luang Prabang, pequena cidade do norte do Laos, cujos primeiros habitantes se terão estabelecido por volta de 8 mil anos antes de Cristo, e que atravessou os impérios Nanzhao, Khmer e Mongol, antes de servir entre 1354 e 1560 como capital do primeiro reino do Laos, o Lan Xang.

O seu nome deriva da aceitação por parte do Rei Visoun, que fora anteriormente governador de Vienciana, da oferta por parte da monarquia Khmer da imagem de Pha Bang, o que levou a que a cidade passasse a ser denominada como Grande (Luang) Prabang, do nome do Buda.

Património Mundial da Humanidade desde 1995, a cidade fica na confluência de dois rios, o Mekong e o Khan, sendo profundamente marcada pelas cores açafrão e laranja forte dos trajes dos seus monges.

Mesmo depois da transferência da capital para sul, a cidade continuou a ser considerada fonte do poder monárquico, acabando por aí se estabelecer um reino independente após a morte do Rei Suriya Vongsa em 1695.

Durante o século XIX atravessou vicissitudes várias, sujeita como esteve à influência dos vizinhos do Sião, do Vietname e da Birmânia e aos bandidos e mercenários do chamado Exército da Bandeira Negra, que destruíram inúmeras figuras de Buda, templos e documentos históricos, até se integrar na Indochina francesa, como parte do império colonial francês do Sudeste Asiático, formado quando após a queda de Jules Ferry a China reconhece a tutela sobre as regiões de An Nam (grafado como Annam, em francês) e Tonquim (Tonkin), garantindo um protectorado que englobaria também os actuais Camboja e Laos.

A influência francesa, bem presente na arquitectura e na culinária, misturada com a heranças laociana, birmanesa, chinesa e tailandesa, os múltiplos templos e locais de culto, conferiu ao local uma aura única e historicamente absolutamente inconfundível, capaz de transmitir serenidade e uma extraordinária paz interior da qual já havia recebido testemunho por parte de quem por lá passou antes de mim.

A abordagem ao aeroporto fez-me recordar da minha chegada, há pouco mais de trinta anos, a Catmandu (ou Kathmandu, Nepal), devido à neblina e à proximidade das colinas montanhosas à medida que nos acercávamos da pista.

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A cidade, logo a partir das primeiras imagens obtidas do ar, é uma extensa mancha de casario disperso, cúpulas douradas, fumo de pequenas cozinhas ou de templos que se elevam no ar, rompendo fulgurantes o verde que se perde de vista nos sinuosos meandros do Mekong e do Khan, enquanto estes se passeiam entre montanhas, como que a acompanharem o Sol que se esconde por detrás delas.

Cumpridas as formalidades de obtenção do visto (o Laos ainda não possui um sistema de pré-emissão electrónica, ao contrário do que acontece com o Camboja e o Vietname), mais rápidas do que o estava à espera e a troco de USD 36, apanhámos um táxi, que se revelou a final uma pequena carrinha albergando mais meia dúzia de viajantes, entre os quais jovens estudantes portugueses de Erasmus, que certamente para não serem confundidos, digo eu, com os vulgares turistas nacionais, conversavam entre si em italiano até um deles referir em português que não se lembrava do nome de um verbo (coisas...).

Ao longo do percurso de distribuição dos passageiros, feito já com a luz de fim de tarde a desaparecer, apercebi-me do trânsito feito de motociclos, pequenas carrinhas e bicicletas, da ausência de buzinas e da praticamente inexistente iluminação pública pois que o que marcava a maioria das ruas por onde íamos passando eram os faróis dos veículos que circulavam, os candeeiros e pequenos pontos de luz dos inúmeros restaurantes, albergues (moderna e pretensiosamente ditos hostels) e minúsculos hotéis.

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Foi com uma temperatura amena, sem vento, humidade reduzida e a tradicional saudação feita com uma tímida vénia e as mãos sorrindo em prece ligeiramente abaixo do rosto, que fomos recebidos à chegada, numa recepção ampla, num ambiente perfeitamente colonial, com ventoinhas, cadeiras e sofás baixos, onde pontuavam pequenas estantes com livros lidos de história, viagens e aventuras, alguns quadros com fotografias antigas e caixas militares de granadas e munições fazendo de bases e mesas de apoio, resquícios da violenta guerra civil entre os guerrilheiros comunistas de Pathet Lao e a monarquia deposta em 2 de Dezembro de 1975. Na sequência dos Acordos de Paris nasceria a República Popular Democrática do Laos (deixemos o "popular" e o "democrática" para outra altura). Da guerra ficaram as marcas da violência sem tréguas e os bombardeamentos de 1973, que abriram crateras, destruíram o país, inundando-o de minas e estropiados e ceifando largos milhares de vidas.

Após um jantar tranquilo, embalado pelo correr da água de uma cascata próxima e uma ligeira brisa, numa mesa simples mas confortável, entre o inebriante aroma a lemon grass (capim-limão), a cantilena da bicharada nocturna, os perfumados guardanapos de puro algodão e a limpeza de um serviço tão genuinamente simples, engomado e acolhedor quanto atento, mergulhei no nocturno silêncio da leitura do último livro de Frederic Forsyth e na preparação do dia seguinte. O primeiro de mais uma romagem aos confins do Mékong, ao sorridente calor dos seus povos e às florestas da Indochina.

 

• - Laus, aqui de acordo com a forma monossilábica de Rebelo Gonçalves (Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966), também seguida por Manuela Pareira e J. Manuel de Castro Pinho (Prontuário Ortográfico Moderno, Ediçoes ASA, 1988), sem prejuízo de no texto se adoptar a forma dissilábica de Magnus Bergstrom e N. Reis.  

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por Sérgio de Almeida Correia





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