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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Sexta-feira, 04.05.18

ho

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Já conheci vários Ho. Uns mais inteligentes do que outros. E um outro com o mesmo apelido não era da família. Todos uns senhores. Mas este tal de Kevin não sei de onde saiu, nem o que anda a tomar, mas que é bom é de certeza. 

Para já não está nada mal como "presidente da Associação de Estudo de Economia Política". Um tipo que diz que "em Macau não há especulação imobiliária"; que "não vejo Macau como sendo muito caro"; que "as pessoas podem não conseguir comprar casas mas isso não quer dizer que seja caro", e que "mesmo sem lei, se um trabalhador sofre porque é mal tratado pelo seu empregador, pode arranjar outro emprego facilmente noutro lado" (aqui nota-se no discurso a preocupação em que esse trabalhador deixe o lugar para que outros possam continuar a ser maltratados por esse empregador, o que é altamente louvável) só pode ser um talento local. Dos melhores. 

Apartamentos com 1000 (mil) metros quadrados por cinco ou seis milhões de patacas? Eu compro meia dúzia se ele me disser onde estão. Um casal na casa dos trinta anos "com um trabalho decente" em que cada um ganha 30 a 40 mil patacas? Qual é a média salarial da RAEM? Quantos têm um "trabalho decente" por esse valor? Nas empresas dele? No Banco Tai Fung? A vender câmaras de vídeo e aparelhos de escuta?    

A entrevista que deu ao HojeMacau é notável. Merece ser lida e relida, constituindo uma verdadeira pérola a imagem que deu da necessidade de até mesmo quem investe numa lavandaria ter de olhar para o mercado do jogo. Mais apropriado não há. Um génio a quem o Governo da RPC deverá atribuir rapidamente a Ordem da República.

Dou-lhe os parabéns pela coragem. Já se nota o efeito da sua nova parceria com os sócios portugueses. Gente que também não tem problemas com a habitação, nem com as leis laborais de Macau. E faço votos sinceros de que o número de talentos que o irá ouvir seja pelo menos suficiente para encher uma cabine telefónica. Das antigas. Do tempo em que Macau precisava de boas leis para proteger os trabalhadores e havia especulação imobiliária. Agora isto é um oásis. E não é por causa dos charutos e do whisky. Bem haja.

 

P.S. Só agora reparei, por este pequeno trecho que a seguir transcrevo, que existe total sintonia em matéria laboral entre o que Kevin Ho disse na entrevista ao HojeMacau e o jornal Plataforma: "É certo que, ao longo dos últimos 10 anos, as políticas sociais do governo foram sendo reforçadas com um aumento das verbas para os mais variados subsídios. É também um facto que o crescimento  económico ‘estratosférico’ tem assegurado uma constante criação de emprego, que coloca a taxa de desemprego local nuns invejáveis 1,9 por cento. Todavia, o menor grau de conflitualidade social, os resultados alcançados e as medidas tomadas não escondem aspectos estruturais ao nível das relações laborais e desigualdades, que devem ser realçados e para os quais são precisas respostas."  

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por Sérgio de Almeida Correia




3 comentários

De Anónimo a 04.05.2018 às 06:47

Escapou-te uma pérola "Ho(rwelliana)". Então não é que à empresa deste brilhante filho da pátria, foi adjudicado o estudo sobre a Lei Sindical em Macau e este já veio perorar sobre a matéria afirmando não ver necessidade de tal, ainda o estudo mal começou?!?

De Anónimo a 14.05.2018 às 09:42

Viva Sérgio.
Post interessante o seu, Gostava apenas de acrescentar que o mesmo texto (editorial) do Plataforma tem a seguinte parte - logo a seguir ao excerto que transcreve - em que o autor (eu) defende claramente a necessidade de adoptar legislação sindical para melhor defender os direitos dos trabalhadores, entre outras medidas sociais:

"Uma nova equação deverá emergir que passe, por um lado, por um melhor acesso por parte das empresas locais à mão-de-obra do exterior, sobretudo a qualificada – numa perspectiva menos protecionista – e, por outro, pelo fortalecimento da representação dos interesses dos trabalhadores. Este segundo passo materializar-se-ia, pela criação de uma legislação sindical, concretizando finalmente o disposto no Artigo 27o da Lei Básica, que abra caminho a um bom mecanismo de negociação colectiva. Um contrato social renovado passa também por um leque mais alargado de medidas sociais de longo-prazo, com uma abordagem mais justa na redistribuição da riqueza, e não tanto em paliativos ou remendos que são renovados anualmente.
Há que salientar igualmente que as fórmulas encontradas não podem ignorar as necessidades de uma fatia da população que desempenha um papel crucial no desenvolvimento económico e social da RAEM: os 181 mil trabalhadores não-residentes. Muitos deles vivem e trabalham em Macau há anos, dezenas de anos em vários casos, e não faz sentido nem é justo que fiquem excluídos de representação nos órgãos de consulta do governo ou do acesso a benefícios da segurança social."

Obrigado pela atenção.
Abraço,

José Carlos Matias

De Sérgio de Almeida Correia a 16.05.2018 às 04:44

De nada. Eu é que agradeço. E assim fica mais imediata a "sintonia"
Abraço.

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