Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



futuro

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.01.14

Os acontecimentos do Meco voltaram a alertar o País para o problema das "praxes". E coloco "praxes" entre aspas e no plural porque não a confundo com a sã praxe académica do meu tempo de estudante na Faculdade de Direito de Lisboa, ou com a praxe da academia coimbrã, a cuja universidade algumas vezes fui para reencontrar amigos ali colocados por força das regras do numerus clausus que regiam a entrada em universidades públicas. E sublinho que nunca usei uma batina, nem dela senti falta em Lisboa, onde nunca houve tal tradição, para me poder integrar, ser recebido pelos mais velhos ou ver-me reconhecido como estudante universitário. Mas não foi por causa disso que deixei de ser "praxado", o que no meu tempo se traduzia em beber mais uma imperial ou um copo de vinho no bar com os mais velhos, o que era motivo de galhofa e gozo e não de humilhação, medo e desprezo. Reconheço, aliás, que os que me "praxaram" eram gente normal, educada e séria, tendo-me recebido naquela que era ao tempo a minha faculdade com a dignidade e o decoro que são esperados de um acto de elevação, coisa que não se confunde com actos de rebaixamento, violência e insulto gratuitos, que fazem apelo ao regresso a um estado natural e a uma visão hobbesiana do homem, incompatível com o progresso civilizacional e o papel da universidade numa sociedade moderna e civilizada. A universidade e as sociedades democráticas não são lugar para bestas, nem podem acolhê-las no seu "estado natural" sem reagirem.

Porém, em tudo o que tem sido dito e escrito sobre o assunto - sendo que alguns dos textos que li são a todos os títulos notáveis, como acontece com o que foi recentemente repescado pelo José Gomes André, ou os de Pacheco Pereira, no Público, e de Daniel Oliveira, no Expresso, aliás na linha do que já escrevera em 2011 -, há um ponto que não tem sido suficientemente enfatizado e que se prende com a gente que está a ser formada.

O padrão formativo desta gente, que para todos os efeitos são adultos, maiores, com capacidade eleitoral activa e passiva, domínio do seu próprio corpo e liberdade para tudo e mais alguma coisa, sem que daí lhes advenha qualquer responsabilidade acrescida pelos seus actos, a avaliar pelo silêncio e pelas reacções dos "duxes", faz temer pelo futuro. Não pelo futuro das ditas "praxes", coisa que neste momento, tal como os infelizes que a elas sucumbiram, está defunta. Refiro-me sim àquilo a que ainda há dias Helena Sacadura Cabral apontava como sendo uma "questão de carácter", porque é disto exactamente que se trata.

Temos tido, para mal dos nossos pecados, múltiplos exemplos do mau exercício de funções públicas por razões de má formação ou de deformação do carácter. O silêncio, a omissão voluntária, a passividade em momentos que exigem reacção, a mentira, a desvalorização do essencial e dos sinais que o comprometem em termos colectivos, a fuga à verdade, a falta de coragem, o tacticismo, têm sido constantes da nossa vida pública e política. As "praxes" são tão somente uma parte de um problema que directamente e no presente nos afecta. Mas as suas consequências no futuro são imprevisíveis. E isto, se repararem bem, é assustador.

Porque são os mesmos que hoje convivem passivamente com o absurdo, com a humilhação, com a indignidade e o aviltamento da condição humana, fazendo desta objecto de gozo e estilicídio das suas frustrações e comportamentos esquizofrénicos, que amanhã estarão a dirigir empresas, escolas, a comandar homens, a formar pessoas, a dirigir os partidos políticos e o governo da nação. É isto que me aflige, pelas gerações vindouras e pelo que de negativo para o seu futuro pode advir. Para a "formação do seu carácter" e sua repercussão nas gerações seguintes.

O facto de já não ter idade para temer "duxes" e "praxes" não me inibe de pensar nisto. E devia obrigar-nos, a todos, a pegar as bestas pelos cornos, atalhando enquanto é tempo, evitando novos desmandos, novos "azares" que descambem em mortes prematuras. Porque não basta acabar com as "praxes" e com os "duxes" e responsabilizar os merceeiros cretinos que dirigindo universidades confundem actos de pura bestialidade com jogos infantis ou brincadeiras inócuas. Porque é preciso criar e dar alento a "praxados" que saibam resistir às bestas e aos que as toleram dentro das universidades, independentemente dos títulos que ostentem, que saibam dizer não à violência praxista e não tenham medo de assumi-lo. Só assim seremos capazes de formar cidadãos suficientemente livres, de construir uma sociedade decente, civilizada, séria, capaz de receber e integrar os mais novos e mais velhos respeitando-os, dando-lhes armas para pensar e resistir, que seja suficientemente corajosa para onde quer que esteja em risco a liberdade, ser capaz de dizer não à humilhação, assumindo a verdade e o seu preço e enfrentando a canalha, incluindo nesta aqueles que tinham a obrigação de ter educado gente para viver em sociedade e que se revelaram profundamente incompetentes nessa missão.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Calendário

Janeiro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031



Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D



Posts mais comentados