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Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.
"O exercício do poder, sobretudo o eleito, pressupõe e exige comportamentos que dêem aos titulares dos cargos uma autoridade moral permanente no exercício das suas funções, por forma que não possam ser desrespeitados e objecto de chacota.
As pessoas com as mais altas funções de Estado têm sobre os ombros precisamente a representação das nações, que têm um valor simbólico universal que não pode ser afectado por comportamentos individuais que transformam os seus líderes em vulgares cidadãos, Monsieurs Tout le Monde, ou simplesmente Chicos Hollande, sobretudo quando a sua humilhada companheira tem um estatuto oficial de primeira-dama, que conviria respeitar.
Quem em qualquer lado do mundo procura e luta por funções de alta responsabilidade em cargos políticos ou institucionais tem de se dar ao respeito de forma permanente, sob pena de pôr em causa, mesmo que parcialmente, a imagem do seu cargo e até do seu país.
A dessacralização do poder a que todos os dias se assiste através de certos comportamentos nada tem de democrático nem de positivo, porque há funções e posturas simbólicas que têm de se dar ao respeito permanentemente." - Eduardo Oliveira Silva, O Chico Hollande, 15/01/2014
Como há muito defendo uma outra bitola do que aquela que vem sendo seguida pelos nosso titulares de cargos políticos, e não só por estes, também por advogados, magistrados, dirigentes dos partidos políticos e deputados, compreendo perfeitamente, e subscrevo sans arrière-pensées, o que o editorialista do jornal i escreveu esta manhã. O problema, aliás, está para lá da simples dessacralização do poder, a qual ainda seria de somenos se por detrás dela não estivesse uma desconsideração quase absoluta pela interligação que existe entre o exercício de uma função pública de suprema importância para a comunidade e comportamentos privados com relevância e repercussão pública. O que Hollande, socialista, não entende, é o mesmo que entre nós o Presidente Cavaco Silva, social-democrata-economista-professor-reformado, também não entende, nem quis entender, quando desvalorizou os episódios da permuta na Coelha, da aquisição e posterior venda, com a inerente recepção dos respectivos dividendos, das acções da SLN/BPN - pelas circunstâncias em que ocorreu -, a cena das escutas e o caso Fernando Lima, ou a vergonhosa opção pela reforma do Banco de Portugal em detrimento do salário da outrora prestigiante função que exerce. Como muitos compreenderão, todas essas situações sendo privadas têm no contexto em que se colocam muito pouco que ver com as suas vidas privadas ou, o que não me parece ser o caso, com os seus vícios também privados ou as suas públicas virtudes. Tudo se resume a uma questão de perspectiva e de ser capaz de analisar a situação pelos seus diversos ângulos, o que, também, como se vê pelos exemplos que temos e que aqui e ali se vão reproduzindo, servem para distinguir funcionários, ainda que "políticos" e com cargos elevados, de verdadeiros estadistas. O que para um destes seria uma evidência a exigir mais reflexão e melhor ponderação, é para aqueles um assunto de revistas cor-de-rosa. O resultado não podia ser pior. Para eles e para as funções que exercem.