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campanha

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.07.19

O prazo para apresentação de candidaturas a Chefe do Executivo só termina amanhã, o que não impede que a pré-campanha, ou mesmo campanha eleitoral, já tenha começado. É preciso reconhecê-lo.

Embora tivesse sido anteriormente referido que os candidatos não podiam fazer campanha antes do período eleitoralmente definido, tendo-se esclarecido que não lhes seria  possível "promover os respectivos programas políticos", o certo é que a campanha efectivamente iniciou-se mesmo sem promoção do programa político. Sim, para quê perder tempo a promover o programa político e a discutir ideias com antecedência?

O candidato Ho Iat Seng teve o cuidado de esclarecer que só iria revelar o seu programa durante a campanha, até para não infringir a lei. Só que este compromisso constitui uma falácia. Na realidade, o candidato Ho Iat Seng está em pré-campanha, não havendo ninguém na Comissão Eleitoral que, perante as notícias e reportagens que vão sendo feitas, e que uma forma ou de outra vão promovendo o candidato, tenha lançado um aviso à navegação. 

Não faz qualquer diferença em termos de resultado final, confesso. Mas dizer que o candidato Ho Iat Seng está apenas a recolher opiniões, quando objectivamente se está a promover publicamente, e à sua candidatura, junto de múltiplas associações, é apenas mais uma forma de fazer de conta. 

E de tal forma assim é que, por exemplo, até o insuspeito Jornal Tribuna de Macau (JTM), pela pena do seu director, e o Ponto Final interpretam essas acções do candidato Ho Iat Seng como campanha eleitoral.

Vejamos: no JTM, no passado dia 19 de Julho, o seu administrador, en passant, depois de todo o espaço que concedeu, e tem concedido ao candidato (não tenho nada a ver com as opções editoriais mas nada me impede de comentá-las), escreveu (não foi um simples sms) que a visita ao seu jornal fora mais uma de recolha de informações, "no âmbito da sua campanha eleitoral".

Por seu turno, o matutino Ponto Final, no passado dia 4 de Julho, titulava que "Ho Iat Seng vai visitar Associação dos Advogados em pré-campanha".

Eu nunca tive dúvidas de que o candidato estava efectivamente em campanha antecipada ou em pré-campanha. Outros observadores, como se vê, pensam e escrevem o mesmo.

E a melhor prova de que em causa estão verdadeiros actos de campanha confirma-se pelas declarações que esta manhã li, também no Ponto Final, proferidas por uma fonte ligada "à comunicação de campanha do candidato" e por um deputado, "um dos três elementos que lideram a comissão de campanha". A "fonte" referiu que não vão ser visitadas associações ligadas aos chamados democratas porque "o programa de visitas" já está "completamente cheio". O segundo, embora dizendo que essas visitas não estão postas de parte, tratou de avançar que "há mais de 10 mil associações", como que a avisar que àquelas o candidato não irá.

Compreendo a posição. Não esperava que fosse de outra forma. E no que se tem visto só têm faltado as crianças com as bandeirinhas e as flores para oferecer ao candidato.

Estivesse verdadeiramente em causa a recolha de opiniões para elaboração de um programa eleitoral sério e credível, e houvesse um pouco de decoro, e certamente que o candidato Ho Iat Seng e a sua comissão de campanha teriam agendado visitas a outras associações, para além das antecipadamente escolhidas, de maneira a contemplarem a associação do deputado Sulu Sou e outras ligadas, ou não, aos democratas.

Até porque, por maioria de razão, se o candidato estivesse preocupado com todos os residentes e quisesse mesmo recolher opiniões, então não poderia também deixar de visitar as associações ligadas aos democratas, como as do deputado Sulu Sou ou do deputado Ng Kuok Cheong. Porquê? Porque estas foram a votos pelo sufrágio directo, tiveram muitos milhares de apoiantes e são muito mais representativas da população de Macau do que aquelas que o candidato escolheu visitar durante este período de "pré-campanha".  

Mas não era nada disso que estava em causa.

A pretensa "recolha de opiniões" é apenas o pretexto para as visitas e a visibilidade do candidato. As associações dos democratas não lhe dão votos no Colégio Eleitoral. E também não fazem parte do establishment de Macau que fez, ou fazia, negócios com a Administração, com a banca e os empresários conhecidos. Nem havia que ir agradecer apoios ou futuros votos, opino eu. Por isso não interessa saber o que pensam, quais as suas preocupações, nem que propostas têm para apresentar.

Deixemo-nos, pois, de espertezas.

Os cidadãos não são todos uns labregos, vindos sabe-se lá de onde, à procura de negócios ou de promoção social, embora haja alguns com idade, educação, dinheiro q.b. e que sem qualquer necessidade se esforcem por parecê-lo para se manterem nas boas graças do candidato. E ainda que fossem uns patuscos seriam tão residentes como os outros. Há quem esteja genuinamente preocupado com o futuro dos cidadãos da RAEM e com o cumprimento da Lei Básica. Há quem não queira fazer parte da banda de suporte ao candidato a troco de uns pastéis de bacalhau. Há quem tenha outras preocupações, também quem tenha filhos e esteja interessado no futuro destes e no das próximas gerações.

Repare-se que não sou um fundamentalista da lei. Sejamos claros. Eu entendo que proibir acções de pré-campanha e a discussão e debate de ideias de um futuro programa eleitoral antes do curto período de campanha é um perfeito disparate decorrente das "especificidades" locais. Mas o que está na lei deve ser cumprido até que a lei seja, se o for, um dia, alterada. Sempre pensei assim. E é assim com tudo. Posso criticar, não deixo de cumprir por muito que me custe. Não faço de conta para me poder safar entre os pingos da chuva. 

Não posso, por isso, deixar de registar que a candidatura nasceu mal, confessadamente sem ideias e, aparentemente, por imposição autocrática. E que muito mal continua.

Fosse outro o candidato e já teria sido, no mínimo, chamado à atenção. Como Ho Iat Seng é o candidato do regime, goza da simpatia dos "capitalistas patriotas", dos que são contra a existência dos sindicatos previstos na Lei Básica, de alguns abrilistas de ocasião e das igrejas locais, calculo que esteja tudo bem. 

Antes assim. É preciso que continue tudo a correr de feição. Sem ondas. Façamos, pois, de tolos. Amén.

(Nota: O texto do JTM é do administrador, não do seu director, como aliás resulta do acesso ao link, por isso foi corrigido no texto) 

 

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