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email

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.10.25

O nosso Benfica

Se não encontrares resposta para a tua pergunta podes enviar-nos a tua dúvida através do formulário, escreveram no site.

Uns dizem "Benfica vencerá", outros querem "Benfica acima de tudo", havendo quem diga que "Só o Benfica conta", que tenha o "Benfica no sangue", "Voltar a ganhar" ou que são, simplesmente, "Pelo Benfica". 

Eu não encontrei resposta e como não sei como será possível vencer, ter o Benfica acima de tudo, voltar a ganhar, andar com o Benfica no sangue e  ser pelo Benfica sem benfiquistas, resolvi escrever para manifestar a minha indignação:

"Caros benfiquistas,

Pelos vistos há benfiquistas de primeira e benfiquistas de segunda. Se todos devem votar e todos os votos contam, por que razão os benfiquistas que vivem na Ásia e na Oceânia não podem votar?

Em Macau há imensos benfiquistas, quase todos com 50 votos, e nenhum vai poder votar.

Podia ser muito fácil ter aqui uma mesa de voto, até mesmo no Consulado (o SLB é instituição de utilidade pública desde 1960, tendo recebido várias ordens honoríficas portuguesas) ou no Restaurante "O Santos", verdadeira embaixada do SLB na Ásia, onde vários presidentes já comeram, tal como muitos jogadores e lendas do Clube (Coluna, Mário Wilson, Carlos Moya, etc.), e até os britânicos Rolling Stones.

Aquilo que nos fizeram é uma vergonha. Só contam connosco para pagar quotas e renovar o Red Pass.

Cumprimentos,
Sérgio de Almeida Correia (sócio 29601)"

Descontado "o abuso" de sugerir o Consulado e a tasca do meu amigo Santos, fica o registo, incompreensível, numa altura em que somos bombardeados com emails das candidaturas apelando ao voto.

Não custava nada terem criado condições para todos, mesmo todos, os benfiquistas poderem votar.

Assim está mal. Muito mal. Somos duplamente proscritos.

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comboios

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.10.25

BEIRA Estação Ferroviária 1972.jpg(Estação Ferroviária da Beira - Moçambique)

Ao contrário do meu avô Miguel, a quem o Barreiro e o sindicalismo português prestaram justa homenagem, nunca tive qualquer relação profissional com os comboios.

As minhas relações com tais viaturas e as vias-férreas remontam à infância e pertencem ao domínio da felicidade. Algo que, não sei se sabem, está muito para além dos sonhos.

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Fosse porque quem mais me queria me segredava histórias de comboios antes de adormecer, me levava a fazer belas viagens entre Moçambique e a Rodésia, pela linha da Machipanda, da Beira a Vila Pery, hoje Chimoio, de Manica – Que saudades da piscina, meu Deus! – a Salisbury, passando por Umtali, hoje Mutare, e imensos apeadeiros, lugares, lugarejos e vilas perdidas no tempo e nos confins da história colonial, vislumbrando a serra da Vumba em carruagens confortáveis, marcadas pelo afago e o brilho da madeira bem tratada, refeiçoando numa carruagem-restaurante com toalhas e guardanapos cheios de goma e imaculadamente brancos, com um serviço simpático e sempre atencioso para com o “menino”, gargalhando com ele, com o nariz achatado e colado contra as janelas largas e luminosas, também sempre embaciadas e com as minhas dedadas, avistando Machipanda, Manica e os animais livres na distância, percorrendo as carruagens até cair de cansaço, dormindo entre belos lençóis, sempre embalado pelo balancear das composições, o som característico do rodado nos carris, e ao tempo também pelo tão penetrante e alucinatório cheiro do carvão e do vapor que saía das locomotivas.

Tempos inesquecíveis que por vezes se prolongavam na notável estação da Beira, projectada por Garizo do Carmo, Francisco de Castro e Melo Sampaio, onde quase diariamente me deixavam depois das aulas para eu percorrer o átrio em todos os sentidos, radiografando quem passava, admirando os carros em exposição, enquanto esperava que a Mélita ou o Fernando Luís descessem das suas ocupações para depois então me levarem exausto e satisfeito para casa.

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Foram todas essas memórias, mais as da minha primeira adolescência, quando para minha satisfação me punham num comboio e me despachavam para Tavira, onde sabia que os meus primos, o sol e o mar da ilha e da ria cuidariam de mim durante algumas semanas de Verão, e, ainda, as recordações da minha vida de estudante universitário, que me levariam a percorrer a Europa de Interrail, e das viagens de  que depois fiz na Austrália, na Suíça, no Japão, onde volto sempre que posso para percorrer o país no Shinkansen, que me entusiasmaram quando o Pedro se lembrou de me enviar o convite para visitar uma exposição de comboios em Carcavelos.

Já sabia do gosto e interesse do meu amigo por comboios depois de uma noite me ter revelado os seus tesouros, resultado de infindáveis horas de engenho, paixão e paciência, mas nunca imaginei ver o que vi no Pavilhão dos Lombos: uma magnífica exposição de modelismo ferroviário que me levou de novo a viajar no tempo e por estações e paisagens que me foram familiares.

Havia prometido a mim mesmo escrever umas linhas sobre o evento que ali ocorreu para vos dar conta da minha satisfação, talvez mais encanto, pelo que encontrei. E pela alegria que vi nos olhos de tantas crianças, algumas namorando com o parceiro e com as fantásticas maquetas, com filhos e netos, umas mais crescidas do que outras, com e sem barriguinha, por vezes de calções e cabelos brancos, partilhando curiosidade e paisagens de lugares espalhados por Portugal e mundo fora, incluindo numa recriação e lembrança do horror que se vive na Ucrânia, onde não se poupam crianças, novos, velhos, escolas, hospitais, museus, comboios ou estações.

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Não será grande coisa o que à pressa aqui fica, eu sei, embora haja sempre a esperança de para o ano voltar com mais tempo. Se possível com o João. Para vermos comboios circulando por montes e vales a toda a velocidade, sem perderem, ao contrário do fantasma da nossa CP, carruagens pelo caminho, e sem deixarem os passageiros apeados, iluminando os olhos de quem os vê.

Se não for para sonhar de novo, recordar outros tempos, ao menos que seja para, pelo menos, levar, como desta vez, um amigo pela mão. Ou vários. Pequenos e graúdos, fazendo-os entrar naquele mundo mágico das geografias do contentamento, levando-os a percorrer comigo aqueles pequenos carris que têm a virtude de nos trazer os antigos por onde andámos, de diferente bitola, com outras paisagens e outros cheiros, mas com a mesma alegria da memória com que os vi e me receberam.

E a gratidão a quem me mostrou o caminho até ali, proporcionando-me o prazer de escrever estas linhas e de vos deixar com as imagens possíveis de um fotógrafo menor. 

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tubarões

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.10.25

Tubaroes-Azuis-qualifica-para-o-Mundial-2026-1024x

Noite curta e mal dormida, pese embora a enorme satisfação. É desta que aqui vos quero dar conta porque não podia passar em branco a qualificação dos Tubarões Azuis para o Mundial de Futebol de 2026.

O pai Eurico e o meu amigo Jorge Monteiro, se ainda estivessem entre nós, teriam exultado de alegria. Não estão eles, estou cá eu e a nota devida aqui fica.

Uma nação jovem, que ainda este ano completou 50 anos de independência, cheia de dinamismo, vontade de fazer melhor em cada dia para o seu progresso e o de todos.

Terra de gente boa, sã, alegre, trabalhadora e que connosco partilha a língua e o sentimento. Terra de saudade, de músicos, de poetas, de escritores, de emigrantes, como nós, de boa comida e melhor mar. Pátria da morabeza.

Ontem viveu-se um momento mágico no Estádio Nacional, na cidade da Praia, acompanhado à distância a partir do meu posto de observação, aqui em Macau, e ao qual como português, amante de futebol, apaixonado pelo seu mar e as suas gentes não posso deixar de me associar.

Uma qualificação notável da selecção de futebol de Cabo Verde, ultrapassando gigantes como os Camarões e Angola. A vitória por 3-0 sobre Eswatini (em português,  Essuatíni), antiga Suazilândia, é justo e merecido prémio para o pequeno farol atlântico da lusofonia erguido entre continentes. A prova de que com trabalho e dedicação não existem sonhos impossíveis.

Acompanho por isso a alegria das suas gentes e envio daqui um forte, caloroso e fraternal abraço a todos os meus amigos cabo-verdianos. Para elas também um beijo. E que continuem a fazer história no futebol.

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reencontros

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.10.25

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Durante cinco anos, por vezes longos, de outras vezes fugazes e etéreos como a paixão que chegou e partiu sem que houvesse tempo de a agarrar, estudando e seguindo regras, foi-se preenchendo uma quadrícula em que a palavra direito era a que mais vezes figurava, alternando com a de justiça. Entre a devoção e a alegria, o choro, a coragem ou o medo do futuro, com uns abraços e uns beijos à mistura, no final cada um seguiu o seu caminho.

Do que me lembro, a despedida, para alguns, das paredes que nos acolheram foi penosa. Para outros abriu-se uma avenida, larga e soalheira, onde se cruzaram múltiplas vidas, romances, aventuras, alegrias e desgostos. Até ontem.

Muitas vezes me recordei deste e daquele, de algumas com evidente e, com o correr dos anos, envergonhada paixão, à medida que a distância e o tempo me afastavam de rostos, de abraços fraternos e sinceros, de sorrisos, cheiros, e de alguns beijos que me foram tão próximos e reconfortantes durante aqueles cinco anos. Foi ontem, podia ter sido hoje.

Aprendemos, quase todos, a ler, a citar, a sublinhar, a glosar, a escrever e a pensar de forma diferente. Sentimos a autoridade do saber, identificámos trastes e embustes, olhámos para os exemplos. Criticámos, discutimos fervorosamente cada vírgula. Houve quem cultivasse hábitos de trabalho, de colaboração com o outro, de respeito para com a diferença. Muitos tornaram-se amigos, camaradas, parceiros, sócios; outros amantes. De gente e de muitas coisas. Poucos de leis, mais pela justiça, que pela liberdade todos trilhámos o caminho e aprendemos a lição.

 E no fim cada um seguiu o seu rumo. Até hoje.

Se pensarmos no que ficou, nas quatro décadas que se eclipsaram à velocidade de um fósforo, talvez nos vejamos submergidos num carrossel de lembranças e de emoções.

Mas antes que tal acontecesse, que tombássemos sob o peso de uma memória cada vez mais distante e traiçoeira; e aquelas que tão queridas nos foram se desvanecessem, houve tempo, pese embora algumas ausências, ora ditadas pela incontornável lei da vida, outras pela geografia ou o utilitarismo táctico do quotidiano que nos rege, e que tantas vezes nos afasta de nós próprios e impede o livre fluir da genuína afectividade, de convocar a preceito os últimos resistentes de uma tribo que entendeu preservar e cultivar a memória, a fraternidade e a amizade.

Foi assim que correspondendo ao apelo, porventura na evocação da linhagem de um Shakespeare – “But if the while I think on thee, dear friend, All losses are restored and sorrows end” – ou de Alberoni, para quem a amizade será um “instante de verdade”, ou, como alguém escreveu, “uma ilha de ética num mundo sem moral”, oitenta e oito almas, dissseram-me, alinharam-se para um conveniente e fraterno encontro que ignorou continentes, atravessou fronteiras, e por momentos se estendeu da Alameda da Universidade a um hotel das redondezas, onde foi então possível voltar a trocar abraços e a beber dos mesmos rostos e sorrisos que há tanto nos encantaram.

Talvez por isso, depois da primeira confrontação com a realidade, no átrio da faculdade, e da aceitação da irreversível mudança provocada pelo sulco dos anos, que se prolongou numa romaria ao Anfiteatro 1, com a tão generosa quanto inesperada presença do carismático mestre, no seu genuíno e simpático estilo cartooniano, despido de funções protocolares, se entendeu sublinhar a autenticidade do encontro com a gravação da simplicidade da passagem do tempo na austera eternidade da pedra. Sem gongorismo, sem prosápia, sem ademanes desnecessários. “No devagar depressa dos tempos”, frase lapidar e incontornável de um senhor da diplomacia.

Como é próprio de quem reconhece a gratidão do que lhe foi transmitido, sentimento maior dos que prezam a integridade, a virtude, e rapidamente identificam nos outros, nos seus semelhantes, nos que o merecem, a grandeza do carácter, a autenticidade dos justos, a lhaneza no olhar, a frontalidade do percurso.

Ao redor de uma mesa, sorrateiramente contemplando rostos na distância, redescobrindo nomes, entre um brinde e um piscar de olhos, vendo a música escapar-se pelos anos oitenta de outra era, ou imaginada ao largo do golfo de Sorrento na voz de Lucio Dalla, “qui dove il mare luccica e tira forte il vento", enquanto uma mão me tocava e um sorriso se recuperava, as vozes voltaram a tornar-se familiares. Próximas. 

Como se sempre ali tivessem estado, e a ternura de outrora, o afago, o sorriso, se recuperasse em cada abraço, no brilho do olhar, ao mesmo tempo que se ignorava o que nos ia passando pelo prato.

Enfim, saboreando cada gole de vinho entre dois dedos de conversa como se por ali corresse um Romanée-Conti, poderoso, ajudando as folhas a voltarem-se sozinhas com as nossas caricaturas.

E foi bom, deveras foi, recuperar para aquele cenário Armindo Ribeiro Mendes, como há quarenta anos, com a disponibilidade, a simpatia e a proximidade de sempre, exclusivo dos maiores, que de cagança só se fazem os tolos.

No regresso, pelo silêncio de estradas que há muito deixei de percorrer, vendo cair no ruído dos faróis com que me ia cruzando as primeiras chuvas de Outono, recuperei a solidão interior, que tão próxima me é, também a alegria das longas noites de estudo, boémia e paixão, e preparei-me para a saudade do dia seguinte.

Reconfortado para mais uma longa viagem até ao outro lado do mundo, puxando o fio de um longo novelo. Esperando em breve poder rever os que faltaram à chamada, os que não pude abraçar, e que aqui e além vão andando pelas suas vidas.

Ciente de que a ausência, uma vez mais, por muitos anos que passem, não é mais do que um detalhe no compasso de espera do reencontro. Na eternidade, como a Mélita me transmitiu, dos abraços que fizeram, e fazem, de nós aquilo que somos. E que jamais esquecemos.

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escola

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.10.25

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O Lyceé Français Charles Lepierre de Lisboa é uma escola internacional sob tutela do Governo de França. Os objectivos visados não serão muito diferentes daqueles para que aponta a Escola Portuguesa de Macau.

Mas enquanto ali se exibe orgulhosamente em território português a bandeira francesa [foto tirada em 26/9/2025], sem que ninguém se sinta menorizado, envergonhado ou ofendido, aqui, na escola portuguesa da RAEM, o pavilhão português ou está escondido ou é remetido para os cantos.

Como se houvesse um qualquer complexo imbecil de inferioridade colonial que nos desviasse do respeito e da dignidade devidos aos anfitriões e impedisse a bandeira portuguesa de estar na fachada do estabelecimento ao lado da bandeira chinesa, com o mesmo destaque e com as mesmas dimensões, tal como fizeram as autoridades de Pequim e o Chefe do Executivo de Macau aquando da última visita de um primeiro-ministro português.

O que, aliás, seria próprio e é adequado entre pessoas e povos de bem, entre gente que se respeita e cujos traços distintivos do seu carácter e da sua cultura não desaparecem com as mudanças de regime e as circunstâncias do momento.

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lecornu

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.09.25

Emmanuel Macron nomeia Sébastien Lecornu como novo primeiro-ministro de  França | Euronews

(créditos: AP Photo)

Em Portugal, aqui há anos, passámos pelo mesmo.

À direita e à esquerda, desencartados, indigentes, ignorantes, houve políticos que se quiseram fazer passar pelo que não eram. Do preenchimento das suas fichas de deputados na Assembleia da República, à aquisição fraudulenta de diplomas – com a conivência de alguns professores e universidades –, aos currículos em que por vezes surgiam menções do tipo "frequência de ... " qualquer coisa, gente sem habilitações, qualificações, mérito, ou outros conhecimentos que não fossem os da chico-espertice, das tramóias e das moscambilhas em que se especializaram nos partidos políticos, eram pomposa e enfatuadamente chamados de "doutor". Havia até quem na assinatura de cartas e ofícios o escrevesse antes do nome, não fossem os destinatários pensar que não o fossem.

É claro que esses verdadeiros "doutores da mula ruça" nunca foram licenciados em coisa alguma, sendo que por extenso só mesmo a esperteza e a rasteirice das suas acções.

Desta vez, o caso surgiu em França e o protagonista é o jovem – tem 39 anos –  Sébastien Lecornu, novo primeiro-ministro francês nomeado por Macron.

Pois bem, o jornal Mediapart descobriu que o dito, que tem sido ministro do Governo de França desde 2017, afirmava nos seus currículos que depois de ter efectuado os estudos secundários em Vernon (Eure), e obter um "bac économique et social (ES)", que constitui um diploma que marca o fim do ensino secundário e habilita o seu titular para a prossecução de estudos superiores, o antigo ministro acrescentou possuir uma licenciatura em direito pela Universidade de Paris II-Assas e ter um mestrado em direito público da Universidade de Paris II Panthéon-Assas. 

Descobriu-se agora que desde 2016 andou a aldrabar o currículo, e nunca obteve qualquer mestrado em direito público

Apanhado em flagrante, o site 20 Minutes revelou que se apressou a mudar a sua biografia na página oficial. De titular de um diploma passou apenas a "estudos de direito". A tal frequência, ao que parece apenas do primeiro ano.

Quando um tipo se predispõe a mentir, querendo mostrar os galões que não possui, recorrendo a vias tão canhestras, como se não houvesse outras pessoas que tivessem efectivamente frequentado as mesmas escolas e obtido diplomas reais, e não fictícios, revela a sua pequenez, a sua mediocridade, e fica-se com a certeza de que gente desta pode servir para muita coisa mas para o serviço público é que não serve mesmo.

E tanto faz ser em Portugal como em França. Quando a matéria-prima não presta não se pode esperar grande coisa do resultado final.

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mourinho

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.09.25

Observador jporfirio-apresentacao-jose-mourinho-18

Nunca seria a minha escolha, embora estejam volvidos 25 anos sobre a sua passagem pela velha Luz. Entretanto, construiu-se um novo estádio e mais de uma dezena de treinadores sentaram-se no banco. 

Os tempos são outros, é verdade, mas nem o clube nem o homem, ao contrário do que este possa afirmar, mudaram.

O clube continuou a crescer. Ele, depois de atingir o Olimpo, veio por aí abaixo até voltar a aterrar em Lisboa. 

Normalmente, rude no diálogo com a comunicação social, provocador, demasiado quezilento, com árbitros e adversários, muitas vezes inconveniente e mal educado. Enfim, características que casam mal com os pergaminhos da casa.

Todos sabem que é um líder, reconhece o talento onde quer que esteja com facilidade, mas tacticamente, muitos dizem, parou no tempo.

As suas equipas jogam um futebol feio, excessivamente defensivo, pouco atraente, embora por vezes possa apresentar resultados.  Mas agora que lhe foi dada uma segunda oportunidade espero que a aproveite e mostre um futebol de encantar.

A partir de hoje é o meu treinador. O treinador de todos os benfiquistas. Esperemos que seja capaz de lhes devolver os títulos, a glória, que recupere o Universo. Com humildade, classe e muito fair play.

Para já chegou bem, em grande estilo, num carro ao nível da instituição – Ferrari 612 de uma série especial de apenas 60 unidades –, o que constituiu um bom sinal. Que não lhe faltem as mãos e uma boa garagem, não vão os cavalos constiparem-se.

E esteve bem na conferência de imprensa, tal como o azarado Rui Costa. Por agora fica apenas a faltar o resto, que é quase tudo.

Bom trabalho, e muita sorte, que sem esta não há esforço que valha a pena, é o que se deseja.

E nada melhor do que começar a mostrar ao que vem já com uma vitória, amanhã, na Vila das Aves. A Champions é já ali. 

Ferrari MoU 612.webp(créditos: José Sena Goulão/LUSA, CM)

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perguntas

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.09.25

(créditos: daqui)

A justificação dada à comunicação social pelo responsável da Assembleia de Apuramento Geral das eleições legislativas para impedir a verificação pública dos votos nulos realtivos às eleições do passado domingo, 14 de Setembro, é no mínimo incompreensível.

A Comissão Eleitoral até podia impedir essa verificação, mudando a prática seguida nos anos anteriores, visto que nada na lei obriga a que os votos nulos sejam mostrados à comunicação social. Estes devem ser verificados nos termos do art.º 119.º da Lei n.º 3/2001(Regime Eleitoral da Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau), com as alterações introduzidas pela Lei n.º 8/2024, integralmente republicada por Despacho do Chefe do Executivo n.º 94/2024, em 03/06/2024.  E nada mais.

Quer isto dizer que após terminadas as operações de escrutínio, os "candidatos, os mandatários de candidatura ou os delegados têm o direito de examinar, em seguida, os lotes dos boletins de voto separados, sem alterar a sua composição, e de suscitar dúvidas ou deduzir reclamações quanto à contagem ou quanto à qualificação dada ao voto de qualquer boletim, que devem fazer perante o presidente e, neste último caso, se não forem atendidas, os reclamantes têm o direito de, juntamente com o presidente, rubricar no verso do boletim de voto em causa".

Embora sem obrigação de amostragem dos votos nulos à comunicação social, é certo que numa sociedade aberta essa até me parece uma prática salutar para que não restem dúvidas sobre a sua qualificação e uma maior transparência do processo eleitoral.

Que se impedisse que esses votos fossem fotografados, em especial para se evitar a divulgação daqueles que contivessem insultos ou palavrões, também não me pareceria mal, ainda que se fosse contra uma "tradição" de anteriores apuramentos eleitorais. Desde que houvesse fundamento legal, obviamente.

Mas a proibição pura e simples cai sempre muito mal. Em especial quando a justificação apresentada não tem suporte jurídico e a invocação do dever de sigilo me parece descabida.

Sigilo de quê, perguntar-se-á, se ninguém sabe quais foram os eleitores que anularam os seus votos? Ao contrário do que se disse, a votação não deixou de cumprir o dever de sigilo. Além do mais, o dever de sigilo aqui não está em causa porque já estamos no âmbito de uma operação de contagem e qualificação dos votos. Os votos não têm nome, número de telefone, morada, número do BIR, fotografia, assinatura. O que é que se quer proteger? Ou retirar ao escrutínio público? Não faz sentido invocar o sigilo.

Não se esqueça, por outro lado, que o dever de sigilo não só não é absoluto como se desdobra em duas dimensões: (i) primeira, ninguém é obrigado a revelar o seu voto, antes ou depois; (ii) segundo, nada na lei impede um eleitor de revelar em quem votou mesmo no próprio dia das eleições, desde que esteja a mais de 100 metros do edifício onde esteja localizada a assembleia de voto. É o que resulta em termos inequívocos no art.º 100.º da referida lei.

Parece-me, pois, que o princípio continua a ser o oposto, o da transparência. Ou deveria ser, que é aquele, estou certo, que a maioria dos residentes defende.

O problema está em que todo este processo, penso eu, está ainda condicionado por algumas mentalidades que, apesar de toda a sua abertura, voluntarismo e adequação ao segundo sistema, admitamos, foram formatadas numa cultura de opacidade, temor, subserviência a quem quer que mande e dite as ordens, com manifesta falta de flexibilidade na hora de encarar e resolver problemas quando estes se colocam.

O resultado acaba por ser transportado para decisões, com as quais não foram anteriormente confrontadas, que apenas se apoiam em argumentos de autoridade, sendo por isso reveladoras de insegurança e que, não raro, radicam no domínio do arbítrio. E quando são pedidas explicações muitas vezes refugiam-se no silêncio. 

É sempre a aposta no grande salto em frente, com ou sem suporte legal. Se não houver norma atira-se qualquer coisa, invoca-se um princípio qualquer. Os residentes engolem tudo, pensam. E não há mais perguntas.

Seria interessante saber por que razão os votos julgados inicialmente nulos foram depois repescados para que se pudesse perceber qual o critério que esteve na base dessa decisão. Se houve critério, e acreditamos que sim.

Sem isso estar-se-á a abrir a porta, uma vez mais, a que amanhã, não a uma dezena e meia mas a milhares, votos nulos possam vir a ser considerados válidos por alta recriação do mandante e assentimento servil dos candidatos, mandatários e  delegados das listas que assistem.

Note-se, ainda, que em 30 de Julho pp., na sequência da conferência de imprensa do dia anterior, os jornais referiam que a CAEAL dizia que não via qualquer sinal de uma elevada taxa de abstenção nas eleições que se aproximavam (vd. Macau Daily Times – CAEAL sees no signs of lower voter turnout for Sept. 14 election, p. 4 –  e Ponto Final – CAEAL recebeu 18 queixas de propaganda eleitoral, p. 3). O resultado foi o que se viu. 

Seria interessante, por isso mesmo, tanto mais que "há muitos factores", que ainda não foram esclarecidos, depois de todo o excelente trabalho realizado, da alteração das leis eleitorais, da exclusão de candidatos e de listas, para se garantir que Macau seria governada por patriotas e se reforçar o princípio "um país, dois sistemas", alguém responsável desse a cara e viesse justificar a terceira taxa de participação mais baixa de sempre (mesmo com a eliminação de 4500 eleitores dos cadernos eleitorais), assim como o elevadíssimo número de votos brancos e nulos.

Desta vez não havia pandemia, não havia mosquitos, os transportes eram à borla, houve imensa informação, criminalizou-se o apelo à abstenção e ao voto nulo e em branco, instaram-se as concessionárias e empresas a facilitarem a saída dos seus trabalhadores para votarem, apelou-se aos funcionários públicos, em suma, houve uma campanha como nunca antes se viu.

E no fim, num ambiente "justo, imparcial e íntegro", disso ninguém duvide, com um ambiente eleitoral melhorado e a participação incentivada, com mais oitenta câmaras de voto, quem ganhou o sufrágio directo foi a Nova Esperança e o José Pereira Coutinho. Não sei se era isto que esperavam, mas ao vencedor são devidos parabéns. E aos vencidos está reservada a glória.

Recorde-se que com a revisão da lei eleitoral se pretendia, de acordo com os termos da consulta pública, entre outros objectivos e melhorias, o "aperfeiçoamento do mecanismo de apreciação da qualificação dos candidatos a deputados da Assembleia Legislativa" e o "combate ao incitamento público ao acto de não votar, votar em branco ou nulo". 

Perante este cenário, e com os resultados alcançados, é de perguntar o que falhou na participação? O que falhou na revisão das leis eleitorais? Por que razão aumentaram tantos os votos nulos e brancos? Não havia alternativas suficientes? A população não confiou nos candidatos aprovados e apresentados a concurso? Falhou o mecanismo de apreciação dos candidatos? Os qualificados não eram suficientemente bons? Os esclarecimentos da CAEAL aos eleitores foram insuficientes? Quais serão os próximos passos para melhorar a participação e reduzir os votos nulos e brancos? Prevêem-se novas alterações legislativas? Vão tornar o voto obrigatório? Vamos ter em futuras eleições um sistema de lista única sem possibilidade de uso de qualquer carimbo, caneta ou de recurso ao voto em branco, como se fez na Associação dos Advogados de Macau? E isso será "democrático"?

Durante os últimos meses não me pronunciei sobre estas questões. Aguardei para ver. É este o momento para voltar a pensar em voz alta. Sem tibiezas. Com a lealdade de sempre para com quem governa e os residentes. Com frontalidade. Sem enterrar a cabeça na areia, não fazendo de conta que nada aconteceu, sem folclore, porque aquela também não é a forma de se melhorar o que quer que seja na RAEM.

Dito isto, como residente, estudioso destas questões e cidadão interessado, gostaria de conhecer as explicações oficiais dos talentos que engendraram estas soluções. E ver quais as respostas para os problemas equacionados.

Para que todos possamos, em conjunto, continuar a aprofundar o princípio "um país, dois sistemas", com toda a transparência, até ao final do período de transição previsto na Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, assinada em 13 Abril de 1987, e depositada pela República Popular da China junto das Nações Unidas. Estamos todos no mesmo barco.

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mélita

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.09.25

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E assim se passou mais um ano.

As alegrias, cada vez mais raras, tardias, as desilusões, as agruras e as tristezas são as mesmas de sempre. Os refúgios idem.

Vale a memória penetrando sempre neste entardecer pesado, quente, e cada vez mais distante dos dias que me fizeram feliz. 

De braço dado com a saudade, nesta solitária modorra que assiste ao desfilar das horas, das noites, das semanas, dos meses, até que um dia também eu embarque numa viagem para longe desta litania insensata que diariamente me massacra os olhos, penetra-me os ouvidos, destrói o colorido de qualquer olhar e transfigura a ternura. Mais do que isso, cansa-me a alma.

E se logo trovejar quando se libertar a rolha do melhor néctar, será sinal de que os deuses continuam atentos. E me protegem na sua ausência.

Lá ao fundo vislumbro já a aurora. E o azul profundo do meu mar. O azul que me inebria e devolve a infância ao dobrar o Cabo.

Feliz aniversário, Mélita.

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morabeza

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.25

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Quem acompanhe a realidade de Cabo Verde, a sua história recente, conheça a sua geografia e dificuldades, vê o que as suas gentes aos poucos vai conseguindo, o que se tem dito e escrito nas últimas décadas sobre aquele pequeno país insular da costa de África, e não pode deixar de expressar a sua admiração, apoio e encanto com os resultados. Os indicadores não enganam e estimulam à continuação.

Torna-se assim particularmente gratificante acompanhar a série de reportagens e entrevistas que a TDM tem vindo a emitir todas as noites a seguir ao Telejornal, no canal português e também na rádio, com especial ênfase nas relações de Cabo Verde com Macau e a China.

A forma como o país criou um Estado de Direito, abandonou o sistema de partido único, fez a mudança para um sistema democrático multipartidário, e consolidou uma democracia digna desse nome, com pluralismo político, respeito pelas liberdades e os direitos fundamentais da pessoa humana, protegendo as minorias e as regras do jogo, por todos aceites e cumpridas, com eleições regulares, livres e competitivas, alternância no poder e transições pacíficas e civilizadas, sublinham a inteligência, ponderação e bom senso dos seus partidos políticos e dirigentes.

Ao mesmo que tempo que consolidava a sua democracia, o país não descurou a sua obrigação de promover a educação, a saúde, a habitação, apostando na formação de quadros, num desenvolvimento sustentado e na boa governança, o que o tornou hoje num exemplo em África e no mundo que deve ser motivo de satisfação para os seus nacionais, para todos os seus amigos e o mundo da lusofonia.

Gostei bastante de acompanhar a entrevista com o Presidente José Maria Neves, mas em especial de ouvir o ex-Presidente Jorge Fonseca, meu contemporâneo em Macau nos idos de Oitenta do século passado, aquando da minha breve e única passagem pela Administração Pública, e que aqui deixou e transmitiu o melhor do seu saber e humanismo na então recém-criada Faculdade de Direito, coordenando e leccionando, contribuindo para a formação de quadros competentes, mas também servindo a Administração portuguesa no desempenho de funções nos gabinetes governativos até à sua partida.

Espero que a excelente entrevista que Jorge Carlos Fonseca deu à TDM, onde inclusivamente relatou o delicioso episódio da sua coluna n' O Clarim, com o Pedro Correia e o saudoso João Carvalho, possa ser traduzida e legendada em chinês e inglês e se torne acessível a uma audiência mais vasta que não domina a língua portuguesa.

O exemplo de Cabo Verde mostra como uma democracia pluralista pode ser factor de fortalecimento de uma nação, de paz, de criação de oportunidades para todos e de desenvolvimento social e económico.

Embora ainda haja muito a fazer, é hoje claro que se o país estivesse entregue a um líder autoritário, auxiliado por um partido único esclerosado e patriotas de confiança escolhidos por esse mesmo partido e seus satélites em eleições de fachada, num simulacro de democracia, sem uma separação de poderes actual e efectiva, na linha de Montesquieu, e hoje não seria muito diferente de outros países com regimes autoritários, sumamente mal governados, onde as cliques incompetentes e corruptas só se aguentam no poder protegidas por modernos sistemas de vigilância e controlo policiais, pela força das armas, oprimindo o seu povo sem qualquer respeito pelos direitos humanos e a dignidade da pessoa, e institucionalizando o saque dos recursos públicos como meio legítimo de enriquecimento.

Dou os parabéns à equipa da TDM que esteve em Cabo Verde, sugerindo apenas ao entrevistador que em futuros exercícios, se possível, interrompa menos os entrevistados, deixando-os acabar o raciocínio e as frases. Para que assim possam expressar livremente as suas ideias, os telespectadores ouvir tudo sem ruído e sobreposição de vozes, e não pareça que, ainda que involuntariamente, se quer orientar ou condicionar os entrevistados, cortando-lhes o discurso a meio.

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paz

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.25

Continua a ser um dos cronistas, concorde-se ou discorde-se, mais estimulantes do South China Morning Post.

Tão depressa nos traz o sobressalto como contribui para a dissipação da dúvida. E a firmeza com o que Alex Lo o faz, suportada numa argumentação, por vezes, tão abstrusa quanto linear, não deixa margem para dúvidas. 

Escreveu ontem, na sua habitual coluna "My Take", que "it's hard to trust anything Trump say", o que constituindo facto público e notório dispensa a prova dos factos.

E adiante acrescentou, confiando eu na segurança e credibilidade das suas fontes, que não em mera convicção, que "[d]espite Western propaganda about an invasion, any time now, after the Ukraine war, the mainland will never invade [Taiwan], except as a last resort. Mainland Chinese would consider war a failure of state craft, our own people spilling each other's blood. Seeing what has happened in Ukraine, a far better argument is that Beijing is even less inclined to pull the trigger. It wants to take back a prosperous island, like Hong Kong and Macau, not a wasteland.".

Num mundo conturbado e com governantes que apresentam laivos de doença bipolar, é bom saber que, pelo menos quanto a esta questão, não surgirá mais nenhum candidato ao Nobel da Paz.

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inacreditável

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.08.25

Táxis.jpg

Ao longo dos anos têm sido inúmeras as vezes em que os residentes e os turistas se queixam da falta de táxis em Macau. Neste momento, não me vou aqui referir à péssima qualidade do serviço prestado, à falta de educação e de simpatia da maioria dos condutores, aos modos rudes e ordinários de muitos destes, às irregularidades que aumentaram 17 vezes em três anos, ao mau estado de muitas viaturas e à poluição que os veículos mais antigos provocam, vendo-se sair nuvens de fuligem dos escapes quando arrancam ou nas subidas das pontes; enfim, veículos que em cidades que funcionassem com normalidade, com uma supervisão e fiscalização eficientes, e não estivessem à mercê dos lobbies, já teriam ido para abate.  

Pois bem, ontem à noite, ao ver o Telejornal da TDM fiquei a saber que numa cidade onde há uma falta imensa de táxis, na maior parte das horas do dia, mas em especial entre as 17:30 e as 20:00, talvez porque os motoristas resolvam todos render e ir jantar à mesma hora, vamos passar a ter ainda menos táxis. Isto porque há 100 licenças de táxis que irão expirar já em Setembro.

Neste cenário, a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), que é uma entidade que vive completamente à margem da realidade, graças à incompetência de quem a tutelou e dirigiu na última década, e continua a dirigi-la, veio dizer que como no ano passado foram atribuídos 500 alvarás de táxis, e que estes já estão todos ao serviço, isso "compensa, praticamente, o número de táxis cuja licença expira".  Então se compensa escusavam de ter aberto concurso para 500, porque já então teriam 100 em excesso.

É claro que na DSAT nenhum dos patriotas que lá trabalha tem de andar de táxi, nem nunca precisou de chamar um táxi entre as 17 e as 20 horas para ir até ao terminal da Ponte Macau/HK/Zhuai para apanhar um autocarro que o leve até ao Aeroporto Internacional de Hong Kong. Ou num dia de chuva. É que nem mesmo o agendamento funciona. Ainda agora tentei agendar um carro e como se pode ver pela foto da aplicação está tudo "full". O cenário de hoje repete-se para amanhã e todos os dias até ao final da semana. Será que alguém acredita que a aplicação que utilizei ou as outras funcionam bem? Tirando no momento de lançamento do serviço nunca mais foi possível agendar um carro na aplicação para as horas e dias que necessito. E já me aconteceu agendar, confirmarem e depois não aparecer ninguém à hora marcada.

Parece-me, pois, mais do que manifesto que na DSAT e em quem a tutela se padece de um défice de compreensão da realidade envolvente. Atente-se ademais no seguinte:

1. Em 29 de Outubro de 2024, o "director da DSAT, Lam Hin San, disse no final de Setembro que existem actualmente cerca de 1.500 táxis em funcionamento e haverá um aumento para 1.700 a 1.800 táxis depois da entrada em funcionamento de todos os novos táxis", acrescentando que "o número de táxis em Macau “tem vindo a aumentar”, e que serão feitos ajustamentos no futuro de acordo com as necessidades da sociedade". (...) "[A] DSAT recordou que a RAEM lançou “atempadamente” o concurso público para a atribuição de licenças gerais de táxis ao abrigo da nova lei de transporte de passageiros em automóveis ligeiros de aluguer, visto que alguns alvarás de táxis viram o seu prazo terminado sucessivamente, respondendo assim à procura do público no que se refere ao serviço de táxis".

2. Essa mesma entidade, em 8 de Janeiro de 2025, revelou que "até ao final do ano passado, cerca de 1.700 táxis estavam em operação em Macau, sendo que o número vai aumentar para cerca de 1.800 este mês, com mais 100 táxis a prestar serviço para responder à procura do público".

3. Em Fevereiro deste ano, 2025, em resposta a uma interpelação escrita do deputado Leong Sun Iok, a mesma DSAT veio dizer que "está a preparar um novo concurso público para substituir as licenças que vão caducar este ano. As autoridades indicaram também que estão a estudar formas para aumentar a taxa de resposta dos táxis às solicitações."

4. Nessa ocasião, a DSAT acrescentou que “continuará atenta à actualização legislativa e os trabalhos complementares relacionados com a prestação de serviços de transporte de passageiros por marcação online nas regiões vizinhas”, indicando que vai proceder aos “estudos necessários em tempo oportuno”  e que estava a estudar “o número de táxis especiais e formas para aumentar a sua taxa de resposta à chamada, continuando a auscultar as opiniões da sociedade e a apresentar sugestões, no sentido de responder às necessidades dos residentes e turistas”.

Perante isto, seria de esperar que a DSAT tivesse realizado os estudos que prometeu à população e que a urgência impunha,  em tempo oportuno, como referiu, e que já tivesse estudado as formas de aumentar a taxa de resposta dos táxis às solicitações, estando neste momento em condições de fazer os ajustamentos e dar resposta às necessidades de residentes e turistas.  

Em vez disso, temos a DSAT a dizer que só agora vai encomendar um estudo – que andou a fazer desde Fevereiro de 2025? –, embora não se saiba quando, nem a quem, nem quanto tempo esse estudo vai demorar e custar. E, como se isso não bastasse e andasse a brincar com a população, a DSAT ainda vem dizer que afinal os cem táxis que faziam falta em Janeiro de 2025 já não são precisos! 

Eu sei que os dirigentes desta terra estão habituados a tratar os residentes como gente estúpida, ou como crianças sem formação adequada e destituídas de massa cinzenta, que precisam de ser orientadas e esclarecidas com aqueles cartazes, anúncios e vídeos publicitários infantilizados, que dir-se-ia preparados para mentecaptos, com que somos diariamente brindados pelas instituições públicas. Como se não fossemos todos adultos, com suficiente capacidade de entendimento e compreensão, podendo raciocinar sem a ajuda dos dirigentes. Escusavam era de ir tão longe.

O sector dos taxistas, diz esta manhã o Ponto Final, "tem uma opinião completamente diferente e acredita que é necessário repor as licenças de táxi de acordo com a situação real do mercado". O Presidente da Associação de Auxílio Mútuo de Condutores de Táxi sugere atribuir mais licenças aos táxis pretos, realçando o tempo que leva o processo de concessão de novas licenças.

O vice-presidente do Conselho Consultivo do Trânsito, Lam Chi Chiu, "concorda com a necessidade complementar o número de táxis, uma vez que os cidadãos e turistas em Macau continuam a encontrar dificuldades em apanhar táxis", acrescentando que "o número de turistas tem vindo a subir os residentes relatam sempre que não conseguem apanhar ou chamar táxis", pelo que "em breve [se] vai intensificar a falta de táxis".

A reportagem que a TDM ontem passou no Telejornal mostrou cidadãos chineses a compararem, em chinês, a falta de táxis em Macau com o bom serviço oferecido no Interior do país. Numa terra onde toda a gente critica sempre com medo, esses cidadãos não se coibiram de apontar o dedo ao péssimo serviço de táxis que aqui temos e que toda a gente vê menos os Secretários para as Obras Públicas e Transportes, a DSAT e os seus dirigentes, passados e actuais. 

Toda a gente se apercebe do estado miserável em que está o serviço de táxis e da gritante falta de oferta, mas tal como acontecia antes, na equipa governativa que saiu e com ex-titular da DSAT, os actuais dirigentes continuam a querer fazer dos residentes estúpidos.

É com os táxis, mas é também com a poluição dos lagos Nam Van, com as obras nas estradas, com a falta de escoamento de águas de cada que chove um pouco mais, quase que reeditando o que aconteceu no tempo do tufão Hato, com tudo entupido e os carros a boiarem. A RAEM está em obras permanentemente. A região farta-se de gastar dinheiro. Aos empreiteiros, aos fiscais e aos consultores não falta trabalho. Todos enriquecem e continua-se a não se fazer nada de jeito. Os problemas são recorrentes e passam de um ano para o outro, de um Chefe do Executivo para o seguinte, sem solução e com o maior desplante de quem é pago, e bem pago, para servir os residentes. 

O Comissariado de Auditoria em 30 de Junho passado dizia que a DSAT, nem mesmo com um medíocre serviço de táxis como o que temos nesta aldeia, foi capaz de cumprir “adequadamente as suas atribuições de fiscalização, que "o problema é particularmente grave durante os horários de pico diurnos de tráfego” e que "prejudicou a realização do interesse público".

Perante isto, numa democracia decente, só haveria uma solução. Não, não me interpretem mal, não me refiro a "dar-lhes com um pano encharcado na fronha", que com isso não se resolveria nada, embora fosse o que muitos esperariam.

O que se impunha era demiti-los com o máximo escarcéu, como fazem com aqueles que "violam a disciplina do partido", pois que isto que se passa em Macau é tão ou mais grave, atentos os elevados salários que recebem e o pouco ou nada que produzem.

Impunha-se que se mostrasse à população que vão ser tomadas medidas urgentes, sérias e eficazes para se poder ter um serviço de táxis civilizado e normal, que se corrigissem todos estes desmandos, discursos, comunicados e respostas da DSAT que envergonham qualquer governação patriótica, ofendem os residentes e são uma afronta ao bom serviço de táxis que é oferecido aqui ao lado e nas principais metrópoles chinesas aos cidadãos e aos turistas que as visitam. Isso seria o mínimo.

Não há desculpa para tanto desprezo pelos cidadãos e o interesse público. Não há desculpa para tanta falta de vergonha.

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gravatas

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.08.25

Há quem não as use. Por opção, feitio ou espírito revolucionário. Há quem seja obrigado a usá-las e se sinta contrariado. Há quem fique desconfortável quando as coloca. Há quem prefira laços e lacinhos. Há quem não saiba fazer nós. Há quem pura e simplesmente não goste delas. E há, ainda, quem não gostando de se sentir apertado aprecie tecidos, cores e padrões, não passando sem elas. Por gosto, obrigação e culto.

No Estio, nos dias de mais calor, ou porque a estação apela a vestimentas mais ligeiras, podem tornar-se desconfortáveis. Noutras épocas suportam-se bem. Falo por mim.

Já terão percebido que me estou a referir a gravatas. E hoje lembrei-me delas por duas coincidências.  Por causa de um filme de Sorrentino e de um documentário – Uma vetrina chi guarda il mare – realizado por Massimiliano Gallo. Ambos, aliás, belíssimos, e trazendo-me à memória recordações de uma passagem pela cidade onde todos são, como alguém disse, filhos de Parténope.

Tanto no filme do primeiro, como no documentário do segundo, as personagens, o perfume da fotografia, o recorte das imagens, as vozes que se tornam familiares, a música e o azul vesuviano deslocam-nos para uma outra dimensão do tempo e do espaço. Dir-se-ia que estes vêm e vão ao longo do fio das histórias, mergulhando na profundidade do tempo para sempre regressarem à leveza dos dias que acompanham as marés, à aurora e ao entardecer.

E falar de gravatas é lembrar Nápoles e a Via Riviera di Chiaia, 287, próximo da Piazza della Vittoria, assim chamada em homenagem ao final da I Grande Guerra.

É nessa morada que fica um pequeno estabelecimento comercial onde são produzidas algumas, sendo certo que o gosto é algo sempre muito aleatório e discutível, das melhores, mais finas e bonitas gravatas deste planeta, sem que eu saiba se haverá outro onde tal coisa se produza com tanto esmero.

Também lá se fazem camisas e fatos, e ultimamente houve um alargamento do universo da clientela, que deixou de ser exclusivamente masculina, a avaliar pelo que actualmente se encontra disponível na Internet para quem não queira ou não possa deslocar-se até lá, ou visitar uma das lojas que entretanto abriram noutras paragens.

Tudo começou em 1914, quando o fundador, Eugenio Marinella, se lembrou de começar a importar de Inglaterra gabardinas da Aquascutum, perfumes e águas-de-colónia de Floris e Penhaligon’s, guarda-chuvas da Bridge e da Brics, sapatos de J & Dawson e chapéus da Lock & Co., fazendo camisas e fatos de homem por medida. Pretendia-se que ali ficasse “un piccolo angolo di Inghilterra a Napoli” (Matilde Serao).

Endividou-se junto de Banco de Nápoles e ali abriu um estabelecimento de apenas 22 metros quadrados, que aguentou duas guerras, sobreviveu ao fascismo, a bombardeamentos, assistiu à chegada das tropas aliadas a Salerno, em 1943, ao desembarque das brigadas marroquinas, à libertação e, mais recentemente, a uma cimeira dos G-7, até produzir em 2021, numa colaboração com a Orange Fiber, os presentes oficiais dos G-20, em Roma.

As gravatas tornaram-se no principal objecto de produção a partir do final da II Guerra, inserindo-se na melhor tradição artesanal italiana. Feitas à mão, num trabalho cuidado e paciente, numa empresa em que “tudo o que ali nasce vem do passado”, e este é respeitado em “atenção ao futuro”, tornando-se num objecto de culto para os seus amantes.

E de tal forma é assim que entre os seus clientes estão registados nomes de reis, de presidentes, de famosos de todo o mundo, uns mais antigos, outros mais actuais, uns com boa fama, outros que ganharam má fama, dos Kennedy a Chirac, de Berlusconi a Clinton, de Obama a Sarkozy, de Giovanni Agnelli a Alberto do Mónaco, de Juan Carlos de Espanha a Aristóteles Onassis, de Carlos III a Trump, de Gorbatchev a Putin e Mubarak. Maurizio Marinella diz mesmo que fez gravatas para todos os presidentes dos EUA desde John Kennedy.

Os tecidos continuam a chegar de Inglaterra e a casa está hoje na sua quarta geração, com a cidade a ver abrir a sua loja, todas as manhãs, às 6:30. Até nisto se mantém o peso da tradição.

A qualidade da sua produção, o estatuto e prestígio conquistados, e a sua fama, levaram quatro gravatas da casa Marinella à exposição “Items: Is fashion modern?”, no Moma, em Nova Iorque, em 2017/2018.

Para a divulgação internacional das gravatas, que se espraia em várias línguas, em revistas e jornais de todo o mundo, foi fundamental o contributo de nomes como Enrico de Nicola, Francesco Cossiga e Giulio Andreotti. Famosas ficaram as ofertas dos dois primeiros, enquanto Presidentes de Itália, de conjuntos de cinco ou seis gravatas aos seus homólogos, que por essa via se terão tornado nos principais embaixadores da marca, hoje um símbolo da tradição, da qualidade e da excelência italianas.

Mas de que serviria tudo isso, como ascender a tal patamar, perguntar-se-á, se o produto em causa, as gravatas, não fossem elas próprias um hino ao bom gosto, à elegância e à beleza, ou a mais do que isso, à classe e ao culto de um certo estilo que jamais passa de moda e terá sempre os seus admiradores. Quantas empresas, marcas, produtos alcançaram sucesso e desapareceram no espaço de um século, sem que hoje ninguém saiba o seu nome nem o que foi produzido?

Há uma particularidade que aqui convém referir e que é o seu preço, acessível a quase todas as bolsas, sem atingir os valores estapafúrdios e disparatados de outras marcas que sem igual história, peso ou qualidade, muitas vezes com padrões horripilantes e materiais desconfortáveis e desagradáveis ao toque vendem as suas gravatas por valores absurdos para gente normal, e só ao alcance de ricos, novos-ricos, cleptocratas africanos, autocratas asiáticos, labregos endinheirados e criminosos à solta.

Nada é normal em Nápoles”, diz-se no documentário que acima referi, no que não se deverá estar muito longe da verdade.

Mas numa cidade em que não há meio-termo, que se ama ou se odeia, e em que muitas vezes se tem a sensação de que tudo ali oscila entre extremos, da paixão ao ódio, da riqueza à miséria, da alegria à tristeza, da luz à escuridão, a história da Marinella, pelas vicissitudes por que passou, é modelo de equilíbrio e perenidade, cuja história será, à sua dimensão e salvaguardadas as distâncias, uma parte da própria história da cidade, e que com ela se confundiu a partir do momento em que se tornou, pela paixão e ousadia de um homem, em sua extensão e símbolo.

E se no final destas linhas ainda tiverem curiosidade, estando nós em Agosto e pela silly season, vejam então o filme de Sorrentino, com os olhos e a distância de quem vê cinema, e o documentário que vos recomendo.

Deliciem-se com as imagens, dêem um mergulho nas águas do golfo, aproveitando os dias quentes e longos, e atentem, em especial, no segundo, na belíssima canção que se escuta a partir do minuto vinte e dois.   

 

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aurora

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.08.25

13(créditos: daqui, da Isabel e da Victória

Sim, desta vez as luzes vieram do norte, é verdade, mas foi a sul que brilharam. Foram cortinas, espirais e raios luminosos que iluminaram o céu da Luz orientados pelas estrelas do nosso cruzeiro sulista formado por Otamendi, Silva, Ríos e Barrenechea. Mais acerto no passe e na hora de rematar, mais entreajuda, visão biónica e sorte a dobrar desejam-se já para dia 16 de Agosto, com o Estrela da Amadora, e depois, para a semana, no inferno de Istambul. 

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factos

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.08.25

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"Com os fundamentos acima expostos, o Tribunal Constitucional:

a) Pronuncia-se pela inconstitucionalidade da norma do n.º 1 do artigo 98.º da Lei n.º 23/2007, de 4 de julho, na redação decorrente das alterações introduzidas pelo artigo 2.º do Decreto n.º 6/XVII da Assembleia da República, por violação dos artigos  36.º, n.ºs 1 e 6, 18.º, n.º 2, 67.º, n.º 1, 68.º, n.º 1, 69.º, n.º 1, 71.º, n.º 2, 72.º, n.º 1, da Constituição;

b) Pronuncia-se pela inconstitucionalidade da norma do n.º 3 do artigo 98.º da Lei n.º 23/2007, de 4 de julho, na redação decorrente das alterações introduzidas pelo artigo 2.º do Decreto n.º 6/XVII da Assembleia da República, por violação dos artigosº, n.ºs 1 e 6, 67.º, n.º 1, 68.º, n.º 1, e 69.º, n.º 1, da Constituição;

c) Pronuncia-se pela inconstitucionalidade da norma do n.º 3 do artigo 101.º da Lei n.º 23/2007, de 4 de julho, na redação decorrente das alterações introduzidas pelo artigo 2.º do Decreto n.º 6/XVII da Assembleia da República, por violação da alínea b) do n.º 1 do artigo 165.º da Constituição;

d) Pronuncia-se pela inconstitucionalidade da norma do n.º 1 do artigo 105.º da Lei n.º 23/2007, de 4 de julho, na redação decorrente das alterações introduzidas pelo artigo 2.º do Decreto n.º 6/XVII da Assembleia da República, quando conjugado com o n.º 3 do artigo 98.º, na redação decorrente das alterações introduzidas pelo artigo 2.º do Decreto n.º 6/XVII da Assembleia da República por violação dos artigosº, n.ºs 1 e 6, 67.º, n.º 1, 68.º, n.º 1, 69.º, n.º 1, da Constituição.

e) Pronuncia-se pela inconstitucionalidade da norma do n.º 2 do artigo 87.º-B, aditado à Lei n.º 23/2007, de 4 de julho, pelo artigo 3.º do Decreto n.º 6/XVII da Assembleia da República, por violação dos artigos 20.º, n.º 1, 18.º, n.º 2, e 268.º, n.º 4, da Constituição.

f) Não se pronuncia pela inconstitucionalidade das demais normas que integram o pedido."

 

O Tribunal Constitucional deu razão às dúvidas suscitadas pelo Presidente da República e declarou cinco inconstitucionalidades nas alterações propostas pelo Governo à Lei n.º 23/2007, ultimamente conhecida como "Lei dos Estrangeiros".

O líder do Chega já se apressou a convocar uma manifestação – "grande concentração nacional" –, na linha do que costumam fazer os comunistas e a extrema esquerda, e recorrendo ao mesmo palavreado, "contra o veto presidencial à Lei dos Estrangeiros". A manifestação terá lugar à porta do Palácio de Belém, local adequadíssimo para o efeito. 

Diz Ventura que "vamos [eles] à porta do Presidente da República fazer ouvir e sentir a nossa voz [deles]. O nosso país está-nos a ser roubado."

Bastante eloquente e democrático pelo que isso significa em matéria de aceitação das regras da democracia e do Estado de Direito.

E acrescentou, o dito Ventura, sempre muito agastado com tudo o que contrarie a sua narrativa, que "a decisão de inconstitucionalidade sobre a lei dos estrangeiros não é compreensível".

Se tivesse lido e se tivesse informado talvez se tornasse compreensível.

O jovem "ministro da propaganda", Leitão Amaro, veio esclarecer que poderá haver um ajustamento de rota, mas que o destino será o mesmo.

Tenho sérias dúvidas de que no momento em que fizeram essas inflamadas afirmações qualquer um daqueles tivesse sequer lido, com atenção, o teor do extenso acórdão e os respectivos votos de vencido, que aqui deixo na íntegra para quem quiser conferir

Em todo o caso, seria bom que se percebesse, ao contrário da ideia que se quis fazer passar, que o problema não é de fácil resolução, que as inconstitucionalidades não são desprezíveis e/ou irrelevantes, e que a margem de rejeição não foi mínima, tudo não passando de uma cabala dos "esquerdalhos", para usar a sua elevada linguagem, motivada por preconceitos ideológicos de alguns, poucos, e ainda assim a maioria, dos juízes do Tribunal Constitucional.

Independentemente das considerações jurídicas que gente muito mais habilitada, e informada, do que eu possa fazer sobre o que está verdadeiramente em discussão, não deixei de registar que as inconstitucionalidades não se cingiram a uma ou duas normas, tendo sido apontadas múltiplas em relação a várias normas. 

E também seria bom que se assinalasse que até senhores conselheiros indicados pelo PSD registassem a dado passo num dos votos de vencido que a "reda[c]ção destes preceitos está longe de ser famosa, causando especial perplexidade o uso das expressões «dentro» e «fora» do território nacional – matéria em que acompanhamos a interpretação proposta no acórdão (...)", o que é bem revelador do cuidado colocado pelo Governo nas alterações propostas e de que nem tudo o que foi proposto é isento de crítica, até por quem partilha, pelo menos nalguns pontos, das mesmas convicções ideológicas e foi indicado para aquele órgão de soberania pelo partido do Governo. 

Outra nota que aqui gostaria de deixar à vossa reflexão resulta de uma notícia de ontem, no Público (Liliana Borges, página 11), em que se esclarece terem as primeiras duas normas julgadas inconstitucionais o terem sido numa votação de 8 contra 5. Já na terceira norma foi verificada a inconstitucionalidade por 9 votos contra 4. O resultado da votação quanto à quarta norma foi de 8 contra 5 e na quinta norma julgada inconstitucional foi de 7 contra 6, único caso em que a diferença de votação entre os senhores conselheiros foi de apenas um voto.  

Bem sei que para a turba será irrelevante ler o acórdão, comprido e aborrecido, ou perceber o que tudo isso significa. O importante é cavalgar a onda e mergulhar na espuma, mas aqui ficam curtos reparos que me parecem devidos para quando forem plantar-se à porta do Palácio de Belém e do Tribunal Constitucional.

[Nota: Já depois de elaborado este postal, fui alertado para a eventualidade de haver um eventual erro na filiação partidária, que não na proximidade política, e exercício de mandato autárquico em Lisboa por parte de um dos senhores juízes, embora o dado estivesse/esteja disponível na Internet. Na dúvida, sem confirmação absoluta, editei o texto e eliminei essa passagem, já que esta em nada compromete o essencial do texto.]

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