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Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.
Pese embora o facto de só haver onze candidatos admitidos às eleições presidenciais de Janeiro de 2026, tudo indica que os boletins de voto contarão com 14 nomes.
Isto é, também deles constarão os candidatos excluídos, aqueles cujas candidaturas não foram validadas pelo Tribunal Constitucional.
Não sei se ao candidato Seguro, ou a outro qualquer, servirá de alguma coisa contestar a inclusão no boletim de voto dos excluídos, mas num país em que quase tudo é a fingir, do Governo ao Ministério Público, dos partidos políticos aos candidatos presidenciais, deputados e ministros, e em que o melhor exemplo que o primeiro-ministro Luís Montenegro conseguiu encontrar de superação e referência para os seus compatriotas, numa mensagem de Natal, é o de um futebolista milionário, admirador de Donald Trump e da ditadura saudita, condenado numa pena de prisão de 23 meses, por fuga ao fisco, a que só escapou depois de pagar mais de 18 milhões de euros ao estado espanhol, é natural que os boletins de voto correspondam ao modelo defendido. Ao modelo ético-moral vigente.
Continuemos, pois, a cantar e a rir, embriagados pela aparência do sucesso, que quando dermos pela paulada já será tarde.
Actualização: confirma-se.
(19/12/2025)
Esta manhã fiquei a saber que a Assembleia Legislativa "deu luz verde" a uma proposta de lei do Executivo que aumenta o salário mínimo em 1 MOP/por hora, ou seja, 0,11 cêntimos do Euro. Isto representa um valor de salário mínimo, para os que conseguem recebê-lo, de MOP$7.280,00, muito acima do que é pago aos trabalhadores domésticos.
Pelos números divulgados, apenas 18.200 pessoas, cerca de 4,4% do total dos trabalhadores, beneficiará desta "benesse" que, inclui dizer, não garante que recebam 13 meses de vencimento.
Enquanto isto acontece, continuamos a assistir ao encerramento de centenas de estabelecimentos comerciais de pequena e média dimensão pela cidade fora. Mesmo alguns há vários anos instalados em artérias principais fecham portas. Bem no centro da cidade, no Macau Square, onde funcionam múltiplas empresas, supermercados, lojas de conveniência e escritórios, incluindo Serviços do Ministério Público e o Tribunal Judicial de Base, em plena Avenida Infante D. Henrique, desaparecem lojas emblemáticas. Uma delas a Oriental Watch.
Não é, pois, apenas na zona do ZAPE e do NAPE que isso acontece. O fenómeno estende-se a toda a cidade.
(19/12/2025)
Diz-me um amigo que a "operação de limpeza" está para continuar.
Continuo sem perceber bem de quê ou de quem porque continuo a ver por aí muitas moscas que se limitam a mudar de um poiso para outro quando as enxotam. E algumas até têm boas perspectivas de continuidade.
E calculo que a diversificação também esteja para continuar, pese embora o constante aumento das receitas do jogo.
O esforço deve estar a ser colossal porque com os números que têm sido divulgados, com uma dezena de casinos-satélite já encerrados, com o Landmark a ser o último a fechar antes do virar do ano, é impressionante ver que as receitas continuam a aumentar e a dependência do orçamento do universo do jogo em vez de diminuir cresceu, e aquelas já sustentam 83% das receitas públicas.
Temia-se que com o "fim" do modelo vigente, o "extermínio" de alguns junkets e as mudanças operadas no mercado VIP, com a agulha a orientar-se para as diversas vertentes do mercado de massas, as receitas diminuíssem. Não foi isso que aconteceu.
Deve haver uma explicação "científica" para isso, tanto mais que o preço dos quartos em hotéis de luxo continua a cair, o volume do negócio a retalho caiu 5,4% e a inflação atingiu o valor mais elevado dos últimos 14 meses.
Entretanto, ficamos ainda a saber que o Aeroporto Internacional de Macau piorou o seu desempenho e fechará 2025 com menos 200 mil passageiros, e isto para já não falar na queda dos resultados nalguns bancos.
Os motivos de satisfação neste final de ano serão certamente muitos, embora eu não os esteja a ver correctamente nestes dias cinzentos e de ar insalubre. Os números é que enganam, deverá estar tudo truncado, mas garanto que a culpa não é minha.
Porém, enquanto não me chegam as análises radiosas, e radiantes, dos nossos especialistas, que contrariem os deputados Chan Lai Kei e Leong Sun Iok, que em vez de aplaudirem estes tempos que vivemos perdem tempo a alertar o Governo "para os problemas comunitários e para a necessidade de distribuir recursos financeiros de forma mais equitativa", fico-me com as auspiciosas palavras do nosso Chefe do Executivo: "a situação geral da sociedade de Macau permanece harmoniosa e estável, com progressos constantes no desenvolvimento económico e social".
Ainda bem. É só continuar como até aqui.
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(créditos: Alan Yung, 2024)
Em 24 de Outubro p.p., a TDM deu a notícia de que nos primeiros três trimestres de 2025, a RAEM tinha recebido 29,67 milhões de visitantes.
Visitantes não são turistas, não é exactamente a mesma coisa, mas é gente que não vive em Macau e por cá passou, não deixando esse número de ser em qualquer caso impressionante.
Pois bem, esta manhã, o jornal Ponto Final escrevia que "Macau recebeu 36,5 milhões de visitantes entre Janeiro e Novembro, mais do que em todo o ano de 2024", dado fornecido pela directora dos Serviços de Turismo.
A mesma notícia, com origem na agência LUSA, referia que nos primeiros dez meses de 2025 "Macau recebeu quase 2,97 milhões de turistas vindos do estrangeiro, mais 14,9% do que no mesmo período do ano passado", apontando Helena de Senna Fernandes como meta a atingir "mais de três milhões de visitantes".
E ainda hoje, outro matutino, o Jornal Tribuna de Macau, noticiava que "em 2025 um total de 20,4 milhões de visitantes “internacionais” viajou para Macau". A notícia esclarece que para a fonte se "considera “visitante” internacional qualquer pessoa que visite uma cidade noutro país ou região pelo menos por 24 horas".
Este critério não é sério e não serve a informação. Já se percebeu que alguém anda a vender ilusões e a confusão que por aí grassa, aumentada com notícias deste teor, só serve para se atirar poeira para os olhos das pessoas.
Se queremos ser sérios temos de distinguir nesses números, em primeiro lugar, os meros visitantes, entre os quais certamente se incluem os que diariamente atravessam as fronteiras de Macau de manhã e à noite para aqui virem trabalhar ou, simplesmente, visitarem um mercado e comprarem umas couves do outro lado da fronteira, e os que mesmo aqui pernoitando não pagam alojamento, dos verdadeiros turistas e viajantes que demandam a RAEM para a conhecerem, visitarem os seus pontos de interesse cultural e turístico, fazerem compras, refeiçoarem e pernoitarem pagando pela dormida e gerando receitas dignas desse nome.
A seguir, é preciso saber o que são visitantes "internacionais". O JTM na notícia refere 20,4 milhões de turistas "internacionais".
O que é isto quando ontem o PF escrevia que 2,97 milhões de turistas vieram do estrangeiro e a meta da DST é ultrapassar os 3 milhões? Como se podem contabilizar turistas "internacionais" de forma séria se os números misturam nacionais, residentes de Zhuhai e Hong Kong com estrangeiros. Que números são estes, que raio de critério se adoptou, e para que servem esse números que o JTM divulgou?
Não vejo qual o interesse destas estatísticas. Seria bom que se acertassem os critérios para que as pessoas não sejam confundidas com os números.
Turismo internacional é, creio, só o que vem de fora do país, isto é, aquele que não vem do interior, nem de Hong Kong, nem da região de Taiwan. Todos estes ou são "visitantes" internos ou "turistas nacionais", se lhes quisermos chamar turistas.
É importante ser rigoroso neste tipo de notícias. Macau não tem, nunca teve, 20,4 milhões de turistas "internacionais" em 2025, menos ainda quando tão-pouco chegámos ao final do ano.
A imprensa não pode estar ao serviço deste tipo de notícia propagandística e com fins pouco claros – como alguns "prémios" que se atribuem a empresas e personalidades – porque essa atitude em nada contribui para o esclarecimento das pessoas e a seriedade estatística dos números.
Sob pena de os números que se vão divulgando a eito, a toda a hora e mais alguma, sem qualquer critério, apenas servirem o histerismo de alguns lambedores de selos, a fraude e a propaganda para incautos.
Já calculava que alguns dos "debates" entre os candidatos às próximas eleições presidenciais seriam muito pouco interessantes, iriam esclarecer nada ou quase nada, e que só serviriam para continuar a transmitir uma péssima imagem dos nossos (deles) actores políticos, mostrando nalguns casos a sua manifesta impreparação, falta de sentido de Estado, oportunismo, irresponsabilidade política e total desprezo pela situação do país e dos portugueses.
Confesso que nunca pensei é que se viessem a revelar bem piores do que aquilo que poderia imaginar nos maiores pesadelos.
Da falta de ideias à de educação, da linguagem desbragada ao estilo carroceiro, com frases e apartes de estrebaria, gritaria, mãos e braços no ar, sem esquecer mentiras, insultos, falsas verdades, omissões convenientes e incoerências, nada tem faltado.
O pseudodebate de ontem entre Catarina Martins e André Ventura, que aproveitei para ver durante a minha hora de almoço, é apenas mais um exemplo de algo que nunca deveria ter acontecido. E admiro a paciência do entrevistador, por muito bem paga que seja.
Aos debates que se têm visto seria preferível o silêncio.
Este seria bem mais enriquecedor, educativo e muito menos ofensivo da dignidade nacional.
E os portugueses continuariam tão esclarecidos sobre as ideias dos candidatos presidenciais como estavam antes. Sem "debate".