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tdm

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.05.24

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Completam-se hoje quarenta anos sobre o início das emissões televisivas da Televisão de Macau. A data merece ser assinalada e deverá constituir matéria de reflexão sobre o seu passado, o seu presente e o futuro que dela se espera.

Muito embora tivesse sido, ao longo destas quatro décadas, muitas vezes utilizada como um instrumento de propaganda ao serviço do poder político, do almeidismo ao vierismo, dos senhores da terra aos novos régulos, passando por momentos difíceis, tanto a nível da gestão, com administradores detidos, como do seu financiamento, importa referir que não foi por isso que deixou de ir prestando, muitas vezes contra ventos e marés, um bom trabalho, tanto em matéria de informação, como de entretenimento, de formação de audiências e difusão da cultura e do conhecimento, aproximando povos e nações, dando a conhecer realidades próximas e longínquas, de muitos desconhecidas, contribuindo para um melhor entrosamento entre a cidade e os seus residentes.

Esse bom trabalho ficou a dever-se, em primeira linha, à qualidade das sua equipas, quer técnicas, quer de jornalistas, que com meios exíguos – actualmente ainda mais – souberam ao longo dos anos ultrapassar dificuldades, fazer das tripas coração, ignorar desconfianças várias e gerir as crises com sabedoria, para apresentarem um trabalho decente, prestando um serviço útil e fiável à população.

Com a TDM chegou gente de imensa qualidade até Macau; formou outros de igual valia, e depois também levou muitos para outras paragens, para grandes órgãos de comunicação social portuguesa e internacional, onde puderam mostrar toda a qualidade da formação de base adquirida em Macau.

Alguns há que, felizmente, ainda por cá continuam, com poucos e escassos meios, fazendo milagres e colocando o seu saber e experiência ao serviço de toda a comunidade, também ajudando a divulgar e a democratizar vários idiomas na comunidade, e não apenas os oficiais, contribuindo para a formação de um público cada vez mais exigente, e para a criação de pontes entre mundos que vivendo separados se foram conhecendo melhor e passaram a comunicar entre si num outro patamar e com outras referências.

Nos últimos anos, mercê das vicissitudes políticas por que a RAEM tem passado, assistiu-se, no canal português, que é aquele que sigo e acompanho diariamente, a um desinvestimento em diversos níveis, quer em meios técnicos, quer humanos, quer, ainda, na qualidade dos programas ou no simples mobiliário e decoração dos estúdios, não raro paredes-meias com um indescritível mau gosto.

Os programas de discussão da actualidade política e internacional tornaram-se residuais, avulsos, sem continuidade, o que se revela ainda mais patente na comparação com o que continua a fazer-se em Hong Kong. O unanimismo instalou-se. A crítica interiorizou-se, silenciou-se. Alguns houve que rapidamente se serventualizaram e vivem felizes com esse estatuto.

As vozes que garantiam a pluralidade do debate e entusiasmavam audiências desapareceram, substituídas que foram por rostos, vozes, discursos e programas cada vez mais anódinos e alinhados com o discurso oficial, alguns de características medíocres, requentados, servindo simplesmente objectivos de mera propaganda – política, empresarial, pessoal –, nada acrescentando ao conhecimento dos seus destinatários, e que apesar disso são depois repetidos ad nauseam, por vezes com curtos intervalos entre as emissões.

A informação tornou-se muitas vezes desequilibrada, oscilando entre o excepcional, o mediano e o sofrível, sem se perceber muito bem, para além do poder avulso de quem manda no momento, ao serviço de quem é que está. A gestão burocratizou-se e funcionalizou-se. O jornalismo e a informação perderam autonomia, por vezes assumindo posições subservientes e posicionando-se como meros instrumentos para realização dos objectivos políticos definidos superiormente.

Apesar de todos os altos e baixos continua a prestar um serviço essencial, particularmente ao nível da informação sobre o que se passa na cidade, na região e no país, o que se reveste de ainda maior importância quando os deuses que controlam os fenómenos climatéricos resolvem fazer das suas na região e arredores.

Por tudo isso, a TDM e todos aqueles que a construíram e trouxeram até hoje, formando pessoal, contribuindo para a formação de novas mentalidades, difundindo-as, promovendo o debate, mesmo em tempos de chumbo e de acelerada descaracterização da autonomia da região, quando era mais cómodo simplesmente papaguear, conferindo-lhe identidade e tornando-a num símbolo de Macau e das suas gentes, merecem ser saudados.

É o que aqui faço, desde já enviando, contra ventos cada vez mais fortes que sopram de diversos quadrantes, na pessoa desse resistente decano, símbolo do profissionalismo televisivo e farol do rigor informativo, o que não é colocado em causa pelo colorido e excentricidade de algumas gravatas que me poderiam levar a refrear o cumprimento, um forte abraço ao Jorge Silva, que espero não me leve a mal o abuso e torno extensivo aos que o acompanharam nesta caminhada desde os primeiros tempos, fazendo votos de que a TDM tenha vida e saúde durante muitos e bons anos, aproveitando para desejar à estação, se tal ainda for possível, que recupere algum do muito prestígio perdido de há meia-dúzia de anos a esta parte, corrigindo disfuncionalidades, melhorando o que está mal, dando-lhe mais meios – porque isto também é do interesse de quem manda se for capaz de ver mais à frente do apito e para lá da espuma dos dias –, difundindo a cultura, o pensamento e o espírito crítico, dentro e fora da estação, sem medo dos novos censores, entretendo, informando e divertindo; em suma, promovendo Macau no mundo e aproximando culturas, povos e nações.

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