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por Sérgio de Almeida Correia, em 20.04.24

Douro Boys | ENOBAHIA

Aproveito a VI Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), mais conhecido como Fórum Macau, e a vinda à RAEM do novo ministro da Economia de Portugal, Pedro Reis, para escrever algumas linhas sobre um problema de natureza prática que afecta a reputação de Portugal no exterior. Penso que nenhum governante minimamente interessado e competente deixará de prestar atenção às consequências das más apostas e das boas políticas, pois qualquer que seja o caso perduram no tempo. E, nalguns casos, colam-se de tal forma ao país que muitas vezes se torna difícil, quando o produto é mau, recuperar de um desastre. 

Ainda tenho na memória a crise que se abateu há quatro décadas sobre as exportações de azeite espanhol depois da crise da síndrome da colza ou do azeite tóxico, que afectou mais de 20 mil pessoas e provocou mais de um milhar de mortos. Tudo porque o óleo de colza desnaturado que era utilizado na indústria, devido à ganância do lucro, foi adulterado e desviado para consumo humano. O Supremo Tribunal espanhol considerou o Estado espanhol co-responsável pelo sucedido e o azeite de Espanha levou um abanão do qual levou anos a recompor-se. Em 2001 foi o óleo de bagaço de azeitona com benzopireno, um produto cancerígeno e péssimo para a saúde, a causar novos problemas.

Aqui o assunto não é tão grave e o exemplo serve apenas como chamada de atenção para o importante papel que o Estado, e neste caso específico o Ministério da Economia, tem na definição de políticas, na promoção das nossas exportações e no papel que algumas instituições devem assumir na defesa do nome de Portugal e dos bons produtores nacionais.

Ao longo da minha vida, e até da conversa com amigos que exploram negócios, nomeadamente restaurantes e lojas de venda a retalho de produtos alimentares (vinhos, enchidos, queijos, produtos de cosmética, por exemplo) em diversos pontos da Ásia, tenho-me apercebido da necessidade de se fazer uma aposta na qualidade dos produtos que são exportados pelos produtores portugueses, que aparecem  e saõ apoiados em campanhas promocionais no exterior, participando em feiras internacionais por todo o mundo. Muitos produtores têm eles próprios capacidade de inovação e de internacionalização e estão cientes da importância de se exportar com qualidade. Veja-se o caso dos Douro Boys e como a sua aposta no melhor vinho que se produz na região que abraça o rio que lhes deu nome se tem revelado um sucesso na China. 

O programa do XXIV Governo de Portugal enfatiza em diversos pontos uma aposta na internacionalização e no aumento de competitividade da economia portuguesa, referindo mesmo a aposta num “novo paradigma da economia portuguesa”, a exigir instituições e um tecido empresarial capaz de se posicionar entre os melhores a nível europeu e mundial, orientando os fundos europeus para “proje[c]tos que permitam à economia promover a criação de riqueza, que potenciem as vantagens competitivas nacionais e que elevem o valor acrescentado da economia portuguesa e que promovam as exportações, assente em critérios de sele[c]ção claros, uma aplicação transparente e fiscalização rigorosa.”

Oxalá assim seja. Quem circule pelos supermercados de Macau, de Hong Kong e de outras cidades asiáticas, já se terá apercebido da co-existência nas suas prateleiras e corredores de produtos portugueses de excelente qualidade, apreciados e venerados por qualquer gastrónomo ou enófilo, com outros produtos de péssima qualidade. Do pior que se produz e vende inclusivamente em Portugal. Estar a exportar presunto com menos de seis meses de cura, intragável, queijos industriais que são uma verdadeira pasta, peixe “prensado” e muitas vezes congelado em deficientes condições, de péssimo sabor, cheiro repelente e pior textura, são produtos exportáveis que em nada contribuem para uma boa imagem do país no exterior. 

E, ao contrário do que já ouvi por aí, não se trata apenas de um problema de mercado do tipo “se o consumidor não gostar não volta a comprar”. Porque da primeira vez pode vender-se tudo; depois  exporta-se uma segunda vez, para já não se vender como da primeira ou ser comercializado no destino, em final de prazo, com 50% de desconto. Os consumidores têm boa memória e dificilmente haverá uma terceira vez porque a seguir virá produto idêntico de Espanha, do Chile, de Itália ou da Austrália, a preços igualmente competitivos e de melhor qualidade. 

O Ministério da Economia deverá conduzir internamente  campanhas massivas de consciencialização dos produtores nacionais para a imperiosidade de se produzir com qualidade para a exportação. E através do AICEP e da rede consular tem de fazer um aposta nessa qualidade, no melhor que somos capazes de produzir para diferentes segmentos de mercado, mas que terá de ser necessariamente acessível a várias bolsas nos países de destino. 

O que não se pode de todo é apoiar as exportações e a presença em certames internacionais apenas por apoiar. Tem de haver critério, tem de haver selecção nos apoios e no que se deixa sair. Não pode haver apoio, seja a que nível for, à exportação da mediocridade. Não se podem exportar nacos de banha dentro de tripa com o rótulo de “chouriço tradicional” porque nem é chouriço nem é tradição em parte alguma do país comer o que não presta.

Isto não significa, obviamente, promover as empresas dos amigos e correligionários do partido que estão sempre disponíveis para agilizar negócios, financiá-las e abrir a porta dos fundos aos fala-barato que travestidos de empresários ou fazendo de "secretários de Estado", andam por aí e vão percorrendo a rede consular, visitando os amigos e “irmãos”, falando de cátedra sobre a política nacional, como se fossem umas drag queens, arregimentando apoios para as próximas eleições, enquanto gesticulam muito e vão amealhando comissões de intermediação à custa de um lobbying fomentado à sombra das juventudes partidárias e que não raro dificilmente se distingue do tráfico de influências.

Os exemplos que nos chegam de França, de Itália, da África do Sul, da Austrália, da América do Sul, ou de países europeus com a dimensão de uma Dinamarca, de uma Bélgica ou dos Países Baixos, mostram que é possível produzir a preços competitivos, com qualidade e exportar em quantidade. Portugal também pode e deve fazer o mesmo. Já que não somos capazes de segurar os nossos melhores dentro do país, ao menos que sejamos capazes de exportar o melhor. Que chegue a todos e a preços competitivos. Olhem para a rapaziada dos Douro Boys. Não será muito difícil fazer como eles, ganhar escala, dimensão e cultivar a excelência. E que não haja medo. A qualidade dá sempre frutos a médio e longo prazo. 

Por uma vez sejamos inteligentes e façamos alguma coisa por Portugal e os portugueses. A começar com o que enviamos para a China e os PLP. As câmaras de comércio, os consulados e o AICEP não servem só para jantaradas. Deles se espera que sejam úteis e façam o melhor por Portugal. Muitos já o fazem. É preciso alargar a rede e cultivá-la com critério, controlando o que de mau sai de Portugal para o exterior. E aí é fundamental o papel do Ministério da Economia. Não sejamos tolerantes com a mediocridade. Ainda que seja da nossa cor política.

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