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retardador

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.24

Macau Jockey Club, horse racing(créditos: AGB)

Ao que parece, ninguém, nem mesmo o Governo da RAEM, que já andava em conversas com a concessionária, terá ficado surpreendido com o anúncio do fim da concessão do Macau Jockey Club

Para além de na altura da prorrogação da concessão, atentas as condições em que ocorreu, com dívidas vencidas à RAEM e obrigações por cumprir, muitos se terem questionado sobre as razões que estavam por detrás da outorga de um período extenssíssimo, que só terminaria em 31 de Agosto de 2042, certificou-se ontem ter sido essa mais uma má, péssima, decisão pela qual, creio, ninguém será responsabilizado.

E as razões para a responsabilização seriam imensas, visto que a decisão correcta não teria sido a prorrogação da concessão, mas sim o seu resgate, o que há muito deveria ter acontecido tantas eram as obrigações por cumprir. 

Paulo Chan, ao tempo responsável pela DICJ, justificou a decisão, estranhamente, com a necessidade de diversificação. Diversificação de quê se na altura já havia milhares de milhões de dívidas? Da má gestão?

Sim, porque como foi devidamente sublinhado, se a situação do Macau Jockey Club era aterradoramente má, e a empresa estava à beira do abismo, porque quis o Governo que fosse então dado um passo tão insensato, prorrogando a concessão, para se acabar agora com as corridas de cavalos, quando ainda faltam quase duas décadas para o fim do prazo acordado? Mas havia alguma coisa naquela situação em que uma pessoa normal pudesse acreditar que iria correr bem?

Não é preciso sequer ir tão longe, como fez Niall Murray, comparando Macau com Hong Kong, porque para fazer é preciso saber.

E o que era estranho antes, ainda mais obscuro se tornou depois da publicação da Ordem Executiva n.º 2/2024 e de mais duas surreais conferências de imprensa.

Na primeira, a do Secretário para a Administração e Justiça, ficámos a saber que afinal está tudo bem, que o Governo aceitou o pedido de rescisão porque a concessionária "não conseguiu obter benefícios económicos nem sociais", e que "ainda que a companhia não tenha cumprido o estipulado no contrato de concessão e agora tenha pedido a rescisão, o Governo não vai receber nenhum tipo de compensação", até porque o contrato negociado entre as partes, isto é, pelo anterior Governo, não continha outras penalidades para além da suspensão ou da rescisão.

O brilhantismo desta explicação só seria ultrapassado com o facto da própria concessionária, Companhia de Corridas de Cavalos de Macau, S.A, na segunda sessão, confessar que no momento da prorrogação da concessão não tinha condições, objectivas e realistas, para poder cumprir os seus sonhos megalómanos.

A pandemia foi a machadada final, visto que deixou de ser possível continuar a "empurrar com a barriga" ou a varrer para debaixo do tapete, tantos eram os buracos que este apresentava.

Esperemos que, entretanto, até 31/3/2025, a situação dos trabalhadores, dos cavalos e dos credores se resolva, e aquele espaço não veja lá crescer mais um mega empreendimento imobiliário ou um parque de diversões com mais bonecada horrorosa e deusas de milhões. Mas ao olhar-se para o que vinha e para o que temos ficam-me no espírito apenas duas ideias: ou o Governo foi enganado quando prorrogou, ou foi uma prorrogação de favor.

As duas hipóteses são más. Não acredito em nenhuma.

Apesar do que aconteceu com o Macau Jockey Club, pelo que publicamente se conhece, ter todos os contornos para ser mais um, diria mesmo vários, casos de polícia.

Ou seja, continua a haver, para quem está de fora, uma história mal contada. Os residentes de Macau não são burros e há quem até pelo cheiro perceba logo quando as coisas estão "fora da lei" ou se meteu uma patada.

Ninguém estranharia, pois, que se não ficasse por aqui e as autoridades competentes investigassem o que houvesse a investigar.  

De acordo com a lei, naturalmente, expressão que ultimamente alguns dizem a toda a hora e para mim começa a trazer muita água no bico porque ninguém que actue de acordo com o princípio da legalidade tem necessidade de estar sempre a justificar o que faz invocando a lei e sem que antes se lhe aponte qualquer ilegalidade.

A não ser que alguém tivesse o objectivo, pura imaginação minha, de querer que todos ficassem com a mesma farda na fotografia. Os que negociaram antes e prorrogaram, deixando uma bomba ao retardador; os que negociaram depois e se comprometeram numa rescisão sem qualquer compensação. Por culpa dos que estavam antes, evidentemente. 

É mais uma longa metragem de horror que se perspectiva para as próximas edições do Festival Internacional de Cinema de Macau. Agora na vida real e sem os subsídios habituais.

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