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kissinger

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.11.23

statesman_2.png.bmp(créditos: daqui)

Nos bons e nos maus momentos esteve com todos e contra todos, com inteligência, ignorância e muito cinismo.

Uma vez convidaram-me para estar presente num dos seus doutoramentos honoris causa. Até hoje não estou certo se acreditava numa palavra do que pensava, do que dizia e do que escreveu.

Mas o seu legado é incontornável. Outros o julgarão. Não faltarão entendidos a dissertarem nos próximos dias, em todos os canais de rádio e de televisão, em tons laudatórios, sobre as suas múltiplas qualidades. Eu limito-me a certificar o óbito do século XX. E olhando à minha volta, para o que se passa no mundo, também não sei se isso será bom.

Ninguém tem o dom de adivinhar o futuro. Ele também não o teve, e por várias vezes tentou interromper o curso da história, treslendo e ignorando os sinais.

Apesar disso foi capaz de escrever muitos sumários. Alguns péssimos. Em Timor não deixará saudades. Outros, felizmente, como no caso português, não se concretizaram. Não ficámos entre Santiago e Havana. Voltámos a ser europeus. De corpo inteiro. E não lhe devemos isso.

Que descanse em paz.

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injustiças

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.11.23

7d17a3ca32132ece9d22b9b5553eb1ac-temple-of-heaven-(créditos: Getty Images/Lonely Planet)

Certamente que não passaram despercebidos, até porque mereceram a devida atenção da comunicação social, e ainda merecem, tanto a decisão do Tribunal de Segunda Instância, quanto ao chamado caso das Obras Públicas, como o julgamento, ainda em curso, de um procurador-adjunto do Ministério Público.

Não me vou aqui pronunciar sobre nenhum dos casos, até porque o primeiro ainda não transitou em julgado e o segundo vai fazendo o seu caminho. Deixemos, pois, que prossigam sem sobressaltos enquanto não chega o trânsito em julgado de um e se espera que seja proferida decisão no outro.

Quero, porém, desde já sublinhar a disparidade de julgamentos e da forma de condução das audiências na primeira e na segunda instância. Em qualquer um dos casos há lições a tirar por quem selecciona, forma, fiscaliza e gere os senhores juízes. E também pela opinião pública que de fora assiste.

Se é verdade, e eu não duvido, que os tribunais superiores existem para rever, confirmar e corrigir as decisões dos tribunais inferiores, parece-me pouco razoável que haja uma divergência tão grande na apreciação dos factos e na aplicação do direito entre a primeira e a segunda instância. Em especial se os crimes mais graves pelos quais os arguidos foram acusados e condenados acabam por cair na segunda instância como caem as folhas das árvores no Outono, não havendo quem evite a sua acumulação no chão antes de serem varridas e restituídas ao lugar de onde saíram.

E se a queda desses crimes for acompanhada, em relação aos factos que o tribunal de recurso deu como provados, de uma redução substancial das penas aplicadas na primeira instância, já que é disso que se trata quando se reduzem penas a metade, um terço ou um quarto, quando não na totalidade, porque se entendeu que nem sequer houve crime, isso significa que há qualquer coisa que está mal. 

Depois, em relação ao julgamento em curso no TSI, também é curioso verificar a diferença de comportamentos e atitudes por parte de quem ali julga face ao que tem acontecido nos julgamentos realizados no TJB em matéria criminal.

Em relação ao julgamento que está a decorrer em primeira instância no TSI não se ouviram, até agora, de que eu tenha conhecimento ou que chegassem aos jornais, queixas de teor idêntico ou similar ao que se disse em relação ao julgamento das Obras Públicas e noutros anteriormente realizados também no TJB em primeira instância.

Fosse em relação ao número de advogados presentes e susceptibilidade de intervenção, fosse quanto à latitude de que gozam algumas testemunhas nos depoimentos que prestam.

E se num lado os advogados se queixavam, tendo havido mesmo quem lamentasse ter sido ameaçado de ficar sem a palavra ou de ser corrido, no outro lado parecem desempenhar o seu papel sem constrangimentos e dentro das regras que decorrem da lei. Ninguém deixa de fazer o que tem a fazer, ninguém se sente enxofrado, diminuído ou ofendido.

Fico satisfeito por saber que a realidade não pode ser vista a preto e branco, embora não veja qualquer vantagem quando em causa está a realização e a aplicação da Justiça. E, bem ao invés, vejo muito dano quando há diferenças tão gritantes entre as duas instâncias, não obstante a sua proximidade e ser a mesma a cor das becas.

Admito que há situações onde alguém veja azul escuro, e outros vislumbrem, e garantam ser, verde escuro. Há sempre gente teimosa, daltónica ou simplesmente obtusa. Mas é para mim de todo impensável que haja quem, de boa-fé, na apreciação dos factos e na aplicação da lei tome o vermelho vivo por branco imaculado ou bege.

É que quando isso acontece num sistema de justiça é difícil perceber que sistema é esse, e onde começa e acaba o princípio "um país, dois sistemas".

Sem um sistema de justiça fiável e confiável não há atracção para recrutar candidatos ao Prémio Nobel para irem morar para Hengqin,  investimento produtivo em dólares ou euros, ou qualquer estímulo à diversificação económica.

E com um sistema de justiça que é, por natureza e atavismo, moroso, burocratizado e caro, e que além do mais seja injusto e incapaz de incutir segurança e respeito, dentro e fora de casa, por muito patriótico que seja, só os jogadores estão dispostos a correr riscos.

E destes, estou certo, não será o Templo do Céu.

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fartura

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.11.23

macau-traffic-black-cabs-taxi--696x487.png(créditos: Macau Business)

A muito custo, depois de múltiplas e permanentes críticas da população, com os taxistas a dizerem que era um exagero a atribuição de mais 500 licenças, apesar do número total de táxis ter sido reduzido nos últimos anos em cerca de 300 viaturas, e da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) inicialmente anunciar apenas concurso para atribuição de 300 licenças, lá se abriu, finalmente, concurso para colocar na estrada mais 500 táxis.

Os primeiros dados revelados pela apresentação das propostas indicam que se apresentaram cerca de 40 (quarenta) candidatos desejosos de largarem, cada um deles, MOP$2.500.000 (dois milhões e quinhentas mil patacas) e entrarem num mercado que em breve será "caótico", de acordo com as previsões de um dirigente associativo.

Com o tempo que levou a abertura deste concurso, mais a miserável argumentação qe venderam aos residentes para o protelarem ao longo dos anos e a dificuldade que foi elevar o número de 300 para 500, a primeira conclusão que podemos tirar é que na DSAT, como em muitos outros serviços públicos da RAEM, não se tem um conhecimento mínimo da realidade. Ou tem-se e faz-se de conta que a realidade é outra para não se estragar o negócio aos que estão no mercado.

O número de concorrentes indicia, pelo menos, que o concurso deveria ter sido aberto para ser outorgado o dobro das licenças e que a DSAT não tem dados credíveis sobre o que se passa na sua área de actuação. Nada que fuja ao habitual.

Este elevado número de candidatos constitui mais uma prova de que o mercado dos táxis não estava saturado, ao invés do que apregoaram durante anos, e que há gente disposta a investir no negócio dos táxis, se os deixarem e não inventarem obstáculos, apesar do cenário calamitoso oferecido pelas associações e dos receios dos responsáveis.

Claro que na RAEM, tal como com o Ministério Público em Portugal, ninguém se sente responsável por coisa alguma, seja pela má gestão dos processos, seja pelos danos causados à comunidade em razão do irrealismo, da negligência grosseira, da protecção dada aos lobbies e clientelas ou do simples desinteresse pela salvaguarda do interesse público.

É a estas coisas, mas também aos preços nos mercados e supermercados, à qualidade dos transportes públicos, do ar e das águas – cada vez mais sofríveis –, e atentos ao que se faz em matéria de obras públicas, e não ao espiolhanço do se publica ou não se publica nos jornais, à crítica do que surge desalinhado ou aos disparates que saem nas redes sociais, que os representantes de Pequim deviam prestar atenção e dar o seu recado atempado às autoridades locais, censurando-os publicamente quando têm de ser censurados para que a população perceba que não estão cá só para cortar fitas ou frequentar vernissages.

Porque só assim poderão ajudar a corrigir os desequilíbrios da terra e a melhorar a qualidade de vida dos residentes, aproximando o serviço de táxis de Macau, e todos os outros que precisam de reforma, daqueles que são oferecidos em muitas metrópoles do interior do país.

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vpn

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.11.23

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A apresentação das Linhas de Acção Governativa traz sempre momentos hilariantes. Aquela espécie de apelo pungente aos residentes para se fixarem em Hengqin, na Zona de Cooperação Aprofundada, foi um deles.

Dizia o Chefe do Executivo que no futuro os residentes de Macau poderão ir viver para o outro lado porque ali serão aplicadas as políticas locais em matéria de velhice, educação e saúde. Anunciou ainda que os futuros residentes no bairro de Macau poderão contratar empregadas domésticas em Macau, que depois serão autorizadas a trabalhar na Zona de Cooperação Aprofundada. Até aqui tudo bem.

A cereja no topo do bolo foi quando referiu que uma das razões para os residentes irem viver para Hengqin é que aí poderão ter acesso à Internet sem necessidade de usar um VPN

Ora bem. Nada como ser directo.

Se, como referia há uns meses um jornal local, "a utilização de VPN [rede virtual privada] no Interior permite aceder aos sites bloqueados pelo Governo Central", podendo a sua utilização conduzir à aplicação de sanções criminais, pareceu-me um pouco patusca essa forma de tentar convencer a população a mudar-se para Hengqin.

Que diabo, mas propor aos residentes de Macau um incentivo que consiste em ter acesso livre a um produto controlado, olhado com desconfiança pelo Governo Central, e nalguns casos proibido, pareceu-me, no mínimo, uma proposta susceptível de colocar em risco e dificilmente conciliável com a nossa prioridade da segurança nacional.

A não ser que nas aulas de educação patriótica digam aos alunos que se forem morar para Hengqin não deverão usar VPN, fazendo do fruto proibido o mais apetecido.

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monjardino

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.11.23
cmonjardino gilbertolopes.jpeg 
(créditos: TDM)

 

Conheci Carlos Monjardino há quase quatro décadas, pouco depois de ter chegado a Macau pela primeira vez, quando aquele exercia funções no governo de Pinto Machado. Embora esteja muitas vezes distante das suas posições, sempre tive por ele, desde então, simpatia e admiração.

Não tanto pela sua efémera passagem pela política, mas em especial pela pessoa, pela sua forma franca de dizer e olhar para a realidade das coisas. Não é homem de muitos floreados e tergiversações, directo quando tem de dizer, e creio que isso talvez me aproxime dele.

Posto isto, gostaria de vos dizer que escutei com a atenção devida a sua entrevista à TDM e ao jornalista Gilberto Lopes. Não concordei com algumas coisas, em relação às quais tenho uma visão diferente, mas assenti noutras, como também é normal acontecer e não apenas com o entrevistado.

Foi uma conversa interessante, o que também em muito se deve às características pessoais de Carlos Monjardino, homem culto, lúcido e afável do alto dos seus mais de oitenta anos.

Quanto ao que disse, apesar de ser passado, creio que os mal-entendidos iniciais em relação à Fundação Oriente, por parte de algumas pessoas de Macau, e em dado momento também da própria China, se deveram um pouco ao seu estilo de fazer as coisas – e isto não é uma crítica – e a alguns de quem se rodeou, que sofrendo de umbiguismo crónico e oportunismo militante em nada contribuíram para uma melhor imagem do projecto e dos objectivos.

Faltou transparência e esclarecimento, seguramente, e isso gerou críticas e desconfianças que teriam sido perfeitamente evitáveis; só afastadas com o decurso dos anos em razão do trabalho entretanto desenvolvido em Macau, em Portugal e em vários outros pontos do mundo.

Sobre o cumprimento da Declaração Conjunta e da Lei Básica, no que aos portugueses concerne, tomei boa nota do que afirmou, ponto onde convergimos, sobre a alteração, para pior, do estatuto que tinham no início do cumprimento do Acordo. A nota sobre a sua presença cada vez mais insignificante – "menor, infelizmente" – não passou despercebida. Faltou apenas dizer, coisa que também não estava à espera, que foi o desinteresse da classe política portuguesa, a pesporrência de Lisboa e de alguns "patriotas-novos", de língua materna portuguesa, que só viam cifrões, ainda hoje, e com responsabilidades sociais, profissionais, políticas e empresariais, que mais contribuiu para tal.  

Quanto ao restante, recomendo a visualização integral da entrevista, registando, coisa que vários dos seus interlocutores portugueses e locais nunca entenderam, o quanto é desprezível a subserviência de carácter e de atitudes, e o que disse em relação ao relacionamento de Portugal com a China, que deverá ser "firme" e que "não devemos estar permanentemente de cócoras".

De resto, faço votos de que o entrevistado continue de boa saúde e se mantenha atento ao que na RAEM se vai passando 

 

[Declaração de interesses: durante a minha investigação de mestrado, há mais de duas décadas, fiquei graciosamente hospedado, cerca de duas semanas, na Casa Garden, o que aliás está referido nos agradecimentos preambulares do trabalho que apresentei]

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complicados

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.11.23

screenshot1.jpg

E ao fim de três anos o Grande Prémio de Macau está de volta com um programa de corridas adequado ao estatuto internacional do evento e à reputação construída ao longo de 70 anos. 

Constitui motivo de satisfação assistir ao regresso à normalidade, ver os pilotos e os adeptos, locais e do exterior, satisfeitos com o ambiente, o programa de corridas e tudo o mais que as envolve.

Porém, nem sempre tudo é feito para facilitar a vida às pessoas. Tal como os feriados oficiais de Macau, também há regras para filhos e para enteados. O sistema de apartheid está agora mais visível nos entraves à livre circulação de espectadores entre os diversos pontos do circuito.

Quem esteja com um bilhete na bancada do reservatório ou na bancada principal do circuito, se estiver igualmente munido de um passe de acesso ao paddock poderá sair da bancada e dirigir-se àquele local. Mas se o seu bilhete for para a bancada do reservatório não poderá regressar ao seu lugar depois de visitar o paddock utilizando a ponte pedonal sobre o circuito. É então obrigado a sair do perímetro do circuito e a dar a volta por fora até atingir de novo a entrada do outro lado da pista, junto ao acesso contíguo ao viaduto e no lado oposto do Casino Oceanus.  Se for titular de um bilhete para a bancada principal, aí o espectador poderá utilizar a ponte pedonal no regresso do paddock.

Também a oferta gastronómica, que já era na sua maioria de qualidade sofrível e escassa, se tornou mais limitada para quem está na bancada do reservatório, admitindo eu que isso acabe igualmente por prejudicar alguns vendedores, visto que os portadores de bilhetes para esta banca estão impedidos de circular pelas bancas de comida que ficam por debaixo da bancada principal.

Não se vê qual a razão para estas limitações, em especial quando praticamente não há ninguém nas bancadas, como sucedeu no fim-de-semana passado.

Em cada ano que passa se confirma ter sido péssima ideia a de retirar a organização do Grande Prémio de Macau à DST para entregá-la aos burocratas do ID.

Há gente que só está bem a complicar e a dificultar a vida aos outros, sejam atletas, pilotos ou público. O que é preciso é mostrar autoridade. Deviam ir a outros circuitos, mesmo na Ásia, para verem as diferenças e aprenderem alguma coisa.

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março

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.11.23

image-6.jpg(céditos: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República)

Sobre o espectáculo de feira que tem vindo a ser dado nos últimos dias pelos principais protagonistas do regime não valerá a pena perder tempo. Qualquer observador, nacional ou estrangeiro, facilmente percebe que o grau de corrosão das instituições ameaça ruína e é incompatível com uma actuação séria, responsável e credível. E o que se pode dizer relativamente à acção do primeiro-ministro demissionário aplica-se à oposição, ao Presidente da República, ao Ministério Público. Por aí, quem quiser que se dedique a escarafunchar na lama.

Preocupa-me bem mais perceber em que estado este Governo, o Presidente da República e a Assembleia da República chegarão a 10 de Março.

Reis Novais, António Barreto e mais alguns, incluindo aqui neste blogue o Luís Menezes Leitão, chamaram a atenção para os atropelos à Constituição e o exercício de contorcionismo que o PR se propôs fazer, como se fosse política, jurídica e eticamente aceitável que o principal garante do cumprimento da máxima lei do país se satisfizesse com a esperteza da sucessão de formalidades desfasadas no tempo e em claríssima violação das regras de funcionamento do sistema jurídico-político-constitucional, numa tentativa espúria de redenção de um regime que tem sido tão mal tratado pelos partidos políticos.

Lobo Xavier, numa intervenção que me pareceu bastante equilibrada para o que aconteceu, manifestou a sua perplexidade e tristeza pelo que António Costa foi dizer para aquela inenarrável intervenção na sequência da sua demissão, no que aqui o acompanho, atribuindo eu mais esse inexplicável deslize, admitamos que sim, ao desnorte do momento e à sua impulsividade, que tem sido tão má companheira quanto o aconselhamento e apoio que lhe tem sido dado nos últimos dias pela sua entourage.

Que António Costa se rodeou, voluntariamente, de gente do pior e do mais medíocre que o PS pariu nas últimas décadas, e de mais alguns habituados a passarem entre os pingos da chuva sem qualquer vergonha, depois de terem contribuído para a desgraça que conduziu à actual situação de Macau, ao mesmo tempo que enchiam os bolsos, escovavam os fatos e engraxavam os sapatos de um governador sem ponta de vergonha, era um dado adquirido há muito tempo. Que não fosse capaz de perceber os problemas que isso lhe iria causar, assim como ao partido e ao país, já me suscitava dúvidas sobre se seria uma questão de simples temeridade política ou se de inconsciência e confiança nalgum vidente próximo.

O que eu não estava de todo à espera era que o constitucionalista que neste momento exerce funções em Belém fosse capaz de engendrar uma situação que não resolvendo coisa alguma contribuirá para uma ainda maior confusão a partir de 10 de Março.

Fico, aliás, sem perceber, que diferença faz aceitar a demissão do PM e mantê-lo em funções durante mais umas semanas, como se estivesse na plenitude daquelas, e só publicar o diploma correspondente que formalizará e regularizará a situação de exoneração no final de Novembro, ainda que com referência a 7 de Novembro, como referiu Reis Novais, em vez de publicar esse mesmo diploma daqui a dois anos, o que seria mais benéfico, na perspectiva da sua argumentação, se levada a sério (o que para mim se afigura cada vez mais impossível, tal como os comunicados e algumas promoções do Ministério Público que parecem copiar o estilo e os argumentos da "jornalista do lítio"); com o que, ademais, iria ao encontro das expectativas de muitos portugueses que na sua boa fé ainda confiavam nas capacidades de António Costa, apesar de tudo, e num governo de maioria absoluta até ao final da legislatura, assim dando mais tempo e estabilidade ao galambismo para despachar todos os assuntos que tem entre mãos. As condições em que este Governo chegará a Março de 2024 não seriam certamente diferentes daquelas que previsivelmente teria se visse o seu mandato estendido por mais dois anos.

Parafraseando Barreto, tratava-se tão só de prolongar este "extraordinário período de terra de ninguém e de tempo de todos" e continuar a adiar a publicação do diploma de exoneração no Diário da República. Estaríamos assim, repescando a lição de Gomes Canotilho e Vital Moreira, numa espécie de 3.º período "plus" do ciclo normal de vida do Governo, à semelhança do que acontece com as classes de algumas companhias aéreas: ou seja, até que fosse publicado o diploma de exoneração estaríamos com um Governo demissionário com poderes limitados "plus".    

Não que eu defenda esta solução, longe de mim, que teria tanto de irracional, ilógica e fraudulenta quanto teve a semana passada a proposta de uns iluminados socialistas de se reeditar um governo do tipo Santana Lopes com o mesmo argumento que antes se considerou inaceitável aquando da fuga de Durão Barroso. Não; somente quero enfatizar a desvergonha de tudo isto, a desfaçatez com que se fazem propostas destas, como se as pessoas não tivessem memória e os figurões não fossem os mesmos há um ror de anos.

Dir-se-ia que em Belém e em S. Bento há muito tempo que se deixou de pensar, se passou a decidir à flor da pele, com toda a sorte de malabarismos, trapalhadas e cambalhotas, conduzidas por "animais ferozes" que não medem as palavras nem o alcance dos seus actos, sem que se meçam as consequências institucionais e políticas a médio e longo prazo, numa espécie de país do faz-de-conta que importa preservar a qualquer preço enquanto não deixarem a governação nas mãos de juízes, de procuradores e de arrumadores de automóveis capitaneados pelo senhor Ventura. Se é esse o objectivo estão quase lá. 

(via Delito de Opinião)

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simplicidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.11.23

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O texto é relativamente curto, com pouco mais de cem páginas, deixando-se ler tranquilamente, sem altos nem baixos. Como é típico dos livros de memórias, remete-nos para um passado próximo, com os corpos ainda quentes da memória, de recordações de infância, de deliciosos momentos do quotidiano, todos acabando por conviver com a chegada da nostalgia da lembrança, espécie de nevoeiro que vai tomando conta da luz das horas e dos dias mais soalheiros à medida que se recuperam lembranças.

Rodrigo, irmão de Gonzalo, não é Gabo, mas sendo filho recupera alguns dos melhores momentos de seus pais numa altura em que as despedidas se aproximam e a consciência da aproximação à partida torna tudo ao mesmo tempo mais subtil e mais denso.

Cada dia que vivemos, bem ou mal, alegre ou triste, aproxima-nos mais da morte e esta, como ele escreveu, "não é um acontecimento a que uma pessoa se possa habituar".

A habituação jamais ocorrerá quando se fala de quem nos quis e que foi querido, e que por essas mesmas razões tende a fixar-se no essencial que nos marcou e que com gosto depois se recorda.

Uma despedida entre entes queridos tem tudo para não ser um momento feliz; o que todavia não impediu o autor de nos trazer um pouco mais de luz sobre os últimos anos de Gabriel García Márquez e sua mulher Mercedes.

Fê-lo num estilo simples, sem arabescos e sem a prosápia de outros filhos, mantendo as distâncias e os protagonistas no local que merecem e que a vida lhes proporcionou, assegurando-lhes a dignidade no momento em que as primeiras folhas de Outono caem para nos prepararem para a invernosa solidão do fim.

Um conjunto de fotografias torna-nos cúmplices dos relatos, aqui e ali pontuados com notas de humor que reflectem a genialidade do homem – no me las puedo tirar todas é um desses momentos mágicos – e o ambiente que o rodeou os seus últimos tempos, prova inequívoca de que mesmo quando se está "sempre embriagado com a vida e as vicissitudes da existência" é em casa que "a maior parte das coisas que vale a pena aprender continua a aprender-se".

Verdade que nos dias de hoje não será igual para todos, e para muitos é mentira, mas que no caso de Rodrigo se confirma plenamente, pese embora os engulhos que o malfadado Acordo Ortográfico de 1990 continua a provocar em quem traduz e em quem lê. Uma pena a que Rodrigo, Gabo e Mercedes são totalmente alheios e a que só não escapa o leitor português.

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ausência

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.11.23

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Foi como se tivesse sido ontem. Podia ter sido hoje. E já passaram quatro anos. Muito longos.

O que torna a ausência mais desesperante, triste e solitária é que está sempre presente.

E contra isso, Mélita, o antídoto é a recordação. E a paz de espírito.

Obrigado, Mãe.

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épico

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.11.23

(créditos: JTM)

De acordo com os dados da Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos (DSEC), revelados na passada quarta-feira no Ponto Final, "entre Janeiro e Setembro deste ano surgiram 8885 veículos com matrículas novas, mais 19,74% do que [n]o mesmo período do ano passado".

O número de veículos eléctricos, em contrapartida, por comparação com os números de Setembro do ano passado, correspondeu a "uma descida anual de 20,8%".

A DSEC não diz se a esse aumento de quase 20% do número de veículos com matrículas novas em circulação também correspondeu um aumento proporcional de lugares de estacionamento, ou se está a contar que os residentes comecem a estacionar em Hengqin.

Não esclarece, igualmente, porque essa também não é a sua função, quais as razões para que os veículos da Transmac e da TCM não possam circular como alguns comboios na Índia e no Paquistão, uma vez que isso iria reduzir a necessidade de aquisição de novos carros e aumentaria a capacidade de transporte das concessionárias, bastando para tal colocar umas escadas que permitissem às pessoas subir para o tejadilho dos autocarros assim que eles parassem em frente ao Venetian. Apesar dessas falhas, a Estatística ainda nos disse que quanto aos acidentes rodoviários se registou um aumento de "1166 acidentes, mais 18,1% do que em 2022." Coisa de pouca monta.

Nesse mesmo dia, o matutino Macau Daily Times dava conta de que a empresa à qual o governo entregou a exploração do serviço – Companhia de Serviços de Radio Táxi Macau S.A. – recebe mais de 10 mil pedidos diariamente, isto numa terra onde há apenas 300 táxis a operar esse serviço (se estiverem todos em circulação ao mesmo tempo), dado que nos permite perceber a altíssima capacidade das linhas da CTM que ainda consegue dar resposta a tanta solicitação. Em três línguas.

Parafraseando o Secretário-Geral da ONU, estes números também não surgiram do vácuo. E serão, certamente, uma coroa de glória de quem empenhadamente dirige a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego.

Tirando algumas questões de pormenor que só atrapalham, como os buracos nas estradas, as obras, os atropelamentos, as barreiras à circulação, a descontinuidade e a ausência de passeios em muitos locais para a circulação de peões, a sinalização inexistente e a inovadora que é usada nalgumas obras e não consta das leis vigentes, assim como os permanentes engarrafamentos e aquela necessidade de vedar, à boa maneira colonial, o estacionamento nos parquímetros públicos de cada vez que se quer confraternizar no Clube Militar, o Chefe do Executivo tem fartos motivos de orgulho para quando em 14 de Novembro próximo for à Assembleia Legislativa apresentar as Linhas de Acção Governativa para 2024. E se não se recordar dos números é pedir antes à DSEC um pequeno memorando para os levar aos desatentos deputados.

Dizem que no interior da China a coisa está muito pior do que aquilo que por aí se apregoa, embora a própria Xinhua anuncie "uma densidade média de PM 2,5, um indicador-chave da poluição do ar, [que] cresceu 6,2% em termos anuais, para 34 microgramas por metro cúbico nos primeiros seis meses", mas em Macau, numa era de preocupações ambientais e sociais, os números divulgados pela DSEC e os das chamadas de táxis são épicos.

A boa gestão na área dos transportes é reveladora de mais uma das vantagens singulares de Macau, mostrando que a sensibilidade social, a melhoria da qualidade de vida dos residentes – dos antigos, já que os novos são uns felizardos, chegaram no pico, e ao pico –, e as preocupações ambientais têm sido a pedra de toque da governação. A estatística confirma-o.

Há momentos em que a governação de Ho Iat Seng, com toda esta animação pós-Covid, os números do jogo sempre a subir, a satisfação das concessionárias, a excelência do serviço de táxis e de autocarros, o cheiro do ar, o número de turistas a disparar, os feriados oficiais para uns e os laborais para os outros, mais as animadas sessões de julgamento com empresários de nomeada, altos quadros e pelintras, sem esquecer o procurador caído em desgraça, a testemunha que gravava os encontros e dizia que é normal pagar do outro lado, por isso não estranhou que aqui também pagasse, as referências a gratificações de dez mil patacas, os encontros no Landmark e a acção no CCAC, me faz recordar os tempos áureos da governação de Chui Sai On.

Depois de um curto interregno de promessas, das mudanças na Associação dos Advogados e na Escola Portuguesa, da reforma da legislação eleitoral e da limpeza dos elementos anti-patriotas, é bom saber que isto voltou a animar e a boa governação veio para ficar.

E, consistentemente, como se vê pelo aumento de quase 20% de matrículas novas num ano, dá frutos oficialmente comprovados pela DSEC.

Está na hora de se organizar uma parada daqueles patos gigantes amarelos no estuário do Rio das Pérolas. Pensem nisso.

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