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espirituosos

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.06.21

Há dias, três deputados nomeados resolveram pedir ao Chefe do Executivo e ao seu Governo "uma revisão das leis contra a entrada de forças externas em Macau" e "impedir, com todos os esforços, qualquer acção de apoio a indivíduos separatistas”. O ano passado já tinha havido uma declaração semelhante também da banda dos nomeados.

Da que na semana passada foi lida no plenário da Assembleia Legislativa, e da qual não resulta nada de útil para a felicidade dos residentes ou uma achega para melhorar a governança do burgo, retive apenas a passagem acima referida, visto que essa constitui uma novidade.

Até hoje nunca ninguém tinha dado pela existência, ou que sequer houvesse o risco, de entrarem forças externas nesta micro-região da RPC, ou que alguma vez tivessem aparecido por estas bandas "indivíduos separatistas".

Os senhores não nos elucidaram sobre que leis devem ser revistas, em que pontos em concreto se tem falhado na RAEM e, também, quem são e onde se acoitam esses indivíduos a quem se referiram. De qualquer modo, estou seguro que com todos os meios policiais, uns mais ostensivos outros mais dissimulados, ao dispor de quem manda, será difícil algum desses malandros escapar (1).

De quem não teve ao longo da legislatura que está a findar qualquer intervenção ou iniciativa parlamentar digna de registo, e que tem primado pelo silêncio e a irrelevância da sua intervenção, não deixa de ser curioso que apareça agora uma tomada de posição deste calibre, como que a dizer que se quer surfar a onda para se manter à tona e chegar à praia.

Sim, porque tendo sido nomeados pelo anterior Chefe do Executivo, que não ficou na memória da população, na minha avaliação, pelos exemplos de boa governação que ele e os seus escolhidos deixaram, é natural que haja quem queira posicionar-se para uma nova nomeação em Setembro antes de regressar ao confortável anonimato da bancada dos nomeados.

Com os ventos que sopram fortes a partir de Pequim, onde já ninguém vai na conversa dos "DDT" locais, compreende-se a preocupação dos nomeados em quererem ler, em voz alta, o guião que está a ser distribuído. Para se fazerem ouvir e darem conta da sua presença.

Eu vejo ali a inquietação de alguns "patriotas" sobre se a mãe-pátria contará com eles no futuro para alguma coisa. 

Desconheço se será esse o problema. Não faço palpites.

No entanto, há quem diga que quem não tem memória e tem fundilhos também tem medo. É compreensível.

Todos sabemos que os comboios andam hoje muito mais depressa do que no tempo do Il Duce.

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(1)  A este propósito, conto-vos aqui um pequeno episódio ilustrativo do que afirmo. Não faz muito que fui visitar a exposição evocativa dos 100 anos do PCC e a interessante mostra sobre os comboios chineses. Nesta última, de que aliás gostei porque também sou um apaixonado pelos comboios da minha infância, fui escoltado do princípio ao fim. Fotografado, perto e à distância, como se fosse um desses perigosos "separatistas", de vários ângulos; de frente, de lado e até de costas, sem que que alguém me pedisse autorização para tal e sem que eu saiba quem guarda e o que vão fazer com esses dados. Calculo que se desta forma o fazem terão a aprovação prévia do Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais. Não é que me preocupe muito, pois não fiz nada de errado e vivi sempre de forma transparente e dentro da legalidade, mas isso revela que já se ultrapassou o limite dos "indíviduos separatistas" e dos "perigosos" para se fotografar indiscriminadamente e sem razão conhecida qualquer residente e a família numa simples exposição.

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desperdício

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.06.21

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(créditos: Macao News)

Ficou finalmente concluída, entrando ao serviço depois de muitos incómodos, transtornos e milhões gastos, a obra designada por “Obra de construção da travessia pedonal ao longo da Avenida de Guimarães na Taipa”. Nome pomposo para uma obra que entendo ser perfeitamente despicienda, como muitas mais realizadas na cidade com pouco ou nenhum critério.

Tenho sérias dúvidas sobre a utilidade prática da obra. Além de tornar muito mais feio o ambiente urbano.

Talvez com excepção da Rua do Campo e da Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, em Macau, a maior parte dessas travessias pedonais é pouco utilizada, continuando a haver muita gente que as ignora e insiste em atravessar a rua, colocando em risco a sua segurança e a da circulação rodoviária. Veja-se, por exemplo, o que acontece na Avenida Marginal Flor de Lótus, entre a Pousada Marina Infante e o Hotel Broadway, no lado oposto ao Galaxy, ou na Estrada de Seac Pai Van.  

Depois, porque nas ruas adjacentes à Avenida do Guimarães continua a haver passadeiras, sendo certo que não raro os engarrafamentos na via principal são provocados pelos carros que nela circulam e que quando mudam de direcção são obrigados a aguardar que os peões atravessem as "zebras" nas laterais, obrigando todos os veículos que circulam atrás de si a parar.

Mas pior do que tudo isso é que quer a passagem superior agora inaugurada, quer a que em breve será inaugurada na Estrada de Seac Pai Van, a seguir ao Parque, no sentido de quem vai para Coloane, próximo do acesso à Estrada do Alto de Coloane, constituem monumentos ao mau gosto, à falta de critério e à total ausência de sentido estético.

Já que se iriam gastar milhões, seria expectável que existisse alguma uniformidade estética entre, por exemplo, as passagens superiores existentes nas proximidades do Cotai, na Rotunda do Istmo e na Estrada Governador Nobre de Carvalho, onde está o elevador inclinado da Taipa grande, ou a da Estrada de Seac Pai Van, próximo do nado-morto "Hotel 13", com utilização das mesmas cores, de materiais de qualidade idêntica e esteticamente inseridas no mesmo estilo.

Nada disso aconteceu.

Esta nova passagem da Avenida do Guimarães é um bom exemplo de como não se devem fazer as coisas, havendo inclusivamente partes da construção que foram erguidas mesmo em frente à porta principal de acesso a edifícios residenciais, que ficaram agora com um mono de betão colocado à entrada, o que certamente facilitará as mudanças de casa que estão quase permanentemente em curso numa cidade onde não existe estabilidade residencial para uma grande parte da população menos favorecida devido aos altos valores das rendas.

Finalmente, dir-se-á, quanto a um dos objectivos da obra, traduzido na remoção das passadeiras para que o trânsito flua mais depressa, que o objectivo não deverá ser o de transformar ruas e avenidas que atravessam zonas residenciais e onde há grande circulação de peões em vias rápidas. Já basta a velocidade a que circulam alguns motociclos, designadamente os de distribuição de comidas ao domicílio, e transportes públicos, cuja condução descuidada e ao arrepio das regras rodoviárias se reflecte nos inúmeros acidentes que provocam e que em nenhum caso se devem à falta de passagens superiores para peões.

A simples colocação de bandas que obrigassem os condutores a reduzir a velocidade junto dos locais de atravessamento de peões e a colocação de semáforos e temporizadores electrónicos teria resolvido o problema – como sucede entre o City of Dreams e o Venetian – e não teria tornado a cidade ainda mais feia e desconfortável para quem gosta dela e aqui vive.

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fim

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.06.21

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(créditos: Felix Wong/SCMP)

O encerramento do Apple Daily, um jornal tablóide de Hong Kong fundado por Jimmy Lai em 1995, que hoje ocorreu com a publicação da sua última edição impressa marca o fim de uma era. 

O Apple Daily nunca foi uma referência em termos de jornalismo sério, isento e de qualidade, tendo sido muitos os seus alvos ao longo dos anos. Nem por isso deixou de ser um dos jornais mais lidos e vendidos por todas as histórias que publicava, da política ao social.

O reforço da componente policial e autoritária do regime, imposta a partir de 2017, e que previsível e inevitavelmente transbordaria para Hong Kong e Macau, tornaria difícil outro desfecho, o qual terá sido apressado pelos acontecimentos dos últimos anos e a mais do que humilhante derrota eleitoral sofrida pelas forças pró-Pequim nas últimas eleições locais de Hong Kong.

Muitos dirão que o fecho do jornal, praticamente coincidindo com o momento, dentro de dias, em que se celebrará o centenário do PCC, é um serviço à pátria, a Hong Kong e ao jornalismo.

Esta posição talvez também explique o facto do artigo do South China Morning Post – uma sombra da referência que foi –, que noticia o que se passou durante a noite estar incluído numa secção denominada "Law and Crime". 

Duvido, no entanto, que seja esse o correcto diapasão.

Nas sociedades onde se pratica o melhor jornalismo e se consegue aceder à melhor informação, também existem problemas de segurança interna e há múltiplos pasquins e tablóides, não me parecendo que seja pela via da proibição, do bullying, da auto-censura e da censura explícita ou da perseguição organizada à sombra do aparelho coercivo que se melhorará a consciência e a confiança das gentes nas instituições, na informação que lhes é disponibilizada e num jornalismo informado e informativo.

Quando o poder político e judicial não conseguem combater os eventuais abusos da liberdade de imprensa, ou os excessos de alguma má informação e propaganda que, a seu ver, seja perniciosa para a comunidade, recorrendo aos meios ao seu dispor num Estado de Direito, e necessitam de criar leis de excepção e de entrar pelos caminhos da repressão policial pura e dura, da censura e do encerramento de órgãos de informação como justificação para as suas "cruzadas de defesa da lei e da legalidade", é sinal de que estão profundamente doentes.

Não acredito que as multidões de hongkongers que durante horas a fio, ainda durante a noite, fizeram fila para poderem adquirir um último exemplar do jornal, como antes desenvolveram campanhas de apoio quando as suas contas foram congeladas, fossem todos leitores ou assinantes do Apple Daily. Longe disso.

Essas pessoas quiseram apenas dar o sinal de que não será pela via da censura, do silenciamento e do encerramento de órgãos de imprensa, da prisão dos seus proprietários e responsáveis, que conseguirão matar o "vírus" da liberdade de imprensa e as suas múltiplas variantes.

Poderão adormecê-lo temporariamente, escondê-lo mesmo, é certo, mas aquele continuará a medrar na clandestinidade da consciência e da casa de cada um, transmitindo-se aos seus filhos. Como uma espécie de formiga-branca que vai corroendo por dentro os alicerces do aparelho repressivo. Sem que os amanuenses se apercebam. Sem se dar por nada.

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casinos

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.06.21

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A Macau Business tem vindo a publicar um interessante conjunto de trabalhos da autoria do jornalista João Paulo Meneses sobre os problemas associados ao próximo concurso para atribuição de concessões de jogo e os diferentes cenários que neste momento se colocam sob o sugestivo título Gaming: the road to June 26, 2022 (Special Report – The imbroglio that will delay reversion, Special Report – Ok with CSR, but how?, Special Report – The paradise of paradox, e Special Report – All that’s left is the announcement...)

Há umas semanas, numa breve conversa, fui alertado por um amigo para a análise de um outro problema que está a montante das questões que agora se discutem.

Perguntar-me-ão então de que problema se trata. Antes de referi-lo gostaria de sublinhar que não deixa de ser interessante que com tanta gente envolvida e entrevistada não se fale nele. Por que será?

Um dos textos acima referidos aborda a questão dos investimentos e sintomaticamente afirma que os investimentos em curso mostram que os actuais concessionários não têm medo do futuro.

Do futuro, direi eu, os actuais concessionários podem não ter medo. Isso até será natural visto que com esse ainda não estão comprometidos. Porque o medo, neste caso, virá antes do passado que neste momento os persegue. É que nem todos os seis (concessionários e subconcessionários) estarão na mesma posição perante o cumprimento dos compromissos assumidos para com a RAEM e isso poderá vir a fazer toda a diferença. 

As declarações de Anthony Cabot têm tanto de ingénuo como de confissão dos concessionários quando afirma que o concurso não é do interesse de quem quer manter o status quo. Ora bem. Pelo menos de alguns.

De quem é o interesse na manutenção do status quo? Dos concessionários, subconcessionários e dos outros que têm casinos sem possuírem nenhum desses estatutos, ou do Governo da RAEM e da RPC? O Professor Cabot não o esclareceu.

Repare-se, por exemplo, que no anexo ao Despacho do Secretário para os Transportes e Obras Públicas n.º 53/2014, relativo à concessão de terrenos tratada no Processo n.º 6 424.03 da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes e no Processo n.º 32/2014 da Comissão de Terras, se refere a dado ponto, com sublinhados a negrito da minha lavra, o seguinte:

"Artigo segundo — Prazo de aproveitamento

1. O aproveitamento do terreno deve ficar concluído até 20 de Outubro de 2020, devendo ainda ser observados os seguintes prazos para o aproveitamento de cada um dos três lotes:

Lote I/II: O aproveitamento global deste lote deve ficar concluído até 31 de Dezembro de 2019;

Lote III: O aproveitamento global deste lote deve ficar concluído até 31 de Dezembro de 2018;

Lote IV: O aproveitamento global deste lote deve ficar concluído até 20 de Outubro de 2020.

2. Os prazos referidos no número anterior incluem os prazos para a apresentação, pelo segundo outorgante, e apreciação, pelo primeiro outorgante, dos projectos de obra e para a emissão das respectivas licenças."

E um pouco mais frente ficou ainda acordado entre a RAEM e as segundas outorgantes o seguinte:

"Artigo oitavo — Caducidade

1. A presente concessão caduca nos seguintes casos:

1) Não conclusão do aproveitamento, decorrido o prazo de 150 (cento e cinquenta) dias, previsto no n.º 1 do artigo terceiro, independentemente de ter sido aplicada ou não a multa;

2) Suspensão, consecutiva ou intercalada, do aproveitamento do terreno por 90 (noventa) dias, salvo por motivo não imputável ao segundo outorgante e que o primeiro outorgante considere justificativo.

2. A caducidade da concessão é declarada por despacho do Chefe do Executivo, a publicar no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau.

3. A caducidade da concessão determina a reversão para o primeiro outorgante dos prémios pagos e de todas as benfeitorias de qualquer forma incorporadas no terreno, sem direito a qualquer indemnização ou compensação por parte do segundo outorgante, sem prejuízo da cobrança pelo primeiro outorgante das rendas em dívida e das eventuais multas ainda não pagas."

Aquele prazo de 20 de Outubro de 2020 foi prorrogado pelo Chefe do Executivo? Quando? Onde está a decisão?

Creio que em relação a outros a situação será parecida.

Ora, os investimentos e as obras em curso dizem respeito a compromissos anteriores. Ou estarei errado? Importa esclarecer se aqueles foram cumpridos dentro dos prazos que haviam sido acordados, se todos já obtiveram as licenças, ou se, entretanto, obtiveram extensões de prazo que justifiquem os atrasos no aproveitamento calendarizado.

Se as minhas contas não falham, estamos já em Junho de 2021.

Será erro meu de leitura ou para além de todas as concessões, cuja caducidade já foi declarada por falta de aproveitamento dentro dos prazos, temos aqui mais um milando para o Chefe do Executivo resolver?

E então? Vai-se abrir um novo concurso com situações por esclarecer? Vão continuar com a discussão sem falar nisto? A razão para se afadigarem a pedir extensões de prazo das actuais concessões de jogo é só por falta de tempo para a organização do concurso? Ou o objectivo será também o de se tentar sanear o passado?

A seu tempo o veremos. O futuro está já aí.

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porto

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.06.21

O processo de escolha do candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal do Porto tem todos os ingredientes para se escrever um guião de um filme de terror.

A bem dizer, há muitos anos que por aquelas bandas não surge um candidato digno desse nome saído de um processo de escolha democrático sem escolhos, guerras de paróquia, investidas pessoais e amuos de luminárias. O falecido Pedro Baptista dizia que "aquilo é irreformável", e não estava longe da razão. 

Da indicação oficial de Eduardo Pinheiro, que só resistiu vinte e quatro horas, ao nome de José Luís Carneiro, que obviamente não estava disponível para se estatelar ao comprido, passando pelo nome do agora europeu, e já duplo derrotado em anteriores eleições, Manuel Pizarro, até se chegar a Rosário Gamboa, e agora a Tiago Barbosa Ribeiro, ora dentro, ora fora, foi todo um percurso inenarrável, ao qual a direcção do partido não é alheia e de onde não sai incólume. Ainda menos o secretário-geral.

Naturalmente que qualquer que venha a ser o resultado no Porto, a culpa será de todos eles. Nunca dos portuenses que assistiram incrédulos a tudo o que se passou. E não apenas no PS, também convém dizê-lo. 

Há gente com lugar cativo que se continua a não perceber o que anda a fazer na política e nos partidos. Lamentável.

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portugal

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.06.21

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Até nisto somos diferentes. Não há Dia Nacional que não contenha uma boa polémica. Se não é por causa da medalhística, do programa das comemorações ou do conteúdo dos discursos é por outra razão qualquer. Desta vez é por causa de Pedro Adão e Silva e da sua nomeação como Comissário Executivo da Estrutura de Missão para as Comemorações do Quinquagésimo Aniversário da Revolução de 25 de Abril de 1974.

A reacção primeira de muitos portugueses foi de incredulidade e desconfiança, havendo logo quem dissesse, mesmo sem conhecer o nomeado, que se tratava de uma recompensa política ou de um job for the boy. Reacção natural por parte de quem se habituou a ver neste tipo de comissões um emprego e uma tença para a vida por força da cunha, do compadrio, do nepotismo.

Convenhamos que uma Comissão para mais de quatro anos se pode afigurar à partida como se prolongando excessivamente no tempo, mas sem que se saiba o que vai ser feito, isto é, a dimensão e o alcance daquilo que irá ser realizado, pareceram-me intempestivas e desapropriadas algumas das reacções.

A criação de estruturas de missão e a nomeação dos respectivos dirigentes sempre foi uma prerrogativa do Governo da República.

Já o era em ditadura, quando a propósito da Exposição do Mundo Português, Salazar nomeou uma comissão em 11/04/1938 para uma inauguração que teve lugar em 23/06/1940, mas também o foi em democracia, como aconteceu com a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, que criada por Cavaco Silva em 1986 se prolongou até 2002, altura em que foi extinta com mais de setenta (70!) pessoas ao seu serviço, e onde só Vasco Graça Moura, que tinha tanto de intelectual, escritor e tradutor fora-de-série como de comissário político do PSD e do próprio Cavaco Silva, se sentou durante cerca de oito anos.

Estou certo de que se hoje, 10 de Junho de 2021, perguntarem aos portugueses que memória têm dessa Comissão [de Vasco Graça Moura, por exemplo, e do seu excelente legado, todos temos memória] e do seu trabalho, a maioria terá dificuldade em apontar as suas realizações. No entanto, existem registos, arquivos, livros, filmes, ensaios, inúmeras realizações que alargaram as perspectivas e o nosso conhecimento sobre essa epopeia dos Descobrimentos, que para alguns povos e muitos historiadores continua a ser objecto de acesa crítica pelas consequências que para terceiros acarretou.

Das palavras do Presidente da República, que prontamente manifestou o seu apoio ao nomeado, justificando publicamente algumas das razões para a sua escolha, ainda poderia desconfiar. Porém, a escolha do general Ramalho Eanes como presidente da sua Comissão Nacional, à qual incumbe a aprovação do programa oficial, fez-me de imediato pensar que seria necessário esperar para conhecer o “caderno de encargos” antes de se começar a fazer tiro ao boneco. O nome de Eanes, sendo um dos poucos referenciais do 25 de Abril que resiste de forma íntegra e consistente, é um militar e um homem sério que não costuma fazer figura de corpo presente naquilo que se envolve, e que não se presta a jogadas, esquemas ou cambalachos político-partidários, deixou-me na expectativa e com um módico de confiança para que não desatasse aos tiros.

Depois, foi o que se viu. O que também lamentavelmente também nos caracteriza. Um descabelado ataque ad hominem, colocando em causa a integridade, a competência e a idoneidade do visado, o qual ficou imediatamente desqualificado para o exercício daquela ou de quaisquer outras funções públicas, como se o próprio não tivesse um currículo académico – não é um qualquer lambe-botas que obtém um doutoramento em Florença – e profissional feito com mérito e a tempo e horas – não se trata de um Sócrates, de um Relvas, de um Vara ou de um Passos Coelho –, sem depender de juventudes partidárias e de partidos para singrar.

Recompensa política é o que se tem visto na nomeação de apparatchiks partidários, meros funcionários sem qualquer rasgo e amigalhaços sem qualificações para lugares onde vão receber aquilo com que nunca sonharam, passando a ter um estatuto que o seu mérito jamais lhes permitiria alcançar, fosse na Caixa Geral de Depósitos ou na EDP, em empresas públicas ou na condução de processos miseráveis de privatização, recebendo dezenas de milhares de euros e acabando depois a trabalharem para os consultores desses processos de privatização ou para as próprias empresas. Como recompensa à fidelidade ao líder ou ao partido também costuma ser a indicação para o preenchimento de listas de deputados, a nomeação para lugares em empresas municipais, concessionárias de serviços públicos ou até para posições de favor nos diversos ministérios e entidades de supervisão e fiscalização. Aí temos todos visto muitos desqualificados, profissional, academicamente e até de carácter, fazerem de conta que fazem alguma coisa.

No entanto, Pedro Adão e Silva esteve bem, esclarecendo na TVI as suas ideias e colocando bem claro que está ali para cumprir uma função pública, por devoção ao país e à causa e não aos euros, oferecendo o peito às balas, abdicando do seu salário de professor universitário por um de director-geral, que será sempre menos do que o de gestor público que outros receberam em lugares idênticos.

Quanto ao líder da oposição, bom, esse comportou-se como um verdadeiro merceeiro, a quem só faltava o lápis atrás da orelha, demonstrando bem a necessidade e a importância do trabalho que Adão e Silva e todos os que vierem a ser envolvidos terão pela frente. Tal reacção, bem como a de outros líderes partidários, é bem reveladora do espírito de seita, medíocre e ignorante que subjaz a muitas das suas intervenções públicas, antes mesmo de se esclarecerem ou de perceberem o que está em causa.

Poder-se-á criticar o processo de escolha, a falta de esclarecimentos prévios, e nisso poderei estar de acordo, mas convenhamos que neste momento tudo serve para a chicana política. Se outras nomeações nunca deveriam ter acontecido, e nunca se justificarão, como a de familiares de membros do Governo e de militantes partidários para as funções para as quais não têm qualquer competência ou currículo, ou a permanência em funções de ministros cujo desempenho tem sido penoso, mormente neste Executivo, com prejuízo para todos, penso que dentro de algum tempo não se dirá o mesmo do agora nomeado e em cujo trabalho até prova em contrário confio.

O que há a fazer junto das gerações nascidas depois do 25 de Abril de 1974, de compreensão daqueles que são, ou deviam ser, os valores que nos regem enquanto povo, república e democracia, é fundamental para a mudança de mentalidades, para se mudar o próprio espírito e as práticas dos partidos políticos, se motivar gente para uma participação política esclarecida, saudável, assente em valores seguros e perenes, e não na espuma dos dias, ajudando a formar uma geração de gente capaz, conhecedora da sua história, da mais recuada e também da mais próxima, que possa contribuir para a construção de um país moderno, mais democrático, mais inclusivo e muito mais equilibrado.

Por tudo isso, o papel que vier a ser desempenhado por Pedro Adão e Silva e todos os membros dos diversos órgãos que serão constituídos se afigura crucial. O trabalho que fizerem, as suas escolhas, o caminho que empreenderem, terá de ser absolutamente transparente e justificado em todos e cada um dos momentos de maneira que no final todos possamos concluir que alguma coisa se mudou em relação a práticas anteriores, e que por uma vez aprendemos com os erros do passado a construir mais e melhor no futuro.

Aguardemos, pois, pela apresentação do caderno de encargos, acompanhemos o seu trabalho futuro realizando o necessário e permanente escrutínio à sua execução e aos gastos respectivos, sem pedras nos sapatos, curando do essencial e não perdendo tempo com mesquinhices próprias de coscuvilheiras desconfiadas, ressabiadas e ignorantes, para que cada um de nós possa no final, e em todo e qualquer momento, fazer de boa-fé o respectivo juízo.

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atrasados

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.06.21

Parece que finalmente as autoridades de Macau resolveram empenhar-se a sério numa campanha de promoção da vacinação contra a COVID-19.

O problema é que uma vez mais chega tarde e numa altura em que o aumento de número de casos na província de Guangdong – não, os casos não vieram de países terceiros, nem foi nenhum gweilo que os trouxe na bagagem – fez aumentar os receios dos Serviços de Saúde de Macau. De qualquer modo, antes assim.

O lamentável é que só ao fim de mais de um ano é que se tenham lembrado de pedir a amostragem de códigos de saúde à entrada dos transportes públicos (como farão os velhotes que não usam telemóvel para irem ao mercado?) e que continue a não haver uma uniformização de procedimentos.

De que serve exigir-se esse mesmo código na entrada em hotéis, casinos, instituições médicas e departamentos governamentais se depois deixa de ser obrigatória a apresentação do código para quem vai a um supermercado, loja de conveniência, sauna, cinema, karaoke ou sala de exposições? Será que nestes locais o risco de transmissão do vírus é menor?

Por outro lado, é notório que a população continua a não compreender quais são as "vantagens" da vacinação, para além da óbvia protecção individual e grupal. As empresas privadas, nomeadamente bancos e concessionárias, à semelhança do que se passa em Hong Kong, oferecem dias de férias extra aos trabalhadores para os motivarem, entregam brindes, organizam sorteios que levem as pessoas a vacinar-se. Porém, em contrapartida, não existe qualquer diferenciação ou reconhecimento em relação a quem desde a primeira hora se colocou ao lado das autoridades de saúde e se disponibilizou para tomar as vacinas.

Os tempos de quarentena para quem tem ou não tem vacina são os mesmos. Os vacinados continuam a usar máscara, a mostrar o código de saúde, a enfrentar as mesmas dificuldades para se deslocarem, e ainda sujeitos a igual grau de exigência para entrarem ou saírem da RAEM como os não vacinados. Será que isto tem alguma lógica? Será que faz algum sentido? Se para se passar a fronteira é indiferente estar ou não estar vacinado, como justificar aos descrentes da vacina que convém tomá-la?

Depois, também não se percebe porque o Governo de Macau continua a não chegar a um entendimento com o Governo de Hong Kong para se ter um corredor entre a RAEM e o Aeroporto Internacional de Hong Kong, quando entre este e Shenzhen continua a haver carreiras regulares que permitem um acesso directo ao terminal sem que seja necessário passar pela cidade ou realizar qualquer quarentena.

Raia o absurdo, e é absolutamente incompreensível, de um ponto de vista científico, que uma pessoa vacinada e apresentando testes de ácido nucleico negativos no local de partida e à chegada à RAEM esteja obrigada a 21 ou 28 dias de quarentena em hotel.

O aumento das taxas de vacinação verificado nos últimos dias não ilude a gestão deficiente que se fez do programa de vacinação. De nada serviu o exemplo dado pelo Chefe do Executivo e por outros altos responsáveis de se voluntariarem desde logo para receberem a vacina. O gesto revelou-se inconsequente e veio desacompanhado dos estímulos que deviam ter sido transmitidos à população. Agora, é o andar ó tio, ó tio a ver se os residentes se vacinam porque se teme o pior.

É assim nas vacinas. Foi também assim com o que aconteceu na altura do tufão Hato. Continua a ser assim com as cheias no Porto Interior e outras zonas baixas da cidade, cujas soluções tardam para desespero da população afectada, como também é com os lixos, com o não tratamento das águas residuais e as suas descargas diárias e ao longo de muitos anos por falta de capacidade das centrais, com os maus cheiros ou a falta de limpeza de algumas zonas, com a má qualidade do ar ou com a falta de exigência e descontrolo das emissões de gases por autocarros, carros velhos e super poluentes e camiões de obras (que continuam a circular a toda a hora pelas principais avenidas do COTAI, sem que as contornem pelas vias laterais, como se aquelas fossem verdadeiros e próprios caminhos de estaleiros).

Depois da casa roubada é que se colocam as trancas à porta. Anda-se sempre a correr atrás do prejuízo. E dá-se cabo da saúde – e da paciência – dos sãos porque não se sabe cuidar destes e tratar do que está doente a tempo e horas e sem vacilar. Um drama permanente de um filme há muito visto na RAEM.

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diferenças

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.06.21

Que fique bem claro. Um piquenique não é um "massacre".

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