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irresponsabilidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.01.21

Ando há anos a chamar a atenção das autoridades, designadamente da PSP, para a grave situação que se vive na Urbanização One Oasis, em Coloane, com as transgressões que são diariamente cometidas e que colocam em risco a segurança da circulação de outros veículos e de peões.

Ora são as dezenas de rádio-táxis e de carrinhas de junkets parados à direita e à esquerda, fazendo das vias de circulação uma enorme praça de táxis, como é a circulação em contramão para se pouparem uns metros e umas gotas de combustível.  

Da última vez que falei com um agente que se entretinha num domingo a multar carros estacionados em locais onde não estorvam ninguém, a única coisa que consegui foi que colocassem, não apenas um pino nas passadeiras dos separadores centrais entre as vias, para impedir que os veículos fizessem inversão de marcha por cima daquelas, mas um monte de pinos metálicos verdes, assim se dando mais uma verba apreciável a ganhar ao fornecedor que encheu Macau e as ilhas dessas novos emplastros urbanos.

Hoje, quando atravessava uma das passadeiras da Rua dos Bombaxes fui surpreendido com dois veículos fazendo inversão de marcha em contramão, pela Estrada de Seac Pai Van.

Não foi ninguém atropelado por pouco, visto que a velocidade a que a transgressão é feita implica que não se perca tempo. O motorista do táxi ao aperceber-se que estava a ser fotografado pelos peões ficou aflito, quis fazer marcha-atrás, e pediu desculpa. O outro condutor achou imensa piada ao flagrante e começou a rir-se.

Se as autoridades em vez de perderem tempo a multar os carros às duas ou três da manhã, a identificar quem passa no Leal Senado, a instalarem câmaras onde não fazem falta ou a levarem pseudo-manifestantes para as esquadras fizessem o que lhes compete, talvez esta situação estivesse resolvida.

Assim, resta esperar até que um dia alguém seja atropelado numa passadeira do One Oasis ou que ocorra um choque frontal na Estrada de Seac Pai Van, com muita chapa, mortos e feridos, junto à Rua dos Bombaxes ou nas traseiras daquele hotel cujas condições de atribuição da licença ainda estão por esclarecer pelo CCAC, para se fazer alguma coisa.

Mas garanto que nesse dia irei pedir contas ao Secretário para a Segurança e a todos os que, perdendo tempo com questões de lana caprina, há muito ignoram o que se passa enquanto os tipos que colocam os pinos e barreiras metálicas vão enriquecendo. 

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pesar

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.01.21

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Sabia-o doente há algum tempo e foi com tristeza que esta manhã soube do passamento de Vítor Ng (Ng Wing Lok, 吳榮恪).

Foi-me apresentado pelo Rui Afonso no tempo em que ambos eram deputados na Assembleia Legislativa, em meados dos anos 80 do século passado, pouco depois de eu demandar Macau pela primeira vez. 

Industrial, empresário, político, no ouvido ficar-me-ão as conversas por causa das receitas do jogo e as posições vigorosas, por vezes controversas e com as quais nem sempre concordei, que tomou em defesa daqueles que entendia serem os interesses de Macau.

Depois de 1999, quando eu fazia uma investigação sobre a classe política local, e estando ele na Fundação Macau, prontificou-se a receber-me e a abrir-me portas, dando-me o amparo necessário para melhor perceber um lado pouco conhecido e obscuro para a maioria dos ocidentais da elite chinesa.

Melómano confesso, e sabendo-me também apreciador do som das grandes orquestras, um dia, após um belíssimo jantar em sua casa, levou-me a conhecer a sala que possuía magnificamente equipada e onde se deliciava com a audição de "la grande musique". Foi uma 1812 com uns canhões inesquecíveis.

Ultimamente, estando já muito fragilizado, encontrava-o amiúde nos concertos do Centro Cultural, procurando o meu braço para poder descer as escadas até ao seu lugar sem correr o risco de se estatelar.

Que o Vítor descanse em paz. E que no Além não lhe faltem os músicos e as partituras.

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justiça

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.01.21

Passada a fase em que os não-residentes titulares dos chamados "blue card" eram sistematicamente colocados à margem, como se tivessem lepra e não fossem merecedores de quaisquer direitos, parece que aos poucos começa a voltar a lucidez aos decisores políticos.

Se no ano passado, quando começou a disseminação do novo Coronavírus, aqueles trabalhadores que tanto contribuem para o nosso bem-estar e progresso nem às simples máscaras de protecção tinham direito, aliás na linha das gravosas imposições que lhes haviam sido feitas em matéria de cuidados de saúde (algumas ainda em vigor), agora foi com satisfação que ouvi o Dr. Alvis Lo, do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, anunciar que as vacinas contra o COVID-19 serão acessíveis gratuitamente a residentes, não-residentes e aos estudantes vindos do exterior.

Se o Presidente Xi se dirige ao de Davos apelando à unidade internacional no combate ao novo Coronavírus e às alterações climáticas, nada melhor do que começar por mostrar essa unidade dentro de casa, tratando todos por igual e a todos conferindo os mesmos direitos e as mesmas obrigações.

Quem sabe se estes últimos desenvolvimentos não servirão para ensinar alguma coisa àquela gente ignorante que na Assembleia Legislativa e à custa dos não-residentes tanto mal tem causado nos últimos anos à RAEM, e contribuído para denegrir a imagem internacional da China, à força de se quererem mostrar patrióticos.

Poderá nunca haver democracia, mas ao menos que haja bom senso e justiça na governança. Sempre será um princípio.

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mágoas

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.01.21

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"What is clear to the Panel is that public health measures could have been applied more forcefully by local and national health authorities in China in January. It is also clear to the Panel that there was evidence of cases in a number of countries by the end of January 2020. Public health containment measures should have been implemented immediately in any country with a likely case. They were not. According to the information analysed by the Panel, the reality is that only a minority of countries took full advantage of the information available to them to respond to the evidence of an emerging epidemic."

Enquanto não vêm criticar o painel independente e contestar as conclusões, leia-se o que ficou escrito no segundo relatório intercalar da Organização Mundial de Saúde (OMS). 

Para mim, perante a informação que ao tempo possuía, pareceu-me evidente que não se prestou a devida atenção ao assunto em tempo oportuno.

Apesar de na altura já serem muitos os casos, se na China se escondeu, na Europa e no resto do mundo ignorou-se o que se estava a passar. Recordo-me de ter querido comprar máscaras em Portugal, no final de Janeiro e início de Fevereiro de 2020, e de não as haver disponíveis para venda. Foi preciso encomendá-las. E de não haver qualquer controlo nas fronteiras e nos aeroportos. Ainda ninguém tinha pensado nisso. Depois viu-se, está-se a ver, o que aconteceu.

Tudo o resto já é passado, servindo agora de muito pouco o envio da missão da OMS à China. A evidência que houvesse há muito que terá desaparecido atento o tempo decorrido, e partindo do princípio de que nada se eliminou, de pouco servindo nesta altura uma investigação controlada ao milímetro pelos anfitriões e devidamente "protegida" pelos capatazes habituais.

As preocupações de natureza política prevaleceram sempre sobre as exigências de transparência e de saúde pública. E isso aconteceu no início da pandemia, prolongou-se durante as fases iniciais de combate, tardando-se no reconhecimento da gravidade, desvalorizando-se os sinais que se multiplicavam ao nível de uma simples gripe por parte de uns quantos pobres de espírito impantes na sua ignorância, e teve um momento alto na forma destemperada como se reagiu ao pedido australiano para que fosse feita uma investigação internacional independente à origem do vírus.

Como se fosse a imposição de sanções comerciais a quem apenas clama por verdade, e um discurso xenófobo e pindericamente nacionalista, que permitisse escamotear a necessidade de uma investigação. Que seria sempre do interesse de todos, a todos poderia beneficiar, e acaba por acontecer tarde e a más horas, quando já não é possível esconder tudo o que de errado se fez e se pretendeu que o mundo não conhecesse.

Calculo que nunca haverá nenhuma assunção de culpa, nem isso é compatível com a altivez da pose e das respostas dos muitos que falharam clamorosamente na gestão política e sanitária da pandemia.

E se em Portugal surgirá quem aponte o dedo à irresponsabilidade e falta de sentido cívico e de pertença de muitos, também me parece incontornável que o pulso e a liderança não se impuseram, sobrando voluntarismo, insensatez e microfones. 

Os mortos ficam para as estatísticas. Todos perdemos muito. E continuaremos a perder. Algumas sequelas físicas e psicológicas serão permanentes. E as culpas, essas, acabarão proporcionalmente distribuídas em prol da cooperação futura entre as instituições e entre os países.

Para que tudo prossiga na paz do Senhor e do partido. Qualquer que seja a estrela que nos guie. Até à próxima catástrofe.

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feirantes

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.01.21

Com o distanciamento que a ausência permite, a paciência que me vai faltando, e mais por uma questão de cidadania do que por genuíno interesse nos fulanos, lá vou acompanhando os “debates” (vamos admitir que sim, que são) entre os candidatos presidenciais que saíram em sorte aos portugueses.

Certamente que irei votar, se a tal me permitirem, embora não saiba muito bem em quem.

Em todo o caso, se há uma coisa para que os tais debates podem servir é para nos mostrar, a todos os níveis, o grau de indigência, despudor e impreparação de alguns feirantes.

O apelo serôdio, populista e demagógico é uma constante. Um tipo vê-os para ali a arengar, com som ou sem som, ora de braços no ar ou de dedo em riste, com ar irado ou pose de cura, e não se nota qualquer diferença.

É claro que estou a exagerar. E a ser injusto para com o candidato Marcelo, que com todos os seus defeitos, apesar de tudo, merecia ter outro leque de convivas.

Admiro-lhe o poder de encaixe, naquela sua postura evangelizante, e até um certo estoicismo na forma como recebe as críticas que lhe são dirigidas. E como ouve alguns dislates que não seriam tolerados nas mesas de matraquilhos de algumas tabernas que outrora existiam em Lisboa.

Há, todavia, um candidato que mesmo por qualquer razão inexplicável não consiga ir à segunda volta já mostrou todas as virtudes de se ter uma democracia consolidada. Refiro-me ao candidato Ventura.

Pode-se não gostar do estilo, ou da voz, naquela postura de contentinho aos pulinhos, endiabrado, cheio de certezas coladas a cuspo, entre a estatura tridimensional de um Marques Mendes e a pose de um forcado gingão do "tipo Chicão", mas o homem é um poço de qualidades. No debate com o candidato Marcelo isso pareceu-me evidente. De tal modo que me fez lembrar o engenheiro Sócrates na fase pré-empréstimos a fundo perdido.

É um gosto vê-lo e ouvi-lo naquele fervor nacionalista e patriótico que faria as delícias do Presidente Xi ou de Ali Khamenei. A forma como exibiu e agitou as fotografias que levou, e que confundiram tanto o candidato Marcelo como deverão ter divertido o tal de Mamadou, apresentando a França como um exemplo de presidencialismo (daria chumbo numa oral da FDL), fizeram-me lembrar um quinquilheiro simpático, de bigodes, usando umas gravatas verdes ou lilases berrantes, que combinava a preceito com uns sapatos de cor creme e um fato cinzento, que quando eu era miúdo vendia tapetes na Feira de Carcavelos.

O tipo, enquanto agitava o tapete colorido que queria impingir a quem passava, gesticulando e impedindo sempre um exame mais atento, não fosse dar-se o caso da peça ter um salpico do molho da bifana, avançava, qual Jerónimo, “com todo o respeito” para exaltar as qualidades do poliéster, que era “quase lã do Cáucaso”, e a excelência do “ponto industrial”, informando desde logo os potenciais interessados da falta de qualidade dos tapetes dos concorrentes e do modo como baixavam os preços e atacavam os seus produtos para o impedirem de vender a tralha que promovia.

Não desfazendo, se aquele senhor que o candidato Ventura admira conseguiu convencer um bando de montanheses, peludas e barbudos saídos das profundezas do Alasca, das cavernas do Colorado e dos bordéis do Nevada, a entrarem pelo Capitólio com bandeiras da Confederação, em “chewbacca bikini”, e desafiando a autoridade da polícia e as regras do jogo democrático, tão queridas ao deputado candidato, também será de admitir a hipótese deste se apurar para uma segunda volta.

E até para uma terceira. Basta que haja mais uma ronda de debates e a vacina não lhe chegue a tempo.

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