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insensibilidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.06.20

Insensibilidade é a palavra de ordem dos últimos dias. Seja em relação aos trabalhadores não-residentes ou aos próprios residentes de Macau.

As sociedades capitalistas nunca foram particularmente amigas ou sensíveis aos mais fracos, mas uma das grandes virtudes das sociedades com democracias liberais modernas, ao contrário dos tão apregoados socialismos de vária índole, foi terem sido capazes de introduzir um módico de justiça social, de equilíbrio e de harmonia em ambientes profundamente injustos e desigualitários. Apesar de tudo.

A criação de mecanismos de protecção aos mais desfavorecidos na doença, no desemprego ou em razão do infortúnio resultante de um acontecimento de consequências trágicas, não foi uma conquista dos paraísos marxistas. O socialismo que atravessou o século XX, em qualquer uma das suas modalidades, e hoje persiste numa fraudulenta amálgama ideológica, contribuiu muito pouco para a felicidade dos povos, servindo antes para os manter agrilhoados a circunstâncias históricas, a determinismos musculados e à canga dos partidos comunistas.

Em relação a Macau e Hong Kong houve pelo menos um momento em que se poderia pensar na hipótese de ver nascer a esperança quando se admitiu ser possível acomodar o capitalismo desenfreado e parasita de muitos senhores das elites locais ao chamado "socialismo de características chinesas" que, sem dar liberdade ou trazer às populações o direito de escolherem os seus dirigentes e o seu futuro, arrancara muitos milhões à miséria e a uma secular pobreza.

As ideias de Deng Xiaoping, materializadas nos acordos firmados com as antigas potências administrantes e nas leis básicas dos dois antigos territórios sujeitos a administrações coloniais, permitiram sonhar com a manutenção das liberdades fundamentais então vigentes, com a diminuição das desigualdades, com a introdução de mais justiça social e mais direitos laborais. A vinculação a instrumentos jurídicos amplamente acolhidos pela comunidade internacional constituiria uma garantia adicional de que se prosseguiria nesse caminho.

Mais de três décadas volvidas, mais de duas sobre a integração plena de Hong Kong e de Macau na China, verifica-se que o acréscimo de riqueza obtido não passou a ser mais bem distribuído, e a sempre tão apregoada harmonia social só existe na aparência. Os males do capitalismo selvagem herdados dos tempos coloniais saíram reforçados pelos novos arautos do patriotismo com acesso directo a Pequim e assento nos diversos órgãos da oligarquia dominante.

A preocupação que houve em legislar e regular em matéria de segurança interna não foi acompanhada por igual inquietação, salvo casos pontuais recentes, na urgência da criação de verdadeiros instrumentos de defesa dos trabalhadores, chineses e não-chineses, que aqui labutam. Cavaram-se divisões mais fundas entre as diversas camadas sociais, acentuaram-se desfiladeiros de cariz xenóbo e nacionalista, esqueceram-se promessas anteriores, cercearam-se liberdades e o cumprimento da Lei Básica passou a ser invocado apenas para o que convinha.

O que nos últimos dias se ficou a saber sobre a forma como têm sido (mal)tratados alguns trabalhadores que, praticamente desprovidos de direitos básicos, são entregues à sua sorte depois de serem dispensados ou de sofrerem acidentes de trabalho tão graves que não sendo convenientemente tratados terão repercussão incapacitante para toda a sua vida laboral futura, ou aquilo que agora se soube sobre a dispensa de alguém que no final de uma vida de dedicação teve um duplo azar, dão bem a imagem da selva que é esta sociedade em que vivemos e onde se cultivou e mesclou o pior do capitalismo com o pior do socialismo.

Se há alguma lição a retirar de toda esta avassaladora insensibilidade social, intolerância e desprezo pela vida, pelos sentimentos mais básicos e pelo bem-estar dos outros que nos rodeiam, e sem os quais o nosso quotidiano seria de uma aridez atroz, é que por melhores que sejam as intenções de alguns e os instrumentos jurídicos será difícil alguma vez construir sociedades justas e equilibradas quando se está à mercê da escroquerie.

E a escroquerie, como bem se sabe, tanto se pode refugiar à sombra de um partido, de uma ideologia de ocasião, de uma religião, de leis talhadas à medida, de gangues associativos, de corporações ou de irmandades.

Nenhuma sociedade decente e feliz subsistirá, qualquer que seja a latitude, quando a sua sobrevivência estiver na mão de alguns sem pátria que, tirando os momentos em que andam a alçar a perna pelas esquinas, se dedicam ao farejo do garimpo.

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