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pansy

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.09.19

1.-pansy.jpg

(foto Eduardo Martins/Ponto Final)

A empresária Pansy Catalina Ho Chiu-king, mais conhecida simplesmente por Pansy Ho, foi a Genebra, ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, pronunciar-se sobre a situação de Hong Kong.

Desconheço a que título lá foi, nem indicada por quem, mas para o caso isso também não é relevante. Relevante foi o que a empresária, filha do magnata Stanley Ho, que fez fortuna em Macau, com uma licença de jogo, à sombra da administração colonial, com ela colaborando e pagando o exclusivo para assegurar benesses, resolveu fazer de porta-voz do Governo Central. Daí o amplo destaque que também foi dado às suas declarações do outro lado das Portas do Cerco.

É claro que a opinião é livre e o seu direito de livremente emitir as suas opiniões também o é. Da mesma forma que a mim me assiste o direito de publicamente a criticar e de comentar a vida pública dos locais onde vivo. Todavia, se eu estivesse no seu lugar teria usado de alguma contenção naquilo que resolveu dizer. Porque há coisas sobre as quais, quem está na sua posição, tem pouca ou nenhuma autoridade para falar.

Dizer que já fecharam muitos negócios, que muitas crianças fugiram de casa para se tornarem "lutadores radicais na linha da frente e cometerem actos criminosos", que há "exploração infantil" e que devia ser dada "uma reprimenda aos organizadores e às pessoas que influenciam com a criação de ódio e violência extrema" até estaria muito certo se, por um lado, tivesse apresentado quaisquer provas, coisa que não fez, e, por outro lado, não estivesse numa situação de total dependência de Pequim e das autoridades de Macau quanto à continuação das suas actividades na área do jogo. E como se isso não bastassse ainda se atreveu a falar em "lavagens cerebrais". Como se as políticas "patrióticas" e o que se faz do outro lado não fosse isto mesmo, como se a campanha de educação nacional, em relação à qual não me lembro de lhe ter ouvido uma palavra, também não tivesse esse objectivo. Como se todos tivessem pais que lhes pagassem os estudos em Palo Alto ou na Universidade de Santa Clara. 

Repare-se que já em Julho, em declarações à Agência Lusa, resolvera dizer que Ho Iat Seng era a pessoa certa para governar Macau.

Percebe-se porquê. Toda a gente sabe que Pansy Ho está numa encruzilhada. Está aí à porta um novo concurso para atribuição de licenças de jogo, sendo seu objectivo garantir uma, ou mais, dessas licenças para as empresas a que está ligada. Presumo que esta seja uma outra forma de patriotismo. Essa e comprar casas de 900 milhões de dólares de Hong Kong, valor obsceno em qualquer parte do mundo, ofensivo da generalidade da população de Hong Kong e Macau e que devia envergonhar os seus apoiantes comunistas que deram destaque às declarações que fez em Genebra. 

Independentemente das razões que possam estar por detrás das suas opções políticas, e dos subservientes elogios que entenda fazer ao status quo, que tanto tem contribuído para o engrandecimento dos seus negócios, seria bom que enquanto empresária, através das suas empresas, se preocupasse também em prestar melhores serviços às populações de Macau e de Hong Kong.

Nas declarações que fez, Pansy Ho ignorou o sentimento de revolta social de muitos cidadãos, o sentimento de insegurança em relação ao futuro, e que a sua gula, bem como a de outros empresários como ela, tem contribuído para o progressivo agravamento das condições de vida desses cidadãos, muitas vezes através da imposição de condições "leoninas" nalguns dos seus negócios, noutras pela prestação de serviços cada vez mais caros e deficientes.

Veja-se, por exemplo, o caso de Macau e a forma agressiva como se comporta em matéria imobiliária em relação aos que entram em negócios consigo, impondo muitas vezes condições que seriam inaceitáveis numa sociedade equilibrada e em qualquer outra parte do mundo civilizado.

Nos apartamentos em que já vivi construídos pelas suas empresas, por exemplo ali na Taipa, a qualidade de construção é baixa, os acabamentos muitas vezes miseráveis, tudo feito às três pancadas e à pressa, as casas são geladas nos dias frios, com um calor insuportável no Verão e húmidas o ano todo devido ao mau isolamento térmico. O mau funcionamento dos sanitários é uma constante, o cheiro que vem das casas de banho é não raro insuportável, e cheguei a ficar com torneiras na mão e com a água a correr durante um ror de tempo até que a gente da manutenção ligada ao condomínio resolvesse o problema. No entanto, os preços são elevadíssimos para a qualidade da construção e para a má qualidade dos serviços que prestam. Basta comparar com o que se faz em Portugal.

Também no caso do serviço de jetfoils a qualidade do serviço é muito deficiente. As condições das embarcações são deploráveis, dos assentos à limpeza. Os horários muitas vezes não são cumpridos, o pessoal é rude no tratamento com os passageiros, muitos não falam um inglês aceitável para quem opera no sector do turismo, pede-se uma cerveja e nem copo trazem, quando trazem é de cartão, a comida é péssima, mesmo na Super Class, e de há uns tempos a esta parte assistimos à crescente supressão de carreiras entre o Aeroporto de HK e Macau, o que é motivo de insatisfação e de incómodos para muita gente. 

Para além disso, penso que seria de todo o interesse que a empresária revelasse os valores salariais que paga aos seus trabalhadores em Macau, de acordo com as respectivas categorias, e que publicitasse essa informação.

Pelo que me é dado saber, mas se estiver enganado poderá corrigir-me e eu serei o primeiro a reconhecê-lo, os valores médios dos salários que paga também são baixos e a maioria tem menos férias e menos dias feriados do que um estafeta no meu pequeno escritório. A empresária devia ter vergonha disto. Ela e muitos patrões de Macau.

Naturalmente que para a empresária tudo isto é irrelevante.

O que infelizmente interessa, para ela e muitos outros, é continuar a enriquecer a todo o gás, tirando partido da dimensão atingida pelas suas empresas e da proximidade ao poder para conquistar novos negócios e impor condições aos mais fracos, assegurando a manutenção de posições de domínio e esquecendo a melhoria da qualidade dos serviços das suas empresas e a função social da criação de riqueza. Se para isso for necessário cortar liberdades, alinhar num discurso securitário, fazer de capacho ao poder, pedir um reforço do autoritarismo policial e elogiar as políticas de governos não eleitos e não escolhidos pelo povo, não há qualquer problema.

Havendo uma crise, Pansy Ho terá sempre dinheiro suficiente para se mudar para qualquer outra parte do mundo e recorrer a uma nacionalidade que não a chinesa. De preferência para um país onde haja liberdade, democracia, tribunais independentes e boa qualidade de vida para aí poder continuar a fazer negócios e a viver bem, garantindo um bom futuro para os filhos. Quem não puder sair de Hong Kong e Macau que se lixe. Ela terá sempre uma casa no Peak ou em qualquer outro lado.

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