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bênçãos

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.09.19

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Passaram uns dias antes que eu pudesse aqui* voltar. Resolvi fazê-lo esta manhã, aproveitando uma pequena pausa nas minhas obrigações, em jeito como que de homenagem à Melita, que faz hoje 92 anos. 

Sei que a Melita não poderá ler este texto, não está em condições de poder fazê-lo porque as vicissitudes por que tem passado já não o permitem. Por vezes, a apatia sobrepõe-se ao sorriso, sereno e terno, que sempre está presente, em especial quando ouve a nossa, a minha, voz, e aproveitando a passagem de alguém por lá consegue vislumbrar e reconhecer quem lhe acena e fala de longe a partir da imagem de um telemóvel.

Em todo o caso, foi nela em quem pensei quando no passado dia 9 de Setembro, viajando entre Kumamoto e Fukuoka, li este texto que hoje aqui vos trago de Frei Bento Domingues.

Quem me conhece, e aqui ou ali me vai lendo, sabe quais são as minhas convicções. Nunca o escondi. Fui sempre transparente, mesmo em matéria religiosa, não confundido aquilo em que acredito com a fé e a religião que muitas vezes me querem servir.

Talvez por tudo isso tenha sentido de uma forma mais profunda as palavras do cronista do Público que, pese embora muitas vezes esteja nos meus antípodas, leio com agrado. E devoção. Seja pela forma generosa como se expõe, e à sua fé, como igualmente pelo convite à reflexão, à introspecção, e a um outro olhar para o mundo que nos rodeia. Frei Bento Domingues fá-lo com extrema elegância, sem nos querer impôr nada, entrando e saindo quase sem se dar por ele, deixando, no entanto, um rasto que nos leva a segui-lo e a olhar para as suas palavras com a atenção que o autor e os seus textos merecem.

Sei que a Melita gostaria de poder lê-lo. Talvez até admitisse discutir comigo alguma da fé que de um modo tão próprio, muitas vezes sem o referir, cultivou ao longo da vida e que tão esforçadamente me quis transmitir sem grande sucesso.

Espero poder voltar a vê-la e abraçá-la dentro de alguns dias, quando finalmente a reencontrar, para voltar a ter a ternura do seu olhar e a graça do seu conformado sorriso. Por tudo o quanto a vida lhe deu e lhe tirou, sem aviso e sem que nada tivesse feito para o merecer.

Enquanto isso não acontece, deixem-me que aqui partilhe algumas das palavras de Frei Bento Domingues, a quem desde já agradeço a generosidade de connosco ir partilhando a sua fé e as suas dúvidas:

"No mês de Agosto, ao ler e ouvir ler alguns textos do Antigo Testamento (AT), indicados para a celebração diária da missa, senti-me arrepiado perante o ódio que os inspirava. Apesar da sua beleza literária, eram insuportáveis: Iavé mata e manda matar.

Deixo, aqui,  alguns exemplos: "Atravessaste o Jordão e chegastes a Jericó. Combateram contra vós os homens de Jericó, os amorreus, os perizeus, os cananeus, os hititas, os guirgaseus, os heves e os jebuseus; mas Eu [Iavé] entreguei-os nas vossas mãos. Mandei diante de vós insectos venenosos que expulsaram os dois reis dos amorreus. Não foi com a vossa espada, nem com o vosso arco. Dei-vos, pois, uma terra que não lavrastes, cidades que não edificastes e que agora habitais, vinhas e oliveiras que não plantastes e de cujos frutos vos alimentais" (...)

"Jefté marchou contra os amonitas e travou combate contra eles: Iavé entregou-os nas suas mãos. Derrotou-os desde Aroer até às proximidades de Minit, tomando-lhes vinte cidades, e até Abel-Queramim; foi uma derrota muito grande; deste modo, os amonitas foram humilhados pelos filhos de Israel" (...)

Os filhos de Israel "abandonaram Iavé e adoraram Baal e os ídolos de Astarté. Inflamou-se a ira de Iavé contra Israel e entregou-os nas mãos dos salteadores que os espoliaram e vendeu-os aos inimigos que os rodeavam. Eles já não foram capazes de lhes resistir. Para onde quer que saíssem, pesava sobre eles a mão de Iavé como um flagelo, conforme lhes havia dito e jurado; e foi muito grande a sua angústia".

Com a entrada do mês de Setembro, parece que mudamos de Deus e de mundo. São textos tirados da tradição sapiencial. Frei Francolino Gonçalves, exegeta dominicano, membro da Comissão Bíblica Pontifícia e professor da Escola Bíblica de Jerusalém, faleceu há dois anos. Deixou-nos textos essenciais para ler a Bíblia com inteligência, para não cedermos a nenhuma espécie de fundamentalismo. Hoje, evoco um que aborda, precisamente, a distinção de dois iaveísmos. Diria, por conveniência fundada, que se trata de Iavé de Agosto diferente de Iavé de Setembro. O melhor, porém, abstraindo desta circunstância, é ouvir o próprio autor, mediante um fragmento de uma grande elaboração que pode ser lida, na íntegra, nos Cadernos ISTA acessíveis na Internet.

Na Bíblia, Deus não é apresentado só com uma pluralidade de nomes, mas também com uma multiplicidade de retratos. O que a Bíblia põe na boca de Deus, ou diz dele, sugere um grande número de imagens muito variadas, contrastadas e, nalguns casos, aparentemente contraditórias. A grande maoria é de uma grande beleza, mas também as há que são de uma notável fealdade, ou até assustadoras."

Francolino Gonçalves defendeu a ideia de que não devemos atribuir esse mundo bíblico apenas à corrente nacionalista, cujo centro é a eleição de Israel como povo de Deus e a aliança entre ambos. Já havia alguns autores que tinham discordado dessa amálgama. Segundo ele, os exegetas não prestaram a estas vozes discordantes a atenção que mereciam. A esmagadora maioria parece nem as ter ouvido. Por isso ficaram sem eco, não tendo chegado ao conhecimento dos teólogos, dos partores nem, por maioria de razão, do público cristão. As minhas pesquisas nesta matéria confirmaram, essencialmente, os resultados dos estudosque referi e, além disso, levaram-me a propor uma hipótese de interpretação do conjunto dos fenómenos religiosos do AT, que é nova. A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro na história da relação de Iavé com Israel.

Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT.

3. Dei a palavra a Francolino Gonçalves. Na homenagem internacional que lhe foi prestada, na Universidade de Lisboa e no Convento de S. Domingos, no passado mês de Maio, a questão dos dois sistemas iaveístas foi objecto de várias intervenções. Eu próprio, na homilia que me pediram, tentei mostrar o alcance pastoral desta distinção: quando um Deus se apresenta como tendo escolhido um povo, com o qual estabeleceu uma aliança, e este povo se considera o eleito, o povo de Deus, estamos perante um Deus nacionalista.

A causa de Deus e a causa da Nação passam a ser uma só, embora, de vez em quando, Deus manifeste que o povo depende dele, mas ele não depende do povo.

O nacionalismo continua a revelar-se como pouco recomendável para o bem da humanidade. Um nacionalismo divinizado é a peste das pestes."

Confesso que, passada uma semana, não posso deixar de estar de acordo com Frei Bento Domingues. Creio que a Mélita também estaria se pudesse lê-lo. Como não pode, deixo aqui, com a devida vénia, este extracto da crónica.

Parabéns à Mélita pelo seu aniversário. Parabéns a Frei Bento Domingues por nos ajudar a pensar e a ver melhor. A Mélita e Frei Bento Domingues são duas bênçãos nos meus dias. Terrenas, evidentemente. Nem por isso menos divinas. E estou-lhes agradecido.

* (ao Delito de Opinião)

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excelência

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.09.19

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A saúde que é ministrada pelos serviços sob a tutela de Alexis Tam continua a dar provas de que o seu desajustamento da realidade é notável. Os serviços prestados são o espelho de quem os dirige.

Os prazos que são cumpridos, a dificuldade que é arranjar uma consulta urgente num especialista (a propósito: quantos especialistas já chegaram das dezenas cuja contratação foi anunciada?) ou realizar um exame continuam a aproximar-se rapidamente dos piores padrões a nível mundial. 

É claro que depois se pode contratar uma empresa qualquer vinda do exterior, normalmente bem paga, para carimbar a "excelência" da incompetente burocracia oficial, mas os doentes que aguentem.

Uma pessoa está com um problema do foro dermatológico a necessitar de resolução urgente, vai a um Centro de Saúde, emitem-lhe uma requisição para um dermatologista do Centro Hospitalar Conde de S. Januário e agendam-lhe a consulta para daí a uns meses. Solução: ir ao privado antes que a coisa se agrave e alastre ainda mais.

Ontem chegou-me mais um exemplo dos medíocres serviços que são prestados: um tipo queixa-se de dores no estômago há vários dias, foi duas vezes às Urgências, depois vai ao Centro de Saúde, mandam-no fazer uma endoscopia imediatamente, emitem-lhe uma requisição e o exame é agendado pelo CHCSJ para Outubro ... de 2020!!! Sim, não é engano. Até lá o paciente pode sofrer e morrer, se for o caso, com a maior tranquilidade.

A seguir, esse desgraçado em vez de ficar mais de um ano à espera, resolveu ir perguntar ao Hospital Kiang Wu se lhe podiam fazer o exame. Claro que lhe fazem o exame num prazo curto, mas as centenas de milhões que recebem da RAEM não chegam para reduzir o custo de uma endoscopia  pela qual cobram vários milhares de patacas.

A única solução para contornar o problema e que continua a funcionar é a tão colonial "cunha". 

Em vinte anos, a saúde pública de Macau em vez de se aproximar dos padrões de Singapura ou da Suíça ficou cada vez mais próxima do que se faz nos países mais atrasados, naqueles onde não há recursos públicos disponíveis para fazer face às necessidades da população. Mais uma vergonha patriótica em matéria de gestão de recursos e prestação de serviços à população numa região que caminha para ter o PIB per capita mais elevado do mundo.

O futuro Chefe do Executivo devia pensar nisto antes de pensar em reconduções.

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pansy

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.09.19

1.-pansy.jpg

(foto Eduardo Martins/Ponto Final)

A empresária Pansy Catalina Ho Chiu-king, mais conhecida simplesmente por Pansy Ho, foi a Genebra, ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, pronunciar-se sobre a situação de Hong Kong.

Desconheço a que título lá foi, nem indicada por quem, mas para o caso isso também não é relevante. Relevante foi o que a empresária, filha do magnata Stanley Ho, que fez fortuna em Macau, com uma licença de jogo, à sombra da administração colonial, com ela colaborando e pagando o exclusivo para assegurar benesses, resolveu fazer de porta-voz do Governo Central. Daí o amplo destaque que também foi dado às suas declarações do outro lado das Portas do Cerco.

É claro que a opinião é livre e o seu direito de livremente emitir as suas opiniões também o é. Da mesma forma que a mim me assiste o direito de publicamente a criticar e de comentar a vida pública dos locais onde vivo. Todavia, se eu estivesse no seu lugar teria usado de alguma contenção naquilo que resolveu dizer. Porque há coisas sobre as quais, quem está na sua posição, tem pouca ou nenhuma autoridade para falar.

Dizer que já fecharam muitos negócios, que muitas crianças fugiram de casa para se tornarem "lutadores radicais na linha da frente e cometerem actos criminosos", que há "exploração infantil" e que devia ser dada "uma reprimenda aos organizadores e às pessoas que influenciam com a criação de ódio e violência extrema" até estaria muito certo se, por um lado, tivesse apresentado quaisquer provas, coisa que não fez, e, por outro lado, não estivesse numa situação de total dependência de Pequim e das autoridades de Macau quanto à continuação das suas actividades na área do jogo. E como se isso não bastassse ainda se atreveu a falar em "lavagens cerebrais". Como se as políticas "patrióticas" e o que se faz do outro lado não fosse isto mesmo, como se a campanha de educação nacional, em relação à qual não me lembro de lhe ter ouvido uma palavra, também não tivesse esse objectivo. Como se todos tivessem pais que lhes pagassem os estudos em Palo Alto ou na Universidade de Santa Clara. 

Repare-se que já em Julho, em declarações à Agência Lusa, resolvera dizer que Ho Iat Seng era a pessoa certa para governar Macau.

Percebe-se porquê. Toda a gente sabe que Pansy Ho está numa encruzilhada. Está aí à porta um novo concurso para atribuição de licenças de jogo, sendo seu objectivo garantir uma, ou mais, dessas licenças para as empresas a que está ligada. Presumo que esta seja uma outra forma de patriotismo. Essa e comprar casas de 900 milhões de dólares de Hong Kong, valor obsceno em qualquer parte do mundo, ofensivo da generalidade da população de Hong Kong e Macau e que devia envergonhar os seus apoiantes comunistas que deram destaque às declarações que fez em Genebra. 

Independentemente das razões que possam estar por detrás das suas opções políticas, e dos subservientes elogios que entenda fazer ao status quo, que tanto tem contribuído para o engrandecimento dos seus negócios, seria bom que enquanto empresária, através das suas empresas, se preocupasse também em prestar melhores serviços às populações de Macau e de Hong Kong.

Nas declarações que fez, Pansy Ho ignorou o sentimento de revolta social de muitos cidadãos, o sentimento de insegurança em relação ao futuro, e que a sua gula, bem como a de outros empresários como ela, tem contribuído para o progressivo agravamento das condições de vida desses cidadãos, muitas vezes através da imposição de condições "leoninas" nalguns dos seus negócios, noutras pela prestação de serviços cada vez mais caros e deficientes.

Veja-se, por exemplo, o caso de Macau e a forma agressiva como se comporta em matéria imobiliária em relação aos que entram em negócios consigo, impondo muitas vezes condições que seriam inaceitáveis numa sociedade equilibrada e em qualquer outra parte do mundo civilizado.

Nos apartamentos em que já vivi construídos pelas suas empresas, por exemplo ali na Taipa, a qualidade de construção é baixa, os acabamentos muitas vezes miseráveis, tudo feito às três pancadas e à pressa, as casas são geladas nos dias frios, com um calor insuportável no Verão e húmidas o ano todo devido ao mau isolamento térmico. O mau funcionamento dos sanitários é uma constante, o cheiro que vem das casas de banho é não raro insuportável, e cheguei a ficar com torneiras na mão e com a água a correr durante um ror de tempo até que a gente da manutenção ligada ao condomínio resolvesse o problema. No entanto, os preços são elevadíssimos para a qualidade da construção e para a má qualidade dos serviços que prestam. Basta comparar com o que se faz em Portugal.

Também no caso do serviço de jetfoils a qualidade do serviço é muito deficiente. As condições das embarcações são deploráveis, dos assentos à limpeza. Os horários muitas vezes não são cumpridos, o pessoal é rude no tratamento com os passageiros, muitos não falam um inglês aceitável para quem opera no sector do turismo, pede-se uma cerveja e nem copo trazem, quando trazem é de cartão, a comida é péssima, mesmo na Super Class, e de há uns tempos a esta parte assistimos à crescente supressão de carreiras entre o Aeroporto de HK e Macau, o que é motivo de insatisfação e de incómodos para muita gente. 

Para além disso, penso que seria de todo o interesse que a empresária revelasse os valores salariais que paga aos seus trabalhadores em Macau, de acordo com as respectivas categorias, e que publicitasse essa informação.

Pelo que me é dado saber, mas se estiver enganado poderá corrigir-me e eu serei o primeiro a reconhecê-lo, os valores médios dos salários que paga também são baixos e a maioria tem menos férias e menos dias feriados do que um estafeta no meu pequeno escritório. A empresária devia ter vergonha disto. Ela e muitos patrões de Macau.

Naturalmente que para a empresária tudo isto é irrelevante.

O que infelizmente interessa, para ela e muitos outros, é continuar a enriquecer a todo o gás, tirando partido da dimensão atingida pelas suas empresas e da proximidade ao poder para conquistar novos negócios e impor condições aos mais fracos, assegurando a manutenção de posições de domínio e esquecendo a melhoria da qualidade dos serviços das suas empresas e a função social da criação de riqueza. Se para isso for necessário cortar liberdades, alinhar num discurso securitário, fazer de capacho ao poder, pedir um reforço do autoritarismo policial e elogiar as políticas de governos não eleitos e não escolhidos pelo povo, não há qualquer problema.

Havendo uma crise, Pansy Ho terá sempre dinheiro suficiente para se mudar para qualquer outra parte do mundo e recorrer a uma nacionalidade que não a chinesa. De preferência para um país onde haja liberdade, democracia, tribunais independentes e boa qualidade de vida para aí poder continuar a fazer negócios e a viver bem, garantindo um bom futuro para os filhos. Quem não puder sair de Hong Kong e Macau que se lixe. Ela terá sempre uma casa no Peak ou em qualquer outro lado.

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resumindo

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.09.19
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(Ring Yu | HK01 via AP)

 

I had not given myself the choice to take an easier path and that is to leave. I’d rather stay on and walk this path together with my team and with the people of Hong Kong.”

As declarações desta tarde da Chefe do Governo de Hong Kong podem ajudar a esclarecer alguma coisa sobre o que se está a passar, mormente quanto à sua consistente falta de aptidão para resolver a crise política e social em que a Região Administrativa Especial de Hong Kong está mergulhada.

O caos está instalado há várias semanas. Pelo que hoje se ouviu estará para continuar. 

Diz Carrie Lam que até ao momento nunca apresentou a sua demissão ao Governo Central, que jamais discutiu com este essa possibilidade, e que a decisão de continuar, não se demitindo, é exclusivamente dela.

Nada disto, e a forma veemente como o afirmou, permite a alguém concluir que não seja assim. Daí, talvez, que a própria refira que não quis escolher o caminho mais fácil – admito que para ela e para Pequim –, preferindo ficar e prosseguir com a sua equipa e "o povo de Hong Kong".

Sem querer dar toda a razão ao cronista Alex Lo (Hong Kong: a failed political experiment), quando categoricamente nos diz que Hong Kong é um falhanço tão grande que conseguiu colocar de acordo "mainlanders" e chineses de Taiwan, talvez que a explicação do desastre – visto não em termos teóricos, pois continuo a pensar que o princípio "um país, dois sistemas" tem virtualidades, mas em termos práticos – resida na admissão de factos, por parte da senhora Carrie Lam, que não têm qualquer correspondência na realidade.

Fê-lo noutras ocasiões. Repetiu-o hoje para confirmá-lo. 

Quando a Chefe do Executivo assume que não se demite porque quer continuar o caminho com a sua equipa e o povo de Hong Kong, isso estará  muito certo quanto à sua equipa. A sua equipa foi convidada, aceitou o convite, foi nomeada, e é paga (bem) para isso. Mas quanto ao povo de Hong Kong, quem é que lhe perguntou se queria a senhora Carrie Lam a mandar? Quando é que o povo se manifestou? E perante a crise actual, e com toda a inaptidão revelada pela senhora e a sua equipa, alguém perguntou ao povo de Hong Kong se queria prosseguir com a actual Chefe do Executivo? Pagaram ao povo de Hong Kong para aceitá-la?

A mim parece-me que a Chefe do Executivo de Hong Kong se predispôs, uma vez mais, a transportar no seu veículo passageiros que há semanas não se cansam de berrar, e alguns até de vandalizarem vidros e estofos, para vincarem a sua posição. Isto é, que não querem prosseguir a marcha nas actuais condições; e ainda menos se conduzidos pela senhora. E acrescentam entre gritos e choro que só continuarão dentro daquele veículo à custa de muita pancada. 

Poder-se-á sempre dizer que o povo de Hong Kong não escolheu, e que também não manifestou oportunamente a sua oposição à solução negociada. E que até poderia tê-lo feito no tempo colonial. Em todo o caso, quanto a este ponto, penso que como qualquer pessoa de bem e de boa fé confiou no que lhe foi prometido, tanto pelo tutor colonial que lhe foi imposto após a Guerra do Ópio, como pelo mãe biológica da qual fora apartado há mais de 150 anos. 

Vinte e dois anos depois da transferência de soberania, embora tivesse começado a dar sinais anteriormente, a confiança desmoronou-se de vez.

Como num qualquer contrato de casamento, um dos cônjuges, neste caso o povo, fartou-se das juras e das promessas não cumpridas pelo outro, o Chefe do Executivo de HK. Juras e promessas avalizadas pelo sogro que vive em Pequim. Vê-se por aqui que não se trata, obviamente, de uma relação entre mãe e filho, ao contrário do que candidamente pensava Carrie Lam, ainda em Junho, em mais uma leitura distorcida da sua situação, digamos assim, político-familiar.

A senhora Carrie Lam, mais a mais sendo pessoa evangelizada e habituada a ouvir homilias, devia saber que por mais que os anos passem um casamento por conveniência só será eterno se a ele não sobrevir o sofrimento e a infelicidade de uma das partes. Se a estes se juntarem depois os maus tratos físicos, verbais e psicológicos por parte de um cônjuge autoritário e dominante, então estarão criadas as condições para a louça se começar a partir e os móveis voarem pelas janelas e varandas. Tudo perante a revolta dos filhos trintões que, não conseguindo arranjar casa para se mudarem, se sentem injustiçados e estão fartos de assistir às cenas de insulto e de estalada à hora da novela. A paciência destes é igualmente um recurso finito.

E é claro que chamar o vizinho, só porque é um primo bem colocado na polícia, com amigos em Macau e da confiança do sogro, para bater no cônjuge queixoso e nos filhos incompreendidos, em vez de procurar acalmá-los e resolver o problema sem violência, como gente civilizada, também poderá não ser a melhor solução. No limite zangam-se todos, não fica nada de pé, e ainda correm o risco de chegarem a 2047 deserdados pelos tios que têm o negócio das antiguidades e velharias.

Em termos sucintos é assim que estão do outro lado do delta do rio das Pérolas.

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