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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Segunda-feira, 21.11.16

rescaldo

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Caiu o pano sobre mais uma edição do Grande Prémio de Macau, o 63.º para os carros, o 50.º para as motas. Como sempre acontece em Macau, houve luzes, glamour, acção, emoção e drama.

A transferência da organização para o Instituto dos Desportos e o progressivo desinvestimento financeiro no maior cartaz desportivo e turístico de Macau começa a dar frutos. E estes, em vez de serem carnudos e saborosos, como em anos anteriores, foram de todas as formas e feitios. Houve dos mais doces e sumarentos aos mais escanzelados, amargos, com bicho e ruins.

A saída do eng.º Costa Antunes e a alteração do modelo de organização já haviam provocado o abandono de Barry Bland e da Motor Race Consultants, em Setembro pp., ao fim de 33 anos de coordenação da F3, o que lançou a confusão e a dúvida sobre as capacidades do novo modelo. Se no início se devia dar o benefício da dúvida, neste momento, concluída que está mais uma edição, exigem-se medidas de fundo para garantir o futuro da prova e a competição desportiva.

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Desportivamente, é bom dizê-lo, as coisas correram bem para os vencedores de algumas provas, em especial para os pilotos portugueses (Félix da Costa e Tiago Monteiro deram um festival de condução em toda a linha), mas também para alguns pilotos locais que apesar das limitações e adversidades que enfrentaram também se exibiram em bom nível (Filipe Souza, Célio Alves Dias, Chan Wing Chung e André Couto, por exemplo).

E digo para os vencedores de algumas provas porque a Taça do Mundo de GT, que tinha tudo para ser uma jornada memorável, e a prova final do TCR ficaram manchadas por decisões inexplicáveis em relação ao uso e abuso do safety car e da bandeira vermelha.

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Se nas motos houve uma corrida à altura, simplesmente perfeita, a imagem final do pódio da corrida de GT transmitiu para todo o mundo a desilusão, o desacerto e o modo como a organização enterrou as esperanças de equipas, de pilotos e de adeptos. O vencedor declarado na secretaria, o belga Laurens Vanthoor, que foi o primeiro a reconhecer não serem normais as circunstâncias em que lhe foi atribuída a vitória, não merecia receber um troféu com o peso da Taça do Mundo de GT numa corrida com quatro voltas, duas delas atrás do safety car, depois de ter sido ultrapassado de forma limpa por Earl Bamber e de ter perdido o controlo do carro que conduzia na curva do Mandarim. Vanthoor é um excelente e rapidíssimo piloto que dispensava a vergonha de receber a taça. Se havia que encurtar o programa, então que isso fosse feito cortando nos habituais salamaleques, e não na competição. Se não era possível fazer 18 voltas, então que se fizessem 10 ou 8. Os regulamentos cumpriram-se, só que desta forma perdeu a verdade desportiva, perdeu a competição. A haver um vencedor, depois da penalização de Bamber, então que fosse Kevin Éstre. Com o que aconteceu ficaram todos a perder: os espectadores, os pilotos, as marcas, os patrocinadores e a organização.

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O tempo que demorou a decisão sobre a eventual continuação da prova FIA GT, com os veículos todos em fila nas boxes, os pilotos sentados no chão, sem capacete, suando em bica, aguardando durante momentos infindáveis que fosse retomada uma corrida que acabou por não prosseguir, sem que o público soubesse o que se estava a passar durante largos minutos, e depois de se ter dito aos microfones que a prova seria recomeçada dentro de dez minutos, foi um momento para esquecer.

Também a prova do TCR não correu bem. O alargamento do leque de concorrentes só serviu para prejudicar a competição desportiva. A maioria dos acidentes que determinaram as interrupções, com excepção do protagonizado pelo veterano Morbidelli, foi provocada por pilotos inexperientes, sem os pergaminhos das estrelas do TCR, e sem que da sua inclusão resultasse qualquer benefício para o espectáculo. As queixas dos pilotos de topo, por exemplos Nash e Comini, dizem bem do desacerto das decisões.

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Mas pior do que tudo isso foi a deficientíssima prestação de alguns comissários que agitaram bandeiras verdes no momento em que deviam ter agitado amarelas, provocando acidentes escusados, o atabalhoamento na retirada de viaturas acidentadas, a falta de comunicação entre quem estava na pista e quem dava as ordens, de tal forma que não ocorreram situações mais graves e com consequências para a integridade física das pessoas por milagre. Os comissários têm de ser os melhores e têm de ser pagos pela função que desempenham. O nível do Grande Prémio de Macau e o que se espera dele são dificilmente conciliáveis com amadorismo, improvisação e formação à la minute.

A colocação de alguns correctores, a revisão do seu perfil, a introdução de correcções na curva do Mandarim ou no final dos Pescadores, o acrescento de pequenas extensões de rails metálicos em locais onde só há betão, como sugerido pelo antigo piloto Isaías do Rosário, e a melhoria do piso, são premências que se impõem para protecção dos pilotos, da competição e dos padrões a que a prova a todos habituou, dentro e fora de portas.

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Uma das queixas ouvidas no paddock respeitou à atribuição de passes para os convidados das equipas. De acordo com o transmitido por uma equipa participante, a prática anterior levava a que cada equipa entregasse a lista dos seus convidados à organização que depois geria a respectiva atribuição. Este ano os passes foram limitados a 30 por equipa, independentemente do número de carros, da dimensão das equipas e da extensão da lista de convidados, o que levou a que equipas com mais de 30 convidados tivessem de comprar passes pagos a EUR (?) 250,00 cada para os convidados acima da quota, enquanto outras que não precisavam de tantos passes ficaram com eles na gaveta. Não pude confirmar esta informação, mas foi-me transmitida pelo responsável por uma das equipas mais importantes em prova, aliás pessoa que me merece a máxima credibilidade.

Todos estes aspectos, e certamente outros mais haverá que não são do meu conhecimento, deverão ser revistos e esclarecidos para serem acautelados e melhorados em futuras edições. A oferta gastronómica disponível para o público melhorou um pouco em relação ao ano passado. Este parece-me ser um aspecto positivo a salientar, mas é possível fazer melhor. 

Quem gosta do Grande Prémio de Macau e de corridas de automóveis gosta de bons espectáculos, bem organizados e com a máxima segurança, pelo que as críticas ouvidas na edição que findou deverão ser objecto de análise e reflexão. Pretende-se a melhoria da prova e a valorização do espectáculo desportivo, não o seu fim.

A desvalorização das críticas, da componente desportiva e de segurança (faz muita falta a experiência dos comissários do Autódromo do Estoril), e a guarida dada ao folclore comercial de alguns lobbies vindos de fora, que cresceram à sombra das suas opacas ligações aos poderes, e que aos poucos se vão tornando nos novos donos de Macau, não pode continuar a impor-se à competição sob pena de um destes dias a FIA mudar de ideias e intervir de forma mais incisiva.

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No dia em que isso acontecer perderá Macau e perderemos todos, limitados como estaremos então a ver passar os carros com as cores do principal patrocinador e as excursões de construtores chineses de terceira linha.

Não creio que seja este o objectivo. Seria por isso bom que se retirassem algumas lições do que aconteceu este ano e que a organização fosse sempre dirigida por quem gosta de carros, perceba alguma coisa de corridas de motas e de automóveis e tenha experiência na matéria. E não por empresários, burocratas e funcionários polivalentes, sem qualquer experiência e conhecimento da competição, com objectivos economicistas que depois saem caros. Se por cá não houver "talentos" para isto, em quantidade e qualidade, o melhor será abrir os cordões à bolsa dos "casineiros" e recrutar profissionais no exterior.

Macau merece o melhor. Sempre. E dispensa a propaganda barata e o refugo, venha este de onde vier, com ou sem carta de recomendação do chefe.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 14.11.16

envergonhado

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A menos de um mês da data agendada para o início do 1.º Festival Internacional de Cinema de Macau, a demissão do consagrado Marco Müller, seu director, antigo responsável por festivais em Roterdão, Locarno, Veneza e Roma, entre outros, pessoa sobejamente conhecida na China e no mundo da Sétima Arte, caiu como uma bomba. E levanta muitas interrogações e perplexidades.

Enquanto o próprio não falar e apresentar as suas razões, as declarações entretanto produzidas por quem ficará com a responsabilidade de conduzir o evento daqui para a frente foram, no mínimo, hilariantes e são sinal do amadorismo e da falta de noção que por cá se tem da importância e dimensão de um evento da natureza daquele que se queria produzir.

Ninguém sabe o que vai sair do " Committee" (o festival só tem como línguas na sua página oficial o inglês e o chinês), mas bastará olhar para os currículos da presidente e dos vice-presidentes executivos para se perceber que levaram a vida toda a ler a Première, frequentando festivais e ciclos de cinema e que estão habituados a tratar por tu os De Niro, as Binoche, as Deneuve, os Scorcese e os Tarantino que regularmente desembarcam em Macau, para com eles discutirem as escolhas feitas em Berlim, San Sebastian ou nas margens do Lago di Como.

A demissão de Marco Müller é uma vergonha para Macau porque representa o fim da única garantia de qualidade que um festival de cinema, com pretensões de grandeza internacional, podia apresentar. Para este desfecho não valia a pena tê-lo trazido.

Não deixa por isso de ser estranho que alguém com o passado e prestígio do director que se demitiu, do qual não consta que seja um amador irresponsável ou esteja habituado a ser um pau-mandado de quem está no poder, fosse arriscar-se a enterrar o seu nome e reputação no Cotai. Um profissional com o prestígio internacional de Müller, construído ao longo de décadas, que inclusivamente está habituado a trabalhar na China, não precisa de Macau para nada. E, evidentemente, não está disposto a contemporizar com o amadorismo dos "talentos" locais que valeram as prédicas do primeiro-ministro chinês, na Torre de Macau, quando por aqui passou no mês passado.

Agora podem tentar salvar a face de Macau, irreconhecível de tão chamuscada, mas alguém terá de explicar, em vez de manifestar espanto com uma decisão "inesperada", como é possível que um homem como Marco Müller consiga organizar quase tudo e mais alguma coisa em todo o mundo, sempre com apreciável sucesso, e depois venha estampar-se em Macau, com todos os milhões que puseram à sua disposição, saindo a três semanas do começo do evento a que emprestou o seu prestigiado nome para a divulgação internacional e para convencer realizadores e actores de renome a por aqui aparecerem. 

É por isso mesmo ridículo que depois da sua saída se tenha dito o que que se disse, designadamente quanto a uma eventual acção judicial contra o agora ex-director, sem que fossem prestadas quaisquer outras explicações, e fazendo de todos nós parvos. E que tenha, inclusive, havido o descaramento de dizer que "vamos manter tudo o maior possível, para ser tudo igual, mas a gente vai ter mais coisas, ainda vai ter mais coisas". Mais coisas? Como por exemplo? Rifas? Algodão doce? Divergências de opinião? Esta gente está a gozar com quem? Com Pequim?

O que aconteceu com Müller já tem antecedentes não constituindo nesse ponto, infelizmente, uma novidade. É apenas mais um triste sinal da forma alucinada como por aqui se gere a coisa pública. Mas o que torna tudo isto ainda mais delirante é ver como os milhões são esbanjados em patos de borracha e afins, e em iniciativas que podendo vir a representar uma mais valia para a RAEM acabam por ser tão mal conduzidas, e de forma tão básica e provinciana, que mais se parecem com a organização de concursos de dança ou de misses no Restaurante Portas do Sol. A reacção das autoridades, pela forma e modo como se produziu, só serviu para envergonhar ainda mais Macau e as suas gentes, quase fazendo esquecer tudo aquilo que de bom, e também de muito bom, com muitos menos "talentos", meios e milhões do que aqueles que agora estão disponíveis, por aqui foi realizado durante décadas. 

O crónico nepotismo, aliás herdado da administração portuguesa e agora aliado à protecção de uma míriade de associações e sociedades comerciais sem gente, história ou meios, algumas recebendo milhões sem que se perceba bem para quê, com que finalidade, nem que resultados apresentam, é de tal forma vergonhoso e indigno da seriedade das gentes de Macau que um destes dias ainda vamos ver um anúncio nos jornais a pedir uma intervenção cirúrgica na RAEM para que seja feita uma limpeza eficaz e sem contemplações, que elimine o abundante lixo que se vê no NAPE e todas as famílias de roedores, rastejantes e moluscos que, dotados do dom da ubiquidade, se reproduzem por terra, mar e no ar em todos os negócios, concursos e iniciativas promovidas pelo ou com a chancela do Governo de Macau.

Temo, confesso, é que nesse dia seja tanta a bicharada apanhada na rede, entre graúdos e amanuenses, que acabem a ter de fazer uma ponte aérea entre Pequim e Macau para dotar o Ministério Público de procuradores trilingues, isto é, versados em cantonense, mandarim e inglês comercial, com especialização em "invoices", "subsídios" e "talentos locais" que consigam dar conta do recado.

Em todo o caso, como o seguro morreu de velho, o melhor será também tratarem da melhoria dos formulários destinados à exportação. Esgotada a capacidade de acolhimento para todos os que há anos se preparam afincadamente para se instalarem nos renovados aposentos do hotel que a Direcção dos Serviços Correccionais mantém em Coloane, seria boa ideia alargar a diversificação económica à exportação do muito mexilhão e da praga de lagostins, também conhecidos como "empresários", "investidores" e "empreendedores", que infesta as margens do estuário do Rio das Pérolas, dando cabo do habitat de espécies naturais que durante séculos mantiveram o equilíbrio e a convivência com os vermes que as marés e tufões iam trazendo ao final da tarde para a saudosa baía da Praia Grande, sem danos de maior ao ambiente, ao contrário do que hoje sucede em que até os habituais níveis de humidade de Novembro estão descontrolados. Quem sabe se o IPIM não encontraria aí um novo maná?

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 12.11.16

konstantin

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"Descendente da terceira geração de colonos que, em 1907, se mudaram para o Extremo Oriente vindos das zonas ocidental e central do Império Russo", em 1992 desembarcou em Macau. Vinha de Vladivostok, onde estudara na Academia Estatal de Artes do Extremo Oriente e cumprira o serviço militar, do qual fora desmobilizado um ano após o anúncio da "Perestroika". Acabaria por se radicar no antigo território sob administração portuguesa, montou o seu atelier, instalou-se com a família e cresceria até se tornar no artista ímpar que hoje é. Ao dizê-lo sei que estou a tornar mais difícil para mim próprio a aquisição das suas obras, mas o seu talento exige que lhe seja dada a dimensão que merece.

Tive a sorte de conhecê-lo em meados da década de noventa do século passado e de um dia ficar com uma das suas telas, desde logo apaixonado pelo seu traço, pela sua cor e pela criatividade que constitui uma das suas imagens de marca e faz com que não me canse de lhe apreciar o trabalho e invejar a maestria. Mas, para além disso, o pintor é um homem livre, um homem de cultura e de carácter, qualidades que muito lhe aprecio. Sou, portanto, suspeito e pouco isento ao escrever estas linhas, o que confesso em nada me perturba porque considero que a qualidade da sua obra fará dele, seguramente, um dos mais incontornáveis pintores contemporâneos.

O trabalho multifacetado que desenvolveu ao longo dos anos está desde ontem em exposição no Museu de Arte de Macau e merece ser conhecido e divulgado. Bem sei que Konstantin está presente no Museu do Oriente (Lisboa), no Museu de Arte de Macau, que esteve na 52.ª edição da Bienal de Veneza, em representação de Macau, e que os seus trabalhos também podem ser apreciados no Museu de Arte de Cantão, em Hong Kong, em Xangai ou no Hotel Mandarim Oriental (Macau), entre outros locais, mas o que a exposição Ad Lib traz de novo é o facto de apresentar um retrato biográfico do autor e reunir um conjunto de 34 obras recentes que incluem pinturas, esculturas, instalações e vídeos, numa espécie de viagem pelo seu riquíssimo universo.

Como o próprio escreveu, as técnicas, os temas e os estilos que utiliza são muito diversos, "indo de projectos à produção de filmes", pelo que nunca foi fácil juntá-los sob um título único. Fácil ou difícil, confesso que não é coisa que me preocupe porque aquilo que é verdadeiramente importante é conhecer a obra de alguém cuja influência muito provavelmente só as próximas gerações estarão em condições de avaliar devidamente.

Recomendo, pois, a quem puder fazê-lo, que até 28 de Maio de 2017 demande o Museu de Arte de Macau e aprecie obras que, sendo um verdadeiro deleite para os olhos, nos questionam e nos obrigam a reflectir. E, já agora, quando lá forem não se esqueçam de obter um exemplar, se entretanto não esgotar, do surpreendente catálogo editado pelo Instituto Cultural e pelo Museu de Arte de Macau, e por cujo resultado foram responsáveis Oscar Ho, Don Cohn, António Conceição Júnior, Yao Jingming, Romi Lamba, Kristoffer Luczak, Mário Costa, Chan Hin Io, Gala Bessmertnaia, Max Bessmertnyi e Ricky Wong. Absolutamente a não perder.

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por Sérgio de Almeida Correia




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