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decoro

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.09.16

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"decoro (ô), s.m. respeito de si mesmo e dos outros; decência; compostura; dignidade; honestidade; vergonha; pundonor; nobreza. (Do lat. decôru-, "que convém")." - Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª edição

 

Mas será que é preciso ser arguido, acusado e condenado com trânsito em julgado para ter decoro? E vergonha? E senso? É cada vez mais evidente em cada dia que passa que não há um, dois ou três Partidos Socialistas, mas sim quatro. Há o de José Sócrates, há o dos amigos de José Sócrates, que se confunde com o primeiro em função das ocasiões, há o de António Costa e do Governo, que corre atrás das metas do défice e se esforça por cumprir compromissos com toda a gente e mais alguma, e depois há o dos portugueses que se revêem no PS e que não sabem em que PS hão-de confiar.

Oxalá esteja enganado, mas neste momento, se forem todos como eu, quer-me parecer que em nenhum deles. O pior é que nos outros também não se pode confiar.

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bestas

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.09.16

A Helena Sacadura Cabral colocou um pouco mais abaixo* um pequeno post que alerta, implicitamente, para um dos grandes problemas com que se debate actualmente a sociedade portuguesa, apesar de não ser exclusivo desta. Trata-se de uma oportuníssima chamada de atenção que desde já agradeço à minha companheira por me ter proporcionado o ensejo de, en passant, como no xadrez, aqui deixar estas breves linhas.

No pequeno desenho que ali ficou gravado pode ler-se uma frase que, a propósito dessa parte anterior ou superior do encéfalo, designada por cérebro, que coordena e controla os movimentos do corpo, se responsabiliza pela aprendizagem, pela cognição, pelas emoções e a memória, expressa um sonho. Mas também formula um desejo. A frase, referida a esse órgão, "todos deveriam ter um" é de extrema actualidade. Quero por isso mesmo também felicitar a Helena, a quem acompanho nesse sonho e nesse desejo.

Mas a mim, e agora escrevo para a Helena, que vivo no mundo dos humanos e dos cães, alguns como nós, diria o Alegre, outros muito melhores do que nós, digo eu, o que me preocupa é a realidade.

O que deveras me preocupa, Helena, não são os que não têm, os que nunca tiveram cérebro, os que tiveram a infelicidade de nascer descerebrados.

O que me preocupa, Helena, são aqueles desgraçados para os quais a ciência ainda não encontrou resposta, que não encontrará, e cujo problema se agrava em cada dia que passa. E creio que Deus também nunca encontrará solução. Porque esses problemas são aqueles para os quais Ele não tem resposta, nem nunca terá, porque esses são os que saem do baralho e desafiam a Sua própria intuição do Universo.

O que me preocupa, Helena, são os que tendo nascido com cérebro o perderam pelo caminho. Os que o perderam ao longo do processo de socialização, e que aparentemente não sofreram nenhum acidente. Que a gente saiba, que se visse ou que os próprios sentissem. Nem ninguém o encontrou depois de uma visita, sem os próprios saberem, obviamente, aos Perdidos e Achados da esquadra da Alegria. Esses são os casos mais complicados. Um amigo meu chinês, um daqueles que não come cherne para não dar pela falta dele quando vier o tempo em que nos casinos só haja dinheiro para chaputas, costuma dizer que esses, os que têm a infelicidade de se acharem nessa condição, são "as bestas".

Ele é capaz de não estar longe da verdade, embora eu esteja sempre a dizer que ele não deve dizer isso. Porquê, Helena? Porque enquanto a ciência não tiver resposta, até que o António Damásio nos esclareça, é situação que pode acontecer a qualquer um.

E no que a mim respeita, Helena, se um dia isso me acontecer, eu só peço aos meus amigos, a começar pelos que aqui tenho, no Delito de Opinião, e aos outros que não me conhecem, que não me deixem continuar a escrever. E se eu escrever que não me editem o que escrevo. Postumamente ainda menos. Como é que eu depois poderia responder ao Cardoso Pires ou ao O'Neill, quando chegasse lá acima, e eles me apresentassem a factura perguntando: "Que porcaria é esta? O que andaste a fazer lá em baixo? Não tens vergonha?". 

Isto para já não falar na chatice que seria ter de convidar alguém para escrever o prefácio. Os outros, os que não fossem convidados, ficariam sumamente ofendidos. E no fim quem seria capaz de distinguir "as bestas", as genuínas, das "bestas", das outras? Nem os outros, os cães, que sendo como nós ainda têm a sorte de terem olfacto, e que só por esse sentido que têm tão apurado distinguem o que lhes convém do que não lhes convém, pensando na preservação da espécie e na protecção das suas crias de maiores perigos, seriam capazes de distingui-los.

Mas estas são coisas em que as "bestas" não pensam, Helena. Antes ou depois de procriarem.

 

Um abraço,

Sérgio

 

P.S. Texto escrito para o Delito de Opinião e a propósito do que ali foi publicado pela Helena Sacadura Cabral.

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descalabro

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.09.16

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Ontem, o South China Morning Post (SCMP) destacou o assunto. Esta manhã o Ponto Final voltou a pôr o dedo na ferida.

Duzentos milhões de dólares de Hong Kong são anualmente despendidos para enviar pacientes para Hong Kong. Para quê? Aparentemente para exames e tratamentos que deveriam ser realizados em Macau. O valor pode parecer irrisório face aos quase oito mil milhões de patacas que foram orçamentados para 2016 na área da Saúde, mas não pode deixar de ser considerado um valor brutal face à má qualidade dos serviços actualmente prestados nesta área pelo Governo da RAEM.

Não vale a pena, por agora, falar no mais do que escandaloso caso do novo Hospital, nos cheques-saúde de valor irrisório que são distribuídos pela população, que nem para duas consultas anuais chegam, nem nas promessas feitas pelo membro do Governo que tem a tutela em relação à excelência do serviço que se propunha oferecer à população, mas do qual toda a população foge como o diabo da cruz.

Para mim, o número de consultas ou de profissionais ao serviço do sector não me serve de indicador da qualidade, neste caso péssima, do que é oferecido à população sempre que é necessário ir um pouco mais além do que meia dúzia de pontos nos serviços de urgência ou da aplicação de um penso.

Da reportagem do SCMP, o que ressalta é a profunda desconfiança que a população tem no sistema de saúde de Macau, nas qualificações e competências dos seus profissionais, o que sendo injusto para alguns não é de espantar atendendo à sangria de quadros que se registou com o final da Administração portuguesa e com a forma como foram corridos do serviço público para o privado alguns dos melhores profissionais que ali trabalhavam para serem substituídos por outros que são perfeitamente incapazes de efectuarem um diagnóstico correcto e a tempo e horas, ignorando situações gravíssimas, as quais são geradoras de perplexidade perante os seus colegas de outras jurisdições quando confrontados com as situações clínicas e a percepção dos pacientes de que durante anos todos os exames e consultas que fizeram em Macau não serviram para nada.

As queixas, inquéritos e acções que correm e que têm sido instaurados, alguns arquivados sem que se perceba muito bem a razão para o arquivamento, não são sinal da excelência do serviço prestado, mas da sua incapacidade e falta de qualidade para responder ao que lhe é solicitado. Mais escandaloso quando se sabe que as dotações para uma certa associação de beneficência, que de cada vez que é necessário ajudar os mais pobres e desvalidos se recusa a tratá-los sem dinheiro à cabeça, "chutando-os" rapidamente para o hospital público como se tivessem lepra, está sempre a aumentar. É inaceitável que um utente que necessite de uma consulta e de fazer exames de rotina se dirija a um centro de saúde, lhe seja marcada uma consulta para daí a quase dois meses e depois passe mais um mês e meio até que esse mesmo utente possa voltar à consulta com as análises e os exames que lhe foram solicitados. Aconteceu comigo, sei do que falo. Vi salas cheias e gente à espera. Como eu.

Do que tenho visto e ouvido tem havido de tudo: doentes que são aconselhados pelos próprios médicos, perante situações mais graves, a não serem tratados em Macau; doentes que vão para HK sem necessidade, sendo-lhes depois perguntado por que não foram operados em Macau; doentes que devem ser enviados para tratamento no exterior por falta de especialistas competentes aqui e em relação aos quais ninguém quer assumir a decisão de enviá-los para o exterior; doentes que são tratados a maleitas ligeiras quando estavam com doenças do foro oncológico que aqui não foram diagnosticadas; enfim, um nunca mais acabar de situações que dão conta do estado de descalabro (consentido) que se vive em matéria de Saúde na RAEM. Da oncologia à oftalmologia, da dermatologia à estomatologia, da radiologia à endocrinologia, da cardiologia à cirurgia vascular, para só falar em algumas das especialidades mais badaladas, a situação é aterradora. 

A reportagem do SCMP e o valor que agora todos ficamos a conhecer é deveras escandaloso. Não tanto pelas queixas acolhidas na reportagem, as quais de há muito são de todos conhecidas, nem pelo valor em si, equivalente a um pacote de amendoins para uma região como Macau. Mas mais pelo que representa em termos de inépcia, de incapacidade de gestão e de incompetência face às verbas gastas em Macau e à péssima qualidade dos serviços prestados. Mas a mais quando nesse valor não entra aquilo que sai do bolso de cada um directamente para os médicos, hospitais e clínicas de Hong Kong, de Taiwan, da Tailândia ou de Portugal. Ainda que multipliquem por dez os subsídios directos ou indirectos à Universidade de Jinan ou a uma qualquer associação de "beneficência", se não se voltarem a contratar médicos e profissionais de saúde competentes, rapidamente e com capacidade para transmitirem conhecimentos e operarem os equipamentos parados, a situação não se irá alterar. 

Se a RAEM pretende ter áreas de excelência, se pretende diversificar alguma coisa, pode começar por oferecer um conjunto de serviços médicos capazes aos seus cidadãos, com especialistas competentes, responsáveis e responsabilizáveis, de maneira a que de cada vez que há algum problema não se refugiem na burocracia dos serviços, na falta de quadros, na insuficiência das instalações, na falta de equipamentos, na enfermeira ou no final do turno.

Uma região como a RAEM, que se gaba de apresentar os melhores casinos e hotéis do mundo e dezenas de restaurantes com chefes e estrelas Michelin, que se orgulha de ter um PIB per capita superior a 90.000 USD, o que coloca Macau no top 5 mundial, não pode continuar a ter a Saúde que tem. Com um rendimento ao nível dos suíços é de esperar que os serviços médicos e todos os outros que dependem do Governo estejam ao nível do que no país daqueles se faz. E não que, com o que aqui se factura, os diagnósticos estejam ao nível do que se faz no Congo ou no Bangladesh.

A má qualidade dos serviços médicos especializados e a desconfiança que os que são actualmente prestados gera junto da população de Macau deviam ser motivo de preocupação. E muita vergonha. É bom falar nisto no dia em que o Parisian é inaugurado com toda a pompa e o glamour de Lara Fabian. Aqui já escasseiam as rosas, e as Tulherias há muito que estão sem jardineiros. 

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biblioteca

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.09.16

unirecs.jpg

Gosto de livros. Aliás, vivo no meio de livros e sem livros não sei o que seria. Gosto de sentir a sua textura, o seu cheiro, gosto de ler e virar as páginas, e depois voltar atrás e reler de novo, apreciando cada letra, cada palavra, cada sílaba, cada virgula. E depois também gosto de manuseá-los, de agarrar as suas lombadas como se fossem uma mulher por quem eu estivesse apaixonado, de com os meus dedos percorrer os detalhes da encadernação, as suas curvas, de apreciar as capas, de procurar as datas de edição e de impressão, a tipografia, o local de edição, todos os detalhes e pormenores. Os livros são vida, experiências, prazer, sentimentos, um fluir ininterrupto de emoções, por vezes de angústias. Os livros que lemos, o que com eles aprendemos, são o que faz de nós o que somos. Como somos. Os livros são um dos espelhos da alma de cada um. Por isso há alguns que têm almas de papel. Também há alguns sem alma, como os que nunca leram, os que não sabem ler, os que nunca aprenderam a ler e a apreciar a leitura. E há os que não podem ler, os que perderam a visão gostando de ler, e que ficaram reduzidos ao desgosto de terem de ficar com o que leram. Até morrerem.

Se eu pudesse tinha todos os livros do mundo. Os bons. Os que nos ensinam alguma coisa, os que nos ensinam a ler e a escrever, a construir frases que façam sentido, com as letras todas. Sem dar erros. Às vezes tenho dificuldade em guardá-los. Lá em casa gostariam que eu não tivesse mais livros, mas eu descubro  sempre lugar para mais um. Gostava de ter uma Marmeleira em Macau. E outra em Cascais. O meu problema é que não tenho dinheiro para ter uma Marmeleira repleta de estantes e de livros. Mas também não vou deixar de gostar de livros. Nem de os ter. E por causa dos livros dou comigo a escrever sobre livros quando o que eu queria era falar-vos sobre uma biblioteca. Não é bem a mesma coisa embora vivam juntos numa espécie de união de facto que dá ares de amizade colorida quando os vemos alinhados nas prateleiras das estantes. Por vezes, parece-me mais um concubinato quando encontro o Herberto junto às memórias da Maria Filomena Mónica. Há sempre alguém que vai buscar um livro à estante e depois não o devolve aos respectivos parceiros. Mudam-no de casa e aí é que começam as chatices. Até que damos com aquele ou aquela que procuramos já enturmado em casa alheia, na prateleira do lado, entre a Duras e a Sagan com aquele álbum magnífico dos dez anos da morte do Senna por cima. A empregada que pouco lê já aprendeu a respeitá-los. Pode limpar o pó, só que no fim têm de ficar todos no mesmo sítio para não haver borrasca. E nada de tirar do seu interior os papelinhos amarelos com as minhas anotações, e os bilhetes dos concertos e das corridas que vão servindo de marcadores. Porque nunca há marcadores que cheguem. Livros e bibliotecas são companheiros inseparáveis. Também gosto muito de bibliotecas.

Porque aí há quem por mim tome conta dos livros, os arrume e os conserve, apesar de odiar as burocracias de algumas bibliotecas. Isso e os leitores que escrevem a caneta esferográfica nos livros, que os riscam com tinta e dobram as páginas para não se esquecerem onde ficaram. Esses leitores não gostam de livros, nem de bibliotecas. Eu gostava muito da biblioteca do Museu dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais. Ficava no meio do parque, no meio do verde, e às vezes até conseguia dali ouvir o mar. Tenho saudades dessa biblioteca onde ia todas as semanas, às vezes dias, pequena, aconchegante, com uma lareira para os dias de Inverno. E agora que estou longe de Cascais vieram falar-me numa biblioteca em Macau, no antigo tribunal de comarca, aproveitando-o e reconvertendo-o para ali ser feita uma boa biblioteca. Eu acho uma óptima ideia. Os chineses e eu temos isso em comum. Gostamos de livros e de bibliotecas. Já vi excelentes bibliotecas na China. E sem formalismos, sem burocracias. A nova Biblioteca de Cantão é moderníssima, cheia de luz, num local fantástico, mesmo junto à Ópera.

Eu gostava de ter uma biblioteca no velho tribunal. Conservando o velho edifício onde no começo da minha vida profissional fiz tantos julgamentos. E até inquirições em processos disciplinares de que fui instrutor. Tinha vinte e cinco anos. Transformar aquele edifício numa biblioteca a sério, com salas sem humidade, com muita luz, com uma temperatura agradável, com livros sem bolor nem cheiro a mofo, com adequada insonorização, sem cheiro a comidas nem falatório, e voltar a vê-lo cheio de gente e de silêncio, cheio de livros, de secretárias de madeira, confortáveis, com prateleiras de onde exalasse o cheiro do papel, a cor das lombadas. Quem me dera.

E ter a biblioteca ali mesmo no centro da cidade, com estacionamentos e transportes à porta para que ninguém tivesse  que se preocupar com o parquímetro ou as multas. Com salas amplas, cantos simpáticos, com gabinetes para investigação e pessoal limpo, de mãos finas, educado, simpático, atencioso, culto, que soubesse cuidar dos livros e dos leitores e fosse capaz de distinguir um Kafka de um Bolaño, um Borges de um Eça. E com muitos livros de Ciência Política para eu não ter de estar sempre a comprá-los pela Internet, gastando rios de dinheiro, sem saber quando chegam, nem se chegam, e se no final será necessário ir outra vez ao banco trocar o cartão de crédito. Uma biblioteca ali, no centro da cidade, era o melhor que nos podia acontecer. Se em vez de outro "Papapun" cheio de tralha, e de gajas e gajos aos encontrões com sacos enormes, cheios de fatos de treino e de roupas horríveis, ou de mais uma cantina medíocre de onde exalam cheiros pestilentos e sai uma comida mal confeccionada,  tivéssemos ali uma biblioteca decente, bonita, arejada e cheia de livros, isso seria um milagre.

O Governo da RAEM tem feito muitos disparates. Todos os dias deparo-me com mais um, mas agora têm razão. Uma biblioteca no centro da cidade é um sinal de civilização, uma mensagem para os ignorantes, um recado para a população. Um cidadão que lê é um cidadão esclarecido, um cidadão informado. E se for um jogador poderá sempre aprender a ler Dostoievski, que também tem histórias de fortunas e de risco, com hotéis, mulheres, amor e dívidas.

Eu gostava de ter uma biblioteca no antigo tribunal. De poder vê-lo cheio de livros e de leitores. Depois da Rota das Letras por lá passar, uma biblioteca ali seria honrar a memória do espaço. Dar-lhe um futuro digno, um futuro civilizado, um futuro promissor. Ao edifício mas também à população de Macau. Felizes os povos que podem aprender a ler, a gostar de livros e ainda por cima com a sorte de possuir uma biblioteca mesmo ao lado, com os livros todos à mão, vinte e quatro horas por dia, como se fosse um verdadeiro casino de livros. Hoje sai um, amanhã outro, e no fim todos têm uma fortuna. No que leram, no que aprenderam, no que sonharam. Seria a nossa salvação, a nossa garantia de futuro, o nosso seguro de vida contra a ignorância, contra a estupidez dos governantes e a prepotência do poder.

Está na hora dos cidadãos de Macau lutarem pelo seu futuro com inteligência. Se começassem por lutar por ter uma biblioteca na zona mais nobre da cidade estariam a fazer um favor a si próprios. Os seus filhos e netos hão-de agradecer-lhes. Eu quero uma biblioteca no antigo tribunal. Cheia de livros. E vou lutar por ela e por eles. Começo hoje. Quem quiser que venha comigo.

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inocência

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.09.16

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 (Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro, daqui)

 

"Quando não preciso de falar uma língua esta não é útil porque a sua importância tem a ver com a sua utilidade. Toda a língua tem a economia da sua utilidade. Línguas não úteis tendem a morrer, isto é conhecimento comum."

A ler, reler e reflectir a excelente e incisiva entrevista que a Prof. Inocência Mata deu ao Jornal Tribuna de Macau. Para os que andam a dormir na forma e enchem a boca com a língua portuguesa.

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imaginação

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.09.16

 

Em Maio de 68 a imaginação era um slogan. "L'imagination au pouvoir" escrevia-se então nas paredes do Quartier Latin e da Sorbonne. O tempo acabou por levar algumas dessas memórias, mas as que ficaram tornaram-se eternas e reaparecem de cada vez que recordamos as canções malditas e os poetas de sempre que encheram muitas noites de amor e reflexão.

O que não me passaria pela cabeça era descobrir que aquilo que os sonhadores do Maio de 68 não conseguiram então concretizar, tornar-se-ia realidade em Portugal muitos anos depois. E logo no Palácio de Belém.

O livro agora publicado por um ex-colaborador de um senhor que um dia descobriu a existência de vulnerabilidades no sistema informático da Presidência da República, talvez por acreditar que este seria mais seguro do que o da Casa Branca, é a prova acabada de que a imaginação esteve no poder durante dez longos e férteis anos. Da crença do ex-Presidente da República nas palavras do antigo conselheiro de Estado e seu amigo Dias Loureiro à confiança nos gestores do BPN para gerirem e fazerem render as poupanças de alguns amigos, sem esquecer as queixas sobre os cortes na reforma, as preocupações com a poupança e a subsistência futura, os momentos zen das suas comunicações ao país, o deslumbramento com "o sorriso das vacas", a composição de algumas comitivas presidenciais, o nível das preocupações demonstradas ao longo dos mandatos, até mesmo a inutilidade da acção política, tudo o que se passou nesse tempo entre Março de 2006 e Março de 2016 ganha sentido quando se lêem as palavras do ex-assessor de Cavaco Silva. De tal forma que nem o facto deste ter tido, sabemos agora, comportamentos que o ex-assessor considera "inexplicáveis" para consigo, depois de terem convivido "ininterruptamente" desde 1986, o fizeram sair do Palácio de Belém.

Tantos anos volvidos sobre o Maio de 68, é bom saber que a imaginação esteve no poder, que ainda há editores que apostam na imaginação, que há gente capaz de viver para depois poder contar as suas experiências paranormais. Isso e colecções de cromos.  

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