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negócio

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.15

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(Foto José Coelho, Lusa) 

 Já aqui tinha assinalado as razões pelas quais me parecia oportuna a reedição da coligação PSD/CDS-PP para as legislativas do Outono. Aproveitando a aprovação pelo Conselho Nacional do CDS-PP do acordo entre Passos Coelho e Paulo Portas, hoje registo a forma inteligente como o CDS-PP se "integrou" nessa coligação.

De acordo com o que foi conhecido, os termos desse acordo e a formação das listas respeitarão os resultados das legislativas de 2011. Em princípio, atendendo ao desgaste de quatro anos de Governo, às muitas decisões polémicas, ao número de casos obscuros - alguns em investigação, outros a iniciarem esse caminho -, às brechas no relacionamento entre os dois partidos e à diferença de discursos, seria pouco previsível que houvesse coligação. Mas o que é facto é que há e vai continuar a haver coligação. 

À partida, os resultados de 2011 para a elaboração das listas e inclusão de candidatos de cada um desses partidos favorecerá mais o CDS-PP do que o PSD. Porquê? Porque com a apetência do método de Hondt para favorecer os maiores partidos, se os partidos concorressem  isolados uma quebra da votação teria efeitos mais gravosos para o CDS-PP, em termos de deputados eleitos, do que teria para o PSD. Mas, por outro lado, também seria admissível que a verificar-se uma queda eleitoral dos partidos da coligação - ainda por provar -, essa queda seria mais pronunciada para o PSD, que liderou o Governo, do que para o CDS-PP. Para já, o PSD parte com 108 mandatos e o CDS-PP com 24, ou seja, a coligação parte com 132 deputados.   

Porém, aquele que para mim é o facto mais relevante é verificar que o CDS-PP desvaloriza a circunstância de não ter havido qualquer acordo em relação aos cabeças de lista. No PSD deve haver muita gente a esfregar as mãos. No CDS-PP talvez não tantos, pois seria natural que nalguns círculos, como por exemplo em Aveiro, aparecesse o próprio Paulo Portas a encabeçar a lista. Ao recusar o tal braço-de-ferro com o PSD por causa dos cabeças de lista, o líder do CDS-PP protege-se, ao mesmo tempo que protege o seu próprio partido.

O cumprimento do programa de ajustamento, ainda que indo muito para além da troika e com resultados péssimos ao nível do défice, da procura interna, do desemprego, da qualidade de vida dos portugueses, bem ou mal foi levado até ao fim. Se o CDS-PP se pode "orgulhar" disto não poderá, certamente, contornar as consequências desse cumprimento para o seu próprio eleitorado. Pelo menos para aquele que reclama representar: reformados e pensionistas, jovens, quadros técnicos da classe média, pequenos investidores bolsistas, pequenos aforradores, pequenos e médios empresários. Foram estes os que mais sofreram com o cumprimento do programa de ajustamento e com o desvario fiscal, aqueles que mais sentiram nos bolsos o descontrolo das contas públicas e a incapacidade do Governo para fazer os ajustamentos na máquina do Estado e da Administração Pública que impedissem a limpeza que fizeram às carteiras dos contribuintes. Estes, ao mesmo tempo que viam os seus rendimentos e parcas poupanças (os que as tinham) desaparecer, assistiam à forma complacente como "o partido dos contribuintes" assimilava os cortes nas reformas e as taxas e "taxinhas" extraordinárias em matéria de IRS, e assistiam ao crescimento da despesa do Estado.

Um mau resultado da coligação PSD/CDS-PP será sempre um mau resultado de quem liderou o Governo, e não uma consequência do desempenho mais ou menos infeliz dos ministros do CDS-PP. Levar em conta os resultados de 2011, por este prisma, como parâmetro seguido para a elaboração das futuras listas dos candidatos a deputados, foi um bom negócio para Paulo Portas. E um bom negócio será se houver um bom resultado eleitoral da coligação. Porque neste caso esse bom resultado só acontecerá, di-lo-á Paulo Portas no rescaldo, "porque o CDS-PP se manteve fiel aos seu princípios, dando o seu aval à coligação, conferindo-lhe o apoio necessário para que este resultado, de que o CDS-PP se orgulha, fosse possível". 

Habituado como está a percorrer tudo o que é feira e mercado e a assistir ao regateio dos preços, Paulo Portas percebeu que este não é o momento de fazer exigências. No final se verá se foi um bom negócio para os seus eleitores ou se só o foi para o homem dos chouriços.

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oportuna

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.04.15

ng4175555.jpg(foto JN)

A decisão de PSD e CDS-PP de se apresentarem coligados às próximas eleições legislativas é uma decisão oportuna por várias razões.

Em primeiro lugar, porque é natural que quem governou em coligação se apresente ao eleitorado nos mesmos termos em que governou, ou seja, em coligação. Se governaram juntos, se foram parceiros nas boas e nas más decisões, se entendem que o caminho que percorreram deve continuar a ser trilhado no futuro, então a decisão é perfeitamente compreensível e, em meu entender, sensata. Essa será a melhor forma do eleitorado avaliar o desempenho do Governo de Passos Coelho e manifestar o que pensa sobre o futuro que deve ser reservado aos coligados.

Depois, é uma decisão oportuna porque introduz clareza numa área tradicionalmente confusa. A coligação é uma medida higiénica que traz transparência ao eleitorado, promove uma adequada separação de águas e mostra ao eleitorado que ao centro há, por agora, pelo menos dois caminhos. Um mais à direita, outro mais à esquerda.

Também é uma decisão oportuna porque permitirá ao PS saber com o que conta, podendo dessa forma ver facilitada a sua estratégia eleitoral e consolidar as suas propostas para o país. Os portugueses sabem que o PS não irá manobrar nos bastidores um qualquer governo de "consenso" para o país.

Por outro lado, é ainda uma decisão oportuna porque também responsabilizará daqui para a frente o Presidente da República naquilo que disser e no que pontualmente venha a fazer quanto ao pouco, pouquíssimo, que lhe for exigido. Se Cavaco Silva pensava que ia ter um final de mandato calmo, fica agora com a certeza de que depois de todas as "asneiras" que promoveu as suas hipóteses de chegar ao fim sem mais problemas ficam ainda mais reduzidas. Essa é para ele uma recompensa merecida pelo seu desempenho até aqui.

Finalmente, a coligação que acabou de se apresentar ao país para as próximas eleições é também uma decisão oportuna porque mostra aos portugueses o pânico que grassa entre as hostes do PSD e do CDS-PP. Depois de todos os amuos, traições, sacudir da água do capote, intrigas e golpes a que o país assistiu, a coligação é uma imagem do estado a que chegaram e é a prova acabada de que só existe e só é anunciada nesta altura porque o desastre foi tão grande que nenhum dos partidos se sente à-vontade para se apresentar sozinho a eleições.

Esta é, pois, uma boa notícia para o país e que deve por isso mesmo ser devidamente saudada.

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ver

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.04.15

De Macau vejo pouco. O que vejo é filtrado pela complacência dos meus amigos. São eles que me acertam o GPS.

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contraste

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.04.15

Sala cheia, sala atenta, sala merecida. Cada um ao seu modo procurando valorizar uma causa comum. A virtude dos direitos fundamentais é serem mesmo fundamentais e haver quem o perceba. Mas nesta terra o contraste não podia ser maior. De um lado os que constroem a civilização, os que constroem a eternidade, de forma laboriosa, atenta, discreta. Do outro os que se afadigam em comprá-la. Alguém que lhes diga que a eternidade não é volúvel. O dinheiro sim. 

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impressões

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.15

1. Não vejo qual seja o problema de o estudo ter sido coordenado por um economista que um desses avençados já “rotulou” de "liberal". Se fosse socialista era porque era socialista, como é “liberal” e com formação numa prestigiada universidade norte-americana também não serve. Parece-me que o fundamental é que o trabalho, esse ou qualquer outro, seja feito por gente capaz, conhecedora e competente, se possível recorrendo a um leque alargado de pessoas com diferentes visões e experiências de vida. Só assim se poderá encontrar uma solução que sirva aos portugueses e os retire da situação humilhante em que os governos de Sócrates e de Passos Coelho os colocaram.

2. As ideias pareceram-me interessantes e em linha com aquilo que penso em termos globais. Se os números batem certo ou se são atingíveis é outra questão. Como não sou um especialista na matéria, tal como a maioria dos portugueses, deixo isso a quem sabe e confio na seriedade das apreciações que aqueles que me merecem confiança e se dedicam a estudar as questões irão fazendo.

3. Seriedade é coisa que não existe em gente que ainda antes do final da apresentação do relatório, sem o ter lido, já o comentava e desvalorizava as propostas efectuadas. A falta de seriedade de alguns políticos é mais grave do que a sua cegueira ideológica. Como hoje o Público escreve, “[o] deputado Matos Correia não esperou para ler o documento para afirmar que, “se o caminho miraculoso que o PS descobriu tivesse pés para andar, não havia nos países da Europa comunitária a tendência que tem vindo a ser seguida do ponto de vista da consolidação orçamental e da sustentabilidade”.


4. Depois, vir afirmar a fraca qualidade das propostas com base em argumentos como aquele que já vi referido de que se António Costa não sabe tratar das contas do partido e o PS vai pedir um empréstimo à banca para resolver a sua situação interna é porque também não saberá tratar do país, é esquecer que em Novembro de 2014 já o Observador escrevia que ele iria herdar do antecessor mais de 10 milhões de dívida, e que o próprio PSD, até há bem pouco tempo, antes de começar a capitalizar com a ida para o Governo, era o partido mais endividado do país. Com este nível de argumentação, típica de quem cospe para o ar, e susceptível de ser acolhido e aplaudido pelos comentadores blogosféricos de algumas remotas freguesias do interior, bem podem limpar as mãos à parede.

5. Ficarei à espera dos comentários dos entendidos e de todos aqueles que não sendo especialistas leram o documento antes de falar para poderem formar uma opinião esclarecida. Eu também tenho de ser convencido da bondade e exequibilidade das propostas.

6. Aquilo que vivamente aconselho, permitam-me a sugestão, é que alguém que soubesse português, antes de divulgarem e colocarem para consumo no espaço público relatórios deste tipo, procedesse à revisão do texto. Já bastava terem-no escrito em “acordês”. Que tenham pedido a colaboração de um deputado jotinha, presumo, para separar os parágrafos e colocar a pontuação, é que era de todo despiciendo. Seria uma lástima que o Programa de Governo do PS saísse assim, permitindo às pessoas pensar que teria tido a colaboração de um conhecido deputado do PSD que escreve para o Expresso. Ou que pudesse vir a ser criticado por alguém, em razão desse facto, independentemente da justeza das medidas.

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desilusão

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.15

Um tipo levanta-se de madrugada, sai do quarto pé ante pé para não acordar a vizinhança, arrastando a almofada para se instalar na sala, meio-dormido, a pensar que vai assistir a um bom espectáculo de futebol da Champions League, e no fim sai-lhe um jogo-treino entre o Bayern de Munique e uma equipa distrital cheia de espanhóis e sul-americanos. A imprensa é que tem a culpa disto. 

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promiscuidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.15

"Mas o que sobressai são as aplicações financeiras que António Varela, que tem uma larga carreira no sector financeiro e foi indicado pela ministra das Finanças para o cargo que actualmente exerce, possui em diferentes bancos. De acordo com o documento, que, como manda a lei, chegou ao Palácio Ratton após a nomeação, o gestor detém 1357 acções do Santander e uma acção do BCP, além de títulos de outras cotadas portuguesas, como a Mota- Engil e a Portugal Telecom. E é ainda dono “de metade”, como o próprio refere, de outras 506.261 acções do BCP, de 37.824 do suíço UBS, de 1253 do Santander Central Hispano, de 110 do Deutsche Bank e de 25 acções preferenciais do Banif (com o valor nominal de 1000 euros).

O portefólio de investimentos do administrador do Banco de Portugal abrange ainda obrigações (dívida) de diferentes entidades, incluindo uma do Santander US, com um valor de 100 mil euros, duas do BCP (avaliadas em 50 mil euros cada), uma do BBVA no mesmo montante e ainda 50 do Banif (a 1000 euros cada). António Varela também é detentor de obrigações de outras empresas, como a EDP ou a Telefónica, tendo investido igualmente em dívida grega.

A carteira declarada ao Tribunal Constitucional estende-se ainda a participações em diversos fundos de investimento, alguns dos quais rela- cionados com a evolução de títulos da banca, de divisas ou de dívidas soberanas. (...)" - Público, 21/04/2015, p. 18

 

Como é possível transmitir uma imagem de seriedade e confiança aos portugueses - já nem falo em garantir a isenção e a independência de actuação e decisão - quando se nomeia para regular quem tem interesses naquilo que regula?

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remake

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.04.15

O que se passou em Espanha com um Rato passou-se em Portugal com um Coelho. Desconheço se o facto de serem ambos roedores, comungarem do mesmo credo, e cada um à sua maneira fugir às obrigações cujo cumprimento exigia aos outros, e que eles não cumpriam, os torna gémeos. Mas lá que são muito parecidos, até no discurso, lá isso são.

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apesar

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.04.15

Apesar de ser um badameco é primeiro-ministro

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maquiavel

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.04.15

Há quatro anos que governa com uns arremedos de oposição. O parceiro de coligação segue pela trela, tosquiado e em classe económica, vertendo uns esguichos quando se abeira da sua perna. O Parlamento é uma espécie de secretaria-geral do Governo comandada pelos jotinhas dos shots. O Conselho de Ministros funciona como um economato para chancelar os formulários que os fiéis lhes apresentam para aquisição de sabonetes e desodorizantes. E em Belém os inquilinos estão tão excitados a fazer caixotes e a mostrar as instalações aos que vão respondendo aos escritos nas janelas que ainda nem se deram conta de que o discurso do 25 de Abril terá de ser todo reformulado para não parecer um guião escrito pelo Filipe La Féria e a Katia Guerreiro.
Com o leite-creme cheio de grumos e colado ao fundo do tacho qualquer pessoa vê que o cozinheiro foi o menos responsável. As baratas que vinham nos cestos que os ajudantes foram buscar à bagageira do carro, com os ovos chineses, é que tiraram todas as hipótese de um tipo se poder concentrar. Não há nada como ver o mar de um forte no Estoril enquanto a governanta trata do leite-creme.

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estranheza

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.04.15

Instalado na penumbra do restaurante japonês vejo os 27.º C de lá de fora. O céu está azul, o dia quente. Eu estou ali na penumbra enquanto me dão de comer. Baixinho, para não perturbar, ouve-se música latina: Gipsy Kings, Omara Portuondo, Célia Cruz. Há qualquer coisa de estranho nisto tudo. Nos caminhos que percorremos libertamo-nos de tudo menos de nós próprios. Às vezes só fica uma sombra de nós. Para os outros verem que ainda ali estamos.

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missiva

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.04.15

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(foto Rui Ochôa, Expresso)

 

Meu caro Professor Marcelo Rebelo de Sousa,

Lamento desiludi-lo, mas V. Exa., apesar de todo o seu virtuosismo, não está com sorte nenhuma. Deixe lá, essas coisas acontecem a qualquer um. Para a Académica o fim-de-semana também não correu de feição. Há noites assim e para essas temos a certeza de que o tempo, como dizia o outro, não volta para trás, pelo que agora importa, futebolisticamente falando, "corrigir os erros e levantar a cabeça".

Todos nós compreendemos que quem - não me interprete mal mas é o que me parece das suas aparições televisivas analisadas à distância -, condiciona a decisão política aos jogos de interesses clientelares, dando dela a ideia de que tudo não passa de um negócio de bastidores, rumores, boatos e meias-verdades ao sabor das conveniências e das agendas pessoais e televisivas, tenha dificuldade em definir-se e em assumir os riscos inerentes à política sem receio de fracassar.

Se o meu caro Professor quer ser Presidente da República, e é legítimo que o seja num momento tão difícil como aquele que Portugal atravessa, então avance já, não perca tempo, apresente-se aos seus concidadãos. Poderá fazê-lo em directo, na TVI, sem gastar um chavo, com garantia de audiências e o monopólio das manchetes de segunda-feira. Depois seria só cavalgar a onda. Quem nada no Tejo e nas águas do Guincho pode cavalgar qualquer Nazaré. Não espere pela definição e estabilização da galeria dos condenados. Deixe isso para os fracos e os sacristães. Essa seria a sua forma de marcar a agenda e condicionar eficazmente as escolhas de Passos Coelho. O PSD ficaria refém do seu anúncio e o Professor garantiria de imediato o apoio do seu partido. Não se acanhe. O Professor Sampaio da Nóvoa ficaria apavorado ante a perspectiva de um debate com V. Exa., com a Judite de Sousa e o Rodrigues dos Santos a moderá-lo, e eu com receio do que lhe pudesse acontecer. Quanto ao apoio do CDS-PP e de Paulo Portas, como sabe, com mais ou menos amuo, isso seria sempre negociável. Em política quase tudo é negociável: sobreiros, submarinos, vistos "gold", sondagens, computadores "Magalhães", "PPP's", barcos que metem água, comissões de inquérito, as contribuições do Jacinto Leite Capelo Rego, enfim, tudo menos a vichyssoise. Até aí compreendemos todos. Aliás, não há quem não compreenda que seja mais fácil percorrer os caminhos florentinos ao crepúsculo do que entrar e sair da corte quando o Sol está a pique.  

É claro que se não quer ser candidato, nem está disposto a avançar, deverá dizê-lo desde já. Não lhe ficaria bem andar a alimentar amores impossíveis domingo após domingo. Nenhuma dona de casa gosta disso. Um homem tem de se definir ou então que desampare a loja. Para empata já chega o inquilino de Belém. Não deixe que neste aviário em que se tornou a apresentação de candidaturas presidenciais qualquer avestruz se predisponha a chocar os ovos alheios. E deixe-me dizer-lhe que frangos e pintos para andarem a correr de um lado para outro e a conspurcar a capoeira já temos os suficientes para esta fase. Está na hora de aparecerem os galos. O Professor tem um porte e uma crista suficientemente vistosos para não se perderem nos "entretantos" daquelas entediantes conversas de salão com as tias e os tios de Cascais que só percebem de canasta e gamão.

Certamente que lhe daria imenso jeito, como ao PSD, e talvez mais a este, ter como rival numa eventual candidatura presidencial o Professor Sampaio da Nóvoa. Tudo isso nós percebemos. O que ninguém entende é que queira fazer do homem um Fernando Nobre, coisa que ele nunca será, e do PS, com o devido respeito, o partido dos animais. Isso os portugueses nunca lhe perdoariam e poderiam zangar-se com quem teve a ideia. Como também ninguém entende a sua pressa em querer que o PS defina um candidato e o apoie sem que os candidatos se definam primeiro e o PSD diga qual a sua estratégia presidencial e qual o mole que vai apoiar. 

A sua tentativa de condicionar as escolhas, que foi o que ontem quis fazer sob a capa do comentador independente, não passará disso mesmo. Uma tentativa para depois ver as reacções. Só que as presidenciais não são orais de Constitucional em que a rapaziada bronzeada se põe a atirar bolas para canto. O PS não precisa de apoiar o Professor Sampaio da Nóvoa. Não se iluda. Ao PS basta um, um único candidato, e não precisa de alternativa ao Professor Sampaio da Nóvoa porque este não é candidato [oxalá não me engane]. É uma lebre.

Porque é evidente que o meu caro Professor está farto de saber que jamais se apresentará contra um Guilherme d´Oliveira Martins. Por amizade, eu sei. Mas também porque ser cilindrado, sejamos realistas, por um homem tão discreto não seria bonito de se ver. O Professor Marcelo sabe bem, porque é um homem culto e inteligente, que a discrição é sempre mais eficaz do que o brilho dos holofotes. O brilho é transitório, apaga-se com o tempo. A discrição faz parte do carácter. É fiável. E é isto que os portugueses esperam do seu próximo Presidente da República. Fiabilidade. O Professor Marcelo sabe muito bem que, tal como na amizade, no amor ou na vida só há duas coisas que contam: a fiabilidade e a seriedade. Na política não é diferente. E também sabe que só será vencedor das presidenciais quem for fiável. Chega de feira. Pessoalmente, não tenho dúvidas de que entre dois homens (ou mulheres) igualmente sérios os portugueses escolherão quem lhes dê mais garantias. Quem seja mais fiável. E é aí que a porca torce o rabo para o seu lado.

Os portugueses já perceberam quem quem canta em qualquer palco, a qualquer hora, desde que tenha um microfone e uma câmara, sendo-lhe indiferente se o faz na TVI, na Madeira, na Universidade de Verão ou em Quarteira,  por muito simpático, bem-disposto e sério que seja, não é fiável. As verdadeiras estrelas, tal como um Presidente da República que se preze, não podem estar em todo o lado ao mesmo tempo, não podem andar aos saltinhos a dar palpites e a mandar recados. Porque se desgastam. E o meu caro Professor Marcelo sabe isso tão bem quanto eu. O Professor Marcelo não é o dr. Marques Mendes para lhe andar a disputar audiências. Eu não queria estar a dizer-lhe isto, eu não sou ninguém. Eu emigrei. E habituado como estou a apreciá-lo e a vê-lo brilhar em qualquer palco desde os tempos de antanho, nunca esperei que se espalhasse ao comprido de forma tão confrangedora.

Peço-lhe desculpa,  não me contive, tinha de lhe dizer isto. Às vezes temos de fazer de Lopetegui para não fazermos de trolhas. 

Com estima e elevada consideração, subscreve-se um admirador desiludido.

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presidente

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.04.15

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Se António Guterres era até ontem o homem que o PS esperava que ainda pudesse vir a ser o seu candidato presidencial, agora que estão desfeitas as dúvidas sobre as intenções e o caminho que o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados pretende tomar, só lhe resta uma opção que de algum modo se aproxima do perfil do desistente que não chegou a partir. Refiro-me a Guilherme de Oliveira Martins.

Católico como uma grande parte dos portugueses, homem de saber e cultura, com experiência da vida e visão do mundo, possuidor de um percurso académico, político e profissional de que poucos dos actuais políticos podem dar mostras, ministro três vezes - Finanças, Educação e Presidência -, com carreira académica numa escola de prestígio - a Faculdade de Direito de Lisboa -, saiu em ruptura do PSD, esteve na ASDI, foi apoiante de Mário Soares, porta-voz do MASP, deputado, enfim, tem um currículo que fala por si e que não precisa de recorrer a falsificações académicas e profissionais para poder brilhar. Para além disso, nunca dependeu de ajudas de custo, de favores, de autarquias ou das empresas de amigos e conhecidos para poder subir na vida. É um homem sereno, discreto, civilizado, capaz de dialogar à direita e à esquerda, sem ideias feitas e radicalismos bacocos, com a noção do caminho que Portugal precisa de fazer para se reabilitar e sair da crise de valores, entre outras crises igualmente graves, em que se vai afundando. A seu favor tem também o facto de saber falar, ler e escrever com correcção, e não apenas em português, coisa que muitos outros putativos, aspirantes e já declarados candidatos presidenciais não sabem.

A tudo isto junta-se a sua independência, reafirmada exemplarmente na forma como sem tibiezas nem meias-palavras tem exercido o mandato de Presidente do Tribunal de Contas, fazendo-o de forma pedagógica e malhando quando é preciso, respeitosamente, na canalha, o que fez tanto no tempo de José Sócrates como nos dias que correm com Passos Coelho.

Neste momento vejo-o como o único homem que pode preencher o espaço deixado vago por António Guterres e aquele que está em melhores condições para com o apoio do PS, e mesmo sem o apoio do PSD, poder vencer folgadamente as presidenciais logo à 1.ª volta. A entrevista que ainda muito recentemente deu ao Público/Renascença, e à qual não terá sido dada a importância que merecia, constituiu um sinal da sua vitalidade, capacidade e preparação para o exercício de um cargo que necessita urgentemente de ser valorizado e dignificado.

Guilherme de Oliveira Martins sabe qual o valor da liberdade, é um homem tolerante e um democrata, possui indiscutível sentido de Estado, e é uma pessoa de uma seriedade à prova de bala, sem telhados de vidro (é minha convicção). Ele só não será o próximo Presidente da República se não quiser. Por tudo isso, e independentemente do facto de ter sido, com gosto, seu aluno, por duas vezes, o que para o caso é irrelevante mas entendo que deve ser levado ao meu registo de interesses para que os leitores o saibam com toda a transparência, gostaria de o ver chegar-se à frente. Resolvia um problema ao PS, resolvia um problema ao País e aos portugueses, e estes não correriam o risco de ver em Belém um qualquer boneco de plasticina ignorante.

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arbitragem

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.04.15

Ao verem e ouvirem esta reportagem da SIC, os portugueses devem ter ficado com a certeza de que o País tem estado entregue a especialistas em matraquilhos.

A forma como se trocam e contrabandeiam favores em Portugal é apenas um problema de arbitragem. Não é de conjugação do verbo haver. 

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danang

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.04.15

Regresso. É aquele momento em que ainda não se saiu e já não se está, ainda não se partiu mas já se chegou, tendo ainda uma viagem pela frente. A cabeça separa-se do espírito. Aquela regressa, o segundo continua a vogar livre pelos grandes espaços, perdendo-se na linha do horizonte sem saber para onde ir.

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