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empeiria

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.15

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Um país em que os governos, os partidos e as prisões estão cheios de homens invulgares. Uns ferozes, outros mansos. Na Presidência da República também há um. Invulgar e politicamente castrado. Compreende-se, ele não se vê como um político profissional. Os outros sim, daí as diferenças.

A mim bastava-me um país de homens normais para me fazer feliz. E que soubessem jogar à bola.

Portugal tem falta de homens normais. Normais e decentes. Como o Pessoa.

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desconfiança

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.15

Um tipo que se abalança a ser líder de um dos principais partidos políticos portugueses e primeiro-ministro com um lastro de esquecimentos, inclusivamente ignorando a lei que o obrigava a descontar para a Segurança Social, durante cinco anos (não foram cinco meses), que  tem a latosa de dizer que nunca foi notificado para pagar o que devia, cuja dívida prescreveu cinco anos depois, e ainda arrisca dizer que as críticas que lhe são feitas são especulações infundadas, ou é um tipo muito mal formado ou um cretino.

Em qualquer caso, a única coisa que merece é que os seus concidadãos, que sempre descontaram e pagaram, alguns com dificuldades por terem rendimentos exíguos, lhe manifestem a sua desconfiança. E em democracia só há uma maneira de fazê-lo: censurando-o nas urnas.

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chatices

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.15

Há muito que digo que na política não se pode ter um discurso para dentro e outro para fora. Por isso, a questão de fundo não é o incómodo que provoca. Ou a saída de Alfredo Barroso. Isso é o que menos importa, como o próprio Barroso certamente concordará.

A questão que releva é curta, não precisa de alarido, e resume-se a isto: com que legitimidade, com que autoridade, se criticarão amanhã os deslizes dos outros? É só isto.

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convívios

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.15

schneider-81817114_109208b.jpgNão tenho nada contra, apesar de não me parecer bem, digo-o já, que comentem em público desta forma despudorada o que andam a fazer em privado. Vir desvendar para os jornais que tiveram um "convívio", por sinal de natureza "íntima", que meteu almoço, na sede da Associação 25 de Abril, não creio que seja o mais curial para o bom nome das instituições que representam. Bem sei que o cavalheiro, embora um militar de Abril, sempre com o dedo no gatilho, não será o Marlon Brando. Nem a senhora presidente da Assembleia da República é a Maria Schneider. Mas, ainda assim, um pouco de recato não ficaria mal. Fico satisfeito por saber que foi "quente e agradável", pois é sinal de que o objectivo foi atingido. Ainda bem. Escusado era mandar o gabinete dizer que "vai repetir-se". Fica a vizinhança toda a saber e à espreita da próximo "convívio", o que pode inibir a performance, dando cabo da intimidade do momento. Além de que há pormenores que ninguém quer saber. E filmes que não são para todas as audiências.

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galinheiro

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.15

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Em Outubro de 2014 já alguém tinha perguntado se seria verdade que Portugal não iria estar presente na Exposição Universal de Milão 2015. Ninguém fez caso do assunto. A confirmação chegou esta manhã.

O Público revela que por uma "bagatela" de 8 milhões de Euros, Portugal não estará presente na Expo 2015. O evento abrirá portas no próximo dia 1 de Maio. Dos países lusófonos Portugal e Timor-Leste serão os ausentes. Mas estarão lá outros 145 países.

A decisão, ao que parece, reside na ministra das gravatas, Assunção Cristas. E pese embora o tema da Expo 2015 ser "Alimentar o Planeta, Energia para a Vida", a ministra achou preferível prestar mais esse serviço, em nome do Governo que integra e do CDS-PP que a indicou, aos agricultores e exportadores portugueses. Ficando em casa também não correm o risco de se constiparem em Milão com a porcaria dos ares-condicionados, agravando as despesas do Serviço Nacional de Saúde na hora do regresso.

O secretário-geral da CAP diz que não sabe como foi possível deixar passar esta oportunidade. Luís Mira não sabe? Anda desatento, é o que é, pois só assim se percebe que não tivesse ficado calado. 

Compreende-se perfeitamente que promover Portugal e a sua produção agro-alimentar, dando consistência à tão apregoada diplomacia económica, não deverá inserir-se nas tarefas da ministra Cristas. E ir a Milão não é a mesma coisa que ir ao Brasil ou aos Estados Unidos ou vender chouriças em Macau.  

Acrescenta o jornal que o MNE mandou perguntar o que se passou ao gabinete do vice primeiro-ministro. Fez muito bem porque consta que Paulo Portas terá a responsabilidade pela diplomacia económica. Mas como este ministro não sabia de nada, o seu gabinete do ministro mandou perguntar ao Ministério da Agricultura. O procedimento seguido mostra que este foi mais um passo do guião para a reforma do Estado, pelo que lá seguiu, presumo, o ofício da praxe. Ou, quem sabe, a comunicação electrónica por recurso às novas tecnologias do defunto socratismo. De qualquer modo, confesso que já não sei se Paulo Portas ainda tem a responsabilidade pela diplomacia económica ou se só pela campanha eleitoral para as legislativas. Admito que para o caso seja indiferente. O ministro está sempre a ser traído pela pose de estadista e a agenda que de tempos a tempos nos dá a conhecer, mas quem o ouça percebe logo que tudo, com excepção do que dá para o torto, se insere nas suas tarefas. 

E também não vejo qual seja o espanto da ausência portuguesa. É natural que um país que apostou na diplomacia económica e que só num ano exportou 5450 milhões de euros de produtos agrícolas queira poupar cerca de 8 milhões de euros para não ter o incómodo de se mostrar num certame cujo número de visitantes se estima nuns míseros 20 milhões.

Esta ausência de Portugal da Expo 2015 é, aliás, reveladora da coesão da equipa governativa e do pensamento que o CDS-PP e o senhor primeiro-ministro têm da diplomacia económica. Trata-se, evidentemente, de mais uma demonstração da solidariedade portuguesa para com a Grécia, a Itália e a Espanha, que assim poderão ver os seus produtos ocuparem o espaço que estaria destinado aos mandriões dos empresários e agricultores portugueses.

Além do mais, estou certo de que todos concordarão que nos 150 milhões de euros que Portugal irá poupar todos os anos com os juros resultantes da antecipação dos reembolsos à troika - quem o disse foi aquela funcionária  do ministro Schäuble - seria muito difícil ir buscar o dinheiro necessário ao investimento para a participação portuguesa.

E também reconheço que seja mais fácil obrigar os portugueses a arranjarem o dinheiro necessário para se safar os estafermos do BPN e do BES do que fazer uma colecta entre os empresários portugueses que estivessem disponíveis para  financiarem a participação portuguesa. Isso não faz parte das tarefas de quem enche a boca com os agricultores e os pescadores portugueses e se dedica a perorar em tudo o que é feira e romaria entre um copo de tinto e um pastelinho de bacalhau, enquanto pisca o olho ao inquilino de Belém.

E mais do que compreender tudo isso, não posso deixar de aplaudir a coerência e a sábia estratégia que está por detrás da decisão de estar ausente de Milão. Todos sabiam que depois do descalabro socialista os portugueses teriam que viver com muito menos. Teriam de empobrecer até ao tutano para serem ainda mais felizes. Milão não é destino para donas de casa poupadinhas e arrumadinhas.

O único reparo que faço à estratégia seguida é que o seu programa de governo não tivesse revelado atempadamente aos portugueses que a imagem do seu impante Galo de Barcelos iria ser substituída pela de um galinheiro. Um galinheiro dependente de um par de matronaças somíticas, que de quando em vez se dignam ir à bolsa do seu avental buscar umas côdeas e umas couves que atiram para os frangos debicarem, assim mantendo os capões, outrora galos tonitruantes, à distância, com as cristas baixas e dependentes dos esclarecimentos que lhes queiram ser prestados. 

Não há imagem mais perfeita do caminho percorrido, do reconhecimento do trabalho de um tal Pedro Reis, das conquistas conseguidas com a troika, da excelência dos nossos produtores, da reforma do Estado e do apoio do Governo à estratégia de diplomacia económica, do que a do galinheiro. A imagem de um galinheiro, espelhada na indigência das nossas preocupações de Estado, no trânsito de ofícios entre ministérios e na notável e salazarenta avareza de que as nossas madamas dão mostras, é a única conjugável com a satisfação dos capões e o aumento de volume da pança dos novos "Tenreiros".   

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doce

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.02.15

jean-claude-juncker-fac9.jpgEntão este tipo não foi aquele que Passos Coelho e o Governo português consideraram o melhor candidato à sucessão de Durão Barroso? Não foi este sujeito que veio a Lisboa pedinchar apoios? Não foi este um daqueles a quem o Governo português prestou vassalagem? Não era com ele que ficávamos em óptimas mãos? Não era este gajo que conhecia a Europa de todos os ângulos POSSÍVEIS? E que enquanto primeiro-ministro do Luxemburgo ajudou uns quantos a safarem os euros do fisco? E agora o tipo vem reconhecer as borradas e fazer um acto de contrição, para salvar a face perante o gajo da Grécia, e mandam o Marques Guedes fazer de conta que é o Lomba? Que será feito do Moedas? Andará a contar cêntimos ou a comprar peúgas em Bruxelas? O tipo não diz nada? Não tem autonomia para isso? Será que Passos Coelho pensa que lá por estarmos no Ano da Cabra somos todos uns cabrestos?

O Carlos Carreiras ou o Duarte das vírgulas devem estar a preparar um texto magnífico para justificar mais esta ..... (completar de acordo com o estado de espírito do momento).

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tivoli

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.02.15

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O hotel já foi um símbolo de Lisboa. Depois tornou-se num símbolo da cartilha liberal da Avenida da Liberdade. Em matéria de presunção não faltava nada aos executivos que o frequentavam à hora do almoço.

Agora ficamos a saber que também estão falidos. Nem dinheiro para a água e a luz têm. Um desastre. Quando se fizer o levantamento do que se arruinou na presente legislatura, sempre com o beneplácito do inquilino de Belém e dos incompetentes da troika, dando alegre continuidade ao que já vinha da anterior legislatura, não será bonito de se ver. Bastará olhar para o índice. Metade do país e da classe política presa seria pouco. 

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brisas

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.02.15

prince-felipe.jpgDe Espanha podem não vir bons casamentos, o que ainda estará por provar. Mas vêm bons livros, excelentes presuntos, queijos magníficos, grandes jogos de futebol. E há lugares fabulosos, bons museus, gente interessante, mulheres lindas. De vez em quando também vem um escândalo. Mas desta vez vem um bom exemplo. Mais notado aqui pela aplicação que o dinheiro terá e porque vem de uma monarquia que não raro se comporta como muitas repúblicas não se sabem comportar. Ninguém o obrigou a reduzir o salário, não foi pedido nas ruas, ele não irá a votos. E se a Casa Real não sai prestigiada, pelo menos sai o Rei, que uma vez mais se dá ao respeito e à admiração da sua gente. Dos vizinhos também. A começar por este escriba.

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embrulha

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.02.15

0013.jpg(foto Reuters, via Expresso)

 - "Competentes e inteligentes". Então, pá, emudeceste? Que cara é essa? Confessa lá que não estavas à espera desta saída de madame Lagarde?

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estroina

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.02.15

Ele pode ser o melhor do mundo, ser insuperável na sua arte, ser um prodígio de força, de técnica e de classe. Mas três bolas de ouro depois, e já condecorado por Cavaco Silva, começa a revelar por que razão títulos, muito dinheiro e prémios não chegam para fazer dele um homenzinho. A condecoração dou-a de barato, estando aliás ao nível de quem o condecorou antes do tempo. Têm sido tantos os condecorados que o seu valor é ridículo. Gostava sim que Cristiano Ronaldo, cujo futebol deveras aprecio, fosse efectivamente um exemplo para a sua geração, em todos os aspectos, mas quer-me parecer que alguma coisa deve estar a tolher-lhe a mente. As exuberantes manifestações de novo-riquismo e frivolidade começam a ganhar terreno ao exemplo do profissional, do futebolista e do homem que serve de modelo inspirador a muitas crianças e jovens. Primeiro foi aquele vermelho directo na sequência de uma estúpida agressão a um colega de profissão. Agora são os detalhes da sua festa de aniversário. Alguns dirão que são isso mesmo, detalhes, e que tudo lhe deverá ser perdoado. Não creio. A um Cristiano Ronaldo tem de se exigir muito mais na imagem que de si próprio quer transmitir para as gerações vindouras, tanto nas suas manifestações públicas como nas privadas que são publicamente divulgadas. E, em especial, perante os seus concidadãos. Numa época em que a crise se manifesta a todos os níveis, era de esperar da sua parte maior contenção, menos exuberância nos gastos, mais discrição na estroinice. Que imagem pode ser transmitida de quem derrete um rio de dinheiro numa noite? O dinheiro que muitas famílias levam anos para ganhar trabalhando arduamente. E se não era para ser divulgado, então devia ter sabido escolher os convivas.

Se é verdade que gastou 400.000 euros num único dia com a sua festa de aniversário, isso não pode servir de exemplo para ninguém. Muito menos para o seu filho. E é mais próprio de um estroina parolo e afectado, a quem por um bambúrrio saiu a taluda, do que de um desportista excepcional, de um homem feito a pulso, cujo exemplo deverá perdurar. Alguém devia dizer-lhe que num tipo como ele há comportamentos que uma exposição pública não tolera. E que só servem para dar cabo, em meia dúzia de minutos, de uma imagem que levou anos a ser construída. Há coisas que a juventude já não desculpa, Cristiano, e que era preferível não terem acontecido. Mas que tendo acontecido seria preferível não se saber.

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clube

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.02.15

P08-02-15_16.49.jpgAdoro ver crianças em restaurantes. Sentadas ao lado dos pais, educadas, civilizadas. Sabendo comer e comportar-se. Em contrapartida, sou pouco tolerante com os papás e as mamãs que levam a prole para o restaurante e não se importam que a criançada transforme uma sala decente e acolhedora num pátio, num intervalo em que se podem alhear dos petizes para que estes corram livremente entre mesas, empregados e comensais, transformando o restaurante num anexo da Feira de Santa Iria e a refeição dos vizinhos num inferno de ruído. Acho que vou sugerir ao Manuel Geraldes um letreiro destes. Para os pais que souberem ler.

 

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mardis

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.02.15

i.axd.jpgForam poucos dias. Suficientes para encarar a realidade que deixei para trás. Quando se está fora é sempre mais fácil olhar para dentro. Para trás idem. E imaginar como tudo teria sido se também eu tivesse ficado. Quando se vê o fio dos dias sem se conhecer o dia seguinte, vendo a esperança esvair-se na confrontação do seu reflexo, o que de material se possa ter deixado perde significado. Só o reconhecemos ao mergulhar de novo na piscina de onde se saiu e onde agora tantos tentam manter-se à tona.

Fiz múltiplas tentativas. Fui às páginas brancas e às amarelas. Procurei na Internet. Nada. Havia números que continuavam a chamar, outros com uma gravação que dizia que não estavam atribuídos, e os que restavam nem sequer davam sinal. Seria possível terem alterado todos os números? Decidi-me a passar por lá quando fosse a Lisboa. Conhecia a casa há mais de vinte anos. Desde o momento em que consegui comprar o meu primeiro Alfa Romeo, os meus carros nunca conheceram outras mãos. Primeiro sob a batuta do Sr. Augusto, até este dar uma queda e se reformar. Depois com a atenção do Leonel, que se tornaria no chefe da oficina, e dos seus colegas. As meninas da recepção, senhoras, sempre atenciosas. Ali, eu sabia que aquela gente não perdia tempo, conhecia os pormenores, não confundia o barulho de um amortecedor velho ou danificado com um apoio do motor partido. Sabiam o que faziam e faziam-no bem, de forma competente, razoavelmente económica, não esquecendo que os meus carros eram, para além de uma paixão, uma extensão prática de mim, pelo que tinham pouco tempo para se entregarem aos seus cuidados. De quando em vez lá ficavam mais um dia, para uma revisão mais profunda, mas era raro. Sempre impecáveis, sempre a brilharem, com uma sonoridade única.

Quando lá cheguei dei com as portas fechadas. Os vidros cheios de pó. Estacionei e fui ler o aviso amarelado que estava afixado: Estimados Clientes: Informamos V. Exas. de que esta oficina estará encerrada entre os dias 11 e 30 de Agosto. Percebi logo o filme. Sem saber o que fazer, aventurei-me a entrar pela drogaria do lado e perguntei ao proprietário se sabia o que tinha acontecido aos vizinhos da oficina, se sabia onde parava o pessoal. O homem levantou os olhos, olhou-me fixamente e disse: "Fecharam e nunca mais abriram. Uma casa com mais de quarenta anos. Às vezes ainda passa por aí um dos mais velhos para levantar a correspondência, mas há muito tempo que não vejo ninguém. Isto está uma desgraça. Não sei onde irá parar".

Eu também não sei. Normalmente, quando não cai, a montanha-russa só pára no fim. Não se consegue sair a meio. Logo agora, ao fim deste tempo todo, e com o pouco tempo que tenho, ter de ir à procura de alguém que saiba olhar para os meus carros, que conheça a marca, a história, a tradição. Das últimas vezes já desconfiara da falta de stocks, da necessidade de combinar primeiro o que queria fazer para depois passar por lá. Agora acabou-se. A Mardis fechou. Finou-se.

A Mardis é apenas um caso. Ficava ali na Luciano Cordeiro. E no seu meio era uma casa cujas máquinas eram tão afamadas quanto as do seu não menos conhecido vizinho. Cada um no seu ramo, é certo. Mas embora trabalhando a horas diferentes, penso que não se podia dizer que a qualidade de serviço da Mardis fosse inferior à do Elefante Branco.

Casos como o da Mardis repetem-se por esse país. Muito antes fora assim no Algarve. Faro desertificara. A Rua de Santo António já era em 2013 uma sombra do passado. Até o Constantino, do Baía, fechara portas e abalara. Ficou o António Manuel. Para ir ficando com os espaços que fechavam. Em Cascais fora o mesmo. É só começar a descer a Rua Direita. É porta sim, porta sim. Tudo às moscas. Num restaurante, que em tempos foi uma referência e um ex-libris da vila, há gente com três meses de salários em atraso. E parece que a patroa se amofinou quando a mulher de um dos trabalhadores lá foi tirar satisfações. Queria saber quando é que o marido iria receber. A fidalga.

Penso que nunca comi tão barato como nas últimas semanas. As lojas de roupa sobrevivem com vestuário a preços que quase não deve dar para pagar a matéria-prima. Sapatos quase de borla. As prateleiras cheias. Clientes nem vê-los. Da FNAC à Labrador, da Bulhosa à Bertrand, da Wesley à Boss, da Hélio à Loja das Meias. Nesta última, ali nas Amoreiras, eram mais os empregados que os clientes. Alguém terá de lhes pagar os ordenados.

Andei por aí. Fui ao Lidl, ao Jumbo, ao Continente. Olhei para as pessoas. Sem querer reparava no que levavam enquanto esperava a minha vez nas caixas. Algumas vezes me senti desconfortável com o que levava. Nada de especial. Mas quando se levam duas garrafas de um vinho decente e mais meia-dúzia de coisas que perfazem mais de uma centena de euros e se encontra alguém na caixa, com idade para ser minha avó, a quem falta 1,20 euros para pagar uma conta de 13,00 euros de um pequeno cabaz de iogurtes, leite, pão e duas maçãs, a gente fica sem jeito. Deixe estar, minha senhora, pode levar as compras. Eu pago o que falta. O olhar agradecido, envergonhado, um obrigado recolhido enquanto guardava os poucos cêntimos que restavam.

Ao mesmo tempo, na Urgência do Hospital de Cascais não havia lugares para uma pessoa se sentar. Eu ia para ficar à espera. Não era utente, quero dizer. Na TSF, num desses habituais fóruns onde se bota discurso, discutiam-se as mortes nas urgências, as taxas moderadoras. Alguém falava em cerca de 30,00 euros pela consulta e pelo exame que lhe mandaram fazer. Na farmácia fiquei a saber que os medicamentos para as hemorróidas não tinham comparticipação. O das unhas também não. Um fulano perguntava se de um outro medicamento não havia genérico. O farmacêutico dizia que sim, havia mas não lhe podia vender porque o médico colocara a cruzinha. E o homem insistia. Queria o genérico. Não tinha dinheiro. Havia um parecido, mais barato, não era bem aquilo mas fazia o mesmo efeito. Não ia voltar à consulta e a médica não saberia de nada. Então levo esse, disse ele.

De caminho passei por duas universidades. Almocei numa delas. Dois estudantes vieram sentar-se ao pé de mim. Tinham vindo colaborar com a organização e assistir à conferência. Afáveis, eu era convidado, sentaram-se ao pé de mim. Fizeram-me companhia. Falei com eles. Eu comi o prato do dia, bebi um refrigerante, no final a sobremesa e um café. Tudo por menos de cinco euros. Eles comeram uma sanduíche de ovo e beberam água. Pão e água. Falei com eles. Senti-me mal, como fosse responsável pela sua situação. Nenhum deles se queixou. Queriam acabar os cursos. Um era músico nas horas vagas. Iria nesse fim-de-semana para um bailarico. No Alentejo. Sempre era uma ajuda para as propinas. Nesse dia jantei em Lisboa. Ali para o Príncipe Real. Quando no final me pediram  16,00 pensei que se tinham enganado. Com o que comemos? Sim, está tudo incluído, o vinho também. Fiquei em silêncio. Paguei a minha parte. Como se pertencesse a outro mundo. A outra gente.

Não posso voltar para trás. Ninguém pode. Lá atrás só ficam os que não conseguem escapar. E os que roubaram. Dois milhões é obra. Falo de pobres. A raspadinha não é o BES nem a SLN. Não dá tanto.

Em Portugal, a urze cresce em qualquer lado. A pobreza é uma espécie de urze. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Quando se vive dentro das possibilidades não se pode voltar para trás. Não há dinheiro para isso. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Os pobres são como os velhos: também não podem voltar para trás. Pelo menos enquanto respirarem. Depois também não voltam para trás. Já ficaram para trás. Eles e as suas necessidades.

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vidas

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.02.15

autumn leaf.jpg"- Se ao menos pudéssemos partir já! - disse ele com um lamento na voz" - D.H. Lawrence, O Raposo

 

Há alguns anos, Maria Filomena Mónica escreveu um pequeno ensaio sobre a morte, que foi editado pela FFMS. Creio que deve ter sido um dos escritos que mais me impressionou sobre esse caminho irreversível que nos conduz até à velhice, esse estado em que já fomos sem ainda termos ido e em que a vida conta para efeitos estatísticos.

Não sei se haverá alguma fórmula feliz para o envelhecimento, para ver esse dealbar dos dias que nalguns casos servirá para lavar a memória dos erros passados, noutros para recordar os momentos em que as forças, a energia, o vigor e a esperança nunca faltaram. Não temo a morte. De igual modo, não receio envelhecer. Mas desconfio do prolongamento seminatural da vida quando olho para o que me rodeia e sou confrontado com a impotência humana, com o desgosto, com o olhar perdido no tempo daqueles que sofrem na velhice o acréscimo da esperança média de vida. Porque a este não se podem opor. Porque a medicina assim o quer, mesmo quando ninguém lhes perguntou em que condições estariam dispostos a viver os anos que a ciência entendeu acrescentar-lhes. Às vezes para deleite dos vivos. Dos que não vegetam. Dos que se movem e levam uma vida nornal.

Quando o vi ali prostrado, depois de um AVC sofrido há mais de uma dezena de anos que o imobilizou numa cadeira de rodas e lhe retirou quase tudo o que lhe dava gosto fazer, tornando-o naquela espécie de gente sofrida que deve estar sempre agradecida pelo que diariamente por ela fazem, pergunto a mim mesmo se valerá a pena viver assim. Desta vez calhou-me a mim. Lá estava ele, deitado no chão, com duas mantas por cima para não arrefecer, esperando que alguém conseguisse levantá-lo, aguardando pacientemente a sua vez, sem saber quando ela chegaria. Se dentro de dez minutos, se de uma hora, ou se só ao fim de uma eternidade. Sem um queixume. Como se a vida se tivesse tornado numa espera permanente e dependente pela qual, quaisquer que sejam as circunstâncias, se deva estar sempre agradecido. Ali estava ele, diante dos meus olhos, perante o último patamar da dignidade humana. Aquele do qual já ninguém pode fugir no momento em que já lhe falta tudo e nada pode para contrariá-lo. Aquele do qual ninguém nos pode retirar. Por muito que se sofra. A não ser Deus, para quem acredite, o que não é o seu caso de ateu praticante.

E logo depois vejo também os outros, os que se amparam em cada dia que passa aviando receitas, contando as horas para as refeições, os comprimidos, a leitura dos valores da pressão arterial, cuidadosamente anotados numa folha de papel. A máxima, a mínima, a frequência cardíaca, enquanto lá fora a vida segue com o debate quinzenal, as agruras do espólio do BES, ou a discussão sobre os efeitos das eleições gregas no tamanho dos ovos das galinhas nacionais. Ali só interessa saber se é preciso tomar o Varfine, o Lasix ou o Tenormin. A vida está toda nas caixinhas, nos comprimidos brancos, azuis, cor-de-rosa, na quantidade de sal na sopa, no açúcar do chá. Também nas horas e no boletim meteorológico, faça chuva ou faça sol, sendo indiferente para o caso se se deixou de pôr o pé na rua há meses ou há anos. Ah, pois é, é por causa da chuva. O teu irmão amanhã vai dar consultas fora. E se estiver de chuva a Natasha vai ter mais dificuldade com os transportes. E depois a que horas é que ela vai chegar? E tu a que horas vens? Passa quando puderes. Primeiro estão as tuas coisas, mas passa quando puderes. Eu passo. Eu passo sempre. E eles à espera. Sempre à espera. Pensando neles, no frio, no corte das reformas - "estão sempre a tirar-nos, o que eles nos estão a fazer é um assalto; só o ano passado, a mim, foram quase duzentos euros por mês, à tua mãe foi menos, porque a reforma dela é mais pequena, mas também lá foram" -, pensando em nós - em todos nós - dias a fio, nas alternativas que nunca são viáveis por isto ou por aquilo. Está sempre frio. Os aquecedores estão ligados mas está sempre frio. Sair de casa? Vamos ter de pensar nisso, isto assim não pode continuar. Mas entretanto continua. Mais um dia, e depois mais um a seguir ao outro. Todos os dias. Até a seguradora cancelou aquele seguro de vida. Querem o recibo assinado para devolver o prémio. Como, se eu não vejo? Já não sei assinar. Cego há quase cinquenta anos e o tipo quer que ele assine o recibo. Ou que vá ao notário fazer uma procuração. Ou que ponha a impressão digital e o notário certifique. Aos noventa e seis anos. Porque não depositam o cheque na conta? Recebo a reforma por lá. A conta é na Caixa. E por que raio ele se há-de sujeitar a isso. Como eu o compreendo sem o compreender. Era só uma assinatura. Não assino, eles que fiquem com isso. O dedo reconhecido pelo notário. Aos noventa e seis anos. Um tipo não faz a barba porque não tem forças e há-de ir ao notário fazer a procuração. Ou pôr o dedo na burocracia. Uns cretinos.

Hoje a mulher não veio. Há greve nos comboios. O miúdo foi internado, teve de ficar com ele. Está toda a gente com gripe. Caiu? Duas vezes? Então e ninguém diz nada? Já tomou os comprimidos? Já, já lhe dei. Mas hoje não é segunda-feira? Então deu-lhe os de terça-feira. Eu? Não. Não, como? Se na caixa faltam os de terça-feira e hoje é segunda é porque se enganou outra vez. E já lhe deu os da noite? Então trocou tudo outra vez. Outra vez?! Está tudo separado, por dias da semana e refeições. Esta coluna está vazia. Amanhã dou-lhe os de hoje. E depois a tensão desce, e andam cheios de sono, e ninguém sabe por que razão, não é? Se não vê ponha os óculos. Não é para isso que eles servem? E agora a perna engessada. O dia todo na cama. Nem para a cadeira pode ir. Mas tem de ficar sentado. Aquela perna era a que já não mexia. Está inchadíssima. E o ortopedista quer vê-lo na quarta-feira. Às 10 horas? Alguém vai ter de levá-lo. Terão de ser os bombeiros. Vai na cadeira de rodas, ele não pode descer as escadas. E quem aguenta com ele? Nesse dia não poderei ir trabalhar. Vou ter de ir com ele. Não percebo nada do que diz. Fale devagar. E agora está a chorar? Está com os óculos todos besuntados, cheios de dedadas. Já viu como está essa camisola? Não está em condições, não pode andar assim. Como é que podes dizer que não está em condições se ainda esta manhã a vesti? O telemóvel não está carregado. Esteve toda a tarde a carregar. Só se faltou a luz. Vou à janela dizer-te adeus. Tens falado com ela? Ela está boa? Dá-lhe um beijo quando falares com ela. Amanhã passas por cá? Não posso, mãe. Amanhã vou-me embora. Tenho avião de manhã. Oxalá não te dêem frango. Que Santo António te acompanhe.

 

E lá ficaram eles. Com eles. Mais as suas preocupações. À espera. Sempre à espera.

 

Não tinha que ser assim. Não podia ser assim. A velhice não pode ser uma pena, uma condenação pré-morte em nome do progresso para expiação dos pecados que não se cometeram. A velhice não pode ser uma fatalidade. Isto está tudo gatado.

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