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por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

"Não haverá aumento de impostos ou esforço extra sobre salários e pensões", Maria Luís Albuquerque, 15/04/2014

 

"IVA sobe para 23,25%";

"A taxa contributiva, conhecida como TSU, vai aumentar 0,2 pontos percentuais para todos os trabalhadores, subindo, assim, de 11% para 11,2%";

"Pensões acima de mil euros pagam nova CES"

 

A Rádio Renascença, que deve andar mancomunada com a CGTP e o camarada Jerónimo, confirmou-me que, efectivamente, a ministra disse uma coisa no dia 15 de Abril e duas semanas depois acabou a dar o dito por não dito. Sei que o Governo também anunciou que os aumentos seriam só para 2015, que as previsões para o desemprego são mais optimistas do que as da troika e que em 2018 não haverá défice. Boas notícias, portanto.

Registo que com a mesma seriedade disseram antes que não iam cortar salários nem subsídios; que ninguém mexeria nas pensões; que o OE de 2012 foi condicionado, mas que o de 2013 é que já era deles. Enfim, a execução orçamental seria uma maravilha, a economia estaria a crescer no final de 2012, sem cortes, e por aí fora. Pelo caminho percebi que Passos Coelho se estava a lixar para as eleições. Os portugueses até nisto acreditaram e estoicamente tudo suportaram. Tinham motivos para isso.

Agora que tudo passou, que vêm aí as eleições europeias, que vejo os reformados e os trabalhadores muito mais aliviados nas suas pensões e salários, estou tão baralhado que entrei na fase em que acredito em tudo. Até na ministra.

Convenci-me, sabe-se lá porquê, como diz o exagerado do Pedro Santos Guerreiro, que "o martírio é agora diferente". Exultei com a boa nova. Estou tão esperançoso com o futuro dos meus compatriotas e do meu longínquo Portugal que não sei se compre uma garrafa de champagne. Ou, estou indeciso, se aproveitarei o facto de estarmos no Primeiro de Maio para acender uma vela à família Pingo Doce e encomendar uns panchões para celebrar as conquistas deste novo Abril, quarenta anos depois.

De qualquer modo, penso que os portugueses vão ficar satisfeitos. As coisas estão a compor-se. Tanto mais que agora vem aí mais um grupo de trabalho para transformar Portugal numa enorme cozinha, cheia de pançudos e de estrelas Michelin, há todos os motivos para celebrar.

Para os mais cépticos - sim, porque nestas ocasiões aparecem sempre uns tipos a desfazer estas conquistas -, e de maneira a que o martírio se torne ainda menos doloroso e se transforme em prazer, pois que já se sabe que apesar das iguarias só ficaremos limpos lá para 2018, o melhor mesmo é os portugueses estarem preparados para o que ainda aí vem. E ouvirem tudo com muita atenção. Os sorteios de carros do fisco já ninguém os tira, mas não tarda e o ministro Paulo Macedo, já me confidenciaram, anunciará com o seu à-vontade de fadista o aprofundamento do estado social e a compartição integral do Serviço Nacional de Saúde na aquisição de bisnagas de vaselina. Este Governo sabe que quando se trata de abrir alas para a entrada dos clisteres que nos irão ajudar a libertar as gorduras e reformar o Estado, não há nada como ter alguém que zele por nós, garanta os cuidados paliativos e nos facilite o martírio.

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insolvência

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

Quando um Presidente da República, tendo feito o discurso que fez no dia 25 de Abril pp., em seis condecorações que resolve atribuir se permite entregar cinco aos correligionários do seu partido político e antigos colaboradores, incluindo ao seu ex-director de campanha, é legítimo que os portugueses possam dele esperar que antes do final do mandato seja suficientemente justo para também condecorar a mulher que o atura, a filha, o genro, o resto da família, e todos os militantes da sua agremiação que tenham as quotas em dia.

Há muito que eu tinha a percepção de que o Infante D. Henrique e mais algumas figuras gradas da nossa História levavam tratos de polé. Nunca pensei que um Presidente da República lhes faltasse ao respeito desta forma tão descarada e ostensiva. E que os humilhasse tanto. E com eles ao resto da nação.

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cristiano

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

(Foto EPA, Kiko Huesca)

Nem todos os deuses são magos, mas há magos que se elevam e fazem de deus. No futebol isso também acontece. Cristiano Ronaldo e a armada do Real Madrid cilindraram em Munique os impantes, rudes e sobranceiros bávaros. Os campeões europeus, reforçados com o saber de Pepe Guardiola, encaixaram uns rotundos quatro a zero perante o seu próprio público. A vitória do Real, quer se queira quer não, será sempre vista como uma vitória da Europa do Sul contra a hegemonia alemã, como uma correcção e reequilibrar de forças depois do que aconteceu na época passada. Lisboa e o Estádio da Luz recebê-los-ão como merecem.  

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cantão (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

Estas breves notas de viagem ficariam demasiado incompletas sem uma referência ao novo museu da cidade de Cantão. Fazendo jus ao desenvolvimento de uma arquitectura renovada, a sua imagem impressiona pela cor vermelha que rompe o cinzento tão típico da região nesta altura do ano. Uma vez mais aberto todos os dias, com entradas gratuitas incluindo para estrangeiros, é um repositório do passado histórico, cultural e etnográfico da cidade. Com inúmeras indicações em chinês e inglês, ali é possível encontrar trajes regionais, costumes, a reprodução de casas e vilas tradicionais, réplicas de antigas embarcações usadas no comércio e de barcos-dragão, até gravuras do período colonial e do período da Guerra do Ópio, com imagens da antiga feitoria de Shamian, porcelanas de diversas dinastias, quadros a óleo e a fauna e flora da região. Uma vez mais com recurso a elementos multimédia da última geração, famílias inteiras, muitas vindas do interior da província, passeavam-se sem nos atropelarem nem incomodarem, registando também neste aspecto a diferença relativamente ao que acontecia há duas décadas.

Não sei se por causa das epidemias relacionadas com o terrível H5N1, ou se em resultado da evolução verificada no país a todos os níveis, as instalações sanitárias, outrora verdadeiros depósitos escatológicos onde a maioria se recusava a entrar, são agora, incluindo as que surgem em muitos outros locais públicos, dotadas de papel, desinfectantes, água e sabonete líquido em profusão. As toalhas de papel podem ter-se esgotado mas haverá pelo menos um secador de mãos japonês ou alemão a funcionar. Já o mesmo não direi das imundas casas de banho nacionais, a começar pelas das nossas estações de comboios, de algumas áreas de serviço das auto-estradas ou do Aeroporto da Portela, onde ainda recentemente tive oportunidade de registar uma reclamação no balcão da ANA devido à imundície que encontrei logo pela manhã após ter feito o check-in na área das partidas internacionais.

 

Como a evolução e o desenvolvimento de uma cidade não poderá ser visto apenas nas zonas mais modernas, resolvi percorrer parte da cidade antiga que eu já conhecia de anteriores deslocações, quer ao longo do rio, a partir de Shamian pela  Yanjiang West Road, quer por algumas artérias pedonais, como a Beijing Lu, que continua a ser um paraíso para os amantes de artigos contrafeitos, dos Rolex e IWC às malas tipo Hermès a preços de saldo. A apreensão das mudanças é imediata. Agora, ao longo do rio há uma via para bicicletas, que deixaram de ser um instrumento de trabalho para se transformarem em objecto de lazer, sendo possível ver muitos velocípedes de última geração, das melhores marcas, daqueles que fazem sonhar os habitués do percurso Cascais-Guincho. As coisas mudaram tanto que agora até os vendedores de fruta, legumes e cana de açúcar, se fazem transportar em triciclos dotados de motores do tipo das antigas Solex. Os autocarros são muito mais novos e menos poluentes, as paragens têm placas e indicações várias, nos cruzamentos já ninguém se atropela porque há semáforos e em muitos locais câmaras de vigilância. A limpeza melhorou, dos papéis às beatas, e pese embora uma noite, ao regressarmos a pé ao hotel, nos tenhamos confrontado com dois ratos em fuga. Nada que não tivesse visto já em Lisboa, Londres ou Nova Iorque, ou até na garagem do meu escritório. Antes era normal ver o lixo amontoado pelas esquinas, os caixotes e sacos depositados na via à espera que alguém os recolhesse. Actualmente há contentores de lixo como os nossos. Creio que talvez ainda não tenham consciência da necessidade deles serem regularmente lavados, mas o avanço é indiscutível num espaço de tempo relativamente curto, ainda que medido pelos nossos padrões.

 

As noites são hoje muito mais iluminadas, mas por volta das 23h as luzes mais intensas vão-se apagando. O que não invalida que alguns edifícios emblemáticos, como o velho edifício da Alfândega ou o soberbo Banco da Agricultura, continuem com os focos ligados até mais tarde. O espectáculo das iluminações começa a rivalizar com o de algumas outras grandes cidades ocidentais e é motivo de orgulho dos locais. Um passeio interessante poderá ser feito ao longo das margens do rio, ao cair da noite, numa das muitas embarcações que a partir de diversos pontos da cidade oferecem esse serviço, como se estivéssemos em Paris ou Amesterdão.

 

Do outro lado do rio a majestosa Canton Tower está entre as mais altas do mundo. Tem 600 metros de altura e um observatório a 433, sendo possível dar um passeio no exterior, quando o tempo o permite, numa espécie de carrossel. A Torre Eiffel, em Paris, tem 324 metros e por aqui já se pode ter uma ideia do que é a vista de lá de cima, em dias claros. À noite também está iluminada, possuindo no seu interior restaurantes e algumas lojas, e o metro vai até lá.

Enfim, em jeito de conclusão alguns diriam que são tudo maravilhas. Não caio nesse erro e tenho a sensação de que não será o facto de um destes dias começar a funcionar o elevador mais rápido do mundo (72km/hora) num edifício de escritórios, de uma companhia aérea local ter encomendado à Boeing mais seis dezenas de aviões de passageiros da última geração, que irá iludir outras realidades como os linchamentos populares que de um momento para outro podem ocorrer em qualquer local, a dificuldade em acomodar os direitos humanos, o passado próximo, a liberdade e processos transparentes e democráticos à imensidão do país. Por ora são realidades que não conseguem conviver. Só que de quem evoluiu tanto e tão depressa em pouco mais de duas décadas, levando educação e conhecimento a tantos milhões depois de ter passado num século por uma guerra civil, ter sofrido a humilhação da Manchúria, vivido a Guerra Fria com constantes revoluções e convulsões internas, purgas cíclicas e a ostracização dos seus melhores quadros, recuperou depois Hong Kong e Macau nas condições de segurança e paz em que o fez, estando a cumprir aquilo a que se comprometeu e que ainda recentemente deu mais um passo no aprofundamento das relações com Taiwan, é de admitir que as próximas duas décadas caminhem ao mesmo ritmo.

Esta é a China que o Presidente da República irá encontrar em Maio, quando aqui se deslocar em visita oficial. A política de pequenos grandes passos começa a dar frutos. Muitos. Para os homens livres, e que têm como aspiração e horizonte de vida sentirem-se cada vez mais livres, o tempo de viajar na China enquadrado e escoltado terminou. Essa experiência é agora parte da minha memória. Estou satisfeito por isso. Por mim e pelos chineses. E por conhecer a nova realidade. Hoje passo a fronteira sozinho, com o meu passaporte e um visto para entradas múltiplas válido para dois anos, emitido sem necessidade de explicações ou de responder a inquéritos imbecis, como alguns a que para entrar nos Estados Unidos já me pediram. Do outro lado, compro o meu bilhete para um comboio de alta velocidade, marco o meu hotel pela internet, levanto dinheiro nas ATM, desloco-me livremente, e mesmo sendo um ocidental posso circular discretamente. Não tenho de dar satisfações a ninguém. Se nos anos 80, ou ainda nos 90, do século passado, me dissessem que isso seria possível na China em 2014, eu não acreditaria. Ainda há milagres. E bem menos dolorosos do que muitos supunham.

E, também, dos que aqueles a que os portugueses, lamentavelmente resignados perante a catástrofe dos partidos que têm e as respectivas classes dirigentes, se habituaram nos últimos anos; fazendo com que a celebração de 40 anos de liberdade se tenha transformado num miserável jogo de comadres que se dilui em discursos de circunstância, questões protocolares próprias de parolos e idiotices institucionais de estalo. Enquanto os outros, partindo de patamares muito mais baixos, evoluem e os ultrapassam.

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abril

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

Dois dedos de luz, uma palavra, um gesto. Às vezes um sorriso.

O resto é passatempo para os estafermos.

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cantão (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.04.14

Um dos grandes problemas com que há algumas décadas os europeus se confrontavam ao viajarem pela China era a dificuldade em encontrar uma alimentação que satisfizesse padrões mínimos de higiene na sua preparação e confecção, e que fosse aceitável para os respectivos padrões culturais. A província de Guangdong foi desde há muito considerada uma das pérolas gastronómicas da China, não sendo por acaso que o tradicional Dim Sum, ou Yum Cha entre os falantes de cantonense, teve aqui as suas origens. Apesar disso, durante muitos anos só era possível fazer refeições decentes nos hotéis e muitas vezes, mesmo aí, não raro em condições deficientes. De todos os países asiáticos que conheci, talvez aquele onde se comesse pior fosse na China, situação que durante muitos anos me "impediu" de fazer deslocações mais longas e estadias mais prolongadas pelo interior. Tirando uma ou outra cidade costeira, Pequim e Xangai eram os únicos destinos onde eu sabia que melhor ou pior me "safaria".

A situação é na actualidade incomparavelmente melhor. Os hotéis continuaram, obviamente, a servir boas refeições, o que se tornou mais evidente pelo aparecimento de dezenas e dezenas de novos estabelecimentos de cadeias internacionais de cinco estrelas. Aí há sempre a garantia de se comer bem, embora se saiba de antemão que a conta será proporcional ao número de estrelas. E quanto a estes deixo desde já aqui duas notas. Uma para o italiano Il Prego, que me foi também recomendado, mas onde cheguei tarde para o almoço, no quadragésimo andar do West Inn Guagnzhou, cuja fotografia aqui deixo. A outra é para o super referenciado "G", no Grand Hyatt.

 

Mas para lá dessas alternativas mais caras, Cantão tem hoje um conjunto de restaurantes, de rua e em centros comerciais, que podem deixar descansado o mais intraquilo gastrónomo ocidental. Sem contar com os restaurantes chineses, dos mais económicos aos dos roteiros internacionais do tipo Michelin servindo a melhor e mais requintada cozinha chinesa, há uma profusão de pequenos restaurantes belgas, franceses, turcos, tailandeses e japoneses, onde é possível comer uns bons mexilhões, um peixe muito razoável, sushi, sashimi, tempura e tepaniaki de grande qualidade com a melhor carne das vacas de Kobe.

Convém, igualmente, não esquecer as numerosas steak houses, americanas, australianas e neo-zelandesas, o já famoso 1920, alemão, que abriu agora uma terceira casa na zona nova de Tianhe, bem como os bares irlandeses, onde também se podem fazer excelentes refeições. Na Xingsheng Road, nas imediações do Hotel W Guangzhou (Starwood Hotels & Resorts), é mesmo possível encontrar um restaurante cuja ementa anuncia a confecção dos seus pratos com azeite português e que, entre outras "especialidades", apresenta no cardápio um bacalhau assado com batatas a murro.

Quanto aos irlandeses, sempre bem dispostos e generosos, deixo aqui a sugestão de visitarem o McCawley´s, numa rua interior, com entrada a partir do 16 da Huacheng Avenue (shop 101, estação de metro de Zhujiang New Town, TianHe District), onde também se pode encontrar um simpático restaurante francês e um, creio, australiano. O Mc Cawley´s foi o bar do ano em 2012 e 2013 e aí é possível encontrar gente de todas as origens, beber um óptimo café, saborear as melhores cervejas e os maltes mais puros, servidos por chineses jovens expressando-se num inglês de primeira água, e ver os golos de Cristiano Ronaldo ou Fernando Torres.

Por falar em café, este tornou-se numa moda e foi uma agradável surpresa. Casas como o famoso Costa, a Pacific Cofee Company ou o popular Starbucks, que se especializou na preparação de mistelas derivadas do genuíno, são como cogumelos nalgumas zonas da cidade e estavam presentes em quase todos os centros comerciais onde entrei. Há máquinas excelentes, as marcas italianas entraram em força e é possível beber café bem tirado e de boa qualidade, coisa que até na Europa é difícil conseguir em muitas cidades. Em Cantão já ninguém desespera por um café.

De todos os locais onde estive deixo aqui uma nota especial para Le Jardin d`Olive (101-48, Ti Yu Xi Lu, junto à saída H do metro de Ti Yu Xi, Tian He District), cujas decorações natalícias devem ficar de um ano para o outro, também num beco que dá acesso a um páteo interior. Tirando esses pormenores, recomendo as vieiras St. Jacques e os mexilhões no forno. Para quem gosta, que não é o meu caso, cuja única ave que reconheço não é comestível, pertence à família das de rapina e chama-se Vitória, aconselha-se uma das quatro opções do pato (com molho de laranja e mel, de vinho, de pimenta preta ou de paté). Quem o comeu deliciou-se. Os preços são 1/3 ou 1/4 dos praticados nos bons hotéis e há vinho para várias bolsas. O schnauzer da dona não ladra, só aparece no final da refeição e é suficientemente esperto e civilizado para não sair da zona da caixa e não incomodar os clientes. Tem uma esplanada simpática, embora sem vista, suficientemente ampla para se fumar um charuto no final da refeição. Para estes, os apreciadores de puros e boa música, as alternativas também são várias. O bar do Grand Hyatt, no vigésimo segundo andar, onde fica a recepção do hotel, acolhia na altura o pianista e saxofonista John Cole. É pequeno mas suficientemente acolhedor para merecer uma visita e uma charutada, graças à sua excelente extracção. E,  com sorte, encontram-se lá alguns portugueses, como os que aproveitaram a Páscoa para irem promover os seus produtos à Feira Internacional.

À semelhança do que acontece em Hong Kong, em Seul e nalgumas cidades do Japão, é normal aparecerem restaurantes nos pisos mais baixos dos edifícios de escritórios, os quais estão, em regra, devidamente assinalados e possuem simpáticas hospedeiras que convidam os transeuntes a subir. Num deles, visitei o Landmark Bistro. Publicitado como sendo o restaurante do "Chef Alan", que possuía um passado em restaurantes estrelados, pois trabalhara no Jean Georges (New York City) e no Citronelle (Washington DC), revelou-se um fiasco. Não pela comida, de boa qualidade e confecção, nem pelo preço, bastante aceitável para o local e para os créditos do cozinheiro, mas pela comprovação de que um mau serviço é um verdadeiro desastre que arruína em dois tempos a reputação do melhor restaurante. Da colher de sopa retirada do prato da minestrone e pousada directamente sobre a toalha imaculadamente branca (a ideia era utilizá-la para servirmos o prato seguinte), aos talheres do risotto de trufas negras e chocos salteados com os quais pretendiam que comêssemos o lombo de pimenta, sem esquecer a deficiente iluminação do espaço e o aviso, às 21h, de que a cozinha encerrava às 22 e o restaurante às 22.30, aconteceu de tudo um pouco. Valeu o bom humor da minha companhia, fazendo-me notar os excelentes grissinos e o pão de azeitona. Ah, e também a sobremesa. Uma magnífica tarte maçã para dois que vai ao forno numa frigideira e é assim que chega à mesa, feita numa massa finíssima, a lembrar a dos melhores pastéis de Tentúgal, polvilhada com açúcar em pó e acompanhada, ainda morna, de gelado de baunilha. Convenhamos que soube a pouco. O "Chef Alan" trabalhou em excelentes restaurantes, tem uma casa optimamente localizada e bem decorada, mas passou tanto tempo em volta dos tachos e fornos que se esqueceu de dar umas luzes à mulher - chefe de sala - e à rapaziada sobre a importância de um serviço decente. Com mais uns anos e o aumento da concorrência é natural que venha a melhorar.

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debate

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.04.14

Por instantes, enquanto acertava o relógio, apercebi-me de que hoje havia debate. Em Lisboa. Em São Bento. O habitual, com os mesmos de sempre. Com as eleições europeias à porta surgem mais confiantes. E eriçados. Cada vez me sinto mais distante deles. E interiormente mais próximo dos meus, de quem sinto saudades. E mais perto de mim.

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cantão (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.04.14

Se há figura consensual na história contemporânea da China, essa figura é representada por Sun Yat-Sen. Venerado na província de Guangdong e em Macau, presente em milhares de livros e documentários, com bustos e estátuas espalhados um pouco por todo o lado, identificando pontes, estradas e edifícios, sem esquecer as múltiplas casas que lhe foram atribuídas e são religiosamente preservadas, quanto mais não seja porque lá pernoitou uma vez, a sua herança tem servido a todos, de um e do outro lado do estreito da Formosa. Como exemplo e fonte inspiradora das mais arrojadas realizações todos reclamam a sua herança. Recordo-me de que quando, há quase três décadas, desembarquei pela primeira vez nestas paragens, ter procurado conhecer essa figura mítica que tanto nacionalistas como comunistas reclamavam como sendo sua. Mas o que mais me marcou em toda a sua obra foi uma pequena frase que durante anos fez parte da primeira página do Taipei Times e que dizia qualquer coisa como, e cito de memória, " um povo esclarecido é um povo iluminado". Na altura, Taipé era famosa pelas edições contrafeitas das melhores obras, que chegavam a reproduzir sem adendas os erros das primeiras edições originais, fosse de enciclopédias, livros técnicos de medicina, direito ou engenharia, ou de clássicos da história e da literatura. A sua herança cultural, e o esforço que fez pela educação do seu povo, é uma imagem reconhecida e que perdura.

Vem isto a propósito de mais um contraste que me foi dado verificar durante esta minha rápida passagem por Cantão e que aqui recordo. Em meados de 1988, estando envolvido com mais alguns colegas num projecto jurídico, ao tempo assessorado por um reputado especialista em direitos asiáticos do Instituto Max Plänck, tive o privilégio de fazer uma visita à Universidade de Sun Yat-Sen, nesta mesma cidade de Cantão. Ali fomos recebido por um professor de idade avançada, antigo combatente do Exército Popular de Libertação e velho resistente apanhado no turbilhão da Revolução Cultural, que depois de uma dura reabilitação fora finalmente integrado naquele estabelecimento de ensino. Queixava-se ao tempo o nosso anfitrião da falta de livros e da contradição que era perante essa realidade dirigir o departamento de Direito daquela universidade à qual o "Pai da Nação" dava o nome. É que para além do seu legado político, Sun Yat-Sen constituíra a força inspiradora para a fundação, dois anos depois da sua morte, em 1927, da primeira biblioteca pública moderna de Cantão e era a isto que ele se referia.

Pois bem, em 1 de Abril de 2013 foi encerrado o velho edifício, para dar lugar a uma construção moderníssima, que cumprirá dentro de um mês o primeiro aniversário, onde são actualmente disponibilizados mais de 3,2 milhões de livros, ou seja, cerca de pouco mais de metade do total de volumes da actual biblioteca.

Com dez pisos, luz natural em abundância, uma área de cem mil metros quadrados, lugares para quatro mil leitores, mais de 425 000 e-books, mais de  1,8 milhões de dissertações e de 3,5 milhões de "conference papers", uma imensidão de revistas e jornais, com uma área especial para invisuais, salas reservadas para preparação de teses, mais de cinco centenas de computadores públicos e a mais moderna tecnologia, a que não faltam máquinas de desinfecção para os livros que podem ser emprestados para leitura domiciliária, trata-se de mais uma das novas obras de excepção da cidade.

O que ali mais chama a atenção é a constante afluência de público,  a imensa quantidade de gente que entra e sai sem se atropelar e sem fazer barulho, seja para devolver exemplares emprestados, rigorosamente depositados nos locais próprios com o auxílio de um cartão digital, ou para se reabastecer de novos, sem esquecer as centenas e centenas de crianças agarradas aos mais variados livros, da banda desenhada ao Petit Prince, cujos pais só a muito custo conseguem arrancar das salas de leitura. Depois é vê-los carregados de sacos com livros pela rua e jardins fora. Curiosamente, ou talvez não, a biblioteca está aberta diariamente, das 9 às 21h, incluindo domingos. E, não obstante encerrar às quartas-feiras, está aberta, imagine-se, todos os dias feriados, dias em que as famílias têm mais disponibilidade para a leitura.

Lá dentro, sem ruído, sem telemóveis a vibrarem ou a tocarem, nem portáteis a fazerem-se anunciar, toda aquela gente trabalha, estuda, entretém-se, diverte-se, exercita os neurónios e aprende. Tudo isto num edifício que é mais uma jóia arquitectónica.

Dir-me-ão que num país em que ainda está bem presente a memória de Tiananmen, como em Hong Kong se comprova pela recente iniciativa de alguns cidadãos de promoverem a construção de um monumento às suas vítimas, tudo isto será relativo. Admito que sim, sem qualquer dificuldade. Nasci e cresci entre gente que se habituou a cultivar, preservar e transmitir os valores da cidadania, da cultura e da liberdade de pensamento, e que foi capaz de fazê-lo nas condições mais adversas. Mas também sei que um censor é por natureza estúpido e que não há censura que resista ao chamamento da liberdade. A geração mais jovem, mesmo a que não saiu das famílias que constituem hoje as elites do PCC, já cresceu a aprender inglês, vendo a CNN e a BBC, estudando em Honolulu, Vancouver, São Francisco ou Boston, e são cada vez mais os que se habituaram a viajar e fazer férias no estrangeiro.

Não sei como será Cantão daqui a mais vinte anos, nem se por essa altura a imagem tutelar de Mao continuará a aparecer nas caixas lacadas de charutos que rivalizam, em qualidade e beleza, com as produzidas pela Zino ou pela Cohiba. Sei que Great Wall já não é só nome de aguardente ou de uma construção, feita à força de braços, visível a partir da Lua. É também marca de charutos chineses, produzidos com tabaco indonésio, e que tenta conquistar o mercado internacional e os exclusivos clubes de aficionados dos puros. Tudo isto significará muito pouco, pois sim. Só que num país que caminha, apesar dos recentes problemas demográficos, para os mil e quinhentos milhões de almas, quase 20% da população mundial, que tem crescido a dois dígitos e que desde o último congresso do PCC viu fixado esse limite para uns módicos 7,5%, nenhum destes sinais deverá ser desprezado.  

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cantão (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.14

Quando por mero acaso, na antevéspera da minha partida, me cruzei no elevador do edifício onde agora resido com um amigo que me recordou a necessidade de não deixar escapar uma visita à Ópera de Cantão, não me passava pela cabeça rever a cidade e não passar por esse novo ex libris, para mim uma completa novidade. Creio que a arquitectura, conjuntamente com a música, com o cinema e com a literatura, é uma das marcas civilizacionais mais intensas e duradouras, simbolizando o espírito de mudança, a revolução e profundidade do pensamento, o traço indelével dos costumes de uma época, das suas prioridades e preocupações.

Tenho tido a sorte, felizmente, de ao longo da minha vida, pese embora algumas circunstâncias adversas que muito a marcaram, de poder ver, com total liberdade, sem o favor do Estado ou subsídios de empresas públicas ou privadas, apreciar e sentir algumas das mais emblemáticas e maravilhosas obras da arquitectura mundial de todos os tempos. E gostando de grandes espectáculos, de grandes realizações e desempenhos de excepção, em especial de ópera e de música clássica, pensava que depois de ter visitado, por altura do bicentenário da Austrália, a Ópera de Sidney, que já nada me impressionaria. Nada de mais errado, começando mesmo por Portugal e por algumas realizações das últimas duas décadas que todos devemos à arquitectura nacional.

Fruto de um concurso internacional, cuja short list incluiu os nomes de Rem Koolhaas, da cooperativa austríaca HImmelb(l)au e a aclamada arquitecta iraquiana Zaha Hadid, foi a esta última que coube a tarefa de a partir de 2002 e até 2010, ano da sua inauguração, em Maio, dar corpo ao projecto que, 200 milhões de US dólares depois, se transformaria na maior e mais expressiva casa de espectáculos do Sul da China e que hoje discute a primazia das grandes produções e eventos na cena chinesa com o Teatro Nacional de Xangai (ou Shanghai, se preferirem) e com o Centro Nacional das Artes Performativas de Beijing. Infelizmente, não tive possibilidade assistir a nenhum espectáculo, mas em agenda está um concerto de aniversário com a Sinfónica de Boston e Charles Dutoit (6 de Maio), a que se seguirá uma grande produção da Carmen (27 a 29/06/2014).


Um desenho estupendamente arrojado, uma estrutura impressionante de granito, vidro e cimento, com uma localização soberba, rodeada de espaços verdes e com o novo centro financeiro colado, tendo do outro lado do jardim a nova Biblioteca Municipal de Cantão e o Museu da Cidade, e a sul o rio e a novíssima Torre de Cantão, fazem do edifício uma obra de envergadura e classe mundial. Como me dizia o meu amigo PCT, trata-se de uma obra que merece uma visita de dia ou de noite, a qualquer hora, ao que eu acrescentaria, em quaisquer condições atmosféricas.

Vista do outro lado do rio, ao seu nível, ou a 430 metros, do alto da Torre, a sua integração na paisagem é perfeita e revela um oásis numa metrópole que, para os leitores que não conhecem ficarem com uma ideia, tem a área da cidade de Londres e cerca de treze milhões de habitantes, de acordo com os últimos dados que me foram transmitidos.

Ali, paredes meias com o Consulado dos Estados Unidos, senti-me perfeitamente esmagado pela expressividade do traço, pela beleza do conjunto, pelo modo harmonioso da conjugação dos materiais, e por me aperceber da forma como o passado e o presente, a modernidade e a tradição, conseguem conviver num diálogo permanente e sem sobressaltos. Entre o chilrear dos pássaros e o sorriso simpático e acolhedor dos vendedores de água de coco e de ananazes, descascados na hora, vendidos inteiros ou em quartos, e que de Macau desapareceram.

Quando recordo algumas construções horripilantes das nossas cidades, com projectos de um mau gosto atroz e ofensivo da sensibilidade do mais ignorante dos trolhas, com projectos que foram assinados por engenheiros e aprovados pelas autarquias, foi-me particularmente gratificante ver que o novo-riquismo dos primeiros anos da era Deng, e depois do curto período de desenvolvimento conduzido pelo "liberal" Hu Yaobang, afastado em consequência dos acontecimentos do 4 de Junho de 1989 e que foi este mês recordado pelo seu pragmatismo, arrojo e visão, embora sem referências a Tiananmen, foi-me particularmente gratificante apreciar a nova arquitectura de Cantão e o quanto ela pode representar para a construção de um espírito de modernidade, de reconhecimento do passado e das suas tradições, e de uma visão de futuro sensata, ao mesmo tempo que vai moldando o gosto (bom) das futuras gerações, até mesmo nas coisas mais elementares. Talvez por isso é que nos prédios mais recentes já não se vejam as feias grades de outrora, os aparelhos de ar condicionado de todas as formas e feitios no exterior das fachadas dos prédios, nem a profusão de estendais e de marquises de vidros espelhados, castanhos, amarelos e, por vezes, azuis fumados, que foram voga há vinte anos e ainda hoje poluem a paisagem visual de muitas cidades portuguesas, destruindo o encanto destas e as obras de muitos arquitectos anónimos e preocupados. Faro, última cidade portuguesa onde vivi, e uma bela cidade que tem sido paulatinamente destruída pelos patos-bravos com a conivência dos partidos políticos, é disso mesmo um bom (mau) exemplo, como aliás tive oportunidade de chamar a atenção, sem sucesso, é certo, ao longo de anos, a pelo menos três presidentes de Câmara.

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tempo

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.14

Por mais que os estique, não consigo descobrir o segredo para fazer com que cada dia tenha mais de vinte e quatro horas. Deviam criar um prémio internacional (mais chorudo que o Nobel) para premiar aquele que, já que Deus curiosamente não o conseguiu fazer, conseguisse realizar o milagre da multiplicação das horas. Sendo mais difícil do que multiplicar pães, deve estar aí o segredo da eternidade.

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cantão (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.14

Já não me recordo se a última vez que estive em Guangzhou, entre nós, portugueses e ocidentais, mais conhecida por Cantão, foi há mais de 20 ou se há 25 anos. Sei, no entanto, que foi há bem mais de duas décadas. E de todas as vezes anteriores em que lá estive, ou que por lá passei a caminho de outros destinos, fiz o percurso entre Macau e essa cidade de barco, subindo o delta do rio, de carro, por estradas e caminhos miseráveis, e algumas vezes pelo ar, a partir de Zhuai, em helicópteros velhos da Sikorsky, que pingavam líquidos vários a partir de diversos pontos na cabine quando este meio de transporte se tornou numa alternativa para nos fazer poupar tempo.

Volvidos todos estes anos regressei para ver se me apercebia da evolução verificada e das mudanças entretanto concretizadas. A conclusão a que chego é que a quarta revolução está em marcha. Pouco mais de um século passou desde que Sun Yat-Sen, a partir do berço de Wuchang, desencadeou a primeira revolução (Outubro de 1911), pondo termo ao domínio Qing e proclamando a República da China. Agora, cem anos depois da revolução nacionalista, passada a revolução de 1949 (Mao) e a era de Deng, dando corpo ao "Chinese dream", reafirmado por Xi Jinping no momento em que este assumiu a liderança do PCC, aí está a terceira cidade chinesa a comprovar a velocidade da mudança e a rapidez com que se sai da pobreza para a liderança da nova era tecnológica.

(Zhujiang New Town, vista norte do Grand Hyatt)

As oito horas de barco, as quase seis horas de carro que levava de Macau a Cantão na década de 80 do século passado, foram agora substituídas pelos pouco mais de 50 minutos que ligam a cidade fronteiriça de Zhuai-Gongbei à Guangzhou South Station, percurso que actualmente se realiza num comboio climatizado de alta velocidade, com duas classes e circulando à tabela. O barco semanal foi substituído por comboios-bala que saem de 30 em 30 minutos. Ainda me lembro de em 1 de Maio de 1986 ter visto milhares de homens trabalhando, sem a ajuda de máquinas, na construção da auto-estrada Zhuai/Cantão. Nunca mais me esqueci da data exactamente por ser o Dia do Trabalhador e dos estaleiros ao longo da velha estrada estarem todos decorados com bandeiras coloridas do tipo das que ainda hoje se vêem na Festa do Avante. Duas décadas depois a China tem a maior e mais densa rede de comboios de alta velocidade do mundo. Cantão, onde a circulação era difícil e lenta, cheia de pó e sempre em obras, tem hoje uma rede de metropolitano com 9 linhas que cobrem mais de 260km de extensão. Aquele que era o meu hotel preferido, em Shamian, o White Swan, está fechado para obras de remodelação. A nova cidade deslocou-se para Tianhe e as decrépitas lojas da Beijing Lu deram lugar a moderníssimos centros comerciais onde a Prada discute espaços com a Rolex ou a Porsche. Os velhos hóteis foram substituídos por dezenas de novos hotéis, do Ritz-Carlton ao Grand Hyatt, do Sofitel ao Hilton. A cerveja Tsintao morna que nos era oferecida pode agora ser servida gelada ou facilmente trocada por uma Heineken, uma Stella Artois ou uma Kronenbourg. A cidade viu crescerem os parques e as monumentais torres de escritórios da última geração. As bicicletas foram substituídas; primeiro por motociclos, depois por utilitários japoneses e carros da gama alta alemã. A quantidade de gente que hoje fala inglês não tem comparação possível com o que acontecia há vinte anos, quando era raríssimo, mesmo dentro dos poucos bons hotéis que havia, encontrar alguém que falasse um inglês aceitável. A cidade foi sede dos Asian Games em 2010 e o esforço que então foi necessário fazer reflecte-se na nova arquitectura da cidade, nos edifícios inteligentes, nos novos e amplos espaços verdes, na criação de uma nova mentalidade com preocupações ecológicas e ambientais. Cantão é hoje a imagem de uma China muitíssimo mais moderna, jovem e insatisfeita, que continua a procurar avidamente o progresso.

(Huacheng Road a partir do flyover que liga o Guangzhou International Finance Center ao GTLand Plaza)

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campeões

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.04.14

Obrigado, Campeão. Trinta e três é um número bonito. Voltaremos a ver-nos.

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leilões

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.04.14

Se se divulgar publicamente o contrato pode haver lugar ao pagamento de uma indemnização”, "Não há garantia de preço pela Christie’s relativamente à venda, não há prestação de serviços”, "O Governo não assinou nenhum contrato”, “O Governo e a República Portuguesa tutelam as empresas [a Parvalorem e a Parups, proprietárias das obras], mas não são parte nesses contratos” - Público, 17/04/2014, página 17

 

As frases acima transcritas são atribuídas pela edição matutina do Público à secretária de Estado do Tesouro, Isabel Castelo Branco, e foram proferidas no Parlamento, perante a Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública, quase 40 anos depois da revolução de 25 de Abril.

Esclareço desde já que não é da minha família, não a conheço de nenhum lado e não tenho nada contra ou favor. O que sei da senhora é o que diz respeito à sua vida pública enquanto membro do XIX Governo Constitucional e é por causa do exercício destas funções, para as quais contribuo com os meus impostos para o pagamento dos seus salários, que me interrogo.

Os portugueses, pelo menos os que estão em Portugal, têm tido o privilégio de acompanhar em primeira mão o imbróglio causado pela exportação ilegal de obras de arte que eram pertença dessa notável instituição produzida pela "crème de la crème do cavaquismo" e que têm custado aos portugueses os poucos anéis recebidos dos seus antepassados. Mas quem está fora e se limita a acompanhar à distância o que se passa através das notícias que lhe vão chegando, não pode deixar de se questionar sobre o tratamento que este assunto tem merecido.

Independentemente de se discutir qual seria a melhor solução para o problema, partindo do princípio que aquela será sempre a que melhor servir o país, aflige-me a forma como tudo tem sido conduzido, as despesas que já foram feitas sem se saber qual o retorno, a imagem de rebaldaria interna que já foi transmitida interna e externamente e, em especial, a indigência política e, pelos vistos também, de gestão, de quem recebeu por missão desenvencilhar-se das obras para o erário poder arrecadar alguns cobres.

De tudo o que tenho lido e ouvido, dos responsáveis das empresas aos leiloeiros, sem esquecer essa inenarrável sumidade que gere os destinos da secretaria de Estado da Cultura, as afirmações acima citadas da secretária de Estado do Tesouro, revelam um profundo desprezo pelos portugueses, pela política e até pelo próprio programa do Governo que integra.

A este propósito, atente-se que no que ficou vertido a fls. 13 desse documento e confronte-se com o que já se sabe e com as referidas declarações. Para poupar trabalho aos leitores fica aqui transcrito o que de pertinente para esta discussão ali se contém: "O Governo propõe-se melhorar o quadro institucional da vida portuguesa, o que pressupõe um poder político transparente, sujeito a escrutínio efectivo e suscitador de mais e maior confiança. Para o alcançar, o Governo estabelecerá regras claras e iguais para todos, de modo a que as iniciativas e projectos individuais e colectivos possam ser levados a cabo em igualdade de circunstâncias. O Governo tomará iniciativas para que o País tenha um sistema eficaz de combate à corrupção, à informalidade e a posições dominantes, e que seja dotado de um sistema de regulação mais coerente e independente. Aperfeiçoará o funcionamento das instituições (...)".

Posto isto, entendo ter a obrigação de perguntar com que direito se pretende sonegar aos portugueses o conhecimento da negociata, ou negociatas, que estão por detrás do secretismo em que se pretende manter o contrato assinado com a leiloeira londrina? Se não há garantia de preço por que razão haveria lugar ao pagamento de uma indemnização? Se não há prestação de serviços, então estaremos perante que tipo de figura jurídica, perante que tipo de contrato? E que cláusulas foram negociadas, tão gravosas para o Estado português ou as suas empresas a ponto delas deverem permanecer sigilosas e longe do juízo da opinião pública? O facto do Governo não ser parte nesse contrato (ou contratos), invalida o acesso à informação que, por natureza, a todos os contribuintes interessa e diz respeito? Como pensa o Governo concretizar o seu desígnio de "melhorar o quadro institucional da vida portuguesa" quando pretende subtrair ao conhecimento dos cidadãos as condições de alienação dos bens que, directa ou indirectamente, pertencem à comunidade? Em que medida as declarações da senhora secretária de Estado, e outras ainda mais despropositadas, comprometedoras e reveladoras de total inabilidade e desprezo pelos contribuintes que já foram proferidas pelos responsáveis das empresas e Barreto Xavier, contribuem para um "escrutínio efectivo e suscitador de mais e maior confiança"? Quando pensa o Governo que este escrutínio deverá ser feito? Só depois da alienação, quando tudo se tiver tornado irreversível e sem remédio? Como afirmar a transparência da acção do poder político quando em questões tão básicas se esconde a verdade dos portugueses? É assim que se contribui para a criação de "um sistema eficaz de combate a corrupção, à informalidade e a posições dominantes"? De quê ou de quem é que têm medo os responsáveis políticos? Quem se quer proteger e porquê? 

Causa-me estranheza e perplexidade que tudo isto permaneça sem resposta, e que esteja de novo em marcha o processo de venda dos quadros sem que se esclareça previamente o que devia ter sido esclarecido espontaneamente, de forma clara e sem subterfúgios, sem que fosse necessário perguntar. Os portugueses, os contribuintes, têm o direito de ser informados e de saber o que se passa com este assunto, do mesmo modo que têm o direito de saber tudo o que se passa com as PPP's qualquer que seja a cor do poder do momento. E têm o dever de exigir que lhe seja prestada informação correcta, séria, actual e transparente.

Este não é um problema de mera chicana política que deva ser desvalorizado. Nem deve ser assunto para ser tratado às escondidas. Estamos perante um assunto fundamental para se aferir da transparência do sistema político, da actuação dos governantes, do mundo empresarial em que se movem as empresas participadas, que urge esclarecer em todos os seus contornos, que importa retirar da obscuridade para que todos os cidadãos percebam como são geridos e administrados os seus interesses pelos seus comissários, por aqueles a quem pagamos (alguns contrariados) os respectivos ordenados. E para que no fim, se alguma coisa correr mal, possam ser extraídas consequências e exigidas responsabilidades a todos, sublinho, a todos os que tiveram intervenção neste assunto.

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entrevista (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.04.14

Da entrevista dada pelo primeiro-ministro a José Gomes Ferreira há muito pouco a dizer. Uma dezena de remodelações depois atreveu-se a afirmar, sem sombra de remorso e sem se engasgar, que fez uma, registei, uma remodelação para aumentar a coesão do Governo. Presumo que todas as restantes foram executadas para divertir as clientelas do seu partido e o parceiro de coligação, transmitindo a ideia de que até hoje tudo correu sobre rodas. Bateu sempre na mesma tecla, justificou erros e opções como se fossem fatalidades, a seu tempo escrutináveis, quando sabe que já não há remédio. Fê-lo sem transparência sobre as escolhas realizadas e sem esclarecer o que lhe era suposto esclarecer numa entrevista de uma hora. Fez de conta que o penoso cumprimento de um programa de ajustamento e reajustamento, para cujo agravamento sobremaneira contribuiu, é função de que um governante se deve orgulhar. Em rigor, comportou-se com a desfaçatez de um comentador político sem responsabilidades, recordando aos portugueses - quando para fugir às perguntas recordou que não se poderia comprometer com as respostas sem estudar as questões - que as promessas feitas em campanha eleitoral foram dolosas. Sem um acto de contrição, sem nobreza. Por trinta moedas que jurara ir buscar à reforma do Estado e ao despesismo dos antecessores. E que, traiçoeiramente, acabou a tirar dos depauperados bolsos dos irmãos, fechando os olhos aos vendilhões e protegendo os seus facilitadores dos negócios.

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republicanizar

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.04.14

"Muitos dos arrebatamentos emocionais da sociedade têm a ver com o facto de as pessoas terem medo, um medo mais relacionado com a desprotecção económica à esquerda e mais com a perda de identidade à direita, embora tudo isto se misture dando lugar a sentimentos de difícil interpretação e gestão. Neste mundo já não são eficazes as seguranças que só funcionam em espaços fechados mas as pessoas têm direito a um resguardo semelhante nas novas condições. Enquanto a política não for capaz de proporcionar uma segurança equivalente, as sociedades terão motivos para confiar nas promessas impossíveis de cumprir do populismo." - Daniel Innerarity, Público, 11/04/2014

 

Neste pequeno trecho que transcrevo, o filósofo basco Daniel Innerarity (Bilbao, 1959) sintetiza de forma magistral qual o grande  problema da política contemporânea. A política, e os políticos, já que esta é feita por homens, é incapaz de proporcionar segurança aos cidadãos, o que na perspectiva daquele conduz ao acolhimento da mensagem populista. Para o caso é indiferente que esta seja proveniente daquilo a que se convencionou tradicionalmente designar por direita ou por esquerda.

Se nos detivermos cinco minutos a pensar no que distingue uma democracia representativa, um Estado de direito democrático, de uma ditadura ou de modelos autoritários musculados, rapidamente chegaremos a uma conclusão: as democracias são normalmente previsíveis, as ditaduras e os estados autoritários naturalmente imprevisíveis.

Não que nestes últimos não exista lei e ordem, como apregoava o velho Salazar, se via na Espanha franquista, na Itália mussoliniana ou no Terceiro Reich, ou mais recentemente na descaracterizada Rússia de Putin. Mas porque a previsibilidade das democracias e das suas regras não se funda apenas na exigência formal da produção e publicação do texto legislativo ou do regulamento, mas no rigor da sua interpretação e execução, na previsibilidade da sanção, na garantia da clareza na aplicação do direito, na cominação da sanção, na equitativa distribuição dos deveres e dos sacrifícios e no exercício e protecção dos direitos.

A estabilidade e segurança conferida por uma democracia exigente e rigorosa reflecte-se em tudo isso, mas igualmente na forma como o poder é exercido, como o parlamento assume a sua função legislativa e fiscalizadora da acção do executivo, na forma como o poder se distribui entre as diversas instituições, no modo como os checks and balances se articulam, na actividade dos tribunais e na acção das polícias. E, acima de tudo, na transparência com que tudo isso é feito, isto é, no acesso que todos e cada um têm ao acesso à informação, ao conhecimento dos processos e à certeza de que pela sua acção externa não só lhes é permitido acompanhá-los como orientar a sua acção fazendo uso de mecanismos ao alcance de todos.

Proporcionar segurança numa democracia implica ter actores em quem se possa confiar, cuja mensagem seja clara, directa, de imediata percepção pelos destinatários. As "promessas impossíveis de cumprir do populismo" passam também por aqui. E a este propósito, alguns trabalhos que têm sido feitos dando conta da forma como a Frente Nacional da família Le Pen cresceu e atingiu os históricos resultados das últimas municipais francesas, são de leitura aconselhável para que se perceba como aquele que deveria ser o discurso próprio das democracias se transformou no discurso da Frente Nacional e do "Campus Bleu Marine". Convirá não esquecer que nas listas da Frente Nacional se candidatou muita gente vinda de diversos quadrantes à sua esquerda, de um alto quadro da Comissão Europeia a dissidentes da UDF e do RPR, sem esquecer dissidentes de esquerda como Valérie Laupies, esta última candidata em Taracon (Bouches-du-Rhône), eleita para o comité central e conselheira regional da Frente Nacional em 2010, actual conselheira de Marine Le Pen para os assuntos da educação. Mais grave foi que a transumância não se limitou às pessoas. Hoje, em França, a Frente Nacional surge mesmo, paradoxalmente, como herdeira dos valores republicanos que as forças tradicionais, designadamente à esquerda, desde sempre se reclamaram exclusivas e fiéis depositárias, ainda que para isso tenha sido necessário deturpar a mensagem e vestir o discurso de uma roupagem nova - recorrendo a modernas técnicas de marketing e comunicação e à distribuição de kits de formação do militante frentista - ou disfarçar o passado militarista de alguns dirigentes.

Os cidadãos-eleitores  não podem ser criticados por essas mudanças, salvo na parte em que o desastre da afirmação política das democracias nos tempos actuais, de que constituiu sintoma pertinente o declínio da participação nas democracias consolidadas e nos partidos, em muito se ficou a dever ao crescimento da sua própria apatia.

Veio isto a propósito do texto de Innerarity como podia vir a propósito de "o problema é deles", manifestação de paroquialismo vinda de onde menos se espera, ou da dupla indignidade do comportamento do poder político em matéria tão sensível como é a da transparência da tributação e da necessidade dos contribuintes destinatários serem esclarecidos por quem decide sobre as regras que lhes são aplicáveis sem terem de se sujeitar a atitudes de banditismo fiscal, tornadas corriqueiras por força de um aberrante comportamento político de tipo liliputiano por parte dos responsáveis em matéria fiscal e respectivos executores.

A insegurança residirá na política, nos caminhos que esta prosseguiu nos anos recentes, sem que, todavia, nesta se esgote. A adequação formal das regras não constitui o princípio e o fim da segurança. Esta será apenas um caminho para atingir os fins superiores da actividade política. Por isso é que, quanto a estes, mais do que apontar o dedo aos cidadãos e aos eleitores que escolhem o caminho "mais fácil" do voto "populista", importaria, agora que passam 40 anos sobre o 25 de Abril e se cumpre o centenário da morte desse mito da cidadania que foi Jean Jaurès, republicanizar a democracia, tornando-a possível, oferecendo um modo de ser e de estar que contrarie em cada dia que passa a deprimente e cada vez mais insuportável falta de estatura, de dimensão ética, moral e política de quem diariamente decide sobre as vidas dos seus semelhantes sem olhar para o que está por trás, nem para as consequências dos seus actos, cumprindo agendas e roteiros dignos de moluscos destituídos de vontade.

Tornar a democracia possível é torná-la segura, afastando-a da imprevisibilidade típica da gestão dos incompetentes, do autoritarismo de caserna e da arbitrariedade das ditaduras. Tornar a democracia segura é, além do mais, humanizá-la, coisa que não poderá ser feita por autómatos políticos cujo único credo é a conquista do poder e a sua manutenção para garantir o alimento do  lumpen dependente que os venera e serve.    

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