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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Quarta-feira, 18.07.18

desconfianças

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 (14/07/2018)

 

Li esta manhã que o Gabinete de Infra-estruturas de Transportes (GIT) procedeu a mais uma revisão em alta do orçamento do Metro Ligeiro da RAEM. O valor foi agora atirado para 16,4 mil milhões de patacas, mas ainda não inclui a linha do lado de Macau, nem o material circulante da linha de Seac Pai Van.

Apesar disso, até ao momento, o Governo ainda não foi capaz de avançar com um número para o custo das linhas novas. Por agora uma coisa é certa: os valores são já astronómicos.

E para além dos valores serem astronómicos, sem que as responsabilidades pelas derrapagens verificadas estejam apuradas, e na ausência de qualquer garantia de que não irão continuar no futuro, acumulam-se as dúvidas e as incertezas.

De todas, a maior será a que resultou da adjudicação à MTR Macau da prestação de serviços de assistência à operação e manutenção da linha da Taipa do sistema de Metro Ligeiro.

Tendo presentes os problemas que a MTR enfrenta em Hong Kong, onde surge envolvida em escândalos no valor de mais de HKD$97 mil milhões, relacionados com a ligação Sha Tin-Central, a que se somam os recentes problemas na estação de Austin, colocando em destaque a má qualidade do serviço que tem vindo a prestar, e em risco a abertura das passagens pedonais que efectuarão a ligação à estação de West Kowloon na data prevista para a inauguração (Setembro), a adjudicação da prestação de serviços do Metro Ligeiro por cerca de MOP$6 mil milhões, durante um período de 80 meses, não sendo um rumor sem consequências, não pode deixar de ser encarada com cepticismo.

Se em Hong Kong, com um nível de profissionalismo e eficiência da sua Administração Pública que deixa Macau a anos-luz, aconteceu o que se sabe, imagine-se o que por aqui poderá estar em perspectiva. O novo Terminal Marítimo da Taipa é um bom exemplo do que de mau se tem feito sem que se rectifique.

Como também é significativo o silêncio – resultado da falta de escrutínio adequado e de perguntas formuladas na AL aos principais responsáveis – que tem imperado sobre o dia em que o Centro Cultural de Macau voltará a ter a pala de que ficou amputado, até hoje, desde a passagem do tufão Hato, sem que haja perspectiva do dia em que acontecerá e do custo em que orçará a reposição do edifício no estado original sem o perigo de que no futuro voltem a cair elementos da estrutura (cujo projecto foi a seu tempo devidamente criticado, em termos técnicos, ainda no tempo do general, com as críticas a serem ignoradas e escondidas).

No caso do Metro Ligeiro e da operação da MTR espero que a fiscalização sobre a prestação de serviços desta empresa  seja devidamente acompanhada pela opinião pública, pelos deputados que não dependem da gamela governamental, mas em especial pelo Comissariado de Auditoria e pelo CCAC, a tempo e horas, para que não assistamos a uma, mais uma, reedição do sucedido no Terminal Marítimo da Taipa, no Centro Cultural e, de novo a semana passada, com as ruas adjacentes ao Porto Interior.

Isto é, que não se continue a meter tanta água e esta não custe cada vez mais aos contribuintes sem resultados que justifiquem o acréscimo de custo e sem que haja decisores políticos e técnicos, executantes e fiscalizadores a serem punidos pelo sofrível trabalho prestado à comunidade.

 

P.S. Sábado, dia 14 de Julho, pouco passava das 10 horas, quando na Estrada de Seac Pai Van uma tampa de esgoto se levantou do alcatrão, na via da esquerda, logo a seguir ao Hotel 13, ficando presa entre a carroçaria e a roda de um carro que ia a passar. A PSP estava no local. O estado a que chegaram as estradas da RAEM é de verdadeira calamidade, tais os buracos, ratoeiras e desníveis que apresentam. E não é preciso que chova muito. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 13.07.18

lei

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 (créditos: Macau Daily Times)

"Primeiro, uma instituição de ensino superior deve respeitar a lei. Mas, a primeira coisa e a mais importante é a liberdade académica. Não só tem de ser respeitada e mantida, como deve ser desenvolvida. Só com liberdade é que os professores conseguem pensar, criticar e criar. Toda gente fala de inovação e criatividade. Sem liberdade não há inovação ou criatividade, os estudantes não podem criticar livremente. É preciso criar com base na crítica. Aqui não deve haver limites. Por um lado, deve respeitar-se os docentes, por outro os alunos devem desafiá-los. Só assim se constrói uma geração melhor que a anterior." 

 

Não, desta vez não me refiro à lei enquanto proposição normativa, como preceito dotado de autoridade soberana. Estas linhas têm em mente não uma, mas um Lei. Trata-se do Professor Lei Heong Iok, Presidente do Instituto Politécnico de Macau (IPM).

Já sabia que ele se iria retirar no final deste ano lectivo por atingir a idade de reforma. E é claro que na plenitude das suas capacidades tinha todas as condições para continuar, desde que assim o desejasse, não fosse esta sanha que se tem imposto na RAEM contra todos aqueles que perfazem 65 anos estando ao serviço das instituições públicas. 

Acontece com o Prof. Lei como também se verifica em relação aos magistrados (o caso do Dr. João Gil de Oliveira é apenas mais um a somar a tantos outros) ou a qualquer outro servidor público; bem ao contrário do que se passa em Hong Kong. Ainda esta manhã, nem de propósito, depois de eu ter falado sobre o assunto na semana passada, a respeito da nomeação de duas juízas estrangeiras para o mais alto Tribunal da região vizinha, uma com 73 e a outra com 74 anos, o South China Morning Post anunciou que o Governo de Carrie Lam submeteu ao Conselho Legislativo, o parlamento local, uma proposta visando autorizar a continuação do exercício de funções até aos 70 anos por parte dos magistrados que atingem a idade de reforma. O objectivo, lê-se na notícia*, é a retenção no sistema judiciário de juízes experientes e a atracção de juristas experientes e de qualidade que trabalhem actualmente no sector privado. Como os próprios podem estender as suas comissões por vontade própria durante mais cinco anos, a alteração que se tem em vista permitirá que só se retirem aos 75 anos. As mudanças permitirão que Hong Kong fique em sintonia com "a maioria das jurisdições da common law".

Mas o pretexto destas linhas não é carpir pelo que a falta de bom senso torna inevitável entre nós, em claro prejuízo de Macau, das suas gentes e da imagem da República Popular da China.

Aqui viso tão só deixar uma palavra de profundo reconhecimento ao inestimável serviço que, ao longo de décadas, foi prestado pelo Prof. Lei Heong Iok. Não só ao IPM, à comunidade que esta escola serve, mas em especial à Língua Portuguesa como instrumento de aproximação entre povos e culturas, como ferramenta destinada ao diálogo, ao intercâmbio e à elevação dos padrões civilizacionais entre nações que há séculos se respeitam e procuram mutuamente conhecer e engrandecer através das respectivas línguas e do convívio entre as suas gentes.

Por detrás do sorriso generoso, do espírito tolerante e bondoso, da sua inesgotável afabilidade, simpatia e capacidade de trabalho está um homem cujo percurso fala por si em tudo quanto teve de amor à sua própria Pátria e à língua que tão bem e profundamente estudou, e incansavelmente divulgou sem conhecer fronteiras ou barreiras qualquer que fosse a sua natureza.

A entrevista que o Prof. Lei Heong Iok deu esta semana ao semanário Plataforma merece ser lida e guardada. Porque a postura do Prof. Lei Heong Iok foi sempre essa. O Prof. Lei não precisa de mendigar mais um aninho depois da reforma para amealhar mais uns patacos, nem uns subsídios para obras. O que afirma não é um rebate de consciência na hora da despedida.

Por tudo isso fico ainda mais grato ao Prof. Lei Heong Iok e espero que Portugal e os portugueses saibam agradecer-lhe o quanto fez por todos nós e pela língua de Camões, de Gil Vicente, de Eça e de Pessoa. Aprendendo, lendo, traduzindo, ensinando, divulgando com rigor. Sempre com um sorriso nos lábios e uma infinita paciência.

O Prof. Lei não foi meu professor. Se tivesse sido provavelmente estas palavras não teriam sido suficientes. Como nunca são para todos os que, como o Prof. Lei, levam a vida a ensinar os outros com toda a sua paixão e saber, acabando por sair de cena de forma tão discreta como a que sempre cultivaram quando entraram, quantas vezes sem o mínimo reconhecimento por tudo quanto fizeram por todos nós ao longo de uma vida de exigência. 

Que tenha uma reforma tranquila e reconfortante, junto aos seus netos. E, se possível, que nos escreva mais alguma coisa.

 

* – o texto da edição impressa é ligeiramente diferente

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 10.07.18

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(créditos: Kirsty Wigglesworth /Getty Images)

Há pouco mais de dois anos, num pequeno texto que aqui deixei chamei-lhe "the perfect English fool". Houve quem não gostasse do que então escrevi, mas no dia seguinte Lord Michael Heseltine, uma das mais sólidas referências do conservadorismo britânico, parlamentar desde 1966, figura de proa dos governos de Margaret Tatcher e John Major, acusava-o de ter dado origem à maior crise constitucional em tempos de paz que lhe fora dado assistir e de desbaratar as poupanças dos seus concidadãos.

Steph, com o seu traço genial, um ano depois, deu conta do modo como já via as consequências dos resultados eleitorais nas negociações para o Brexit.

Volvido este tempo, os eleitores do Partido Conservador, os ingleses e o mundo em geral assistem estupefactos à continuação do deprimente espectáculo burlesco de Boris Johnson tendo por referência o Brexit.

Na carta de demissão que remeteu a Theresa May, a cada vez mais descalça primeira-ministra britânica, o despenteado de Eton escreveu que "[w]e are now in the ludicrous position of asserting that we must accept huge amounts of precisely such EU law, without changing it an iota, because it is essential for our economic health – and when we no longer have the ability to influence these laws as they are made. In that respect we are truly headed for the status of colony – and many will struggle to see the economic or political advantages of that particular arrangement".

Com a saída de David Davis, primeiro, e agora de Boris Johnson, é possível perceber o atoleiro em que o Reino Unido se encontra e que os custos do Brexit estão a ser incomensuravelmente superiores aos que a irresponsabilidade de tipos como Johnson e Farage prometia aos eleitores.

Se Johnson antes quis substituir o motorista do táxi que não sabia inglês, e o levava para onde não queria ir, por alguém em quem confiava e que falava a sua língua, agora que o GPS deixou de funcionar e a condutora está completamente aos papéis, a solução que encontrou foi a de abrir a porta e saltar do táxi antes deste se despenhar pela primeira ribanceira que apareça na escorregadia e sinuosa estrada a que ele, navegador, o conduziu com as suas sempre brilhantes tiradas. Como antes já fizera quando surgiu a hipótese de liderar o Partido Conservador.

Não conheço expressão inglesa equivalente, mas na minha terra chama-se a isto "dar de frosques".

Que, por sinal, era o que normalmente fazia o palhaço que na minha infância vestia o fato de idiota no final daqueles números de circo a que assisti. Só que neste caso a tragédia é real. E há quem no final limpará as lágrimas e pagará a conta pelos disparates dele e dos amigos.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 20.06.18

lágrima

Hoje vi-lhe uma lágrima. Ao canto do olho. Nunca o tinha visto antes, por mais duros e difíceis que fossem os anos. Peguei num lenço e limpei-a.

Ela olhou para mim. Tentei perceber o que se passava; não consegui entender o que me dizia. Uma vez, duas, três. Desistiu. Dei-lhe um beijo, segurei-lhe a mão.  

Depois, fiquei assim. 

Tristeza é isto.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 06.06.18

vertigem

Há dias assim.

A sensação de caminhar sobre gelo fino é terrível. Uma espécie de roleta russa. Depois de se partir é preciso chegar à outra margem, mesmo que não se saiba muito bem como e ainda que a decisão de partida tenha sido involuntária nos termos em que aconteceu. Nervosa e precipitada.

A meio do percurso é impossível voltar. No meio do lago não há protecção. E quando uma pessoa assim se vê, o arrependimento de nada serve. Em especial se houver um sniper escondido numa das margens. 

Resta apenas uma certeza: a de que não se desiste, a que de que é preciso resistir, seguir em frente, confiando que esse momento será a tua irrepetível hora de sorte. Uma lição de vida.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 02.06.18

silêncio

Silêncio. Estou a precisar de paz e de silêncio. E de mais distância.

Não se pode viver tão intensamente. A intensidade mata, tira discernimento e acrescenta agudeza ao discurso sem necessidade.

Concluídas as mudanças, nos próximos tempos vai haver mais silêncio por aqui. E nos jornais. Um retiro espiritual temporário traz sempre mais lucidez. Está na hora.

Mas não se preocupem porque vou continuar de olhos bem abertos e a pensar no que me aflige. No que nos aflige.  

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 21.05.18

arnaut

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(28/1/1936 - 22/5/2018)

"Lembra-te que a toga não é um privilégio, é uma responsabilidade, porque te impõe o rigoroso cumprimento dos deveres deontológicos: despe-a se não te sentires advogado" (António Arnaut, Decálogo) 

 

Não passaram muitos minutos até que começassem a aparecer mil e uma lambisgóias, algumas de execrável carácter e ignorância, a encostarem-se à sua memória. É normal que assim seja quando um homem com a sua envergadura cívica, intelectual e política nos diz adeus. Não há quem não queira ficar na fotografia, ainda que da obra pouco mais conheça do que os títulos dos jornais.

Muitos recordá-lo-ão pelo seu combate pela democracia, muito antes da aurora redentora de Abril de 1974. Também pelo seu passado de co-fundador do PS, de militante socialista, de republicano e de laico, pela sua  obra maçónica e pela voz que não tremia perante a adversidade. Alguns haverá que falarão de coisas mais práticas como o seu trabalho na elaboração do diploma que criou o Serviço Nacional de Saúde, dos livros que escreveu, dos discursos que fez, enfim, de tudo aquilo que legou com a intervenção cívica pronta e corajosa em defesa daqueles que até mesmo pelo seu bocado de céu têm de lutar. 

Eu não irei recordá-lo por nada disso. Porque tudo isso é demasiado menor, terreno e vulgar. E cede perante a dimensão ética e moral do homem que não se cansava de se colocar no lugar dos outros para melhor se conhecer.

A mim, que me transmitiu tanta coisa sobre os advogados e a sua arte, que me deu a conhecer Santo Afonso Maria de Ligório, Ossorio Y Gallardo e outros mais, cujos ensinamentos diariamente recordo, que procurei transmitir com todo o rigor nas aulas que dei e aos meus próprios formandos, e cuja lição me inspirou há mais de três décadas um trabalho de fim de estágio, reterei na lembrança apenas duas palavras.

Duas palavras que dão sentido à vida, que me perseguem em cada dia, que constituem a expressão da inteireza de carácter, da probidade, do respeito de uma pessoa por si mesma e pelos outros.

Dele, mestre e senhor, só posso dizer duas palavras. Só se podem dizer duas palavras, que tudo o mais é exagero. Duas palavras é quanto basta. Duas palavras que representam uma condição única, só alcançável por muito poucos em cada geração. Duas palavras onde cabe tudo, o cidadão e a obra. Está lá tudo.

De António Arnaut só se pode dizer que foi um homem livre. Não há, nunca haverá, grandeza maior.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 19.05.18

incoerências

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Saint Yves, Patron des Avocats

de Jacob Jordaens (1593/1678), 

Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas

 

 

Em semana de advogados e em dia de celebração do seu patrono, São Ivo, voltou-se a falar de advocacia e de advogados. O Presidente da Associação dos Advogados de Macau deu a sua entrevista à TDM - Rádio Macau, e eu ouvi-o com a atenção, também com a contenção e o respeito devido ao número um da minha associação profissional.

Entre aquilo que é a lengalenga típica destes momentos e o que interessa aos advogados e à comunidade, registei alguns pontos. Uns mais interessantes do que outros, muitos a merecerem ulterior clarificação até porque transmitem uma imagem pouco consentânea com o seu discurso oficial.

Deixem-me desde já que diga que a necessidade que o Presidente da AAM ter de estar sempre a justificar a qualidade em que fala, isto é, quando se trata de opinião pessoal ou institucional, é cada vez mais desagradável tantos são os chapéus usados, mas faço-lhe a justiça de dizer que aprecio e reconheço o seu esforço em separar as águas, como voltou a fazer, o que sei não ser fácil aos olhos de todos e me obriga a defendê-lo perante terceiros quando o atacam por esse prisma.

No essencial compreendo as posições que defende, muitas são genuínas, algumas subscrevo na íntegra, como as suas preocupações quanto ao TUI ou ao caminho da "policialização controleira" da RAEM, ao arrepio do que está consagrado na Lei Básica e daquela que deve ser a correcta posição de princípio do Governo da RAEM em relação aos seus governados.

No entanto, tenho sérias dúvidas quanto ao que quis dizer relativamente a dois momentos cruciais do seu discurso.

Em primeiro lugar, deixou-me perplexo a mensagem que transmitiu de que muitos advogados não têm o perfil adequado do ponto de vista moral e deontológico para o exercício da profissão. Para mim não é nem nunca foi novidade. Há anos que o digo. A perplexidade vem do facto de ter sido o Presidente da AAM a dizê-lo.

Se há advogados que não têm o perfil adequado, pergunto eu, se estariam melhores como mediadores imobiliários ou a fazer negócios noutras áreas, a culpa é de quem? Não é a AAM que emite as cédulas que habilitam os candidatos à advocacia como profissionais? Não é a AAM que dirige os cursos? Não é a Direcção que escolhe os formadores, que aprova os programas e as matérias e que supervisiona os exames? Que instruções são transmitidas aos formadores e examinadores? Será que alguns deles têm perfil adequado para a função? E se os candidatos não têm perfil porque continuam a dar-lhes classificações positivas em deontologia e a entregar-lhes cédulas? Porque há quem possa legalmente advogar sem nunca ter prestado provas de deontologia? 

Depois, o Presidente da AAM também se esqueceu de referir que muitos dos maus exemplos vêm de trás (aliás, vêm nos jornais, são públicos, constam de anúncios diariamente publicados, estão em páginas de escritórios na Internet), diria mesmo de muito atrás — a propósito, quantos anos/mandatos leva o Dr. Neto Valente à frente da AAM? — e não me parece, como nunca me pareceu, desde há mais de vinte cinco anos, que enterrar a cabeça na areia ou ser selectivo na aplicação da disciplina deontológica fosse a melhor política para não prejudicar alguns centros de poder da advocacia local ou da sua própria base de apoio.

É difícil não querer que os advogados sejam comerciantes e transmitir uma imagem de seriedade e profissionalismo, só para dar um exemplo, quando se aprovam e se permitem denominações de escritórios que recorrem a símbolos típicos de sociedades comerciais e se anunciam publicamente escritórios como tendo estruturas societárias que legalmente não existem. É discutível? Certamente será, e muitos há que sei que não concordam comigo, embora não mo digam directamente. Se coisas tão simples como estas não forem discutidas vai continuar a ser assim. E pior, em cada dia que passar, como desde o início antevi e se tem vindo a confirmar com o funcionamento de sociedades de facto.

A grandeza moral da advocacia, a idoneidade dos seus membros, o carácter de um advogado, a vocação para o exercício da profissão também se vêem na forma como se verifica o erro, como se faz, ou não se faz, um mea culpa, se analisa o erro e se corrige. Nisto é que está a essência da nossa profissão e é isso que nos distingue, ou devia distinguir, dos flibusteiros da advocacia.

Outro ponto em que tenho grande dificuldade em alcançar o argumento é em relação à magna questão dos terrenos e das declarações de caducidade.

Tenho há muito uma posição distante da defendida pelo Presidente da AAM e de muitos outros dos meus colegas e amigos, apesar de até compreender as suas teses. Porém, onde eu não alcanço de todo é no ponto em que, aqui, o senhor advogado da Nam Van e presidente do seu Conselho de Administração se queixa das decisões políticas e jurídicas do Governo da RAEM, alegando que os prejudicados (seus clientes) constituem a sua "base de sustentação política", que têm sido o seu apoio e da China e "cuja lealdade não pode ser posta em causa".

Que diabo, isto é argumento? Se calhar essas pessoas nunca deviam ter sido a tal "base de sustentação política" do Governo da RAEM. Isto está errado desde o princípio. Mas se não estivesse talvez muitos dos seus clientes não fossem tão ricos. E por isso é que Macau está como está em matéria de Saúde, Transporte, Ambiente ou Justiça, em que todos se queixam: queixam-se os advogados, queixam-se os polícias, queixa-se o Ministério Público, queixam-se os senhores juízes, queixam-se os funcionários judiciais...; só não se queixam os vendedores de papel e de fotocopiadoras e os senhorios.

E, então, a governação não deve ser feita de acordo com princípios de respeito pelo rule of law, de tolerância, de respeito pela igualdade, mesmo tratando desigualmente situações que o merecem (no que estou de acordo com o senhor advogado da Nam Van), de equilíbrio e tendo em atenção as necessidades da comunidade e da RAEM? A que propósito é que a RAEM tem de agradar à base de apoio do Chefe do Executivo, aos "patriotas do capital" que o têm apoiado, também ao anterior, apenas porque têm crescido e enriquecido à sombra das suas políticas desigualitárias, profundamente anti-sociais e onde tem medrado a corrupção, o abuso, o compadrio, como se comprova pelo facto de estarem na prisão — dentro e fora de Macau — alguns dos seus mais altos dirigentes, empresários e amigos (ou ex-amigos)? Será que eu ouvi bem o que disse o senhor advogado da Nam Van? Ou estarei equivocado?

"Pobreza não é socialismo" e "to get rich is glorious" (致富光荣, zhìfù guāngróng), como terá ensinado Deng Xiao Ping, mas esse objectivo legítimo para muitos não deveria ser prosseguido dentro da lei, de forma clara e transparente, para que todos compreendam o que está a acontecer, sem confundir as pessoas com subterfúgios e negociatas quase de "vão de escada", como foram muitas no tempo da administração portuguesa, enquanto se fomenta a especulação imobiliária à sombra da lei? 

Se há quem tivesse sido enganado com a alteração da Lei de Terras que conduziu à actual situação só tem de se queixar de si mesmo por não se ter rodeado das adequadas garantias antes de votá-la. À partida, penso eu, quem vota favoravelmente uma lei não o faz (não devia fazer) sob reserva ou jogando com a simulação da imagem só para inglês ver. Bem sei que sempre foi assim ainda que isto não fosse garantia de coisa alguma.

E, já agora, que peso e credibilidade pode ter uma "base de sustentação política" que não vai a votos, que não é sufragada eleitoralmente pelos governados, que não resolve os seus problemas, antes os agravando diariamente pela sua passividade e incompetência, como o Presidente da AAM facilmente reconhecerá, que se tem dedicado há longos anos a enganar a comunidade, e agora a quer enfiar num ghetto policial e securitário, em total desrespeito pelas suas garantias constitucionais, transformando-nos a todos em potenciais criminosos, cujas conversas telefónicas podem e devem ser escutadas, com a sua privacidade devassada por qualquer funcionário cuja idoneidade não é por nós conhecida e escrutinada, e sem a fiscalização de um poder judicial sério e independente do poder político?

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 18.05.18

exemplos

Em Portugal, mas não só, também em Itália, na Grécia, em Inglaterra, em França, na Turquia, na Argentina, no Brasil e em Espanha, pelo menos nestes e um pouco por todo o mundo, o futebol tem-nos dado exemplos vastos de irracionalidade, de bandidagem de graúdos e de meninos e de muitas cenas vergonhosas. Tudo coisas que têm muito pouco a ver com o futebol, desporto que é também património de gente séria e civilizada.

Enquanto tudo isso vai acontecendo dentro do futebol, isto é, das quatro linhas e dos clubes desportivos, apesar de muitos beneficiarem de recursos do Estado e de benefícios a que os particulares não têm acesso; e prolifera nas colunas dos jornais e com os miseráveis debates pagos das televisões públicas e privadas, onde se incita ao ódio, à canalhice e à violência, a gente não gosta, muda de canal, não lê, mas vai aguentando.

Porém, há um ponto em que a complacência termina e é de exigir aos órgãos de polícia criminal e aos tribunais uma actuação rigorosa sob pena das consequências serem irreversíveis. E isto acontece quando estão a ser contaminados valores essenciais do Estado de Direito, comprometidos princípios estruturantes da formação da personalidade de qualquer jovem, e os maus exemplos são reproduzidos e espalhados aos quatro ventos à velocidade da luz, sem qualquer pudor ou reserva pelos protagonistas, apenas por egoísmo pessoal, avidez ou meras razões contabilísticas próprias de aldrabões e de dirigentes (políticos, gestores, banqueiros, simples ladrões) como alguns daqueles que temos a contas com a justiça. Aqui importa atalhar. 

Quando perante matérias que constituem crime público ainda há quem se permita dizer que se não obtiver (fora dos tribunais, entenda-se) o que pretende, então irá entregar as provas que diz ter (comprovativas do crime) às autoridades, este é um sinal de que quem o afirma já devia ter sido constituído arguido.

Um tipo decente e responsável não pode fazer depender de um "acordo com a actual direcção dos “leões” para rescindir o seu contrato" a entrega das provas do crime. Porque não é este o comportamento que a sociedade espera de um homem sério, de um condutor de jogadores profissionais de futebol, de alguém cuja actuação serve de exemplo a muitas crianças e jovens.

Se são esses os seus valores, se essa é a actuação que entende dever prosseguir perante a gravidade do que aconteceu, perante crimes públicos, então o clube, enquanto instituição honrada e que se quer dar ao respeito, só tem um caminho perante tais declarações: recusar qualquer acordo com o treinador enquanto este não entregar as provas que diz ter às autoridades judiciárias. E se no final aquele não tiver nada, e tudo não passar de conversa de imbecil, nem por isso deverá deixar de ser censurado.

Não se pode beneficiar de perdões fiscais, que a todos custam, e ao mesmo tempo aceitar acordos com a chantagem e com a bandalheira. Não se pode continuar a contemporizar e a proteger a bandidagem das claques, oficiais ou encobertas, e a falta de carácter.

O desprezo pelos valores da justiça não pode ser tolerado. E o combate ao crime não pode ficar dependente da emissão de cheques, qualquer que seja o seu valor, nem ser premiado num Estado de Direito, numa instituição que se dê ao respeito ou entre gente que se reclama de bem. Porque quando tal acontece é-se governado por ratos e ratazanas, está-se sujeito a ser invadido por baratas e vive-se no esgoto.

Estou farto de dizê-lo. Continuarei a insistir. Onde quer que esteja.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 14.05.18

doutrinação

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No primeiro fim-de-semana de Maio, correspondendo a um convite do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM, um grupo de advogados de Macau deslocou-se às cidades de Dongguan e Huizhou. A ocasião foi aproveitada para pequenos encontros com as organizações congéneres e visitas a uma das muitas empresas tecnológicas da "Grande Baía Guangdong/Hong Kong/Macau" e alguns locais de interesse histórico e turístico, completados com momentos de confraternização e convívio entre quem em regra não se encontra regularmente devido aos afazeres quotidianos.

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O Gabinete de Ligação tem aproveitado estes encontros para fazer passar as suas mensagens, "politicamente correctas", aproveitando para melhor conhecer os advogados locais e dar-lhes a oportunidade de se inteirarem de outras realidades da China que lhes são pouco acessíveis. Na linha, aliás, daquela que tem vindo a ser uma chamada de atenção recorrente nos últimos tempos por estas paragens, assim aproveitando a deslocação para levar os convidados, na sua maioria cidadãos chineses jovens, a locais de interesse histórico, dessa forma também sublinhando a necessidade de alargar-lhes o conhecimento da história contemporânea da R.P. da China e dos seus protagonistas como forma de aprofundarem o "amor pela pátria".

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O programa delineado permitiu, igualmente, a quem não tem necessidade, ou dispensa, tais aprofundamentos patrióticos, a oportunidade de visitar locais que não são facilmente acessíveis em jornadas independentes, permitindo ao mesmo tempo acompanhar o desenvolvimento da paisagem urbana, da sua rede de transportes e estradas e das mudanças que a um ritmo impressionante vão ocorrendo. Aquilo que há pouco mais de duas dezenas de anos eram espaços rurais, distantes dos novos mundos tecnológicos e digitais, são hoje cidades modernas, com largas e extensas avenidas, espaços verdes e veículos modernos e muito menos poluentes do que aqueles que constituíam a generalidade dos moventes motorizados. As próprias fábricas são actualmente espaços modernos, organizados e limpos, sem cheiros, robotizados e com tudo o que há de mais avançado, com uma arquitectura agradável à vista e em bairros arborizados. Em Dongguan é produzido um em cada seis dos telemóveis vendidos no mundo. Na fábrica onde estivemos, a Janus Intelligent Group Corporation Limited, empresa cotada na Bolsa de Shenzhen que tem parceiros como a Siemens, a Mitsubishi e a Huawei, há apenas 31 trabalhadores, mas no ano passado obteve, de acordo com os números fornecidos, lucros da ordem dos 600 milhões de yuan.    

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Dongguan é uma cidade com cerca de sete milhões de habitantes, dos quais mais de cinco milhões vieram de outras áreas do interior do país, como aliás aconteceu com muitas outras das novas cidades que se tornaram em portas de ligação ao exterior e focos de captação de investimento estrangeiro, o que explica que seja cada vez maior a predominância do Mandarim na comunicação do dia-a-dia. Com uma moderna rede de metro, subterrânea e de superfície, a cidade apresenta-se bem organizada, com muitos centros comerciais e lojas de cadeias internacionais, com bairros e condomínios esteticamente arrojados que vão substituindo as velhas construções que marcaram toda a segunda metade do século XX, inúmeros restaurantes e zonas de diversão nocturna, exibindo um parque automóvel digno de qualquer cidade europeia economicamente desenvolvida. Até em Huizhou, que é bastante mais pequena do que Dongguan, e onde ficámos a dormir num moderno, confortável e luxuoso hotel, mesmo para os padrões internacionais e pese embora o manifesto mau gosto – os interiores eram uma espécie de Palácio de Versalhes moderno –, foi possível aperceber-me da velocidade do desenvolvimento, da riqueza gerada e da presença de muitos profissionais ocidentais expatriados. A vasta rede de estradas e auto-estradas construída nas últimas duas décadas, e o desenvolvimento ferroviário, com milhares de quilómetros de alta velocidade, permite que viagens de 200 ou 300 km, que antes levavam dias inteiros por estradas poeirentas e esburacadas, se façam agora em não mais do que duas ou três horas, ganho especialmente importante quando as distâncias são muitas vezes proporcionais à dimensão do país e ao número dos seus habitantes. 

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Todavia, também continuam bem presentes os sinais do persistente atraso cultural – continua a haver muito lixo mal acondicionado e largado nas ruas, para além de maus cheiros, nas ruas e vielas menos frequentadas. Pelo que me apercebi, o desenvolvimento irá prosseguir sem grande abertura e sujeito a muito controlo: a censura continua presente sendo impossível aceder a alguns sites de notícias ou a aplicações do tipo "Facebook" ou "WhatsApp", desactivadas assim que cruzamos a fronteira. Uma outra mudança de que dei conta foi com o aumento do controlo fronteiriço em Gongbei. No mês passado, por duas vezes, tive necessidade de me deslocar ao outro lado. Desta vez comprovei a introdução de novas máquinas para recolha de dados biométricos logo no momento de exibição do passaporte no posto fronteiriço. A comunicação em inglês continua a ser difícil quando não praticamente impossível. No restaurante de um dos hotéis, de cuja ementa só estavam disponíveis um quinto dos pratos oferecidos, a comunicação fez-se com o auxílio de um tradutor de bolso do pessoal. Gente, diga-se de passagem, simpática e que queria a todo o custo ser prestável e atenciosa embora sem saber muito bem como. 

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Tendo viajado a convite de uma entidade oficial e integrado numa delegação, não podia, obviamente, gozar da liberdade de movimentos a que estou normalmente habituado, sujeitando-me a percursos e, em especial, a horários de refeições que estão a anos-luz daqueles que pratico. Isso não impediu, contudo, a sempre salutar troca de impressões entre quem convidou e os convidados. 

Sem um esforço de compreensão do outro, ainda que muito discordemos das suas ideias, preconceitos, crenças ou imposições superiores não é possível dialogar, esperar que nos ouçam ou que sejam sensíveis a outras visões e culturas. Mas este é o único caminho para se poder avançar no entendimento mútuo, diminuir distâncias e construir pontes que se possam revelar mutuamente úteis.

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A campanha do Presidente Xi Jinping, em matéria de asseio e higiene das casas de banho, continua muito distante dos objectivos, sendo notória a falta de sabonetes, líquidos ou sólidos, de papel higiénico, toalhetes ou secadores de mãos em muitos locais de passagem de forasteiros.

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A iniciativa do Gabinete de Ligação incluiu ainda uma jornada de "doutrinação patriótica". No âmbito desta teve lugar uma visita ao Forte de Weyuan, no estreito de Humen, no Rio das Pérolas, que foi uma defesa costeira construída em 1835, utilizada durante as Guerras do Ópio e que apesar de estar em ruínas merece uma visita aos seus canhões, bem como ao Parque Memorial e à casa do general Ye Ting (Huyiang, 1896/Shanxi, 1946), herói nacional de origens camponesas que se formou na Academia Militar de Baoding, membro do PCC a partir de 1924, figura chave no levantamento de Nanjing, em 1927, e comandante do 4.º Exército na Guerra Sino-Japonesa, o que o guindou a herói nacional.

A viagem terminou com uma visita ao Museu e à Montanha de Luofu, uma das montanhas sagradas do Taoísmo. A subida, realizada em teleféricos para duas pessoas e com condições de segurança rudimentares, dura 21 minutos e vai quase até ao cimo da elevação (o resto do percurso é feito a pé). As vistas que do topo se alcançam são soberbas, estando o local cheio de pássaros e coberto por uma densa e luxuriante vegetação que valem bem o esforço e o custo.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 10.05.18

dimensão

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(Tiziano, 1549) 

A tragédia é tão profundamente absurda e dolorosa que quando ocorre torna totalmente irrelevante a dimensão da catástrofe. Só o tempo, desgraçadamente, conta até ao final.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 04.05.18

ho

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Já conheci vários Ho. Uns mais inteligentes do que outros. E um outro com o mesmo apelido não era da família. Todos uns senhores. Mas este tal de Kevin não sei de onde saiu, nem o que anda a tomar, mas que é bom é de certeza. 

Para já não está nada mal como "presidente da Associação de Estudo de Economia Política". Um tipo que diz que "em Macau não há especulação imobiliária"; que "não vejo Macau como sendo muito caro"; que "as pessoas podem não conseguir comprar casas mas isso não quer dizer que seja caro", e que "mesmo sem lei, se um trabalhador sofre porque é mal tratado pelo seu empregador, pode arranjar outro emprego facilmente noutro lado" (aqui nota-se no discurso a preocupação em que esse trabalhador deixe o lugar para que outros possam continuar a ser maltratados por esse empregador, o que é altamente louvável) só pode ser um talento local. Dos melhores. 

Apartamentos com 1000 (mil) metros quadrados por cinco ou seis milhões de patacas? Eu compro meia dúzia se ele me disser onde estão. Um casal na casa dos trinta anos "com um trabalho decente" em que cada um ganha 30 a 40 mil patacas? Qual é a média salarial da RAEM? Quantos têm um "trabalho decente" por esse valor? Nas empresas dele? No Banco Tai Fung? A vender câmaras de vídeo e aparelhos de escuta?    

A entrevista que deu ao HojeMacau é notável. Merece ser lida e relida, constituindo uma verdadeira pérola a imagem que deu da necessidade de até mesmo quem investe numa lavandaria ter de olhar para o mercado do jogo. Mais apropriado não há. Um génio a quem o Governo da RPC deverá atribuir rapidamente a Ordem da República.

Dou-lhe os parabéns pela coragem. Já se nota o efeito da sua nova parceria com os sócios portugueses. Gente que também não tem problemas com a habitação, nem com as leis laborais de Macau. E faço votos sinceros de que o número de talentos que o irá ouvir seja pelo menos suficiente para encher uma cabine telefónica. Das antigas. Do tempo em que Macau precisava de boas leis para proteger os trabalhadores e havia especulação imobiliária. Agora isto é um oásis. E não é por causa dos charutos e do whisky. Bem haja.

 

P.S. Só agora reparei, por este pequeno trecho que a seguir transcrevo, que existe total sintonia em matéria laboral entre o que Kevin Ho disse na entrevista ao HojeMacau e o jornal Plataforma: "É certo que, ao longo dos últimos 10 anos, as políticas sociais do governo foram sendo reforçadas com um aumento das verbas para os mais variados subsídios. É também um facto que o crescimento  económico ‘estratosférico’ tem assegurado uma constante criação de emprego, que coloca a taxa de desemprego local nuns invejáveis 1,9 por cento. Todavia, o menor grau de conflitualidade social, os resultados alcançados e as medidas tomadas não escondem aspectos estruturais ao nível das relações laborais e desigualdades, que devem ser realçados e para os quais são precisas respostas."  

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 30.04.18

prioridades

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Desconheço se, para além da candente questão do reforço da segurança interna da Pátria, todos os Secretários do Governo da RAEM e demais altos dirigentes que os acompanharam à acção de formação que teve lugar em Pequim, no decurso da semana finda, foram alertados para os problemas de saúde pública de Macau.

Como não sei se isso aconteceu, à cautela, deixo aqui, de novo, mais um reparo e uma chamada de atenção para a situação da cidade e o que se passa no NAPE, mesmo nas barbas do Ministério Público.

Desta vez, como se pode verificar pela foto de cima, consegui apanhar a lixeira aberta, o que normalmente acontece todos os dias em períodos regulares.

Mesmo ao lado dos Serviços do Ministério Público existe uma lixeira disfarçada, mas facilmente verificável por qualquer pessoa, criada num espaço que, penso eu, devia ser uma área destinada ao comércio ou que constitui zona comum de um edifício em propriedade horizontal.

Também não tenho informação que me permita saber se as escadas interiores dessa espelunca dão acesso a algum restaurante. Estou convencido de que sim, tantas são as caixas de alimentos e o lixo que ali é diariamente depositado. O espaço, pelo cheiro que dali vem, nunca deve ter sido lavado desde que existe. Como aliás deve acontecer com quase todos os passeios e locais de depósito de lixos do NAPE, que são fonte de reprodução de baratas, rataria e seres vivos similares, os quais não são particularmente reconhecidos pelo seu contributo para a higiene e bem-estar dos humanos.

Eu também sei que o IACM anda mais preocupado em "enjaular" os espaços verdes de Coloane, fazendo obras horríveis e que não servem rigorosamente para nada na Estrada do Alto de Coloane, e que, aliás, nunca fizeram falta, assim dando dinheiro a ganhar aos vendedores de tintas, ferro e cimento, do que em conduzir uma verdadeira operação de limpeza urbana, que resgate a cidade ao lixo, aos maus cheiros, às gorduras que nos fazem escorregar nos passeios imundos, e a toda a bicharada que acima referi. 

Admira-me que o Ministério Público consiga conviver lado a lado com esta inqualificável nojeira, e outras na mesma zona. Mas, apesar disso, volto a insistir para que se faça alguma coisa. Talvez a associação cívica do deputado Sulu Sou queira convidar os deputados da AL a visitarem o espaço que a foto ilustra.

Porque é uma vergonha que uma cidade que se quer internacional e de turismo continue a manter níveis de higiene típicos dos países mais pobres dos mais pobres do Terceiro Mundo.

O que se passa no NAPE é um escândalo e todos os responsáveis pela saúde e higiene públicas da RAEM deviam pedir desculpas à população.

Quanto a quem tutela o IACM já nem digo nada. Nem espero alguma coisa. Talvez o estado a que isto chegou também explique a razão para que tenham afastado eleições directas para um órgão autárquico. Assim, da maneira que isto está, e que como é previsível assim irá continuar, ninguém responde por esta e outras "nojeiras". Até quando?*

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 * - Desde já esclareço os poderes públicos da RAEM, bem como o senhor Presidente do IACM, de que estou disponível para lhes fazer uma visita guiada, fora das minhas horas de trabalho, pelos locais da cidade, e não apenas do NAPE, que são a vergonha de todos os cidadãos que querem bem a Macau. Para ver se eles percebem a gravidade do problema. E, já agora, até onde chega a incompetência (mas não me perguntem de quem para eu poupar alguns deles à vergonha).

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 28.04.18

nasceu

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O parto correu sem incidentes e ontem começou a chegar a casa dos leitores. A edição do livro do Delito de Opinião, do qual sou co-autor, entrou em distribuição. Quem o encomendou antecipadamente irá recebê-lo nos próximos dias.

Disse-nos o Pedro Correia que a edição ficou belíssima e que valeu a pena esperar. Para ele e para a nossa Ana Vidal, que tanto se esforçaram para que a obra conhecesse a luz do dia, deixo aqui o meu obrigado, com um abraço para ambos e um beijo para a Ana. Aos demais autores, amigos e companheiros de blogue, vão os meus parabéns. 

A apresentação terá lugar no dia 10 de Maio, pelas 18:30, na livraria Almedina, no Atrium Saldanha, em Lisboa. Eu não poderei lá estar, com muita pena minha, mas os outros autores estarão à vossa disposição para autografarem os vossos exemplares.

Quanto às despesas da conversa, dir-vos-ei que ficarão a cargo do Tiago Salazar, que apresentará o livro, do Embaixador Francisco Seixas da Costa e do Ferreira Fernandes, autores dos prefácios, e do João Taborda da Gama, que escreveu o posfácio.

Estão, desde já, todos convidados. E boas leituras.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 19.04.18

laus (5)

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Como tinha planeado regressar a Luang Prabang, deixei vários locais de interesse histórico e cultural para visitar na viagem de volta. Arrumada a pequena maleta e a mochila que nestas ocasiões me segue, pedi para nos arranjarem um transporte para nos levasse ao aeroporto. Estava fora de questão rumar à capital por estrada. Solícito, o rapaz da recepção deu-me conta de que a partir da terceira noite o transporte é gratuito, o que se torna sempre agradável de ouvir apesar de me deixar com a consciência a pensar que será necessário reforçar as gorjetas na hora da partida. Num país em que o salário mínimo deverá ser aumentado em 1 de Maio p.f., para 1.100.000 kips, o equivalente a mais ou menos USD 132, ou seja, € 105,00, apesar de na capital os salários serem em média o dobro, pode-se imaginar a satisfação de quem vê alguns milhares de kips ou meia dúzia de dólares entrarem na caixinha para serem distribuídos no Ano Novo.

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A Lao Airlines tem vários voos diários entre as principais cidades. A empresa foi fundada em 1976, em resultado da fusão da Royal Air Lao e da Lao Air Lines, operando a partir de 1979 como Lao Aviation. Os obsoletos aviões chineses e os russos e assustadores Antonov AN-24 foram entretanto substituídos pelos ATR 42. Actualmente, a Lao Airlines utiliza os ATR-72, dos quais tem 7 aviões, e 4 Airbus A320-214. Foi num destes que fiz dois voos, serenos, não obstante dispensar as alturas.

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Um amigo que esteve algumas vezes no país tinha-me dado o contacto de um colega de profissão que me poderia ser útil e que acabaria por me transmitir algumas indicações sobre restaurantes em Vienciana. Quando há um ano e pouco estive em Phnom Phen tinham-me dito que a cidade tinha pouco interesse, o que se revelaria errado. Daí que, desta vez, depois de consultar algumas fontes tivesse decidido alargar a minha estadia em Vienciana. Um dia parecia-me pouco, dois dias poderiam chegar, mas como não me apetecia andar a correr, a solução de ficar três dias completos na cidade começou a fazer sentido.

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A cidade foi construída nos bancos do Mekong. O rio faz a fronteira com a Tailândia. Fez parte do império Khmer, no século X. Com a queda de Angkor passou por diversas fases submetida ao controlo de vietnamitas, birmaneses e tailandeses, depois tornou-se na capital de Lang Xang. Entretanto, assistiu a vários conflitos até à instalação dos franceses, a partir de 1867. A guerra civil e os golpes de estado da década de 60 do século passado colocaram o país no mapa dos conflitos da Guerra Fria, e Vienciana encheu-se de espiões, mercenários, correspondentes estrangeiros e bares. A deposição da monarquia trouxe consigo a limpeza dos lupanares e a instalação do regime comunista.

Hoje em dia faz-se sentir em larga escala a influência chinesa, em particular na construção civil e na renovação da rede viária. Os traços da presença francesa continuam a ser inúmeros. Nos edifícios oficiais, nas casas privadas que sobreviveram à destruição das guerras, na gastronomia e nas placas dos edifícios públicos está sempre presente.

Ia com a ideia de fazer uma visita ao Museu Nacional, que tinha indicação de estar num edifício colonial e rodeado de magnólias. Apesar de me terem dito que seria uma espécie de museu da revolução fiquei com curiosidade, não satisfeita em virtude de ter mudado de instalações e das novas ainda estarem encerradas.

Em matéria de edifícios oficiais e monumentos públicos continua a ser manifesto o desleixo e desinteresse de quem lá está a vender bilhetes, aliás típico de sociedades em que é predominante o dirigismo “controleiro” de Estado. Até no famoso Arco do Triunfo, os objectos à venda, que dir-se-ia saídos da revolução chinesa de 1949 ou da antiga RDA, a imagem dos funcionários sonolentos dormitando sobre as bancadas de produtos típicos da região, não manifestando qualquer incómodo pela presença de turistas e viajantes e sem manifestarem interesse na promoção e venda dos muitos produtos, são reveladores da paragem no tempo. Reparei, inclusivamente, por mero acaso, no caminho entre o Palácio Presidencial e o referido monumento, ex-libris da cidade, que havia um centro comercial a fazer-me lembrar as lojas do povo e armazéns populares que encontrei na China quando aí estive pela primeira vez há mais de 30 anos e onde raramente conseguia comprar alguma coisa que não fosse fancaria.

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Porém, este estado de coisas convive aparentemente bem com os muitos automóveis das gamas média e alta da Lexus, Toyota, Mazda, BMW, Mercedes e Porsche. Houve mesmo um Rolls Royce de vidros fumados que vi circular por Vienciana, fazendo-me lembrar o que também encontrei há tempos no Camboja. Por comparação com o Vietname, que é o maior e mais poderoso país da região que foi colonizado pelos franceses, há mais excessos e diferenças mais chocantes no Laos e no Camboja, até porque estes países são mais pequenos, mais pobres e estão mais atrasados (pelos nossos padrões).

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Algumas alamedas largas ao estilo francês, uma mão cheia de bons restaurantes, por vezes com preços disparatadamente elevados para o nível de vida local, como os recomendados L´Adresse de Tinay ou o Pimentón, este com óptima carne argentina, excelentes tapas e bom vinho, mas a preços superiores aos de Lisboa ou de steakhouses de Banguecoque, e não obstante cheio de expatriados e visitantes coreanos, japoneses, na maioria mulheres jovens e casais de namorados, e singapurenses, conferem à cidade um ambiente ao mesmo tempo de um cosmopolitismo estranho e acolhedor.

O meu contacto local acabou por não se despachar a tempo de jantar connosco e muita coisa ficou por esclarecer. Fiquei com a impressão de que há muito investimento estrangeiro a chegar. Da Europa e também da América do Sul, que discute a primazia com chineses, franceses, canadianos e empresários de outros países da região, em especial vietnamitas. No sector bancário e nos anúncios de algumas sociedades isso é evidente. O jogo poderá ter alguma influência nisto mas aquela mistura de sósias de Donald Trump com calças aos quadrados, vendedores de torneiras alemãs de primeira linha, tipos com ar de “agentes semi-secretos” franceses e encarregados de obras de bigode farfalhudo do Leste europeu, acompanhados de tailandesas e laocianas minúsculas em restaurantes franceses, fez-me recuar algumas décadas e a momentos vividos há muitos anos em Manila ou Saigão (Ho Chi Min).

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O Wat Si Muang, o Patuxai (Arco do Triunfo) e Pha Tat Luang, o mais importante símbolo do Budismo e da soberania laociana, bem como o That Dam, situado muito próximo da antiga Embaixada dos EUA e cujo ouro da cúpula terá sido pilhado pelos siameses no início do século XIX, ou, ainda, o Buddha Park, mas este com algumas reservas devido aos pouco mais de 30km do centro da cidade e ao facto de ser de construção recente, valem uma visita.

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Os templos mais importantes foram reconstruídos com a ajuda externa; outros são de construção nova e de gosto duvidoso, por isso também com pouca história, interesse cultural praticamente nulo e a que se vai por mera curiosidade. O Night Market, junto ao rio, local onde ao final da tarde muitos se juntam para tomarem uma cerveja, namorarem, observarem o pôr-do-sol ou animadas sessões de ginástica, acompanhadas por uma música de dança estridente, é bastante concorrido. Aí é possível comprar quase tudo o que se imagina. De artesanato local, tecidos e panos típicos de algodão e seda de excelente qualidade, a calças “Elvis Strass” e mochilas “Ferari”, bolos ou material informático, há de tudo. Ultimamente surgiram alguns cafés com design inovador e wifi, bom café, pão de muito boa qualidade, belísimos croissants, doçaria francesa e saborosos gelados. O mais conhecido destes todos todos talvez seja o Joma Bakery Café, popular entre os jovens e residentes estrangeiros e que o meu colega laociano desde logo me recomendou.

O regresso a Luang Prabang permitiu-me, aproveitando o tempo soalheiro, descansar mais alguns dias, passear despreocupadamente pelas suas ruas e becos, visitar pequenas indústrias de artesanto local e passear cedinho pelos templos mais antigos. A cerimónia do Tak Bat, ou Alms Giving Cerimony, que também acontece na Tailândia e noutros países da região, em que os monges caminham pelas ruas e vão recebendo as oferendas dos fiéis e transeuntes, tornou-se obrigatória nos roteiros turísticos e tem lugar por volta das 6h. Apesar dos muitos avisos, há quem continue a não perceber a necessidade de respeito pelo ritual, por esse e outros, confundindo-o com uma vulgar exibição para turistas a quem tudo é permitido numa terra de “cafres”.

Volvidos estes dias, preparando-me para regressar, ao fechar a porta do quarto que nos foi destinado na última noite, com o nome de Paul Néis, o médico da Escola de Medicina Naval de Brest que explorou a Indochina e ajudou a delimitar as fronteiras sino-vietnamitas, recebendo a medalha de ouro da Sociedade de Geografia de Paris e a Legião de Honra, não pude deixar de me sentir imensamente grato pelo que estes dias me proporcionaram. E de recordar aquela frase de Mark Twain que Theroux reproduziu (A Arte da Viagem), e que desde há anos, de tão verdadeira, me vem tantas vezes à cabeça: “a viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito (...). Visões largas, sadias e benevolentes de homens e coisas não se podem adquirir vegetando toda a vida num cantinho da Terra”.

Bendito Laos. Que os deuses e os homens o protejam.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 18.04.18

laus (4)

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Num mundo em que a maior parte de nós vive em urbes descomunais, com o ar altamente poluído, rodeados por gente ruidosa, com pouca paciência e afligida por imensos problemas, uma das poucas escapatórias para alguns momentos de paz e sossego é o contacto com a natureza. A realização de passeios em grandes espaços, respirando um ar tão puro quanto possível, observando a vida de outros seres que connosco partilham este espaço ínfimo do Universo sem interferir no seu quotidiano e respeitando o seu espaço acaba por ser uma actividade profundamente recompensadora e até certo ponto económica pelo relativo baixo custo face aos benefícios proporcionados.

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Creio que a maioria das pessoas que viaja pelo Laos, para além de dedicar atenção à cultura local, à visita de monumentos, alguns (poucos e pobres) museus, e aos múltiplos templos, vai em busca da paz e do silêncio que as montanhas e os seus rios proporcionam. Há, também, quem se dedique a passeios em veículos todo-o-terreno, de jipe, de mota e de bicicleta, também de elefante, que é uma outra espécie de 4x4 e com os quais há quem organize as coisas de maneira a que se tome banho com os paquidermes, ou de caiaque. Mas mas para mim os melhores momentos, em qualquer local, acabam por ser os vividos por cima ou debaixo de água e em longas caminhadas a pé, embrenhado no meio do verde e desfrutando de vistas magníficas, com tempo para parar, sentir que mergulho os meus olhos e todo o meu corpo nessa, por vezes, pacífica e silenciosa imensidão de espaços feitos de dias que de longos se fazem curtos e de onde saímos sempre com saudade e com a esperança de que se repetirão em breve.

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Não podendo ir a Vang Vieng e Savannakhet ou à procura dos tigres no Parque Nacional de Nam Et-Phou, um espaço de 420.000 hectares onde é possível ver os últimos exemplares da espécie, cingi-me a algumas voltas nas proximidades de Luang Prabang e de Vienciana. Os passeios e cruzeiros no Mekong e no Nham Khan, de que já aqui dei conta, são ideais para se ver a vida no rio e nas suas margens, havendo hoje uma oferta relativamente ampla quanto a esta matéria e a preços muito razoáveis. Cerca de 20 USD por um passeio no rio para duas pessoas durante cerca de 3 horas pareceu-me francamente acessível, embora esse valor seja uma fortuna para os padrões locais e eu também veja no que me foi cobrado uma pequena contribuição, que dou com gosto, para o desenvolvimento do país.

Um conselho recorrente e que convém ter sempre presente: o Laos continua a ser um dos países mais minados do mundo e onde o trabalho de limpeza continua muito atrasado devido à escassez de meios. Fora dos centros mais turísticos as pessoas não deverão afastar-se dos caminhos delimitados para evitarem acidentes.

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Nas cercanias de Luang Prabang as deslocações são fáceis, mas para quem chega e tem pouca informação é preferível contactar um dos muitos operadores locais. Os preços variam e nem sempre, ao contrário do que acontece noutros locais, as ofertas dos estabelecimentos hoteleiros são as mais caras. Em duas ocasiões, nos hotéis onde pernoitei, vi preços mais baratos para o aluguer de veículos com motorista do que em agências de rua, embora haja prospectos dos operadores mais importantes que se repetem e surgem em todo o lado. Convém ter em atenção que há períodos do ano em que os preços sobem, como entre Dezembro e Março, melhor altura para se visitar o país, ou agora entre a segunda e a terceira semana de Abril por ocasião das celebrações do Ano Novo. O serviço prestado é em regra sério e profissional, o que é completado pela afabilidade e gentileza do povo.

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Há grutas, muitas com imagens de budas, quintas, algumas dedicadas à recuperação de animais, e num dos locais mais visitados do país, nas famosas cascatas de Kuang Si* – cujas águas ganham diferentes tonalidades, predominantemente turquesa e verde-esmeralda, em razão dos minerais que transportam e onde muitos aproveitam para se banharem –, dei com um centro de recuperação e protecção de ursos. De manhã tive dificuldade em localizá-los, mas à tarde, fazendo eles a sua sesta, deitados em pequenas plataformas, esteiras de baloiço ou brincando entre si, foi possível observá-los.

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Em redor das cascatas existem percursos bem assinalados, havendo a possibilidade de se subir pelo caminho talhado na montanha até um pequeno lago que dá acesso à sua nascente. Convém levar calçado e roupa adequados. Por isso mesmo também existem, logo nas proximidades dos primeiros lagos, uns balneários rudimentares em madeira apenas para que seja possível mudar de indumentária.

 

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O caminho até Kuang Si é feito por estreitas e pouco sinuosas estradas, alcatroadas, o que é uma bênção pois que noutros locais o pó era tanto e tão fino que se entranhava em todo o lado, nas narinas, na garganta, nos olhos e nos equipamentos electrónicos, o que ao fim de algumas horas se pode tornar num verdadeiro pesadelo.

Fui aconselhado a fazer essa jornada depois das 11 horas, visto que o tempo estava fresco e de maneira a apanhar o calor do sol quando chegasse lá acima por volta das 12:30. Essa é única maneira de ver a luz penetrar nalguns troços da floresta onde as árvores crescem desmesuradamente e é possível olhar para os bambus que se erguem para o céu como se fossem sequóias.

  

* Também é possível ir às cascatas de Tad Sae, cujo acesso é feito de barco, mas pelo que me disseram estas são menos espectaculares e na época seca têm pouca água.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 17.04.18

misérias

Não, a questão não é apenas a de saber se é legal ou não. É de outra ordem, mas não vou perder mais tempo a repeti-lo. 

E não pode ser colocada nos termos em que ele o faz. Desta forma, está-se apenas a tentar escamotear, sem sucesso, a questão principal. Além de que é perfeitamente irrelevante para o que está em causa que nas duas últimas deslocações o custo tenha sido inferior ao que está fixado por viagem ou que tenha viajado em classe económica.

O problema, como qualquer cidadão de boa fé e minimamente inteligente perceberá, é outro. É o de saber se os subsídios são cumuláveis e se mesmo não se esgotando o valor atribuído para as viagens o deputado tem o direito a encher o bolso com a diferença não utilizada. Isto é, para que todos percebam, com o diferencial do dinheiro que todos os contribuintes deram para uma função muito específica. 

Mesmo que fosse legal, e eu considero que não é, seria sempre ética e moralmente discutível aos olhos de todos que embolsassem a diferença. Isto deveria ser o bastante para nem sequer se atreverem a pedir o parecer. 

Lamento que um indivíduo na posição dele e com as suas responsabilidades não tenha querido compreendê-lo, dando logo o exemplo, e em vez disso tente dar a volta ao prego. Como se as pessoas fossem estúpidas.

Feio, muito feio. Mesmo para quem vê de longe.

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 15.04.18

laus (3)

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E por que razão estar em silêncio na companhia do outro haverá de ser sempre um sinal de aridez e de distância?” – Claudio Magris, Instântaneos

 

Ontem, quando abordei o pequeno-almoço, sem nada planeado, que é uma vantagem quando não se depende da programação dos guias, caía uma chuva miudinha que obrigou a que as espreguiçadeiras de madeira junto à piscina fossem todas cobertas com um oleado. Com o avançar da manhã a chuva tornou-se mais intensa. Aproveitei para ler mais alguma coisa, pensar no que iríamos fazer e pedir os jornais do país.20180331_124655.jpg

A leitura diária da imprensa dos países e cidades por onde passo é incontornável. Normalmente procuro obter os dois ou três jornais mais importantes para lhes tomar o pulso. Mesmo em locais onde a liberdade de imprensa é controlada, ainda que de formas veladas, e a influência dos partidos de governo e/ou dos militares é permanente, normalmente encontram-se nichos de informação e opinião livre. Pelo menos até que os encerrem, como aconteceu há tempos com o magnífico Cambodia Daily, cujo lema era “All the news without fear or favour”, e que ao fim de mais de duas décadas de publicação ininterrupta o ex-khmer vermelho de Phnom Penh reciclado para a democracia, mas a quem rapidamente estalou o verniz, mandou encerrar. Na Tailândia não perdoo a leitura do Bangkok Times, um jornal a todos os títulos magnífico e que aquando da alteração das leis eleitorais e dos partidos, em Dezembro passado, quando por lá andei, publicou diariamente notícias e artigos de opinião, esclarecendo em termos claros e objectivos as manobras que estavam a ser preparadas com vista às próximas eleições e qual o alcance das modificações que os militares pretendiam introduzir. Foram peças de jornalismo de antologia, razão pela qual, para desespero da minha mulher, guardei os vários exemplares, juntando a muito mais que vou acumulando de diversos países. O The Nation é outro interessante jornal tailandês. No Laos entregaram-me o Vientiane Times, em língua inglesa, e rapidamente percebi que aquilo não passava de uma folha panfletária de elogio ao Governo e às suas políticas visando a captação de investimento estrangeiro, pelo que a leitura da imprensa ficou arrumada por uns dias.

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Quando a chuva parou resolvemos dar uma volta pela cidade e aproveitámos para visitar o antigo Palácio Real, transformado em museu, e subir ao topo do monte Phu Si.

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O Palácio tem um horário de visita estranhíssimo. Abre às 13:30 para encerrar às 17:00. Os sapatos ficam à porta. E não se permite a recolha de fotografias no seu interior. Vá-se lá saber porquê, mas é coisa que não estranho em países governados por castas para as quais tudo deve ser secreto e constitui segredo de estado. Como se lá houvesse algum tesouro transcendente. Construído em 1904, foi residência do Rei Sisavang Vong, cuja figura surge imponente logo à entrada dos jardins de acesso. Seria deposto em 1975 pelo Pathet Lao, só que nessa altura já ali não residia. Os quartos têm uma decoração austera mas com gosto, tendo eu notado as belas camas de madeiras nobres dos quartos do monarca e da sua mulher, o espaço e as vistas de alguns aposentos para o Mekong. 

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Há vitrines com trajes tradicionais usados pela família real, porcelanas de Limoges, condecorações e ofertas de países estrangeiros. No anexo fica a garagem onde estão os carros usados pelo Rei, mas que também não se podem fotografar (dois Lincoln Continental da década de 60, um Edesel Citation de 1958 e um Citröen igual ao que ficou no texto anterior. Tanto no Palácio como nos muitos templos que visitei a tarifa é normalmente de 10 ou 20 mil Lao kips (1USD equivale a cerca de 8.260 Lao kips), havendo um ou outro local em que são cobrados 5.000.

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O Monte Phu Si fica do lado oposto ao Palácio Real, constituindo um dos pontos de romagem da cidade, depois de subidos os mais de 300 degraus que nos conduzem ao That Chomsi, um stupa com 24 metros e uma cobertura dourada erguido em 1804. Em dias claros a vista que daí se alcança abrange toda a cidade e os diversos braços dos rios (o Mekong a norte, o Khan a sul e a leste), assim como as montanhas circundantes, parecendo que a zona central da cidade forma como que uma península entrando pelos rios e vigiada pela colinas.

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Vaguear sem sentido pelas cidades a que chego, sentindo o seu pulsar, olhando apenas para o movimento e para as pessoas, tomando um café aqui e ali, quando possível entabulando diálogo com um ou outro residente local para melhor me aperceber da realidade onde estou, das suas preocupações e anseios, é uma das actividades a que com gosto me dedico. Tenho conhecido gente interessantíssima, fugindo à informação turística habitual, inteirando-me de outras realidades que não vêm nos roteiros turísticos nem fazem parte das preocupações dos guias profissionais.

thumb_P1080391_1024.jpgLuang Prabang é um óptimo local para passeios no Mekong, visitar quintas e centros de conservação da natureza, fazer passeios a pé, de caiaque, de jipe ou de elefante, mas estes últimos não são da minha predilecção. Os animais são para estar em liberdade, na natureza onde pertencem, tranquilos e fazendo a sua vida, e não para sessões de “selfies” em comícios de megafone com hordas de excursionistas.

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Como o tempo tivesse entretanto melhorado, e sem saber o que os dias seguintes me reservariam, aproveitei para dar um passeio no rio, ao final da tarde. Confesso que esse foi um dos momentos mais fantásticos que me foi proporcionado.

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Numa embarcação pequena foi possível subir e descer os seus meandros, observar a cidade de outros ângulos, bem como a vida nas suas margens, com os pescadores na sua rotina, lançando e recolhendo redes, enfim, desfrutar de um belíssimo final de tarde, vendo o Sol esconder-se entre as montanhas enquanto nós vagarosamente o procurávamos, embalados pelo silêncio e uma música suave que o capitão achou por bem colocar no ar enquanto nos oferecia uns magníficos mojitos. Majestosos, o Mekong e o Khan resolveram associar-se ao momento. Quase parados arrastaram-nos dolentemente por mais uma curva, depois por mais uma reentrância, contornando montanhas, seguindo a passarada, até o dourado das cúpulas dos stupa desaparecer com o cair da noite e nós regressarmos para o jantar no final de mais um dia de silêncio, de paz, de imersão na outra parte de nós.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 14.04.18

laus (2)

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A cidade é habitada por 55000 almas das cerca de 400.000, divididas por oito grupos étnicos, que compõem a província de Louangphrabang, na região central do norte do país. As duas maiores etnias são os Khmu (44%) e os Hmong (16%).

Conhecida como "a jóia do Laos", é hoje muito referida pela sua arquitectura urbana, que cruza a tradicional com a colonial dos séculos XIX e XX; também pela arquitectura de alguns dos seus templos e pela belíssima natureza que a rodeia e em que se insere.

 

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As portadas em madeira pintada, os estores de palhinha, os cadeirões de madeira nas varandas fizeram-me lembrar outras latitudes.

A maioria dos hotéis e alojamentos disponibiliza bicicletas que permitem aos viajantes deslocarem-se livremente pelas estreitas ruas da cidade e as estradas marginais junto aos rios, parando onde muito bem entendem para poderem visitar os locais de maior interesse e gozarem da beleza da paisagem. Mas a cidade também se faz bem a pé, desde que não esteja demasiado calor ou a chover. Há, ainda, sempre, a oferta de inúmeros "tuktuks", normalmente muito lentos e barulhentos, e a possibilidade para quem gosta de andar de cabelos ao vento de alugar um motociclo, pois há várias lojas que promovem esse serviço.

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A oferta hoteleira é vasta e independentemente da classificação, ou do número de estrelas do estabelecimento, nos vários locais onde estive pude notar a excelente limpeza. E confesso que fiquei admirado. Complemento esta observação com uma outra decorrente do facto de que durante os vários dias em que andei quer por Luang Prabang, quer, depois, pela sua capital e região circundante, não vi baratas nem ratos. O lixo sempre devidamente depositado nos locais próprios ou à beira das ruas aguardando a recolha em sacos fechados. Na capital, Vienciana (Vientiane), vi as ruas serem varridas e lavadas, o que noutras regiões e cidades bem mais ricas não acontece. Esta realidade não ilude, porém, uma outra, bastante mais grave, que não é exclusiva do Laos, mas que também verifiquei na Cambodja, no Vietname e noutros países asiáticos, que é a poluição de rios, lagos e zonas costeiras, com inúmeras embalagens de plástico, esferovite, madeiras e latas ferrugentas de alumínio, sinal do muito que ainda há a fazer nessa matéria.

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Um elemento marcante da paisagem urbana e rural são as permanentes manifestações de nacionalismo, representadas pela colocação das bandeiras do país na soleira das casas particulares, de estabelecimentos comerciais e de edifícios oficiais, normalmente com a bandeira do Partido Comunista no lado oposto, apesar de quanto a esta última com alguma indiferença quanto à posição da foice e do martelo tantas foram as içadas ao contrário.

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A este propósito referirei que um dado de que rapidamente me apercebi foi o do peso da burocracia de Estado. Da verificação de passaportes e emissão de vistos à entrada, até ao controlo daqueles à saída, o trabalho que podia ser feito por um funcionário é feito por dois. Um abria o passaporte, o outro ao lado carimbava. A quantidade de edifícios, muitas vezes do tipo moradias com um jardim murado, com placas à entrada do tipo “Ministério X, Departamento Y”, em caracteres locais e em francês é inacreditável. O cenário repete-se em quase todo o lado e área da administração pública. Muitos desses edifícios estão vazios, havendo alguns de dimensões consideráveis. Lembro-me de ter visto um destes, talvez a uns 30 quilómetros de Vienciana, próximo da Ponte da Amizade, que é um dos pontos de passagem para a Tailândia através do Mekong, com a indicação de ser uma Faculdade de Ciências Médicas, completamente às moscas. Também em estações de correios, quase todas as que vi, ao estilo e com indicações em francês, e numa biblioteca me pareceu haver gente a mais, desocupada e com pouca alegria no trabalho, contrastando com os rostos sorridentes, ainda que por razões compreensíveis, de outros locais por onde passei.

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Todo o país, o que é comum aos outros países daquela região, tem uma vasta e muito agradável oferta gastronómica qualquer que seja a dimensão da bolsa. Por vezes com preços ridiculamente baixos.

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Para lá do arroz, das sopas e das massas, há imensos vegetais, de excelente qualidade, alguns deles desconhecidos para a maioria dos europeus e para os quais não encontrei traduções. A fruta predominantemente tropical é abundante, extremamente saborosa, em especial quanto a papaias, mangas — dulcíssimas, sem fios —, ananases, mas também as laranjas e suas variantes são óptimas. O peixe é quase todo de rio, mas branco e saboroso sem que se possa comparar com o das nossas águas atlânticas, havendo muitos pratos de galinha e pato, carne de porco, tofu e camarão. A carne de bovídeos em regra é de búfalo, mas também existe de vaca importada. Os caris, onde se regista a influência tailandesa nas suas diversas alternativas, são bons e generosos, assim como as sopas.

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A influência da cozinha francesa encontra-se muito presente, tanto naquelas ementas indefinidas a que alguns chamam de “internacional” e onde se encontra de tudo, como em restaurantes e bistrots cujas denominações muitas vezes revelam a sua herança colonial. Não será por isso de estranhar que haja muita cozinha de fusão e que em matéria de sobremesas se encontre uma grande profusão de crepes, de óptimas mousses de chocolate e de gelados e sorvetes artesanais. Os de coco e lima, com bocadinhos dos ditos, são soberbos. Luang Prabang é, aliás, conhecida pela qualidade da sua doçaria. No mercado nocturno há bancas só de bolos e doces, sempre fresquíssimos e de sabor irrepreensível. Os brownies são dos genuínos, baixinhos, quase prensados porque descem ao sair do forno, de sabor intenso, com um chocolate que se deixa arrastar pela boca, de tal forma que por vezes parece quase caramelizado. Nada dessas imitações que hoje em dia se encontram em muitos restaurantes portugueses com pretensões a finos.

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Mesmo a comida de rua, à qual vi muitos turistas jovens e menos jovens recorrer, se apresenta em bancas e carrinhos limpíssimos, com bom aspecto. Curiosamente, num país onde a primeira recomendação é para não se beber água da rede pública, a higiene das bancas de comida e das cozinhas dos restaurantes não deixa de ser notável. Muitos destes oferecem cursos de culinária tradicional laociana. Nalguns tive dificuldade em perceber qual dos negócios seria o principal, se o restaurante se a escola.

20180331_182330.jpgRegisto, igualmente, os óptimos batidos de fruta, de toda a variedade e diferentes misturas. A cerveja mais conhecida é a Beerlao nas suas três variedades, encontrando-se facilmente cervejas de outras origens. Há mesmo bares que anunciam cervejas artesanais belgas e francesas. Há imensos chás, café para os bons apreciadores não falta, assim como o vinho, cujo preço é bem menos taxado do que nos vizinhos da Tailândia e do Vietname, e bons queijos franceses.

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 O preço relativamente económico do álcool, se comparado com outros países, talvez justifique a profusão de cafés, bares e outros espaços de socialização, na sua maioria aprazíveis. Para além do Governor’s Grill and Bar, no Sofitel, um pouco carote (caríssimo para os padrões locais) e afastado do centro da cidade, mas a merecer uma visita, com uma boa biblioteca (para bar), recomendo o Chez Matt, o Dexter (há um em Banguecoque do mesmo dono, com um bom gin tónico) ou as esplanadas da SaSa Cruises, do Apsara e do Tamarind, estas duas do lado do rio Nham Kan, e ainda a do Utopia, com a vista mais fabulosa deste rio, aconselhável para os saudosos do Woodstock, da geração hippie e do Maio de 68. Também me falaram do Bar 525 e do Chez Matt nos quais não estive.

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Restaurantes agradáveis não faltam, muitos com pequenas bibliotecas e esplanadas com vistas magníficas para o Mekong. Todos com wifi. O Tangor, que é explorado por franceses, apresenta comida de fusão e paredes bem decoradas. Um dos proprietários é uma francesa com ligações ao Algarve. A comida é boa, tem uma óptima esplanada, paredes pintadas com mapas da Indochina e desenhos de Corto Maltese, mas se tiver o azar de ficar numa das mesas para o interior do restaurante corre o risco de sair de lá a cheirar a comida. L´Elephant Vert é uma opção vegetariana. Para quem gosta de comida italiana o La Rosa pareceu-me simpático, numa rua tranquila e com esplanada. Há óptimas padarias onde se podem tomar bons “mata-bichos”, com pão de excepcional qualidade, uma delas escandinava, próximo do Hotel 3 Nagas. Quem ficar neste não tem com que se preocupar porque o pequeno-almoço normalmente está incluído e toma-se do outro lado da Shakkalin Road, no anexo, junto a um dos únicos dois Citröen de 1953 (um pertence ao Hotel, o outro está na garagem do Palácio Real e era pertença do Rei). Há, para além deste, outros clássicos espalhados pela cidade, todos bem restaurados e devidamente conservados, tanto quanto me apercebi constituindo propriedade de hotéis.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 13.04.18

saga

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Agora que foi divulgado mais um relatório do Comissário Contra a Corrupção, que em regra responde pelo acrónimo "CCAC", convém recordar a saga dos parquímetros, com tendência para se agravar e infernizar a vida dos cidadãos.

Dos anteriores havia a ideia de que funcionavam bem embora muitas vezes fossem uma chatice; por vezes, uma chatice necessária. Entretanto, resolveram substituí-los e e confesso que continuo sem alcançar uma razão plausível para tal. Gastou-se tempo e dinheiro na mudança, presumo que também na escolha do fornecedor e nas obras, e multiplicaram-se os incómodos, visto que estes novos ocupantes do espaço urbano vieram inclusivamente invadir espaços onde antes a sua presença não era notada e não fazia qualquer falta.

Ontem tocou-me a mim.

Numa artéria principal da Taipa, Rua de Seng Tou, bem próximo da PSP, por volta das 13:40, estacionei o meu carro no único lugar disponível. Dirigi-me à maquineta para pagar e quando lá cheguei duas senhoras informaram-me de que estava avariada. Sem qualquer indicação, e a uma hora em que normalmente há sempre alguém que em vez de andar atrás dos bandidos anda a multar os veículos estacionados, arrisquei introduzir uma moeda pela ranhura. A moeda ficou lá dentro, o número correspondente ao lugar de estacionamento continuava com a indicação "expirado" e a seguir piscou, por breves segundos, a menção "coin jam".

Quinze minutos depois, estando eu de plantão ao parquímetro, aparece-me um tipo num motociclo, que rapidamente pára na via pública, em plena faixa de circulação, portanto, mal estacionado, e vai abrir a caixinha. Havia um monte de moedas acumulado do lado de dentro da ranhura, talvez umas quinze ou vinte. Com esforço, o sujeito liberta as moedas, fecha a portinhola e gesticula no sentido de me fazer perceber que o problema estava solucionado. Perguntou-me quantas das moedas que lá estavam eram minhas e pediu-me que lhe indicasse qual o meu carro. A seguir marcou o número do meu lugar, introduziu uma nova moeda e de imediato repetiu-se a indicação "coin jam" no visor. Só que naquele momento era a única moeda lá dentro.

Não perdi mais tempo. Não precisava. A excelência do que os "talentos" ao serviço da RAEM continua a fazer está bem exemplificada nesta situação. Infelizmente não é a primeira naquela rua, nem nas vizinhas, nem no estacionamento contíguo ao Parque das Merendas de Coloane por onde normalmente acedo aos trilhos.

Por otod o lado, os aceleras da PSP continuam a rondar, como se fossem uns verdadeiros perdigueiros, farejando avidamente todos os parquímetros, por onde quer que passem, a qualquer hora do dia ou da noite.

Se eu ontem não tivesse perdido o meu tempo e ficado à espera do encarregado dos parquímetros, assim precavendo a eventualidade de ser multado tendo a razão do meu lado, não poderia agora aqui trazer-vos o relato da situação e as fotografias que obtive no local.

Esta é uma pequena amostra. O ex-director dos Serviços de Meteorologia de Macau vai ficar sem pensão de reforma, mas há muitos mais, e com mais responsabilidades do que ele, que já deviam ter sido demitidos compulsivamente. Por má fé e manifesta incompetência.

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por Sérgio de Almeida Correia




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