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revolução

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.24

Foto da capa do livro 'Capitão de Abril', de Salgueiro Maia(créditos: daqui)

Os portugueses e as suas instituições celebram em 25 de Abril o Dia da Liberdade. Eu chamar-lhe-ia antes, como os italianos, o Dia da Libertação (“Festa della Liberazione”). Muitos, mais novos, perguntarão que libertação é essa; e porquê. Outros, mais velhos, olharão para a data como mais uma simples efeméride referida a qualquer coisa que aconteceu num passado cada vez mais distante e que de tempos a tempos é recordada nas escolas, nos jornais, nas rádios e televisões. Não mais do que isso.

Há cravos vermelhos, discursos, fanfarra, cantoria e romaria. Há festa.

E depois, a seguir à festa, voltam todos à escola, os que a frequentam, ao trabalho, à inflação, ao desemprego, às doenças, aos subsídios, ao futebol, aos Santos Populares, ao fado, aos tribunais e às praias. Outros voltam às ruas para reclamarem por melhores condições de vida, um ambiente mais saudável, cidades mais sustentáveis, reivindicarem ajustamentos salariais, melhores carreiras, dignificadas e revalorizadas, por mais feriados, mais habitação, mais creches, mais saúde, mais igualdade. Querem mais, sempre mais, cada vez mais. E, no entanto, são incapazes de lutar pelo básico, de orientar as suas vidas por um verdadeiro altruísmo que nos liberte das amarras criadas à sombra da libertação, à sombra de Abril.

Quem viveu, quem ainda conheceu, quem se recorda do muito que aconteceu, em especial a partir da ocupação dos territórios portugueses na Índia e do início das guerras coloniais, do que foram esses anos que antecederam o 25 de Abril de 1974, estará hoje menos sensível a grandes mudanças. Dá a democracia – a verdadeira, não a que outros dizem “que funciona”, a que alguns ditos “democratas” se adaptam com grande facilidade, exultando-a, e que não passa de uma ditadura que distribui gelados quando não está ocupada a distribuir máscaras, controlar, vigiar, reprimir, prender e punir – como adquirida e cumprida com a bênção ritual e regular de formalidades. Tudo se esgota no poema decorado, lido, declamado e apregoado até à náusea, no jantar de confraternização, no entoar compassado e ritmado da canção.

Esquecendo, a avaliar pelas pérolas que se ouvem nalgumas entrevistas ou em concursos televisivos, que há quem confunda Otelo com um hostel ou Salazar com Soares, não sabendo quem foi Salgueiro Maia, desconhecendo que Ramalho Eanes foi Presidente da República. Nada disso seria grave não fosse dar-se o caso de até o líder parlamentar de um partido estruturante do regime confundir Diogo Freitas do Amaral com Adelino Amaro da Costa. E teimar.

Os indicadores económico-sociais permitem-nos ver a distância a que estamos do Estado Novo e da primavera marcelista. Em 1975 as nossas estatísticas indicavam que havia 122 médicos por cada mil pessoas; em 2023 já eram 578 para os mesmos mil. Os enfermeiros eram 205, hoje são 783. A esperança média de vida era em 1970 de 67 anos. Em 2023 é superior aos 80. Em 1975 apenas 60% dos partos ocorria em hospitais e clínicas. Actualmente são 99,8%. O número de habitações mais do que duplicou. No início da década de 70 do século XX havia 53% de habitações sem água canalizada; em 36% não havia electricidade e 40% não tinha esgotos. Hoje não se constrói nenhuma que não tenha tudo isso. A taxa de analfabetismo era em 1970 de 25,7%, mas nas mulheres era superior a 30%. Hoje são 3,1% os analfabetos. É muito menos sem deixar de ser um número triste e avassalador. São mais de 250 mil os portugueses que não sabem ler nem escrever. A mortalidade infantil desceu colocando-nos entre os dez países mais seguros para se nascer. O número de estudantes no ensino superior aumentou sete vezes. A mulher adquiriu outros papéis. Muitas puderam deixar de ser parideiras militantes para abraçarem carreiras profissionais sendo ao mesmo tempo mães.

Quase tudo mudou. Muitos dirão que quase tudo mudou para melhor. Eu também.

Mas quando num país como o meu, o nosso, se verifica que em 1985 as mulheres recebiam um salário que era, em média, inferior ao dos homens em 23,2% nos cargos superiores, e em 2022 essa diferença aumentou para 25,6%, é porque há qualquer coisa que não está a funcionar. Há o dobro das casas. Porém, há mais de 80 mil famílias com carências habitacionais graves. E há mais de 700 mil habitações devolutas. Há dois anos, uma sondagem indicava que mais de 80% dos portugueses não estavam plenamente satisfeitos com a sua democracia. E o ano passado uma outra sondagem revelava que apenas dois em cada dez portugueses confiavam no Governo e na Assembleia da República. Nos vinte anos anteriores ao 25 de Abril de 1974, mais de um milhão e meio de portugueses emigrara. Segundo a ONU, em 2024 serão 2,3 milhões os portugueses nascidos em Portugal que vivem no estrangeiro. Não estamos a falar de filhos de emigrantes. Quanto ao estado dos tribunais e à situação do Ministério Público nem vale a pena falar. Acabaram os tribunais plenários, é verdade, mas a imagem que os portugueses hoje têm do sistema judicial é a de uma coutada atávica sem rei nem roque, ao serviço dos ricos e poderosos, das corporações e dos bandidos das seitas do regime, e em muitos casos entregue a gente frustrada que se preocupa com tudo menos com a realização da justiça em tempo útil. Há excepções? Há. Muitas. Há, felizmente, gente séria e decente. É para esses que escrevo. São os que me importam.

Gente séria e decente que com o apodrecimento do regime e das instituições não se revê com força nem poder suficiente para fazer a mudança a que todos aspiram. Porque os sonhos dos votantes do Chega, sendo portugueses como os outros, não são diferentes dos sonhos de quem vota no PSD, no PS, no IL, no BE, no PAN ou no PCP. Todos aspiram à mesma dignidade, ao mesmo bem-estar, a um tecto digno, à mesma decência, à mesma saúde, à mesma educação, à mesma segurança.

Perguntar-me-ão então que solução aponto para tão deplorável estado de espírito. Responderei dizendo que defendo uma revolução. Uma revolução na verdadeira acepção da palavra. Uma revolução integral. Não um golpezinho misericordioso num regime podre que se transformou numa festa bunga-bunga permanente para algumas famílias que engradeceram à sombra dos partidos. Uma revolução sem dó para com os quadrilheiros das juventudes partidárias que se assenhorearam do regime e tomam conta de uma casta de portugueses mansos que só sai à rua quando lhes cravam um ferro curto nos bolsos.

Uma revolução que leve por diante o que se começou em 25 de Abril de 1974. Uma revolução que preservando-nos a alma nos mude os costumes, os vícios, as manhas e as entranhas da mentalidade. Uma revolução que nos faça sair do estado de letargia em que nos colocamos. Uma revolução que abane os alicerces do sistema judicial, que a todos nos eduque nas virtudes do verdadeiro espírito republicano, que desfira golpes sem parar nas oligarquias partidárias, nos gangues que se apoderaram do regime, uma revolução que dê uma machadada no corporativismo, no exibicionismo da mediocridade, na falta de vergonha da ignorância, que construa um sistema fiscal verdadeiramente distributivo, sem manhas, que faça assentar a democracia num sistema eleitoral moderno e mais justo, que rasgue auto-estradas para o mérito, que premeie a intervenção cívica, que proteja quem tem de ser protegido, que seja implacável com os poderosos que falham e rigoroso com todos os outros. Uma revolução assente na ética política, no conhecimento e na sensatez. Uma revolução que não marginalize os melhores para premiar os mais espertos dos piores. Uma revolução digna desse nome, que afaste o medo que nos rodeia, que dê um pontapé na falta de coragem e no comodismo, uma revolução que não nos castre diariamente a identidade e faça de nós uns perfeitos eunucos cívicos, sempre aos saltinhos, sempre contentinhos com mais um subsídio e um golo do CR7. Uma revolução que não atire o bebé ao rio com a água do banho.

Está, pois, na hora de fazermos a revolução.

Cinquenta anos, para nós, portugueses, não é nada. Para a nação é muito tempo quando ainda está toda uma revolução por fazer. Quando há toda uma mentalidade para mudar. Quando há um país para amar e uma nação para honrar. Não percamos mais cinquenta anos. Comecemos hoje a revolução. Em casa, nas escolas, nos partidos políticos, nos sindicatos, nos quartéis, nas ruas. Antes que a nova fradalhada do regime crie a carreira de dona de casa.

(Hoje, no Ponto Final)

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deboche

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.04.24

"Três deputados candidatando-se nas legislativas para logo a seguir se candidatarem às europeias é uma fraude ética e um desrespeito aos eleitores. O pior da política, visto como um meio à disposição dos militantes do PS para tratarem da sua vida. Serviu para quê? Para estes três elementos terem ordenado até rumarem a Bruxelas? É pequeno, poucochinho e desmerece a democracia."

"No PSD, o cenário não é melhor. Não sei se houve alguma viagem no tempo da cúpula do PSD até às cavernas, mas a primeira mulher do PSD (Lídia Pereira) aparece em quinto lugar da lista. Ou seja, se a AD eleger cinco, seis ou sete eurodeputados (muito provável), só haverá uma mulher do PSD. Para comparação: em 2019, o PSD, em seis, elegeu três mulheres. Piora. O cabeça de lista é Sebastião Bugalho, escolhido por mistérios insondáveis que deixaram o PSD em choque (e pavor). Nada contra o comentador, que conheço há vários anos. Simplesmente escapa-me o CV mostrando qualquer mérito que valha a promoção a cabeça de lista para o Parlamento Europeu. Foi brevemente jornalista, esteve brevemente ligado a Miguel Pinto Luz em Cascais. De resto, fez comentário político. Usualmente sobre a espuma dos dias, nem sequer comentário particularmente reflexivo ou com pensamento próprio." (Público, Maria João Marques, PS e PSD: listas para as europeias que desmerecem o 25 de Abril

Faço minhas as suas palavras, discordando apenas num ponto: isto que se passa na véspera dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, não é uma fraude. Aí a  articulista está errada, lamento. Isto é um deboche. São as catacumbas de um bordel clandestino. É o pior que a política nos pode dar. E não é exclusivo desse albergue de pavões, inúteis e cambalachistas em que se tornaram estes dois partidos. Há outros a acelerar na mesma direcção para não ficarem atrás.

Amanhã há mais. 

 

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mercearias

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.04.24

Douro Boys | ENOBAHIA

Aproveito a VI Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), mais conhecido como Fórum Macau, e a vinda à RAEM do novo ministro da Economia de Portugal, Pedro Reis, para escrever algumas linhas sobre um problema de natureza prática que afecta a reputação de Portugal no exterior. Penso que nenhum governante minimamente interessado e competente deixará de prestar atenção às consequências das más apostas e das boas políticas, pois qualquer que seja o caso perduram no tempo. E, nalguns casos, colam-se de tal forma ao país que muitas vezes se torna difícil, quando o produto é mau, recuperar de um desastre. 

Ainda tenho na memória a crise que se abateu há quatro décadas sobre as exportações de azeite espanhol depois da crise da síndrome da colza ou do azeite tóxico, que afectou mais de 20 mil pessoas e provocou mais de um milhar de mortos. Tudo porque o óleo de colza desnaturado que era utilizado na indústria, devido à ganância do lucro, foi adulterado e desviado para consumo humano. O Supremo Tribunal espanhol considerou o Estado espanhol co-responsável pelo sucedido e o azeite de Espanha levou um abanão do qual levou anos a recompor-se. Em 2001 foi o óleo de bagaço de azeitona com benzopireno, um produto cancerígeno e péssimo para a saúde, a causar novos problemas.

Aqui o assunto não é tão grave e o exemplo serve apenas como chamada de atenção para o importante papel que o Estado, e neste caso específico o Ministério da Economia, tem na definição de políticas, na promoção das nossas exportações e no papel que algumas instituições devem assumir na defesa do nome de Portugal e dos bons produtores nacionais.

Ao longo da minha vida, e até da conversa com amigos que exploram negócios, nomeadamente restaurantes e lojas de venda a retalho de produtos alimentares (vinhos, enchidos, queijos, produtos de cosmética, por exemplo) em diversos pontos da Ásia, tenho-me apercebido da necessidade de se fazer uma aposta na qualidade dos produtos que são exportados pelos produtores portugueses, que aparecem  e saõ apoiados em campanhas promocionais no exterior, participando em feiras internacionais por todo o mundo. Muitos produtores têm eles próprios capacidade de inovação e de internacionalização e estão cientes da importância de se exportar com qualidade. Veja-se o caso dos Douro Boys e como a sua aposta no melhor vinho que se produz na região que abraça o rio que lhes deu nome se tem revelado um sucesso na China. 

O programa do XXIV Governo de Portugal enfatiza em diversos pontos uma aposta na internacionalização e no aumento de competitividade da economia portuguesa, referindo mesmo a aposta num “novo paradigma da economia portuguesa”, a exigir instituições e um tecido empresarial capaz de se posicionar entre os melhores a nível europeu e mundial, orientando os fundos europeus para “proje[c]tos que permitam à economia promover a criação de riqueza, que potenciem as vantagens competitivas nacionais e que elevem o valor acrescentado da economia portuguesa e que promovam as exportações, assente em critérios de sele[c]ção claros, uma aplicação transparente e fiscalização rigorosa.”

Oxalá assim seja. Quem circule pelos supermercados de Macau, de Hong Kong e de outras cidades asiáticas, já se terá apercebido da co-existência nas suas prateleiras e corredores de produtos portugueses de excelente qualidade, apreciados e venerados por qualquer gastrónomo ou enófilo, com outros produtos de péssima qualidade. Do pior que se produz e vende inclusivamente em Portugal. Estar a exportar presunto com menos de seis meses de cura, intragável, queijos industriais que são uma verdadeira pasta, peixe “prensado” e muitas vezes congelado em deficientes condições, de péssimo sabor, cheiro repelente e pior textura, são produtos exportáveis que em nada contribuem para uma boa imagem do país no exterior. 

E, ao contrário do que já ouvi por aí, não se trata apenas de um problema de mercado do tipo “se o consumidor não gostar não volta a comprar”. Porque da primeira vez pode vender-se tudo; depois  exporta-se uma segunda vez, para já não se vender como da primeira ou ser comercializado no destino, em final de prazo, com 50% de desconto. Os consumidores têm boa memória e dificilmente haverá uma terceira vez porque a seguir virá produto idêntico de Espanha, do Chile, de Itália ou da Austrália, a preços igualmente competitivos e de melhor qualidade. 

O Ministério da Economia deverá conduzir internamente  campanhas massivas de consciencialização dos produtores nacionais para a imperiosidade de se produzir com qualidade para a exportação. E através do AICEP e da rede consular tem de fazer um aposta nessa qualidade, no melhor que somos capazes de produzir para diferentes segmentos de mercado, mas que terá de ser necessariamente acessível a várias bolsas nos países de destino. 

O que não se pode de todo é apoiar as exportações e a presença em certames internacionais apenas por apoiar. Tem de haver critério, tem de haver selecção nos apoios e no que se deixa sair. Não pode haver apoio, seja a que nível for, à exportação da mediocridade. Não se podem exportar nacos de banha dentro de tripa com o rótulo de “chouriço tradicional” porque nem é chouriço nem é tradição em parte alguma do país comer o que não presta.

Isto não significa, obviamente, promover as empresas dos amigos e correligionários do partido que estão sempre disponíveis para agilizar negócios, financiá-las e abrir a porta dos fundos aos fala-barato que travestidos de empresários ou fazendo de "secretários de Estado", andam por aí e vão percorrendo a rede consular, visitando os amigos e “irmãos”, falando de cátedra sobre a política nacional, como se fossem umas drag queens, arregimentando apoios para as próximas eleições, enquanto gesticulam muito e vão amealhando comissões de intermediação à custa de um lobbying fomentado à sombra das juventudes partidárias e que não raro dificilmente se distingue do tráfico de influências.

Os exemplos que nos chegam de França, de Itália, da África do Sul, da Austrália, da América do Sul, ou de países europeus com a dimensão de uma Dinamarca, de uma Bélgica ou dos Países Baixos, mostram que é possível produzir a preços competitivos, com qualidade e exportar em quantidade. Portugal também pode e deve fazer o mesmo. Já que não somos capazes de segurar os nossos melhores dentro do país, ao menos que sejamos capazes de exportar o melhor. Que chegue a todos e a preços competitivos. Olhem para a rapaziada dos Douro Boys. Não será muito difícil fazer como eles, ganhar escala, dimensão e cultivar a excelência. E que não haja medo. A qualidade dá sempre frutos a médio e longo prazo. 

Por uma vez sejamos inteligentes e façamos alguma coisa por Portugal e os portugueses. A começar com o que enviamos para a China e os PLP. As câmaras de comércio, os consulados e o AICEP não servem só para jantaradas. Deles se espera que sejam úteis e façam o melhor por Portugal. Muitos já o fazem. É preciso alargar a rede e cultivá-la com critério, controlando o que de mau sai de Portugal para o exterior. E aí é fundamental o papel do Ministério da Economia. Não sejamos tolerantes com a mediocridade. Ainda que seja da nossa cor política.

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avilezas

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.04.24

ppcoelho_pportas_miguel_a._lopes.jpg(créditos: Miguel A. Lopes/LUSA)

Tenho estranhado o silêncio, enorme silêncio, do PSD, dos seus antigos companheiros de partido e da direita em geral, com excepção de Manuela Ferreira Leite, às declarações proferidas pelo antigo líder do PSD e ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

Desconheço se Passos Coelho ainda tem, e quais sejam, as suas ambições políticas. Não sei se pretende tomar de assalto o PSD a seguir às eleições europeias, se vai abandonar esse partido para se juntar ao Chega, se equaciona a formação de um novo partido ou se, simplesmente, naquele dia acordou com os pés de fora. Mas qualquer que seja a resposta, o que ficou registado não é bonito de se ver.

Independentemente do momento escolhido para a entrevista, e a quem foi, logo após apadrinhar a apresentação de um livro onde colocou em xeque o novo primeiro-ministro, antigo líder parlamentar e seu companheiro de partido, o teor do que disse sobre Paulo Portas, o actual PSD e Cavaco Silva, e as revelações que entendeu por bem fazer, levantam várias questões.  

Começa por colocar em causa o seu sentido de Estado; muito em especial a confiança que outros nele depositaram, e a confiança que aqueles que o ouviram terão de si no futuro.

Não é normal, mesmo para quem não ambiciona outros voos políticos, que um político faça as acusações que ele fez a um antigo parceiro de coligação e membro do seu Governo, meia-dúzia de anos volvidos, sem mesmo esperar que a poeira assentasse e se resguardasse numas futuras memórias.

Acusar Paulo Portas e o CDS de falta de solidariedade política – não tenho procuração de nenhum deles – sabendo que sem aqueles não teria vencido eleições, nem sido primeiro-ministro, dizendo perante os portugueses e o mundo que um ex-ministro de Estado, duas vezes, dos Negócios Estrangeiros, da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar que não era pessoa confiável, inclusivamente confessando publicamente um facto que, segundo o entrevistado, nem o visado tinha conhecimento, é um exercício de grande baixeza ética e política.

Esse juízo revela-se de tal forma hipócrita que me levou a pensar por que motivo, depois de ser ter “atravessado” por Portas perante a troika, e sabendo que essa pessoa não era politicamente confiável, e apesar de todos os problemas que lhe causou no Governo, ainda se apresentou de novo a eleições perante os portugueses integrando Paulo Portas e o CDS na coligação “Portugal à Frente”. Imagino, se tivessem chegado a governar, que o rol de queixas e confissões seria hoje um lençol muito maior. E mais imundo.

Depois, é natural que o modo como se pronunciou sobre aquele que foi o seu líder parlamentar durante anos, actual presidente do PSD e seu “companheiro” de partido, acusando-o pifiamente de querer “desconectar-se do passado”, enquanto dizia bem compreender a sua posição, tenha deixado incrédula Manuela Ferreira Leite. E certamente que muitos dos que o apoiaram ao longo dos anos e entusiasticamente o aplaudiram na apresentação do tal livro do homem das Neves e desse visconde de saias saído directamente da Baixa Idade Média para as páginas dos jornais.

Se a isto somarmos o que disse de Cavaco Silva, sublinhando que o ex-Presidente da República, quando se reunia com ele, Passos Coelho, “não sabia do que falava” e que “estava ultrapassado”, compreende-se mal o que quer dizer quando, ao referir-se ao PSD actual, enfatiza que tem uma “relação natural e descomplexada” e “o grande cuidado de não interferir”, pelo que a última coisa que queria era “criar constrangimentos”. Nota-se.

Não sei, à semelhança do que se passou nos tempos da troika, se Passos Coelho virá ainda corrigir o que disse, ou defender-se com uma deficiente interpretação das suas palavras pelos destinatários, mas como sempre desconfiei da bondade da criatura, e sempre achei que o homem não prestava, fico satisfeito, sabendo que vai andar a vaguear por aí, por ficarem todos cientes, em toda a plenitude, da sua formatação jotinha como político e homem de Estado.  

Nunca saberemos o que o futuro nos reserva, mas não há nada como ser o próprio a revelar-se perante os outros. Na primeira pessoa. Sem filtros. Os portugueses ficam a dever-lhe essa generosidade.

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barreiras

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.04.24

NAPE Garden.jpg

Durante anos a fio os residentes de Macau viram crescer os obstáculos nas suas ruas, nos seus jardins e monumentos.

Os estados policiais, os regimes autoritários e os sistemas autocráticos sempre tiveram a obsessão com a segurança. Seja com a segurança interna, com a integridade dos dirigentes ou com a sombra dos que circulam.

Ainda todos se devem recordar que uma das primeiras decisões do primeiro Chefe do Executivo da RAEM foi vedar o Palácio do Governo, também conhecido como Palácio da Praia Grande, antiga residência do Barão do Cercal adquirida pela Administração no final do século XIX, erguendo muros e grades, fechando portadas que estavam normalmente abertas, com excepção dos dias de tufão, e alterando a circulação e estacionamento de veículos nas suas imediações.

Durante a pandemia de Covid-19 houve uma talentosa luminária que mandou fechar os jardins. E depois, quando se reabriram os seus portões, até era necessário mostrar código de saúde a um segurança e usar máscara para se poder atravessá-lo de um lado para o outro. Inenarrável.

Mas parece que, finalmente, alguém com dois dedos de testa terá percebido o ridículo que é ter jardins públicos murados e gradeados, sabendo-se que há câmaras de CCTV por todo o lado. Pelo que depois de se alimentarem as clientelas e se gastarem milhões em ferro, a que nem Coloane escapou, eis que como por milagre foram retiradas as grades do Jardim Dr. Carlos D' Assumpção, no NAPE. Agora é possível circular livremente pelo jardim, a qualquer hora, gozando de uma vista desafogada, encurtando percursos e fugindo à gordura e falta de limpeza dos passeios adjacentes.

Importa, pois, seguir o exemplo noutros espaços. Em todos.

Os jardins, os passeios, os espaços públicos, as cidades, querem-se sem grades, sem barreiras, sem pilares e pilaretes à beira dos passeios, limpas, sem ratos nem pragas de baratas, agradáveis à circulação pedonal. E quem não estiver educado, peões, ciclistas, motociclistas ou automobilistas, que se eduque.

Em Abril, onde quer que se esteja, não há que ter medo da liberdade. Mesmo na escuridão dos dias que nos assolam.

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eleições

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.02.24

Bolteim Voto 2024 legisaltivas.jpg

Enquanto não for operada uma reforma da legislação eleitoral, que mantendo a segurança diminua a burocracia, reduza custos e assegure maior rapidez do processo de votação e escrutínio, lá começaram a chegar as cartas da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna contendo a documentação necessária ao exercício do direito de voto por correspondência, por parte dos cidadãos residentes no estrangeiro, para as eleições legislativas de 10 de Março.

Pode ser que desta vez, não havendo mais feriados e greves pelo meio, sejam contabilizados os milhares de votos que nas últimas eleições ficaram por contar.

Entretanto, gostaria de perceber qual a razão para que nos boletins de voto os nomes dos partidos e coligações que se apresentam a sufrágio surjam nalguns casos só em maiúsculas.

Quem olha para o boletim não pode ficar indiferente, visto que aquelas saltam de imediato à vista e, nessa medida, as forças concorrentes que têm o seu nome impresso exclusivamente em maiúsculas acabam por ser favorecidas.

Desconheço qual seja a magna razão que leva a que nos boletins de voto os nomes de "Nós, Cidadãos!", "Reagir Incluir Reciclar", "Bloco de Esquerda", "Iniciativa Liberal", "Juntos pelo Povo", "Ergue-te", "Partido Socialista" e "Volt Portugal" não surjam grafados nos mesmo termos em que aparecem "ALTERNATIVA 21", "ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA NACIONAL", "ALIANÇA DEMOCRÁTICA", "CHEGA", "NOVA DIREITA", "LIVRE" e "PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA"? E a "CDU - Coligação Democrática Unitária" também é diferente porquê? Não faria sentido que os nomes surgissem todos uniformizados, com o mesmo tipo de letra e recorrendo a igual critério no uso de maiúsculas, tal como acontece com as siglas?

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animais

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.02.24

(créditos: daqui)

Confesso que ainda estou chocado.

Nos últimos dias tenho pensado muitas vezes no que aconteceu. E só de pensar imagino-me a contorcer-me e a sentir o sofrimento atroz que foi infligido a um homem, preso, que condenado à pena capital em 1988 assistiu 34 anos depois ao falhanço, com sequelas, da primeira tentativa para a sua execução, cuja macabra concretização só ocorreu há alguns dias.

Da primeira vez, em Novembro de 2022, o desgraçado estivera durante quatro horas amarrado a uma maca para ser depois devolvido à sua cela devido à manifesta incompetência dos seus carrascos, incapazes de encontrarem uma veia adequada para lhe injectarem o líquido letal antes de expirar o prazo para execução da sentença de morte.

A opção, desta vez, passou por fazer do preso uma cobaia e matá-lo por asfixia usando uma máscara para onde foi bombeado nitrogénio. Fazendo-o respirar o gás e sofrer até que a asfixia fosse completa, de modo que pudesse viver cada segundo de agonia a plenos pulmões. Com outros a assistir ao espectáculo do sofrimento, como se este fosse uma espécie de justiça divina carregando em si a reconciliação e a esperança. 

É óbvio que quando um dos carniceiros que faz de Solicitor General do Alabama diz que o processo escolhido foi “o menos doloroso e mais humano que se conhece”, LaCour só mostra porque não passa de um primitivo saído do largo esgoto do trumpismo, com vasto cadastro em matéria de direitos humanos, que justifica a barbárie em pleno século XXI e os procedimentos macabros de execução do prisioneiro usando uma linguagem só compreensível para si e para cafres de igual linhagem.

Estranho, em particular, nesta miséria global em que vivemos e não conhece fronteiras, que tantas organizações devotadas à protecção e ao bem-estar animal não se tenham insurgido e manifestado em todo o lado e a toda a hora, com a mesma veemência com que o fazem contra as touradas, perante aquilo a que assistimos no Alabama, continuando todos sentados no conforto dos seus gabinetes, enquanto tomam um cafezinho e discutem a emergência climática com o vizinho que está de comando na mão a regular a temperatura do ar-condicionado ou a fazer zapping para ver as diatribes dos ignaros que por aí  se dedicam a invadir museus e a destruir património que pertence à memória de todos os povos, pensando que com isso arregimentam adeptos para a sua causa.

Tirando uma ou outra peça nos noticiários, um artigo nos jornais e as tomadas de posição de algumas organizações de defesa dos direitos humanos, esta selvajaria, que remete os EUA e a Humanidade para um estado pré-animalesco, onde desprovidos de tudo, de intelecto, da mais leve racionalidade ou de qualquer sentimento conhecido, nos dedicamos à grotesca exterminação da nossa própria espécie, infligindo o maior sofrimento possível ao condenado, sem qualquer ponta de compaixão ou remorso, aconteceu sem que as nações que se consideram civilizadas se levantassem em uníssono a condenar o sucedido.

Ignorou-se a imposição de sanções, como tantas outras vezes se faz por questões menores, a começar pela União Europeia, e esqueceram-se de colocar os carniceiros numa qualquer lista de pessoas a evitar, impedindo-as de viajar e entrar em países terceiros, sujeitando-as internacionalmente a perseguição criminal.

Como se LaCour ou os executores do homicídio de Kenneth Smith fossem melhor que os projectistas da "Solução Final", os funcionários de Treblinka ou de Auschwitz-Birkenau, os suicidas do Hamas, os seus sósias da IDF, os carniceiros putinescos, a escória fardada do Mianmar, os talibãs afegãos, ou tantos outros vermes que andam por aí à solta sem que nada lhes aconteça.   

Sim, porque se mais não se ouviu da parte dos defensores e das organizações protectoras dos direitos dos animais, não terá sido por falta de vontade, de meios ou de megafone, mas antes porque a preocupação com os maus-tratos às galinhas ou aos bovinos, inteiramente devida, certamente terá uma qualquer outra dimensão, inatingível para mim, que a torna incompatível com a protecção da nossa própria espécie e os remete ao silêncio.

Uma democracia que se preze, um Estado de direito, um país que queira ser visto pelos outros como civilizado e desenvolvido, não pode continuar a conviver com a pena de morte como se fosse uma qualquer teocracia fundamentalista ou uma dessas autocracias "democráticas" da Ásia. Muito menos permitindo execuções com o grau de sadismo imposto ao condenado do Alabama.

É em momentos como o que correu nos EUA que sinto verdadeiro asco por alguns dos meus semelhantes; como se não fossemos todos da mesma espécie, não tivéssemos direito a respirar o mesmo ar, numa espécie de sentimento misto de desprezo e revolta que com todas as forças procuro combater, para não ser como eles, e que jamais conseguirei compreender. 

Antes o regresso à guilhotina, ao tiro na nuca ou ao pelotão de fuzilamento.

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ferrari

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.01.24

Tirando o facto de ser falado em inglês e Il Commendatore ser um cepo nessa língua, mostra bem o que foi o culto das Mille Miglia e porque tantos durante tantos anos se renderam aos seus encantos.

Belíssimas imagens, uma sonoridade invulgar de motores que deixaram muitas saudades, destacando-se os papéis de Adam Driver, da sempre espantosa Penélope Cruz e do jovem que se assume como Piero Lardi Ferrari. A caracterização de Carlo Chiti, com quem me cruzei algumas vezes, está excelente.

A sequência final, após o acidente de Guidizzolo, embora espectacular, ficou um pouco aquém do que antecedeu e surge como uma quebra na narrativa. Mas nem por isso deixa de ser um belo filme de Michael Mann, concluído, curiosamente, no ano em que a Ferrari venceu a Corrida do Século.

A ver, e talvez a rever se houver tempo para apreciar alguns detalhes.

Ferrari 2023.jpg

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lerdos

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.01.24

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Um novo espaço, novas salas de cinema, um filme que prometia, ali no Lisboeta.

Como ainda havia tempo disponível antes da sessão, vinham mesmo a calhar uma cerveja e umas pipocas salgadas. A opção foi por uma Kronenburg 1664 Blanc. Paguei e pedi um copo, pois recuso-me a emborcar pela garrafa, à trolha. A resposta foi que se quisesse um copo teria de pagar mais MOP$2,00 (duas) patacas. Como disse? Deve estar a brincar. Ou me trazem um copo ou me devolvem o dinheiro. Veio o superior. Pediu muita desculpa, perguntou se podia ser de plástico (continua a haver copos de plástico) e de uma marca de cerveja japonesa. 

Há dias, no intervalo de um concerto, no bar do Centro Cultural de Macau, também verifiquei que não havia copos para quem quisesse beber um copo de vinho. Como as garafas são pequenas devem querer que se beba o vinho como fazem com a cerveja. 

A qualidade do serviço prestado por alguns concessionários, tanto faz serem grandes como minúsculos, é cada vez pior. Parece que ninguém se importa e até haverá quem ache normal com o nível de exigência dos "turistas" que nos visitam. É o culto da mediocridade a todos os níveis. O que importa é facturar.

Depois de algumas tascas começarem a cobrar pelos lenços de papel que fazem a vez dos guardanapos, e de quererem que nos habituemos à esferovite, aos plásticos e aos cartões, entrámos agora na fase da cobrança pelo copo.

Um destes dias também nos vão cobrar nos restaurantes pelos pratos de louça, os pauzinhos (fai chi) e os talheres, ultrapassada que esteja a fase de nos tirarem os talheres dos pratos sujos para os alinharem em cima da toalha da mesa, quando há.

Teremos então estabelecimentos com estrelas Michelin para ricos, e espeluncas para todos os outros, sem meio-termo para gente normal.

Pode ser que desta forma, e com estas inovações todas para protecção do ambiente, consigamos ultrapassar os 30 milhões de "turistas". E se comece a comer com as mãos para se poupar na água e no detergente. 

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censura

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.01.24

57 Ilustrações de Capela sistina | Depositphotos

O cancelamento pela direcção do Instituto Cultural do espectáculo "Made by Beauty", inserido no Festival Fringe, ontem dado a conhecer pela rádio e televisão e hoje largamente divulgado pela imprensa, é mais um sinal da regressão social, política e cultural a que temos vindo a assistir na RAEM desde que deixou de ser governada pelas suas gentes e os pseudo-patriotas se assenhorearam dos seus destinos.

Estamos perante uma manifestação da mais acabada censura e um ataque de puritanismo hipócrita, bacoco e medíocre numa cidade em que se não fosse a convivência ao longo dos séculos entre múltiplos costumes, culturas e "vícios" que lhe moldaram o carácter e a fisionomia, internacionalizando-a sob múltiplas formas, da literatura à poesia, e da pintura à gastronomia, ao cinema e ao desporto, nunca teria atingido o estatuto que tem e que o Governo não se cansa de reafirmar que se quer cosmopolita, aberta ao mundo e um "centro mundial de cultura e lazer".

Quem o afirma, percebe-se por decisões tão estapafúrdias quanto esta, não tem a mínima noção do que diz, desconhece Macau e a sua história e o sentido do conceito que apregoa como se fosse uma mezinha para todos os males que nos afligem.

Em Macau sempre houve locais e espectáculos para todos os públicos, muitos com nudez integral e frequentados por altos responsáveis políticos e administrativos, antes e depois de 1999, e que se ultimamente desapareceram não foi porque se tivesse subitamente transformado numa espécie de Sodoma ou Gomorra, mas sim devido aos sucessivos ataques de ignorância, alimentados por um conjunto de parolos, subsídio-dependentes e bufos de língua acastanhada, que muito têm contribuído para a sua progressiva descaracterização e estupidificação. Do ensino aos costumes.

O espectáculo em causa foi publicitado, pelo menos desde 23 de Dezembro de 2023 na Internet, numa página oficial do Governo da RAEM, e também noutra do Instituto Cultural, aí se dizendo claramente, que "num mundo disparatado é preciso ser-se atraente", e que incluiria "lábios vermelhos, costas profundamente decotadas, minissaia, meias de vidro pretas, saltos altos", convidando-se a audiência "a explorar os conceitos universais da atracção física", colocando de lado "a moralidade e a racionalidade". Acrescentava-se ainda que era um espectáculo para maiores de 18 anos, adultos, portanto, e que continha "linguagem obscena e nudez que poderão ofender a sensibilidade de alguns espectadores". Não havia aqui nada que enganar, só iria quem quisesse e crianças não podiam entrar, pelo que se fica sem perceber se os responsáveis do Instituto Cultural estavam à espera de um espectáculo de catequese ou com a Heidi e o avôzinho. 

O cancelamento do espectáculo "Made by Beauty", independentemente dos respectivos méritos ou deméritos, é de tal forma incompreensível porquanto essa mesma performance já teve lugar em cidades do Interior da China, tendo mesmo sido incluído em Outubro e Novembro passado no Festival de Teatro Shekou que ocorreu em Shenzhen.

Não houve, evidentemente, qualquer divergência ou incompreensão em relação ao conteúdo, pelo que bem andaram Sarah Sun e o grupo Utopia de Miss Bondy de recusarem mudar "a cor das collants dos bailarinos", de não aceitarem a proibição do uso de dragões, por não poderem ser utilizados “de forma sexy” (!), ou a substituição de “adereços de pénis por um copo de vinho”.

A progressiva infantilização e imbecilização da sociedade de Macau, tão patente nos anúncios, avisos e publicidade de organismos governamentais e do IAM, vai assim continuar, juntando à censura de opinião crítica nos jornais, rádio e televisão, a censura às manifestações artísticas e culturais, sinal da regressão idiota que nos levará inexoravelmente a um sub-sistema, nem capitalista nem socialista, gerido por puritanos e patriotas de alcova que se escandalizam quando vêem uma "drag queen" de collants num espectáculo para adultos, mas depois consideram normal, como já se ouviu na Assembleia Legislativa, dar uns tabefes na mulher se ela se portar mal, manter concubinas em várias cidades e vasta prole fora do casamento, por vezes escondendo os filhos, admiram o jogo e tudo o que lhe está associado, embora depois não faltem a uma missa, a papar hóstias ou a desfilarem compungidos na procissão do Senhor dos Passos, e sejam os primeiros a impor a moral e os bons costumes na escola e no espaço público de admissão reservada.

Enfim, nada que seja muito diferente daquilo que fez há séculos o Papa Paulo III, Alessandro de Farnese, que sendo cardeal ficou conhecido, entre outras coisas, por proteger e promover a sua própria família, fazendo-a enriquecer e levando uma vida dissoluta, na qual arranjou uns quantos filhos por detrás da porta, mas depois indicou Biagio de Cesena, um palerma pedante, para vigiar o trabalho de Miguel Ângelo, mandando-o cobrir partes dos corpos das figuras e criticando os desenhos "obscenos" da Capela Sistina, pintados por aquela que terá sido, talvez, a mais espantosa figura da Renascença, símbolo maior da arte, da verdade, da inteligência, da humildade e das verdadeiras virtudes da Humanidade.

Tempos de felicidade, e estes sim obscenos, são aqueles que hoje vivem os residentes de Macau, naquela que será mais uma prova do indiscutível cumprimento da Declaração Conjunta Luso-Chinesa e da luz que emana da forma como a Lei Básica está a ser cumprida e se tem aprofundado o princípio "um país, dois sistemas".

Tão aprofundado que nalguns momentos até parece ter caído ao fundo de um poço.

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notas

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.01.24

(créditos: daqui)

Duas notas rápidas para estes dias frios de Inverno em que Macau é assolada por mais uma monção vinda do coração do Império do Meio.

A primeira é uma nota de satisfação pela conclusão e abertura ao público do viaduto da Rotunda da Piscina Olímpica, que faz a ligação entre a Avenida Marginal Flor de Lótus, na Taipa, e a Avenida dos Jogos da Ásia Oriental. Trata-se de uma obra útil e que fazia muita falta, desanuviando o trânsito na rotunda e libertando os agentes policiais dos embróglios em que se metiam de cada vez que queriam orientar o trânsito. Para quem se dirige a Coloane ou para a Universidade é um ganho importante e que deve ser saudado na acção da tutela dos Transportes e Obras Públicas. Tem havido muita coisa má, algumas péssimas, outras sofríveis, mas desta vez também aqui fica uma nota de aplauso. Quando as coisas se fazem bem, resolvem problemas aos residentes, e isso significa um contributo para a melhoria da sua qualidade de vida, só há que dar os parabéns.

A segunda nota é de estranheza. Muita estranheza. Alguém devia questionar os Serviços de Saúde e o Centro Hospitalar Conde de São Januário sobre as razões que levam a que numa região como Macau, com um PIB per capita dos mais elevados do mundo e os casinos a facturarem milhões, a máquina destinada aos exames de perimetria, área de oftalmologia, esteja avariada há cerca de dois anos. Esta manhã estava de novo inoperacional. Por mais do que uma vez são marcados exames e os doentes não os podem fazer com a desculpa de que a máquina não está a funcionar. Não é normal que o equipamento numa área tão sensível e importante para a vida da população esteja avariado há tanto tempo, não se percebendo porque continuam a ser marcados exames que afinal não podem ser realizados. Máquinas de perimetria não faltam; e mesmo em Portugal e na União Europeia há algumas à venda fabricadas aqui ao lado, na China, a preços muito razoáveis. A não ser que haja razões, que a razão não alcança, que justifiquem mais essa vergonhosa situação. O problema não deverá ser de comissões. Investigue-se, pois.

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retardador

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.24

Macau Jockey Club, horse racing(créditos: AGB)

Ao que parece, ninguém, nem mesmo o Governo da RAEM, que já andava em conversas com a concessionária, terá ficado surpreendido com o anúncio do fim da concessão do Macau Jockey Club

Para além de na altura da prorrogação da concessão, atentas as condições em que ocorreu, com dívidas vencidas à RAEM e obrigações por cumprir, muitos se terem questionado sobre as razões que estavam por detrás da outorga de um período extenssíssimo, que só terminaria em 31 de Agosto de 2042, certificou-se ontem ter sido essa mais uma má, péssima, decisão pela qual, creio, ninguém será responsabilizado.

E as razões para a responsabilização seriam imensas, visto que a decisão correcta não teria sido a prorrogação da concessão, mas sim o seu resgate, o que há muito deveria ter acontecido tantas eram as obrigações por cumprir. 

Paulo Chan, ao tempo responsável pela DICJ, justificou a decisão, estranhamente, com a necessidade de diversificação. Diversificação de quê se na altura já havia milhares de milhões de dívidas? Da má gestão?

Sim, porque como foi devidamente sublinhado, se a situação do Macau Jockey Club era aterradoramente má, e a empresa estava à beira do abismo, porque quis o Governo que fosse então dado um passo tão insensato, prorrogando a concessão, para se acabar agora com as corridas de cavalos, quando ainda faltam quase duas décadas para o fim do prazo acordado? Mas havia alguma coisa naquela situação em que uma pessoa normal pudesse acreditar que iria correr bem?

Não é preciso sequer ir tão longe, como fez Niall Murray, comparando Macau com Hong Kong, porque para fazer é preciso saber.

E o que era estranho antes, ainda mais obscuro se tornou depois da publicação da Ordem Executiva n.º 2/2024 e de mais duas surreais conferências de imprensa.

Na primeira, a do Secretário para a Administração e Justiça, ficámos a saber que afinal está tudo bem, que o Governo aceitou o pedido de rescisão porque a concessionária "não conseguiu obter benefícios económicos nem sociais", e que "ainda que a companhia não tenha cumprido o estipulado no contrato de concessão e agora tenha pedido a rescisão, o Governo não vai receber nenhum tipo de compensação", até porque o contrato negociado entre as partes, isto é, pelo anterior Governo, não continha outras penalidades para além da suspensão ou da rescisão.

O brilhantismo desta explicação só seria ultrapassado com o facto da própria concessionária, Companhia de Corridas de Cavalos de Macau, S.A, na segunda sessão, confessar que no momento da prorrogação da concessão não tinha condições, objectivas e realistas, para poder cumprir os seus sonhos megalómanos.

A pandemia foi a machadada final, visto que deixou de ser possível continuar a "empurrar com a barriga" ou a varrer para debaixo do tapete, tantos eram os buracos que este apresentava.

Esperemos que, entretanto, até 31/3/2025, a situação dos trabalhadores, dos cavalos e dos credores se resolva, e aquele espaço não veja lá crescer mais um mega empreendimento imobiliário ou um parque de diversões com mais bonecada horrorosa e deusas de milhões. Mas ao olhar-se para o que vinha e para o que temos ficam-me no espírito apenas duas ideias: ou o Governo foi enganado quando prorrogou, ou foi uma prorrogação de favor.

As duas hipóteses são más. Não acredito em nenhuma.

Apesar do que aconteceu com o Macau Jockey Club, pelo que publicamente se conhece, ter todos os contornos para ser mais um, diria mesmo vários, casos de polícia.

Ou seja, continua a haver, para quem está de fora, uma história mal contada. Os residentes de Macau não são burros e há quem até pelo cheiro perceba logo quando as coisas estão "fora da lei" ou se meteu uma patada.

Ninguém estranharia, pois, que se não ficasse por aqui e as autoridades competentes investigassem o que houvesse a investigar.  

De acordo com a lei, naturalmente, expressão que ultimamente alguns dizem a toda a hora e para mim começa a trazer muita água no bico porque ninguém que actue de acordo com o princípio da legalidade tem necessidade de estar sempre a justificar o que faz invocando a lei e sem que antes se lhe aponte qualquer ilegalidade.

A não ser que alguém tivesse o objectivo, pura imaginação minha, de querer que todos ficassem com a mesma farda na fotografia. Os que negociaram antes e prorrogaram, deixando uma bomba ao retardador; os que negociaram depois e se comprometeram numa rescisão sem qualquer compensação. Por culpa dos que estavam antes, evidentemente. 

É mais uma longa metragem de horror que se perspectiva para as próximas edições do Festival Internacional de Cinema de Macau. Agora na vida real e sem os subsídios habituais.

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escabroso

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.01.24

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Em tempos já me tinha mostrado preocupado com o papel (não me refiro a dinheiro) que alguns "empresários" locais desempenham e com a imagem que transmitem de alguns "negócios" em que se envolvem. Foi em 2019 e estava em causa uma crónica de Diniz de Abreu sobre "O descalabro da Global Media". 

Entretanto passaram-se mais de quatro anos. O descalabro, se tal é possível, agravou-se, e estamos a assistir à continuação de uma escabrosa novela, sempre com um conhecido empresário local e destacado patriota na ribalta. 

Que o negócio da Global Media e alguns "investimentos" em Portugal começavam a cheirar mal não constitui novidade.

Que o nome do principal accionista do grupo Global Media volte à tona também não.

O que representa novidade é saber-se, de acordo com o que foi dito por José Paulo Fafe na audição que decorre na Assembleia da República, que tenham sido descobertas dívidas no valor de "2,1 milhões [de euros] em Macau e 700 mil euros em Malta em empresas de jogo 'online' que nunca funcionaram, ou melhor, de licenças de jogo 'online'".

Haverá sempre a possibilidade de se leiloar a Medalha de Mérito Industrial e Comercial para pagar alguma coisa, mas as afirmações são suficientemente gravosas para deverem ser devidamente esclarecidas. É que fiquei sem perceber se a dívida de 2,1 milhões em Macau diz igualmente respeito a empresas de jogo 'online' que nunca funcionaram ou a licenças de jogo 'online'. 

Não é por nada, mas independentemente de continuarem actuais as perguntas que formulei em 2019 [No fim, a gente revê o filme e só pergunta, entre nós, aqui, que contribuição deu Kevin Ho, através da Global Media, para a credibilidade e prestígio dos empresários de Macau? E aos investimentos chineses na Europa? Que confiança se transmitiu?], a coisa fede, sendo ademais conveniente recordar que também por causa do jogo online e outros "cambalachos" similares há quem esteja na RAEM a cumprir pesadas penas de prisão.

E todos eles foram patriotas, durante anos a fio, enquanto havia cacau para fazer o chocolate que era depois distribuído por outros patriotas que ultimamente, sabe-se lá porquê, até clamam, para espanto meu que sempre os conheci avarentos, discretos e mudos, por portais de transparência e, imagine-se ao que isto chegou, querem saber os critérios, as razões e os valores das adjudicações nas obras públicas.

Ou me engano muito ou deve estar na altura de um conhecido advogadode Macau prestar mais um serviço caritativo, escrevendo novo artigo no Diário de Notícias. Antes que o jornal feche ou acabe a gestão patriótica da Global Media.

A internacionalização tem os seus custos. Aquele senhor que queria transformar Tróia numa espécie de Marbella e estava a fazer um hotel e um casino em Cabo Verde que o diga. Às vezes é preciso meter algum "kumbu". Não é o mesmo que dar entrevistas à imprensa local destinadas a talentos.

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aniversário

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.23

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Em circunstâncias normais, apesar de não saber muito bem o que isso seja, completaria hoje noventa e quatro anos. Alguns dirão que é “uma idade bonita”, o que na verdade se aplica a todas as idades. As idades são sempre bonitas, os aniversários são sempre felizes; se o seu cumprimento, é claro, for mais do que um ritual e menos do que uma obrigação. Celebrar aniversários por obrigação é um horror. Celebram-nos nessas circunstâncias os que são empurrados para viver, e a viver, de acordo com os “desígnios” do Senhor e as leges artis de quem deles cuida até à exaustão. Pode-se sempre desistir quando se toma uma decisão. A liberdade é o princípio e o fim da razão quando, há muito, tudo deixou de fazer sentido. O mundo lá fora deixou de me interessar. Repete-se para os que lá estão, para os que andam por lá. Não mais para mim. Livros, revistas, televisão, mundanidades; qual o interesse? Se o confinamento cansa, se a minha autonomia parou num tempo cada vez mais longínquo, se insistem no que não me apraz, não quero e se me afigura impertinente ou despropositado, a quem me poderei queixar? E vê-los, a eles e a elas, a entrar e a sair, virando-me para aqui e para lá, porque é preciso evitar as escaras, e me querem sempre de boa cara, não torna a ilusão menos pungente. Antes faz o sofrimento, o cansaço, a solidão, o desconforto cada vez mais duradouros, mais desumanos, eternizando cá em baixo o que eu não sei se existe noutro lado, ou se será apenas mais uma ilusão, aqui e lá. E se não existe de todo, como negar-me, e a outros, o direito de condignamente me retirar, aproveitando o silêncio e a escuridão da noite, antes que dêem pela minha ausência quando a aurora raiar. Ah, como seria bom que tudo tivesse sido diferente, mais alegre e efusivo, sem a soturnidade crepuscular de uma velhice triste e distante que se prolonga pela manhã, a tarde e a noite de semanas, por meses a fio, que se repete todos os Natais e aniversários, faça chuva ou faça sol. E depois cantam canções alusivas, sempre desafinados, e ainda vêm uns velhos e umas velhas que me fazem festas na cara e na cabeça sem que eu queira, ou lhes peça, como se agora fizesse parte da sua família quando a minha está ausente e já se me confundem as horas e os rituais. E se eu não quero beber água, coisa de que aliás nunca gostei, querem-me obrigar para quê? Neste estado, quero lá saber que sobrevenha uma insuficiência renal. Que é isso comparado com as quarenta e oito horas dos meus dias que há tantos anos se acrescentam? Sim, eu sei que alguns terão saudades, me sentirão de menos, continuarão a recordar estes e outros anos, mais iluminados, menos pesados, não tão frios; sim, porque passou a estar sempre frio e depois vêm dizer-me que está calor e que “hoje está bom para ir à praia”. E que esteja. Se daqui não posso sair isso também não me importa. Também não quero ir. De há uns bons maus anos para cá passou a estar sempre frio. Tudo passou a ser desagradável, monótono, triste, a modos que sem jeito. Agora é que vai ser. Não vou ficar para o Natal. Não tenho mais paciência para isto. É o termómetro, são os comprimidos, é o zingarelho enfiado no dedo. Pois é, quero lá saber dos níveis de saturação, dos exercícios, das vacinas. Vão-me dar mais uma? Porquê? Se são felizes assim, a mim não me perturba. Na verdade, tornou-se-me indiferente. Um destes dias isto acaba. Tanta coisa para continuar aqui à espera da chegada do Verão, sem que eu saiba se o Inverno acabou quando me esqueço já das cores da Primavera e do Outono sei apenas que existe quando mo dizem. O senhor doutor já é avô. A triplicar. O outro também, embora continue a ser "o tio". Um avô sui generis. Este sempre foi diferente. Era terrível. Dava dores de cabeça à mãe. Os miúdos estão todos crescidos. E são pais e tios. Estou farto dessas zurrapas. Sopa, mais sopa, uma açorda às vezes, empadão. Sabe tudo ao mesmo. Gelatina, fruta em calda. Se está bom? Está sempre bom. Uma porcaria, e depois engasgo-me. Sempre a mesma sina. Há que ser aspirado. Nada funciona. Nem sei para que como. Querem que eu coma, que tome os comprimidos, que beba água. Os outros foram-se todos embora. Fiquei eu. E os velhos. São mais novos? São velhos na mesma. Tudo velho, tudo velha. E eu aqui continuo. Agora acabou-se. Hoje vem rancho reforçado? Não quero. Fazer-lhes a desfeita não é bonito. Vou fazer de conta. Está bem, sim, está bem. Até amanhã. Amanhã acaba hoje. Hão-de cansar-se, fartar-se. Não entra mais nada. Não abro mais a boca. Estou cansado. Não percebem isso, não percebem nada. Gosto muito de todos, mas deixem-me em paz. Agora é que é. Estou farto disto. Este ano não há circo. Quero lá saber do Pai Natal. Vão enfiar o barrete na cabeça de outro. Não há mais fotos. Não fico para o bacalhau. Nem para os meus anos. Guardem os parabéns. Passem sem mim. Vou-me embora. Deixem-me em paz. Acabou-se. Bebam vocês a água. Adeus. Não me chateiem.

 

[Ainda tão perto e já longínquo. Dezoito dias depois de tudo ter acabado. Hoje bebo à sua. Esta estava guardada para um dia. Calhou ser hoje. De um amigo para um amigo. É dia de aniversário. Nada de água. Celebremos a vida. Todos os anos neste dia. Como sempre gostou que se fizesse entre risadas e traquinices. Com todos. Filhos, noras, afilhados, sobrinhos, netos, amigos, amigas, vizinhos, com quem aparecesse. Por vezes sob o olhar espantado e censurante das meninas lá de casa. Que depois também se riam. À sua, Pai. Até um destes dias.]

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pagodeira

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.12.23

Os dias continuam a ser férteis em notícias, umas menos interessantes do que outras.

Por um lado, tivemos a notícia de que as "aplicações financeiras da RAEM registaram no ano passado perdas de 6,5 mil milhões de patacas", o que me leva a questionar se a "volatilidade dos mercados" a que se referiu o Secretário para a Economia, quando quis justificar esse número aos deputados, não será de outra natureza.

Era interessante saber que investimentos foram feitos pelo Governo de Macau, qual o seu tipo, que riscos se correu, que entidades foram as beneficiárias desses mesmos investimentos, e quem foi o responsável pela decisões que implicaram uma perda da dimensão assinalada.

Não é por nada, mas se esse dinheiro tivesse sido distribuído à população, ou investido na rede viária, teria sido certamente muito mais benéfico para todos e sempre se teriam poupado as comissões pagas a bancos, intermediários e a todos os outros comilões que gerem esse tipo de investimentos.

Numa empresa privada, o responsável pelas perdas teria sido responsabilizado. E no Governo da RAEM? Fica tudo na mesma? Quem foram os magníficos gestores e decisores? Era importante saber, até para que no futuro não continuem a perder o dinheiro dos contribuintes.

Ontem foi também anunciada a emissão da nova geração de bilhetes de identidade (BIR) para os residentes.

A Direcção dos Serviços de Identificação (SIM) tem sido uma das pouca entidades da Administração Pública da RAEM, muito por mérito da discreta Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, que prestou ao longo dos anos um bom serviço a Macau e aos seus residentes. Justiça lhe seja feita. Mas ultimamente, desconheço se por consequência da saída daquela para exercer funções de governação, têm surgido nos SIM alguns atrasos, confusões, não sei bem como lhes chamar, em relação a algumas situações relacionadas com a emissão dos BIR.

Os objectivos que estão por detrás da emissão dos novos documentos de identificação parecem-me mais do que compreensíveis, mas como um amigo já me havia chamado a atenção, percebe-se mal que se anuncie a apresentação de pedidos online quando as fotografias para esse documento continuam a necessitar de ser obtidas em empresas que colaborem com o Governo, há limitações em matéria de idade e é obrigatório o levamento pessoal do documento depois de emitido.

Ou seja, não só continua a ser preciso as pessoas deslocarem-se, seja às lojas de fotografia ou aos serviços, sem que se perceba qual a vantagem do pedido online, como continuamos muito longe do serviço prestado noutros locais.

Querem um exemplo? O Reino Unido renova os passaportes dos seus nacionais online, mesmo para quem esteja a residir em Macau, e remete-os depois pelo correio. Limpinho, sem filas, sem agendamentos, sem deslocações a lojas específicas.

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