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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Sábado, 23.03.19

humidade

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(Da Sessão de Apresentação, na Livraria Portuguesa)

Conheço o Luís Mesquita de Melo desde os tempos em que foi assessor jurídico da Assembleia Legislativa de Macau, e o Hélder Beja pelo seu trabalho como jornalista e organizador, em anos anteriores, da Rota das Letras. Estas duas circunstâncias de natureza pessoal seriam, só por si, manifestamente insuficientes para que aqui estivesse deste lado a sujeitar-me ao vosso escrutínio.

Não sei de quem partiu a ideia porque sobre isso não conversei com nenhum deles, mas correspondendo à afabilidade do editor, e com o aval do autor, estou aqui hoje para dar um pequeno contributo ao lançamento de “A Humidade dos Dias”, obra seminal do autor e a primeira editada pela Capítulo Oriental.

Faço-o porque para além da admiração e da estima que tenho por ambos, pessoal e pelo que nas actividades profissionais respectivas vão fazendo e de que vou tendo notícia, “A Humidade dos Dias” reúne um conjunto de textos que desde o primeiro momento prenderam a minha atenção.

Das razões para tal, não sendo especialista em literatura e sem outras pretensões que não sejam as impressões do leitor interessado, procurarei adiante dar-vos conta.

Para já gostaria de começar por sublinhar a feliz coincidência do autor ser açoriano e de a programação deste ano do Festival Rota das Letras, embora dedicado em primeira linha à poesia, congregar entre o conjunto dos poetas e escritores que pretendeu homenagear, alguns que, por uma razão ou por outra, pela genealogia, pela obra ou pela vida, aparecem com ligações aos Açores, ilhas de terra, mar e povo generosos.

Refiro-me desde logo a Jorge de Sena, também ele filho de um açoriano, que enquanto professor das Universidades de Wisconsin e da Califórnia, em Santa Bárbara, desenvolveu actividade profissional que o levou a um contacto constante e profícuo com as comunidades açorianas nos Estados Unidos. E essa aproximação foi de tal sorte que ele próprio, num texto publicado na Gávea, chegou a escrever que “embora eu seja contra a independência dos Açores, uma vez que tal facto seja consumado e o governo de lá seja a meu contento, pedirei a cidadania açoriana: no fim das contas, a minha família paterna é de lá, meu pai nasceu lá, e de vários troncos sou de lá até pelo menos ao seculo XVIII, ainda antes da independência dos Estados Unidos.”[1]

Nesse grupo incluo também Sophia, que não deixou de nos encantar quando se referiu a essas ilhas em que “(...) o antigo / Tem o limpo do novo” e “Há no ar um brilho / De bruma e clareza”.[2]

E depois há Melville que, integrando o mar dos Açores, os seus pescadores e os seus cetáceos na narrativa do seu fantástico Moby Dick, percorreu oceanos imensos, preenchendo com as suas aventuras muitas horas da infância de tantos de nós, meninos que despertavam para o mundo e teimavam em adormecer sonhando com baleias, orcas, cachalotes, tubarões e viagens sem fim até aos mares do Sul.

Tudo isto nos transporta até “A Humidade dos Dias”, cuja belíssima capa de Konstantin Bessmertny, por onde um olho espreita distante, nos abre uma janela luminosa e refrescante para o que se segue.

Com um prefácio de Victor Rui Dores, poeta, escritor, ensaísta, professor, personalidade sobejamente conhecida da vida artística e cultural dos Açores, e com um posfácio de Ângela de Almeida, investigadora e escritora, dir-vos-ei que estamos perante um conjunto de vinte pequenos textos que percorrem os anos da juventude do autor, recuperando a memória dos seus horizontes, vividos e desejados, nos caminhos do Faial e do Pico, em passeios de barco e em mergulhos que atravessam os desfiladeiros da afectividade, do amor e da amizade, nas múltiplas tonalidades dos azuis metafísicos, transcendentais, que orientam o autor até ao presente pelos caminhos de uma geografia toda ela feita de imagens e de cheiros, que atravessando as veredas da saudade se prolongam até ao presente em palavras e gestos de ternura recuperados pelo seu próprio percurso de vida. Como se não houvesse, jamais tivesse havido, lonjura. Como se o autor nunca tivesse sentido o sabor da partida e a distância física e espiritual das ilhas.

Distância que, por esse prisma, mesmo nas ausências tem o condão de não conseguir impedir o autor de voar nas asas das ganhoas ou dos cagarros, de o prender à luz dos dias, à linha perfeita das estações do ano que se recortam no seu horizonte de cada vez que se faz ao largo, transportando-o num movimento de vaivém entre o Oriente e as ilhas, por um percurso cujos marcos, não obstante a bruma que impregna as páginas do livro, estão minuciosamente definidos e se tornam aconchegantes à medida que os percorremos.

O menino que manobra corajosamente o lusito de velas de lona, “sonhando transatlanticamente”, não fica atrás do capitão-de-mar-e-guerra Manuel de Azevedo Gomes. O tal, pelo relato da baronesa da Urzelina, nesse incontornável Mau Tempo no Canal, que cruzara o lendário estreito de Simoneseki [Shimonoseki] na ponte da sua bateirinha, o Diu, e deslumbrara ingleses e franceses manobrando à vela, pelo porto de Hong Kong, no rasto de um tufão.[3]

Porque o autor, como ele próprio confessa, leva escritas na pele as coordenadas do seu regresso, “porque a ilha arquiva-se na alma ... sem remédio[4].

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Em “A Humidade dos Dias” há como que uma fusão quase religiosa entre o autor e as ilhas, independentemente do lugar onde está, daí emanando um sentimento de pertença que atravessa gerações e correntes oceânicas, as tais que “empurram os sonhos”, e onde “começa sempre a viagem de regresso, um dia, porque só nas ilhas se cumpre o nosso destino e amordaçamos a saudade com paredes de lava”.[5]

A mesma lava que molda o carácter daquelas gentes, e a que o autor não foge quando assume as suas raízes no diálogo que trava com seu Pai ao escrever: “aquilo de que nós somos feitos: lava e ausências, sós, trazendo nos olhos a saudade e a tranquilidade de um ou outro anticiclone teimoso[6].

Um pouco à semelhança do que sentia Vitorino Nemésio quando escrevendo sobre a sua açorianidade, cujo desterro, segundo ele, afina e exacerba, referia que “como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra”.[7]

De certa forma, o destino é um misto de fatalidade e ternura, de solidão e encantamento, onde se sente a tal “solidão algodoada” de que falava Raúl Brandão[8]ao referir-se ao Pico, também presente em Pedro da Silveira quando nos diz “E é tudo tão igual, tão encharcado de solidão / Que a gente às vezes já nem sabe/ se vive”[9]. Afinal a mesma solidão que aparece, igualmente, num pequeno mas belíssimo texto do pai do autor, Fernando Melo, quando depois de concluir a 4.ª classe e sair do Pico, para ser largado no Faial, onde iria continuar os estudos liceais, vê o progenitor afastar-se na lancha que vai de volta enquanto as lágrimas lhe rebentam “maiores que pingos de chuva”, para só secarem na casa onde ficaria hospedado, “sobre as páginas dos livros”, ainda para ele desconhecidos.[10]

O Luís vive intensamente esta condição de ilhéu, este “torpor açoriano”. “[U]ma doença quase de alma”, escreveu Nemésio, interiorizada logo na infância e que se cola à pele ao longo da vida, tal como a humidade, uma constante na literatura açoriana que também aqui estabelece um paralelo com Macau.

É a humidade, aquele ar morno, como escreveu Brandão, que “é uma carícia de pele de encontro à nossa pele e que pesa sobre o peito como bloco”. Ou o cansaço, de que falava o saudoso poeta Santos Barros, que se respira quando se abre a porta[11], que aproxima os Açores dos mares do Sul da China, da névoa quase permanente. Mas isso também acontece com o Monte da Guia, com a Nossa Senhora da Guia, com a Ermida no cimo do monte dominando a paisagem, com a procissão do Senhor dos Passos ou até com os bilhares do Real Clube Faialense, cujo feltro verde, porventura menos gasto, não será muito diferente daquele que por aqui forra a mesa do Clube Militar. Enfim, circunstâncias que até na toponímia unem lugares tão geograficamente distantes e tão próximos na vida do autor.

Deixei para o fim uma breve referência ao belíssimo Canto da Doca, escrito de intenso significado no contexto do livro, “espécie de passagem para os arredores da alma, e da cidade, uma fronteira em forma de esquina que não se dobra”. É por ali que passa a linha que separa a Primavera do Verão, a estação que divide a cidade da infância e juventude da maturidade. Ali, onde se faz a transposição do sonho para a realidade da vida adulta, do Verão para o Outono e o Inverno. Do botequim do Setenta para Porto Pim. E para o Bote de Tabucchi[12]. No botequim do Setenta “as mulheres não entram”. E “joga-se à lerpa em dias de procissão”. O Bote “não é um lugar para senhoras”. 

Numa escrita simples, marca distintiva só ao alcance dos melhores, “A Humidade dos Dias” é uma homenagem às pessoas e aos lugares da memória do autor. E é, igualmente, uma declaração de amor às ilhas “onde o mar é maior[13].

Como leitor e amante dos Açores, do voo dos queimados e do azul profundo das suas baixas, só lhe posso estar agradecido.

“A Humidade dos Dias” é um livro que pela intensidade das imagens que transmite podia ser um filme. Uma viagem. Ou apenas palavras, lidas como um poema murmurado à vista do azul basáltico do canal, na antecipação de qualquer coisa que foi, promessa de algo que há-de vir. Ou chegar. Em silêncio; “[q]ue no mar não se anda aos berros para não acordar os deuses”.[14]

Macau, 22 de Março de 2019

[1]Jorge de Sena, Ser-se imigrante e como, in Gávea-Brown, Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos, Vol. I, n. 1, Janeiro-Junho 1980, p. 14  

[2]Sophia de Mello Breyner, Açores, O Nome das Coisas, Morais Editores, 1977

[3]Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Edição Círculo dos Leitores, 1986, p. 247.

[4]Cfr. Partida

[5]Cfr. Uma Carta de Marear

[6]Ibidem.

[7]Vitorino Nemésio, "Açorianidade", Insula, Número Especial Comemorativo do V Centenário do Descobrimento dos Açores, nº 7-8, Julho-Agosto, Ponta Delgada, 1932. p. 59.

[8]Raúl Brandão, As ilhas desconhecidas – Notas e Paisagens, 1926

[9]Pedro da Silveira, Quatro Motivos da Fajã Grande, citado por Onésimo Teotónio de Almeida, Quadro Panorâmico da Literatura Açoriana nos Últimos Cinquenta Anos, 1989

[10]Fernando Melo, Sózinho no Cais, Boletim da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, Ano 1, n.º 2, 1999

[11]José Henrique dos Santos Barros, Humidade, 1979

[12]Antonio Tabucchi, A mulher de Porto Pim, Difel, 1998.

[13]Sophia de Mello Breyner, obra e lugar citados.

[14]Cfr. Baleeiros

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 08.03.19

preocupações

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"Não havendo uma cultura rodoviária e pedonal de respeito pelos outros e de cumprimento da lei, com mais ou menos manifestações por causa das cartas de condução, apesar dos limites de velocidade baixíssimos, continuará tudo na mesma. A segurança na estrada não pode ser uma arma política. A insegurança rodoviária já está cá dentro há muito tempo, não vai ser agora importada. Exijam-se as medidas adequadas ao Chefe do Executivo e ao Governo da RAEM."

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 08.03.19

lido

"(...) Hoje em dia, os assaltantes dos bancos entram de cara descoberta e de peito feito nos bancos. São nomeados ou eleitos para os conselhos de administração ou outros órgãos de gestão. Aí permanecem anos a fio, rodando, por vezes, entre diversos bancos. Não têm receio das câmaras, dão a cara, conferências de imprensa e entrevistas. Não têm pressa em sair dos bancos, antes pelo contrário. Resistem tenazmente a quem os procura afastar e, verdade seja dita, há leis que os protegem dada a sua inequívoca idoneidade. 

E, quando são afastados dos bancos, passamos a ouvi-los e a vê-los a lamentarem-se publicamente, naturalmente magoados e sentidos com tão grave injustiça. São verdadeiras vítimas: foram assaltados e afastados à má-fé e à má fila. Podem, até, ser condenados numas multas de mais milhão, menos milhão de euros, mas o que conta isso se estão de consciência tranquila? E, como não fogem, têm tempo até para organizar os bancos, colocando as pessoas certas nos lugares certos. Por vezes, transformando bancários em banqueiros. Outras vezes, estabelecendo que quaisquer multas ou outras despesas suas serão suportadas pelo banco que abnegadamente servem. (...)" – Francisco Teixeira da Mota, A arte de bem assaltar todos os bancos, Público, 08/03/2019

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 07.03.19

magris

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"Qualquer que seja a opinião ou a fé professada pelos homens, aquilo que os distingue é sobretudo a presença ou a ausência, no seu pensamento e na sua pessoa, deste além, o seu sentimento de habitarem um mundo acabado e que se esgota a si próprio ou antes incompleto e aberto sobre um outro lado. A viagem talvez seja sempre um caminho para esses longes que esplendem vermelhos e violetas no céu da tarde, para lá da linha do mar e dos montes, nas regiões sobre as quais aparece o Sol que sobre nós se põe. O viandante avança ao entardecer, cada passo o mergulha no crepúsculo e o conduz para lá da lista de fogo que se apaga. Quem vai de viagem, escreve Jean Paul, é como o doente, está suspenso entre dois mundos. O caminho é longo, ainda que nos desloquemos apenas da cozinha para a sala que dá para ocidente e nos vidros da qual o horizonte se incendeia, porque a casa é um reino vasto e desconhecido e uma vida não basta para a odisseia entre os aposentos da infância, o quarto de dormir, o corredor onde os flhos correm uns atrás dos outros, a mesa de jantar na qual as rolhas das garrafas disparam salvas como a guarda de honra e o escritório com alguns livros e alguns papéis, que tentam dizer o sentido deste vaivém entre a cozinha e a sala de estar, entre Tróia e Ítaca." – Claudio Magris, Danúbio, p. 107 

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 04.03.19

dominicano

No passado, a propósito das escolhas do Chefe do Executivo para a sua primeira equipa governativa, logo referiu "erros de casting que se vão pagar caros" e a opção por uma "fórmula de compromisso que não vai durar muito tempo e que haverá possibilidade de corrigir alguns dos tiros de partida que não vão conduzir a lado nenhum." (JTM, 17/12/2009)

Mais tarde, noutro registo, chegou a dizer que "há lá [na AL] gente que não vale nada" e que atinge o 'limite da mediocridade", bem como que "há pessoas que não têm o grau de inteligência para estar ali, nem em outro lado" (JTM, 03/10/2012).

Em nenhum dos casos teve a coragem de esclarecer a quem se estava a referir.

Ficou tudo no ar. Vago. 

Na sexta-feira passada, presumo que apanhado de "raspão", permitiu-se vir dizer, agora a propósito da eleição para Chefe do Executivo da RAEM, é "sempre saudável haver concorrência" , e "acho que ambos [Ho Iat Seng e Lionel Leong] são excelentes candidatos, depois logo se verá."

Passada a fase eleiçoeira, em que tocou a rebate os sinos do convento, aproveitou para pôr na boca dos outros o que nunca disseram, tresleu o que foi dito e escrito, atribuiu juízos de intenção a colegas e os ofendeu na sua dignidade pessoal e profissional; assegurado que ficou mais um mandato; esquecendo-se do que disse, depois de se ter permitido criticar quem, não tendo as suas responsabilidades de dirigente da única associação pública da RAEM, como bem gosta de enfatizar, sempre emitiu as suas opiniões de forma livre e descomprometida, assumindo toda a responsabilidade e sem comprometer ninguém, eis que voltou rapidamente ao registo habitual.

Não sei o que "logo se verá", mas para já o que se vê e se recorda, não vá a memória evaporar-se, foi o que foi dito e o que diz.

Ele pode emitir opiniões políticas enquanto presidente da AAM e dizer quem são os bons candidatos a Chefe do Executivo. Os outros não.

Da minha parte não há, nem podia haver, qualquer crítica a que um cidadão, residente de Macau, e mais a mais qualificado, se pronuncie sobre matérias de natureza política que a todos dizem respeito. A política, a intervenção cívica e a emissão de opiniões e comentários políticos não são lepra, nem uma doença contagiosa.

E também não justificam que um tipo faça birra, fique todo enxofrado, e até faça tudo para não ter de cumprimentar quem frontal e lealmente o criticou. 

Mas lá que é preciso ser muito esquecido e ter topete para andar a criticar nos outros aquilo que o próprio faz com o maior desplante, lá isso é preciso.

"Bem prega Frei Tomás, que bem diz e mal faz", fazei o que diz e não o que faz.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 28.02.19

exposição

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Vale a visita a exposição "Ferrari Under the Skin", que se encontra no Cotai, organizada pelo City of Dreams e o Design Museum. Do primeiro Ferrari aos F1, dos projectos à estrada, com uma pequena história do Comendador Enzo Ferrari que enaltece a sua ligação à histórica Alfa Romeo, para quem desconhece que são marcas que estão umbilicalmente ligadas. Todos os carros que lá estão são obras de arte, com especial destaque para o F40 e o Daytona. Curiosa a exibição de um dos fatos de competição do saudoso Gilles Villeneuve e de Michael Schumacher, bem como os capacetes de Niki Lauda – também ele um antigo piloto da Brabham-Alfa Romeo, casa para a qual conduziu o histórico BT46 –, de Jody Scheckter, de Nigel Mansell, de Schumi e de Alonso. A entrada vale MOP80,00 mas pode ser depois convertida em comes e bebes no café contíguo. 

Nota negativa para a inexistência de uma casa de banho nas proximidades que não nos obrigue a entrar no casino. Tendo comprado os bilhetes na bilheteira do City of Dreams indicaram-me as instalações sanitárias do casino. Desconfei e fui à procura de outras. No lobby do Morpheus mandaram-me também para dentro do casino. Não havia alternativa. Com a agravante da dita apresentar sinais de pouco asseio e de só no quinto depósito haver sabonete líquido para lavar as mãos. Mau, muito mau para quem tem pretensões à excelência. Quando se falha no básico...

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 19.02.19

situação

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(Fonte: SCMP)

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 19.02.19

vocações

Não tinha idade, postura nem feitio para o lugar. E achava uma maçada ter de continuar. Repetiu-o ao fim de dez anos

Compreendia-se. Compreende-se.

De repente, alguém lhe terá dito que era um talento. Dos bons. Como antes lhe disseram para reestruturar e rejuvenescer o quadro dos assessores jurídicos da AL.

E ele, não desconfiando da marosca, sem duvidar da seriedade do que lhe diziam, descobriu que aquilo que não possuía ou não havia adquirido durante uma vida para desempenhar o cargo com a genica, a competência e o brilho necessários não lhe faziam falta nenhuma. Afinal sempre tinha um dom: mexia-se bem na cozinha, entre os tachos, quentes ou frios. 

Poderá, é verdade, nunca vir a ser um Ducasse, um Avillez, um Ferran Adrià. Que é quem como quem diz um Churchill, um Kennedy ou um Deng Xiao Ping. Mas é preciso reconhecer que há vocações escondidas, talentos que se descobrem tarde.

Ainda bem que há quem procure.

Com alguns mineiros também é assim. Descobrem o filão quando se lhes leva a vela. Para o verem.

E isso é bom. É assim como uma bênção. Vitalícia.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 02.02.19

notas

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Hoje são apenas três, e breves, as notas que aqui deixo.

A primeira vai para o excelente trabalho de limpeza que está a ser feito nos trilhos de Coloane. Aqui há umas semanas (ano passado) tinha escrito para o antigo IACM, hoje o novo Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) queixando-me da necessidade de limpeza dos trilhos, que tardava desde os últimos tufões. Passados todos estes dias, tendo retomado os meus percursos habituais, vejo com satisfação o trabalho que está a ser feito e que, aliás, já foi notado por alguma imprensa. Preservar o paraíso de Coloane em condições de poder ser usufruído por todos, sem perigos acrescidos, é uma necessidade, não é um privilégio. Saber que isso está a ser feito e não caiu em saco roto é estimulante para quem faz do exercício de uma cidadania livre e consciente um dever.

Uma segunda nota segue directamente para o Instituto Cultural e os responsáveis pela organização e curadoria da magnífica exposição que permitiu que os cidadãos de Macau apreciassem obras-primas da Galeria Estatal Tetryakov e a arte russa da pintura dos finais dos séculos XIX e XX em todo o seu esplendor. Para além da atmosfera que uma vez mais foi possível recriar nas salas do CCM, ficam na retina alguns retratos de extraordinária riqueza e profundidade. Ainda não li o catálogo, de preço elevado para a maioria, é certo, atendendo à capa que tem, mas quanto ao mais pareceu-me excelente. Nada de mais inspirador para começar o fim-de-semana, fugir da confusão dos "turistas" que demandam a cidade neste período e preparar a minha reflexão do Ano Novo Chinês.

Uma terceira, incontornável, e sobre a qual prometo oportunamente vir a dizer mais alguma coisa, vai para o gozo que me deu a leitura do Acórdão 720/2018, de 31 de Janeiro de 2019, do Tribunal de Segunda Instância de Macau, tirado por unanimidade (os sublinhados a negrito são meus), e de que aqui cito dois dos últimos parágrafos:

"In casu, constatando-se a imputada "alteração da qualificação jurídico-penal" sem que ao recorrente tenha sido dada a oportunidade de sobre ela exercer o contraditório, requerendo o que por bem entendesse em sua defesa, violado foi o estatuído no transcrito art. 339.º, n.º 1 do C.P.P.M. que, por sua vez, origina a "nulidade" prevista no art. 360.º, al. b) do mesmo código.

Aqui chegados, e apresentando-se-nos que a dita nulidade irá implica a (oportuna) observância do estatuído no art. 339.º, n.º 1, prejudicadas se nos afiguram todas as restantes questões colocadas no âmbito do presente recurso".

Ora bem, nem foi preciso continuar com os restantes argumentos. Logo à segunda a casa veio abaixo.

Nulidade tão grave que se revelou insanável e obrigará à repetição do julgamento. Razão tinha o Presidente do Tribunal de Última Instância quando pedia na cerimónia de abertura do ano judicial que deixassem os juízes trabalhar sem pressões.

Esta manhã o ar de Macau era bem mais puro. Estão de parabéns o Pedro Leal e o Jorge Menezes. O Paulo Cabral Taipa, o Paulo Cardinal e o Conselheiro Leal-Henriques também. Gente de bem.

Sem advogados, procuradores e juízes bem formados, sem medo, corajosos, que não estejam enfeudados à oligarquia local, e que sabem ler a lei de boa fé, qualquer sistema jurídico, do primeiro ou do segundo sistema, se torna numa bandalheira a soldo do poder económico e empresarial. Havia quem o quisesse. Camaleões. Girinos. Não tiveram sorte nenhuma. Por agora o direito e a justiça prevaleceram. Ainda bem.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 28.01.19

aristides

"As we mark Holocaust Remembrance Day on Sunday, we should honor this man who engaged in what one historian called "perhaps the largest rescue action by a single individual during the Holocaust.", Richard Hurowitz, New York Times, 27 de Janeiro

Pese embora o esforço que alguém fez para obscurecer a sua indelével marca, é reconfortante saber que passados todos estes anos um dos mais conceituados e lidos jornais do mundo honra a sua memória, mantendo-a viva para os seus leitores.

Um exemplo que nunca será demais recordar, em especial porque ele não o fez a troco de dinheiro, de títulos ou da glória, ao contrário de algumas sumidades locais que gostam de mostrar a sua beneficência.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 25.01.19

esquecimentos

O ruído, seja ele qual for, é sempre um problema para quem tem de escutá-lo durante horas a fio. E por aqui, quer-me parecer que só estão  preocupados com aquele que é produzido durante as horas de descanso, que para a maioria das pessoas são as do período nocturno.

É pena que não se preocupem também com o ruído durante as horas de trabalho, nos edifícios onde funcionam serviços públicos, escritórios, clínicas, consultórios, creches, salas de estudo; isto é, locais de trabalho onde a realização de obras segue os mesmos horários dos edifícios residenciais, o que me parece não fazer qualquer sentido.

Se há direito ao descanso, e há, também há um direito ao trabalho e ao estudo com condições ideais de concentração e sossego. E com berbequins a toda a hora, com o chão a tremer, e o pó a entrar pelos gabinetes, vindo pelas condutas e de mais sei lá onde, ninguém faz nada de jeito. Um tipo só ganha em irritação e dores de cabeça.

Digo isto porque me parece que seria do mais elementar bom senso que em edifícios de escritórios, como aquele onde trabalho, cujo ar condicionado é central e só funciona das 8:00 às 18:00, exactamente porque a partir desta última hora a maioria sai, fosse adoptado um regime horário para execução de obras nas fracções que não perturbasse quem está, quer e precisa de trabalhar ou estudar.

Seria por isso ajuizado que em edifícios exclusivamente de serviços e escritórios se impusesse a regra de que obras ruidosas só poderiam realizar-se, por exemplo, entre as 18:30 e as 08:00, durante os dias úteis, aos sábados a partir das 13:00, e aos domingos e feriados a qualquer hora do dia. Podem ter a certeza de que toda a gente agradeceria, incluindo aqueles que querendo dar conta das encomendas e dos prazos ficam impedidos de dar continuidade às obras ao domingo.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 21.01.19

leituras

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"Somos a nossa memória, começou por dizer, a memória determina o que sentimos, o que sabemos, o que imaginamos, o que intuímos, somos a nossa memória e quando lhe perdemos o acesso, mergulhamos num vazio inimaginável, sem acesso à memória não poderemos saber dos valores morais que nos guiam, dos amores e dos medos, das ambições, dos erros e fracassos, tornamo-nos tão imprevisíveis e misteriosos como qualquer recém-nascido, mas enquanto o recém-nascido é um desmemoriado programado para criar memória, para se tornar um adulto autónomo e independente, estes desmemoriados estão impedidos de criar e guardar memórias, estão impedidos de tornar a ser, de mentis, do latim, mente vazia, podemos dizer sem exagero que se assiste à construção do nada, percebe?" (Dulce Maria Cardoso, Eliete, Tinta-da-China, Lisboa, 2018, pp. 244/245)

 

Parti para a sua leitura sem saber o que iria encontrar, embora pensasse que de uma consagrada como Dulce Maria Cardoso, vencedora de inúmeros prémios, traduzida e publicada em duas dezenas de países, nunca se pode esperar pouco. E não me enganei.

Não sei se existe aquilo a que já alguém chamou uma "escrita no feminino", expressão que considero detestável mas que entendo como querendo referir-se a uma escrita feita por mulheres e que por isso mesmo carregaria um estilo muito próprio, com preocupações que não seriam as decorrentes de um texto sobre o mesmo tema escrito por homens.

Pensei nisso várias vezes ao longo da leitura desta "Parte I A Vida Normal". A vida de uma mulher escrita por outra mulher, num período histórico muito próprio, percorrendo momentos pré e pós-revolucionários, a revolução social operada em Portugal e o universo muito particular e espacialmente localizado de Cascais e da linha do Estoril, percorrendo a emancipação profissional e sexual da mulher, os dramas da família e do casamento, a partida, a separação, a ausência, a dor, o esquecimento, o nascimento, a velhice e a morte. Um olhar que até no julgamento que faz de Jorge se torna cruel de tão cristalino. 

Está lá tudo numa narrativa consistente, com uma escrita poderosa, que flui e nos agarra ao longo das quase três centenas de páginas, antes de um final que será tudo menos expectável. A linguagem é desprovida de ornamentos, forte, por vezes mesmo agreste, rude, apesar de perfeitamente enquadrada nas cenas descritas, nas deambulacões da personagem principal. 

Costumo dizer que os melhores livros são os que me surpreendem pela qualidade da escrita do seu autor e pela projecção da narrativa. Quando um livro me faz esquecer as suas páginas ao longo da leitura, para me fazer saltar as suas próprias barreiras e é capaz de me levar para uma outra dimensão do pensamento e da palavra, com a mesma simplicidade com que me transporta ao longo dos seus parágrafos, quase como que projectando as suas diversas histórias numa só, e misturando as nossas com as do texto, é sinal de que está muito para lá daquilo que é o romance ou a novela convencional, fazendo esquecer a obra em que todos os cânones se revêem, são respeitados, onde tudo surge muito limpinho, muito formal, muito compenetrado e insípido.

O sal da escrita de Dulce Maria Cardoso está na luz que projecta, no modo como ilumina ao leitor o trajecto de Eliete e o faz dele participar, muitas vezes sem que seja possível para quem lê aperceber-se logo das opções tomadas pela autora e da multiplicidade de sentimentos que assolam vidas aparentemente simples e normais. Como que a dizer-nos que não existem vidas simples nem normais. Há apenas vidas. Cada uma tem a sua cor. O segredo está em saber colocá-las todas nas páginas de um livro, sem cansar e enriquecendo-nos a memória.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 18.01.19

frase

4913426918493990.jpeg(Fotograf: Beat Mumenthaler, Schweiz)

"Há uma nova geração de judeus húngaros, que ele [Viktor Órban] não os ataca directamente, porque tem agora inimigos diferentes, que são os refugiados. Os refugiados são os judeus de hoje (...)" – Eva Koralnik, 82 anos, sobrevivente do Holocausto, tradutora em 1961 no processo de Eichmann, ontem, na Universidade de Macau

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 17.01.19

reacções

"The ultimate measure of a man is not where he stands in moments of comfort and convenience, but where he stands at times of challenge and controversy" (M. L. King)

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 13.01.19

preocupações

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Quando era miúdo não apreciava por aí além, até as coisas mudarem depois de adulto. De Verão nunca foi uma tentação, mas a partir do Outono e, em especial, durante os dias de inverneira azul dava por mim, muitas vezes, a pensar quando chegaria o Domingo para irmos comer um cozido à portuguesa. Sem frango nem batatas, que para mim sempre estavam a mais.

Hoje quis cumprir esse ritual e fui à procura do cozido. Não há?, foi ontem. Ontem? Mas ontem foi sábado. E ninguém avisa? Pois, agora é assim.

Vai ser menos uma preocupação. Até que possa voltar à Paisagem e ao senhor Paulo, ou ao Camponês, acabou-se o cozido ao Domingo. Passa a ser um dia como todos os outros.

Sem cozido, é certo, mas também sem o espectáculo da mesa da frente, onde um cachorro vestido de rapaz, com o impermeável azul que devia ter ficado à porta, lambia sofregamente o prato do doce. No final a mãe limpou-lhe a boca. 

Os tempos mudam. E não avisam.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 12.01.19

limites

 

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(direitos reservados, foto de Teresa de Almeida Correia)

"Viver na sua cidade e não se sentir escorraçado dela é um direito primário que assiste a qualquer um. Ser mais bem tratado na sua cidade e no seu país do que aquele que vem de fora, para visitar ou viver, é o mínimo que um cidadão tem direito de esperar do seu governo" (Miguel Sousa Tavares, Quantos turistas queremos?, Expresso, 12/01/2019)

 

O Dr. Alexis e a Dra. Maria Helena deviam ler e mandar traduzir para chinês. Para que os senhores do Gabinete de Ligação também possam ler. Antes que nos afundemos todos em gás pimenta.

(com os meus agradecimentos à Estátua de Sal por tão oportuna partilha)

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 10.01.19

futuro

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Aqui há uma década, um amigo meu quis desenvolver um projecto pioneiro na área dos veículos eléctricos, a ser concretizado no Algarve. Procurou para esse efeito obter o apoio do Governo, nomeadamente do responsável pela pasta do Ambiente, bem como sensibilizar os autarcas e a influente estrutura regional. Embateu então num muro invisível de betão, feito de desconfianças pessoais e políticas, muitas promessas e, acima de tudo, falta de vontade política. Perdeu-se o projecto e uma boa oportunidade de dotar o Algarve e Portugal de uma rede pioneira de automóveis de aluguer eléctricos.

Noutras paragens, as necessidades de combate à poluição urbana, de redução das emissões e de protecção da saúde dos cidadãos aguçaram o engenho. Sem fundos europeus a financiarem os projectos, mas com um poderoso investimento público, a opção pelo transporte eléctrico avançou. Desde logo em relação aos transportes públicos, mas com extensão aos veículos privados, sejam motociclos ou automóveis, dos mais pequenos e familiares aos desportivos.

Já em tempos neste espaço dei conta do choque, no bom sentido, que foi para mim regressar a uma pacata e atrasada vilória de pescadores que em pouco mais de duas décadas passou de alguns milhares de habitantes para mais de 12 milhões.

Quanto nessa altura voltei a Shenzhen, é esta a cidade de que se trata e hoje uma das capitais tecnológicas do novo Império do Meio, por onde aliás têm passado membros do Governo português, fiquei surpreendido com o desenvolvimento, a pujança de que a cidade dava mostras e a revolução urbana que empreendera: avenidas largas, passeios seguros, relativo equilíbrio entre zonas arborizadas e cimento e autocarros eléctricos.

Se quanto à frota de autocarros já se sabia desde o ano passado qual o nível atingido –  no final de 2017 havia mais de 16 mil autocarros eléctricos em circulação –, desde ontem ficamos igualmente a conhecer que a cidade tem agora a maior frota de táxis eléctricos do mundo. Num universo de mais de 21 mil táxis, 99% são eléctricos.

Os resultados alcançados,no seguimento do que aconteceu numa outra cidade chamada Taiyuan (Shanxi), são notáveis em matéria de redução de emissões e qualidade de vida dos habitantes da cidade e das regiões vizinhas.

Bem sei, daquilo que me dizem os especialistas, que ainda não existe uma solução que resolva de vez o problema das baterias usadas. Em todo o caso, ainda assim, creio que os ganhos são superiores aos custos e não posso deixar de pensar como é possível fazer tanto em tão pouco tempo numa cidade com a dimensão de Shenzhen.

E nesta pequena cidade onde vivo, com pouco mais de 600.000 almas e rios de dinheiro e desperdício, não é sequer possível substituir um número infinitamente menor de autocarros e táxis velhos e poluentes pelos seus congéneres eléctricos num prazo de meia dúzia de anos. 

Shenzehn é por isso mesmo a prova final, para quem ainda duvidasse, de que não basta dinheiro. É preciso arrojo, boa governança, capacidade de planificação e de decisão política, gente qualificada, transparência nas escolhas, critério no investimento público e, sobretudo, um controlo impedioso da corrupção e do tráfico de influências.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 08.01.19

explicações

A notícia divulgada esta manhã pela TDM-Rádio Macau de que se prepara para iniciar funções na Assembleia Legislativa de Macau uma juíza-desembargadora recrutada em Portugal, poderia ser motivo de satisfação para todos os que estão verdadeiramente preocupados com a escassez de quadros técnicos especializados na RAEM, com a falta de juristas qualificados e conhecedores do sistema jurídico de Macau, com os atropelos à Lei Básica e com a crescente ausência de portugueses.

Porém, as circunstâncias em que acontece levam-me a recordar brevemente o que sucedeu de 14 de Agosto de 2018 para cá.

Por essa altura, o Presidente da AL, Ho Iat Seng, comunicou, por carta, aos assessores Paulo Cardinal e Paulo Cabral Taipa a não renovação dos respectivos contratos de trabalho. Sem qualquer justificação.

Depois disso, o próprio Presidente da AL e o seu Vice-Presidente, irmão do Chefe do Executivo, convém recordá-lo, esclareceram, em diversos momentos, que se tratava de uma decisão perfeitamente normal, que não havia nada a apontar aos "dispensados", que da sua saída não adviria qualquer prejuízo para o trabalho da Assembleia Legislativa, tanto mais que essa casa continuava a ter um quadro de mais de duas dezenas de assessores, entre os quais quatro juristas portugueses, e, finalmente, que estaria em vista uma reestruturação dos serviços de assessoria, pelo que nesse contexto seria normal a saída daqueles quadros.

Muita gente estranhou. Nada fazia sentido. Houve deputados que não ficaram satisfeitos com a decisão, pediram explicações, não obtiveram respostas.

A opinião pública ficou com a certeza da partida de dois quadros valiosíssimos, tomou nota das palavras do presidente da AL e ficou a aguardar a reestruturação.

Creio que ninguém, talvez com excepção de alguns caciques dependentes do poder político e dos seus favores, acreditou na bondade das palavras e das intenções do Presidente da AL e da Mesa.

O pouco, muito pouco, que ainda restava de confiança num potencial futuro candidato a Chefe do Executivo agora perdeu-se de vez.

Não é só pelo facto desta decisão ser, de novo e a totods os títulos, incompreensível, face às circunstâncias e atentas as explicações então dadas para a dispensa dos assessores Cardinal e Taipa da AL, e de ser um desastre comunicacional e um violento descarrilamento político por parte de quem a tomou aos olhos da opinião pública. É que esta decisão volta a colocar a nu (pelo menos para quem ainda não as conhecesse) as debilidades de Ho Iat Seng enquanto dirigente, Presidente da AL e potencial interessado no cargo de Chefe do Executivo.

Escusado será enumerar aqui, tantas e tão evidentes são, todas as suas fragilidades (deixo essa análise para o pessoal do Gabinete Central de Ligação da RPC na RAEM), mas seria no mínimo legítimo que alguém questionasse:

(1) As explicações que foram oportunamente dadas pelos Presidente e Vice-Presidente da AL para a dispensa de Paulo Cardinal e Paulo Cabral Taipa;

(2) O processo de recrutamento de quem vem, isto é, quando e como começou, por decisão e recomendação de quem e que outras candidaturas foram apreciadas;

(3) As qualificações e qualidades que recomendam a pessoa contratada para assessora da AL, designadamente se tem experiência de produção legislativa;

(4) O grau de conhecimento que a pessoa recrutada tem de Macau, da RPC, do sistema jurídico e judiciário da RAEM, em especial das matérias ligadas ao jogo e aos direitos fundamentais na Lei Básica;

(5) Se frequentou, e quando, algum "curso de adaptação" para aprofundamento dos seus conhecimentos do Direito local, já que isso também é exigido pela AAM a qualquer advogado que venha de Portugal e queira exercer a advocacia na RAEM;

(6) Se a pessoa contratada tinha anteriormente trabalhado em Macau, na RPC ou na RAEM;

(7) Se é bilingue, isto é, tem conhecimentos de português e chinês, posto que esta seria uma mais-valia face aos dispensados;

(8) Se a contratação se insere no processo de renovação da AL;

(9) Se inserindo-se, eventualmente, nesse processo de renovação da AL há alguma explicação para se contratar uma pessoa a caminho dos sessenta anos;

(10) Qual o lugar que vai ser atribuído à pessoa contratada na hierarquia dos assessores da AL (talvez o CSM devesse ter sabido disto antes de dar autorização para evitar que a contratada fique na desconfortável – e desprestigiante – posição de alguns outros que de cócoras a tudo se adaptam).

Finalmente, interessa não perder de vista que a decisão de contratar um cidadão português não esconde o que aconteceu. E só serve para atirar areia para os olhos dos incautos.

Os atropelos cometidos no processo de levantamento da imunidade ao deputado Sulu Sou, e a forma como alguns residentes falantes de português reagiram ao que se fez, é quanto basta para se ter a certeza de que a nacionalidade não é garantia de coisa alguma. 

Lamento que a senhora juíza-desembargadora chegue a Macau no actual quadro. Espero que tenha sucesso e possa contribuir para o bem da AL e da RAEM. Resguardando-se, e à magistratura portuguesa, do que aí vem.

Porque em matéria de dignidade, lisura de processos e nobreza de carácter o que a dispensa da AL dos assessores Paulo Cardinal e Paulo Cabral Taipa e o processo Sulu Sou têm gerado dariam para um tratado com vários volumes sobre a pequenez e a mediocridade de alguns seres. E faz-nos temer pelo futuro. Muito.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 29.12.18

linhas

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Estava tudo preparado. Era inadiável e teria de ser nesta altura ainda que tal ocorresse num momento em que estaria desacompanhado.

Ciente do relativo baixo grau de dificuldade da intervenção, confiando nas mãos de quem  há muito conquistara pelo seu mérito a “outorga do direito de mexer no corpo e na alma dos outros”, como há dias dizia numa belíssima entrevista o Prof. José Fragata, encarei o que me estava destinado sem qualquer apreensão.

Quando já depois de preparado para o ritual me vieram medir a pressão arterial e a frequência cardíaca, esta última espantando a simpática enfermeira, desconhecedora da minha condição física e do treino a que disciplinadamente me entrego, quando vislumbrou os 49 que a maquineta registava, estava convicto de que iria correr bem e certo de que dentro em pouco estaria tudo terminado. Pura rotina, portanto.

No bloco operatório, ainda antes de partir durante algumas horas para outras paragens, tive oportunidade de registar a boa disposição dos que me rodeavam e com eles trocar algumas palavras para logo me perder na distância das luzes do tecto.

Tudo terminado, rodeado pela eficiência e profissionalismo com que as coisas haviam começado, voltei a mim, sentindo desde logo o desconfortável despertar da anestesia e a impossibilidade de respirar normalmente, pressentindo aquela desagradável sensação de aperto na bexiga que eu sabia que me iria incomodar ainda durante algumas horas.

Obtida a alta e iniciado um curto período de descanso e recuperação até à primeira consulta, confirmava-se o sucesso da cirurgia e um lento regresso à normalidade, pese embora sentisse ainda a garganta muito dorida.

Recebidas as recomendações para os dias seguintes, até que me voltasse a apresentar numa segunda consulta, regressei a casa e procurei seguir à risca o que me fora dito.

Nessa noite não consegui evitar dois espirros, a que se seguiu um terceiro na manhã seguinte quando fazia as necessárias abluções à zona que fora mexida.

De repente, no meio desse ritual, sinto algo desprender-se do meu nariz. Vindo do seu interior, no que de início pensei ser alguma crosta, coágulo ou qualquer secreção que se libertava no pós-operatório, saiu uma pequena placa com a forma de uma vela, aí com uns seis centímetros por dois na sua parte mais larga.

Confesso que nesse momento fiquei em pânico perante a perspectiva de com os espirros e as lavagens ter dado cabo do trabalho que dias antes tão minuciosamente havia sido feito.

Sozinho, sem saber o que fazer, visto que também era impossível recolocar a placa onde estava, tentei contactar com o meu médico. Nada feito, tinha-se ausentado. Enviei um e-mail . Na volta só recebi silêncio.

Resolvi então pegar no telefone e falei com alguém no hospital onde estivera. Queria contactar o homem que me operara. Passados alguns minutos fui esclarecido de que essa tentativa se revelara igualmente infrutífera. Estava incontactável. A solução seria eu deslocar-me até às urgências do hospital onde estivera internado para que um otorrino pudesse avaliar a situação e aconselhar-me o que necessário fosse.

A proposta era inviável. Eu estava a mais de trezentos quilómetros e não iria fazer de novo esse percurso de regresso ao local de onde saíra dias antes no estado ainda dorido e debilitado em que me encontrava.

Entretanto, falei com a outra metade de mim, que sabendo das minhas preocupações e do, muitas vezes, excesso de previdência com que rejo a minha vida para evitar correr riscos desnecessários, me aconselhou a que não fosse piegas. “Se não te dói nada, se te sentes bem, para que vais tu outra vez para o hospital incomodar as pessoas? Vais à consulta de dia 27 e vais ver que não é nada”, ouvi do outro lado da linha.

Passados alguns minutos recebo uma chamada telefónica. Era do hospital. Aconselhavam-me a ir à urgência mais próxima de minha casa. Agradeci a sugestão, fiquei a matutar.

Vesti-me devagar, desprezando, por cautela e receio do que mais pudesse suceder, movimentos bruscos. Embrulhei a placa num lenço de papel, procurei as chaves do carro e meti-me ao caminho. Pouco convencido, mais por descargo de consciência do que por convicção ou impulso de necessidade.

De facto, nada me doía. E também não me sentia pior do que antes daquele momento em que a placa fora expelida pelo meu organismo. Aparentemente estava tudo bem. Mas eu precisava de alguém que me tranquilizasse, que me garantisse que não teria, inadvertidamente, feito asneira. Sofria só de pensar na perspectiva de ter acabado de estragar um trabalho bem feito. E caro.

Uma médica jovem e interessada recebeu-me prontamente nas urgências. Consciente do melindre da situação logo após o meu relato inicial, disse-me que iria chamar um especialista. Este não estava ali de momento mas havia sempre um preparado para acudir a alguma situação mais grave. Que aguardasse um pouco e já me diria alguma coisa. Momentos volvidos teve o cuidado de vir ter comigo e de me dizer que já tinha falado com quem me iria ver, alguém cujo nome eu sabia ser de um dos melhores, e que bastaria aguardar mais alguns minutos para estar a ser observado.

Enquanto esperava fui pensando em mil e uma coisas. No aborrecido que era estar a incomodar alguém numa altura em que todos, reunidos em família e ansiosos com a hora de abrir os embrulhos, estão mais preocupados com o bacalhau e o peru do que com a sorte dos outros, tanto mais que corria o sério risco daquele episódio ser perfeitamente normal e de estar ali prestes a fazer figura de medroso, servindo como motivo para todos se rirem e gozarem com a minha excessiva preocupação perante situações que à generalidade das pessoas só exigem calma, paciência e pensamentos positivos.

É aquele senhor, esclarecia a médica que antes me recebera enquanto acompanhava o sujeito que acabava de chegar e que eu reconhecera ser, pelas fotografias que vira, o Prof. X. Devia ter menos de sessenta anos. Provavelmente da minha idade, mais coisa menos coisa, embora parecesse mais envelhecido e com os brancos que eu não tenho.

— Então o que é se passa?, perguntou enquanto me cumprimentava. Foi o Y que o operou?

Relatei-lhe a minha inesperada aventura, mostrei-lhe a placa que logo me assegurou ser de silicone. Sem me deixar terminar perguntou-me pela garganta. Não lhe dói nada? Não, está só dorida. Então e a outra? A outra, balbuciei. Não sei de nada, não saiu mais nada. Sente-se aí, ordenou-me, temos de ver onde ela está.

Com o poderoso foco à frente dos meus olhos, enquanto o Prof. X ia mexendo nos instrumentos, percebi que havia ali alguma preocupação. Baixei as pálpebras, passaram mais uns longos segundos; por fim ouvi um “já localizei”. Menos mal. “Vamos ver se consigo lá chegar, mas para isso preciso de um mais comprido, para ir buscá-la”.

Quando me apercebi de que “a outra” também tinha saído fiquei mais aliviado. Respirei fundo. Já está safo, disse o Prof. X. Depois, na quinta-feira, quando for à consulta diga ao Y o que aconteceu. Os pontos cederam. Deve ter feito muita força. Já pode deitar isso fora. Fez bem em ter cá vindo porque logo à noite, quando se deitasse, sufocava. Não lhe doía, não o incomodava, não deu por nada...

Naquele momento percebi a sorte que no meio de tudo me acompanhara. Uma ténue linha separou o sucesso da tragédia. Uma linha invisível, incontrolável, que podia ter transformado uma intervenção bem sucedida numa inacreditável sucessão de azares com todos os ingredientes para terminar da pior forma nas primeiras horas de um Dia de Natal.

Paguei a minha visita e saí. Circulei então pela cidade, até acabar por estacionar junto a um centro comercial. Deambulei por ali olhando para os outros, vendo-os passar apressados com os sacos coloridos das últimas compras de Natal. E pensei na injustiça que seria se tudo tivesse terminado de outra forma. Para quem me operou, para quem contribuiu para que tudo corresse bem e tivesse um final feliz. Como nos filmes habituais da quadra.

Aos poucos revi mentalmente o filme dos acontecimentos. Libertei-me daqueles momentos de incerteza e da forma tão pouco convicta como me fizera à estrada.

Terminados estes dias, cinco anos passados sobre a última vez que estivera em casa pelo Natal, senti que havia sido brindado por uma espécie de taluda invisível. De cujo verdadeiro valor praticamente ninguém se apercebeu. A não ser o Prof. X naquele instante em que segurou a ponta e a puxou. Hoje o meu rosto será igual ao de ontem, conterá os mesmos sulcos e as dúvidas e incertezas de sempre. Condescendo que um dia assumirão outras formas para eventualmente se repetirem noutras circunstâncias. Quem sabe se noutros lugares. Talvez até com outros como eu. Tudo isso é possível.

De uma coisa, porém, fiquei mais seguro. Morrer só se morre uma vez. Nascer pode acontecer repetidas vezes numa única e simples vida. Basta uma ténue linha. Não é preciso sequer vê-la. Há quem lhe chame sorte. O nome é irrelevante. A diferença é que desta vez vi-a. Senti-a. Sem dor, sem aviso prévio. E houve alguém que comigo a viu, e me disse, para que eu pudesse aqui contá-lo. O que não me fazendo mais feliz do que era antes ainda assim pode ser descrito. Como se fora um conto e nunca tivesse acontecido.

A vida é uma ténue linha. Irrepetível. Por isso é tão importante aprender a vivê-la. E reaprendê-lo tantas vezes quantas as necessárias para que continue a fazer sentido percorrê-la. Com sentido. Com a consciência de que ela existe. E de seguir a linha, essa ténue linha, diariamente. Sabendo por onde se vai, por vezes sem apercebê-lo, ao sabor dela.

Seguindo-a, seguindo-a, seguindo-a, silenciosamente, sem pressas, até que desapareça na linha do horizonte. Quando a noite cair. E os nossos olhos se voltarem a fechar. Numa ténue linha.

Um Bom Ano para todos vós.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 12.12.18

sopro

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De repente, como se esse não fosse um assunto prioritário há muitos anos, eis que gente com responsabilidades governativas e empresariais se lembrou de explicar, finalmente, a necessidade da RAEM recrutar pessoal especializado no exterior para as áreas em que está carenciada.

As posições saloias, irrealistas e ignorantes de alguns deputados caem assim por terra. Já não era sem tempo.

A necessidade de recrutamento de pessoal no exterior é uma exigência fundamental para o progresso da RAEM. Um imperativo para melhorar a qualidade do serviço que é aqui prestado, corresponder às necessidades e anseios desta comunidade e dar competitividade interna e externa às empresas locais.

É lamentável que alguns deputados tenham levado os últimos anos a atacar os não residentes e os "estrangeiros" movidos por uma cegueira xenófoba e nacionalista que os impedia de perceber o mal que estavam a fazer a Macau e às suas gentes.

A RAEM tem milhões de turistas e ainda assim continua com falta de muita gente. Um drama em relação ao qual houve quem ainda não tivesse percebido a dimensão.

Macau precisa de médicos especializados e de especialistas na área dos transportes que sejam capazes de dar resposta aos cada vez mais graves problemas de circulação urbana. Mas também necessita de técnicos qualificados em matéria ambiental, de instrutores de condução que não ensinem os instruendos a circular pela faixa mais à direita das vias de rodagem, de condutores de autocarros, de pesados e de táxis mais civilizados, de polícias que saibam orientar o trânsito nas rotundas. E de  muitos mais operários especializados e empreiteiros exigentes. Quero dizer, de quem saiba construir habitações de onde os azulejos não comecem a cair ao fim de alguns meses, o lixo das obras não fique escondido dentro dos tectos falsos, atrás dos armários das cozinhas e casas de banho, e onde o calor, o frio e o vento não entrem pelas frestas das portas e janelas como se não existisse material isolante e de calafetagem.

E se olharmos para o que se passa na área do turismo, da hotelaria e dos restaurantes, salvo raras excepções, o panorama é aterrador.

Macau precisa de mais e melhores chefes de cozinha. De profissionais que saibam confeccionar refeições decentes a preços normais sem andarem à procura da estrela Michelin. Já temos tascas e cantinas onde se come mal e se paga muito em número astronómico. Na área dos "comes e bebes" requer-se que haja gente que saiba servir à mesa, de gente que perceba que em nenhuma parte do mundo, muito menos em restaurantes para gente normal e com um mínimo de educação, se tiram os talheres sujos de um prato para os colocar em cima de uma toalha limpa ou do prato do pão, como se houvesse falta de talheres, de água ou detergentes em Macau e fosse obrigatório comer a entrada, o prato de peixe e o de carne sempre com os mesmos talheres. Um péssimo hábito decorrente da falta de exigência dos donos e gerentes de alguns hotéis e restaurantes e dos seus comensais. Uma vergonha nunca vista noutras partes do mundo, ainda pior numa cidade que quer ser capital gastronómica e do turismo de lazer sem que ao menos se aprenda primeiro a comer e a servir à mesa.

Por isso também não se pode ignorar a miséria que é para uma terra com a riqueza de Macau o atraso (e o custo) na prestação de serviços de telecomunicações e informáticos da última geração por parte de muitas empresas e bancos. Ou, ainda, a inconcebível falta de croupiers, sim de croupiers, numa terra de casinos, apenas porque não se pode contratar pessoal no exterior e os locais têm o exclusivo.

Não sei se a deputada Song Pek Kei, por exemplo, perceberá a gravidade de tudo isto. Da gravidade que é ter um membro do Governo na Assembleia Legislativa a dizer que não consegue contratar pessoal localmente para cumprir bem as suas funções. Ou se a senhora deputada tem consciência do nosso atraso em quase todas as áreas da nossa vida colectiva (e não falo do sistema eleitoral) e da importância destas pequenas coisas.

Não é fechando-se as portas e janelas, impedindo-se a entrada da luz e a renovação do ar e entregando-se a limpeza da casa a quem nem sequer uma casa de banho consegue manter limpa, proibindo-se a entrada de quem sabe e pode ajudar-nos a elevar-nos, que se melhora alguma coisa.

Antes de se promover Macau no exterior, antes de se proibir e limitar a entrada de não residentes, era preciso que se tivesse trazido alguém de fora para formar pessoal capaz e competente, alguém que ensinasse primeiro aos locais o que importa fazer e como.

Precisamos urgentemente de quem nos ajude a melhorar a nossa qualidade de vida e a prestação dos serviços que oferecemos a quem cá está e a quem nos visita.

Este não é um problema de patriotismo ou de amor à Pátria. É um problema de inteligência e de bom senso. De visão de futuro. E ainda estamos a tempo de resolvê-lo.

Ainda bem que houve alguém que fosse à Assembleia Legislativa dizer isso. Em chinês. E que também o tenha visto no Conselho Económico e Social. Quem sabe se daí não virá um pouco de luz para algumas cabecinhas que por aí circulam?     

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por Sérgio de Almeida Correia




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