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bênçãos

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.09.19

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Passaram uns dias antes que eu pudesse aqui* voltar. Resolvi fazê-lo esta manhã, aproveitando uma pequena pausa nas minhas obrigações, em jeito como que de homenagem à Melita, que faz hoje 92 anos. 

Sei que a Melita não poderá ler este texto, não está em condições de poder fazê-lo porque as vicissitudes por que tem passado já não o permitem. Por vezes, a apatia sobrepõe-se ao sorriso, sereno e terno, que sempre está presente, em especial quando ouve a nossa, a minha, voz, e aproveitando a passagem de alguém por lá consegue vislumbrar e reconhecer quem lhe acena e fala de longe a partir da imagem de um telemóvel.

Em todo o caso, foi nela em quem pensei quando no passado dia 9 de Setembro, viajando entre Kumamoto e Fukuoka, li este texto que hoje aqui vos trago de Frei Bento Domingues.

Quem me conhece, e aqui ou ali me vai lendo, sabe quais são as minhas convicções. Nunca o escondi. Fui sempre transparente, mesmo em matéria religiosa, não confundido aquilo em que acredito com a fé e a religião que muitas vezes me querem servir.

Talvez por tudo isso tenha sentido de uma forma mais profunda as palavras do cronista do Público que, pese embora muitas vezes esteja nos meus antípodas, leio com agrado. E devoção. Seja pela forma generosa como se expõe, e à sua fé, como igualmente pelo convite à reflexão, à introspecção, e a um outro olhar para o mundo que nos rodeia. Frei Bento Domingues fá-lo com extrema elegância, sem nos querer impôr nada, entrando e saindo quase sem se dar por ele, deixando, no entanto, um rasto que nos leva a segui-lo e a olhar para as suas palavras com a atenção que o autor e os seus textos merecem.

Sei que a Melita gostaria de poder lê-lo. Talvez até admitisse discutir comigo alguma da fé que de um modo tão próprio, muitas vezes sem o referir, cultivou ao longo da vida e que tão esforçadamente me quis transmitir sem grande sucesso.

Espero poder voltar a vê-la e abraçá-la dentro de alguns dias, quando finalmente a reencontrar, para voltar a ter a ternura do seu olhar e a graça do seu conformado sorriso. Por tudo o quanto a vida lhe deu e lhe tirou, sem aviso e sem que nada tivesse feito para o merecer.

Enquanto isso não acontece, deixem-me que aqui partilhe algumas das palavras de Frei Bento Domingues, a quem desde já agradeço a generosidade de connosco ir partilhando a sua fé e as suas dúvidas:

"No mês de Agosto, ao ler e ouvir ler alguns textos do Antigo Testamento (AT), indicados para a celebração diária da missa, senti-me arrepiado perante o ódio que os inspirava. Apesar da sua beleza literária, eram insuportáveis: Iavé mata e manda matar.

Deixo, aqui,  alguns exemplos: "Atravessaste o Jordão e chegastes a Jericó. Combateram contra vós os homens de Jericó, os amorreus, os perizeus, os cananeus, os hititas, os guirgaseus, os heves e os jebuseus; mas Eu [Iavé] entreguei-os nas vossas mãos. Mandei diante de vós insectos venenosos que expulsaram os dois reis dos amorreus. Não foi com a vossa espada, nem com o vosso arco. Dei-vos, pois, uma terra que não lavrastes, cidades que não edificastes e que agora habitais, vinhas e oliveiras que não plantastes e de cujos frutos vos alimentais" (...)

"Jefté marchou contra os amonitas e travou combate contra eles: Iavé entregou-os nas suas mãos. Derrotou-os desde Aroer até às proximidades de Minit, tomando-lhes vinte cidades, e até Abel-Queramim; foi uma derrota muito grande; deste modo, os amonitas foram humilhados pelos filhos de Israel" (...)

Os filhos de Israel "abandonaram Iavé e adoraram Baal e os ídolos de Astarté. Inflamou-se a ira de Iavé contra Israel e entregou-os nas mãos dos salteadores que os espoliaram e vendeu-os aos inimigos que os rodeavam. Eles já não foram capazes de lhes resistir. Para onde quer que saíssem, pesava sobre eles a mão de Iavé como um flagelo, conforme lhes havia dito e jurado; e foi muito grande a sua angústia".

Com a entrada do mês de Setembro, parece que mudamos de Deus e de mundo. São textos tirados da tradição sapiencial. Frei Francolino Gonçalves, exegeta dominicano, membro da Comissão Bíblica Pontifícia e professor da Escola Bíblica de Jerusalém, faleceu há dois anos. Deixou-nos textos essenciais para ler a Bíblia com inteligência, para não cedermos a nenhuma espécie de fundamentalismo. Hoje, evoco um que aborda, precisamente, a distinção de dois iaveísmos. Diria, por conveniência fundada, que se trata de Iavé de Agosto diferente de Iavé de Setembro. O melhor, porém, abstraindo desta circunstância, é ouvir o próprio autor, mediante um fragmento de uma grande elaboração que pode ser lida, na íntegra, nos Cadernos ISTA acessíveis na Internet.

Na Bíblia, Deus não é apresentado só com uma pluralidade de nomes, mas também com uma multiplicidade de retratos. O que a Bíblia põe na boca de Deus, ou diz dele, sugere um grande número de imagens muito variadas, contrastadas e, nalguns casos, aparentemente contraditórias. A grande maoria é de uma grande beleza, mas também as há que são de uma notável fealdade, ou até assustadoras."

Francolino Gonçalves defendeu a ideia de que não devemos atribuir esse mundo bíblico apenas à corrente nacionalista, cujo centro é a eleição de Israel como povo de Deus e a aliança entre ambos. Já havia alguns autores que tinham discordado dessa amálgama. Segundo ele, os exegetas não prestaram a estas vozes discordantes a atenção que mereciam. A esmagadora maioria parece nem as ter ouvido. Por isso ficaram sem eco, não tendo chegado ao conhecimento dos teólogos, dos partores nem, por maioria de razão, do público cristão. As minhas pesquisas nesta matéria confirmaram, essencialmente, os resultados dos estudosque referi e, além disso, levaram-me a propor uma hipótese de interpretação do conjunto dos fenómenos religiosos do AT, que é nova. A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro na história da relação de Iavé com Israel.

Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT.

3. Dei a palavra a Francolino Gonçalves. Na homenagem internacional que lhe foi prestada, na Universidade de Lisboa e no Convento de S. Domingos, no passado mês de Maio, a questão dos dois sistemas iaveístas foi objecto de várias intervenções. Eu próprio, na homilia que me pediram, tentei mostrar o alcance pastoral desta distinção: quando um Deus se apresenta como tendo escolhido um povo, com o qual estabeleceu uma aliança, e este povo se considera o eleito, o povo de Deus, estamos perante um Deus nacionalista.

A causa de Deus e a causa da Nação passam a ser uma só, embora, de vez em quando, Deus manifeste que o povo depende dele, mas ele não depende do povo.

O nacionalismo continua a revelar-se como pouco recomendável para o bem da humanidade. Um nacionalismo divinizado é a peste das pestes."

Confesso que, passada uma semana, não posso deixar de estar de acordo com Frei Bento Domingues. Creio que a Melita também estaria se pudesse lê-lo. Como não pode, deixo aqui, com a devida vénia, este extracto da crónica.

Parabéns à Melita pelo seu aniversário. Parabéns a Frei Bento Domingues por nos ajudar a pensar e a ver melhor. A Melita e Frei Bento Domingues são duas bênçãos nos meus dias. Terrenas, evidentemente. Nem por isso menos divinas. E estou-lhes agradecido.

* (ao Delito de Opinião)

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excelência

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.09.19

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A saúde que é ministrada pelos serviços sob a tutela de Alexis Tam continua a dar provas de que o seu desajustamento da realidade é notável. Os serviços prestados são o espelho de quem os dirige.

Os prazos que são cumpridos, a dificuldade que é arranjar uma consulta urgente num especialista (a propósito: quantos especialistas já chegaram das dezenas cuja contratação foi anunciada?) ou realizar um exame continuam a aproximar-se rapidamente dos piores padrões a nível mundial. 

É claro que depois se pode contratar uma empresa qualquer vinda do exterior, normalmente bem paga, para carimbar a "excelência" da incompetente burocracia oficial, mas os doentes que aguentem.

Uma pessoa está com um problema do foro dermatológico a necessitar de resolução urgente, vai a um Centro de Saúde, emitem-lhe uma requisição para um dermatologista do Centro Hospitalar Conde de S. Januário e agendam-lhe a consulta para daí a uns meses. Solução: ir ao privado antes que a coisa se agrave e alastre ainda mais.

Ontem chegou-me mais um exemplo dos medíocres serviços que são prestados: um tipo queixa-se de dores no estômago há vários dias, foi duas vezes às Urgências, depois vai ao Centro de Saúde, mandam-no fazer uma endoscopia imediatamente, emitem-lhe uma requisição e o exame é agendado pelo CHCSJ para Outubro ... de 2020!!! Sim, não é engano. Até lá o paciente pode sofrer e morrer, se for o caso, com a maior tranquilidade.

A seguir, esse desgraçado em vez de ficar mais de um ano à espera, resolveu ir perguntar ao Hospital Kiang Wu se lhe podiam fazer o exame. Claro que lhe fazem o exame num prazo curto, mas as centenas de milhões que recebem da RAEM não chegam para reduzir o custo de uma endoscopia  pela qual cobram vários milhares de patacas.

A única solução para contornar o problema e que continua a funcionar é a tão colonial "cunha". 

Em vinte anos, a saúde pública de Macau em vez de se aproximar dos padrões de Singapura ou da Suíça ficou cada vez mais próxima do que se faz nos países mais atrasados, naqueles onde não há recursos públicos disponíveis para fazer face às necessidades da população. Mais uma vergonha patriótica em matéria de gestão de recursos e prestação de serviços à população numa região que caminha para ter o PIB per capita mais elevado do mundo.

O futuro Chefe do Executivo devia pensar nisto antes de pensar em reconduções.

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pansy

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.09.19

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(foto Eduardo Martins/Ponto Final)

A empresária Pansy Catalina Ho Chiu-king, mais conhecida simplesmente por Pansy Ho, foi a Genebra, ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, pronunciar-se sobre a situação de Hong Kong.

Desconheço a que título lá foi, nem indicada por quem, mas para o caso isso também não é relevante. Relevante foi o que a empresária, filha do magnata Stanley Ho, que fez fortuna em Macau, com uma licença de jogo, à sombra da administração colonial, com ela colaborando e pagando o exclusivo para assegurar benesses, resolveu fazer de porta-voz do Governo Central. Daí o amplo destaque que também foi dado às suas declarações do outro lado das Portas do Cerco.

É claro que a opinião é livre e o seu direito de livremente emitir as suas opiniões também o é. Da mesma forma que a mim me assiste o direito de publicamente a criticar e de comentar a vida pública dos locais onde vivo. Todavia, se eu estivesse no seu lugar teria usado de alguma contenção naquilo que resolveu dizer. Porque há coisas sobre as quais, quem está na sua posição, tem pouca ou nenhuma autoridade para falar.

Dizer que já fecharam muitos negócios, que muitas crianças fugiram de casa para se tornarem "lutadores radicais na linha da frente e cometerem actos criminosos", que há "exploração infantil" e que devia ser dada "uma reprimenda aos organizadores e às pessoas que influenciam com a criação de ódio e violência extrema" até estaria muito certo se, por um lado, tivesse apresentado quaisquer provas, coisa que não fez, e, por outro lado, não estivesse numa situação de total dependência de Pequim e das autoridades de Macau quanto à continuação das suas actividades na área do jogo. E como se isso não bastassse ainda se atreveu a falar em "lavagens cerebrais". Como se as políticas "patrióticas" e o que se faz do outro lado não fosse isto mesmo, como se a campanha de educação nacional, em relação à qual não me lembro de lhe ter ouvido uma palavra, também não tivesse esse objectivo. Como se todos tivessem pais que lhes pagassem os estudos em Palo Alto ou na Universidade de Santa Clara. 

Repare-se que já em Julho, em declarações à Agência Lusa, resolvera dizer que Ho Iat Seng era a pessoa certa para governar Macau.

Percebe-se porquê. Toda a gente sabe que Pansy Ho está numa encruzilhada. Está aí à porta um novo concurso para atribuição de licenças de jogo, sendo seu objectivo garantir uma, ou mais, dessas licenças para as empresas a que está ligada. Presumo que esta seja uma outra forma de patriotismo. Essa e comprar casas de 900 milhões de dólares de Hong Kong, valor obsceno em qualquer parte do mundo, ofensivo da generalidade da população de Hong Kong e Macau e que devia envergonhar os seus apoiantes comunistas que deram destaque às declarações que fez em Genebra. 

Independentemente das razões que possam estar por detrás das suas opções políticas, e dos subservientes elogios que entenda fazer ao status quo, que tanto tem contribuído para o engrandecimento dos seus negócios, seria bom que enquanto empresária, através das suas empresas, se preocupasse também em prestar melhores serviços às populações de Macau e de Hong Kong.

Nas declarações que fez, Pansy Ho ignorou o sentimento de revolta social de muitos cidadãos, o sentimento de insegurança em relação ao futuro, e que a sua gula, bem como a de outros empresários como ela, tem contribuído para o progressivo agravamento das condições de vida desses cidadãos, muitas vezes através da imposição de condições "leoninas" nalguns dos seus negócios, noutras pela prestação de serviços cada vez mais caros e deficientes.

Veja-se, por exemplo, o caso de Macau e a forma agressiva como se comporta em matéria imobiliária em relação aos que entram em negócios consigo, impondo muitas vezes condições que seriam inaceitáveis numa sociedade equilibrada e em qualquer outra parte do mundo civilizado.

Nos apartamentos em que já vivi construídos pelas suas empresas, por exemplo ali na Taipa, a qualidade de construção é baixa, os acabamentos muitas vezes miseráveis, tudo feito às três pancadas e à pressa, as casas são geladas nos dias frios, com um calor insuportável no Verão e húmidas o ano todo devido ao mau isolamento térmico. O mau funcionamento dos sanitários é uma constante, o cheiro que vem das casas de banho é não raro insuportável, e cheguei a ficar com torneiras na mão e com a água a correr durante um ror de tempo até que a gente da manutenção ligada ao condomínio resolvesse o problema. No entanto, os preços são elevadíssimos para a qualidade da construção e para a má qualidade dos serviços que prestam. Basta comparar com o que se faz em Portugal.

Também no caso do serviço de jetfoils a qualidade do serviço é muito deficiente. As condições das embarcações são deploráveis, dos assentos à limpeza. Os horários muitas vezes não são cumpridos, o pessoal é rude no tratamento com os passageiros, muitos não falam um inglês aceitável para quem opera no sector do turismo, pede-se uma cerveja e nem copo trazem, quando trazem é de cartão, a comida é péssima, mesmo na Super Class, e de há uns tempos a esta parte assistimos à crescente supressão de carreiras entre o Aeroporto de HK e Macau, o que é motivo de insatisfação e de incómodos para muita gente. 

Para além disso, penso que seria de todo o interesse que a empresária revelasse os valores salariais que paga aos seus trabalhadores em Macau, de acordo com as respectivas categorias, e que publicitasse essa informação.

Pelo que me é dado saber, mas se estiver enganado poderá corrigir-me e eu serei o primeiro a reconhecê-lo, os valores médios dos salários que paga também são baixos e a maioria tem menos férias e menos dias feriados do que um estafeta no meu pequeno escritório. A empresária devia ter vergonha disto. Ela e muitos patrões de Macau.

Naturalmente que para a empresária tudo isto é irrelevante.

O que infelizmente interessa, para ela e muitos outros, é continuar a enriquecer a todo o gás, tirando partido da dimensão atingida pelas suas empresas e da proximidade ao poder para conquistar novos negócios e impor condições aos mais fracos, assegurando a manutenção de posições de domínio e esquecendo a melhoria da qualidade dos serviços das suas empresas e a função social da criação de riqueza. Se para isso for necessário cortar liberdades, alinhar num discurso securitário, fazer de capacho ao poder, pedir um reforço do autoritarismo policial e elogiar as políticas de governos não eleitos e não escolhidos pelo povo, não há qualquer problema.

Havendo uma crise, Pansy Ho terá sempre dinheiro suficiente para se mudar para qualquer outra parte do mundo e recorrer a uma nacionalidade que não a chinesa. De preferência para um país onde haja liberdade, democracia, tribunais independentes e boa qualidade de vida para aí poder continuar a fazer negócios e a viver bem, garantindo um bom futuro para os filhos. Quem não puder sair de Hong Kong e Macau que se lixe. Ela terá sempre uma casa no Peak ou em qualquer outro lado.

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resumindo

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.09.19
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(Ring Yu | HK01 via AP)

 

I had not given myself the choice to take an easier path and that is to leave. I’d rather stay on and walk this path together with my team and with the people of Hong Kong.”

As declarações desta tarde da Chefe do Governo de Hong Kong podem ajudar a esclarecer alguma coisa sobre o que se está a passar, mormente quanto à sua consistente falta de aptidão para resolver a crise política e social em que a Região Administrativa Especial de Hong Kong está mergulhada.

O caos está instalado há várias semanas. Pelo que hoje se ouviu estará para continuar. 

Diz Carrie Lam que até ao momento nunca apresentou a sua demissão ao Governo Central, que jamais discutiu com este essa possibilidade, e que a decisão de continuar, não se demitindo, é exclusivamente dela.

Nada disto, e a forma veemente como o afirmou, permite a alguém concluir que não seja assim. Daí, talvez, que a própria refira que não quis escolher o caminho mais fácil – admito que para ela e para Pequim –, preferindo ficar e prosseguir com a sua equipa e "o povo de Hong Kong".

Sem querer dar toda a razão ao cronista Alex Lo (Hong Kong: a failed political experiment), quando categoricamente nos diz que Hong Kong é um falhanço tão grande que conseguiu colocar de acordo "mainlanders" e chineses de Taiwan, talvez que a explicação do desastre – visto não em termos teóricos, pois continuo a pensar que o princípio "um país, dois sistemas" tem virtualidades, mas em termos práticos – resida na admissão de factos, por parte da senhora Carrie Lam, que não têm qualquer correspondência na realidade.

Fê-lo noutras ocasiões. Repetiu-o hoje para confirmá-lo. 

Quando a Chefe do Executivo assume que não se demite porque quer continuar o caminho com a sua equipa e o povo de Hong Kong, isso estará  muito certo quanto à sua equipa. A sua equipa foi convidada, aceitou o convite, foi nomeada, e é paga (bem) para isso. Mas quanto ao povo de Hong Kong, quem é que lhe perguntou se queria a senhora Carrie Lam a mandar? Quando é que o povo se manifestou? E perante a crise actual, e com toda a inaptidão revelada pela senhora e a sua equipa, alguém perguntou ao povo de Hong Kong se queria prosseguir com a actual Chefe do Executivo? Pagaram ao povo de Hong Kong para aceitá-la?

A mim parece-me que a Chefe do Executivo de Hong Kong se predispôs, uma vez mais, a transportar no seu veículo passageiros que há semanas não se cansam de berrar, e alguns até de vandalizarem vidros e estofos, para vincarem a sua posição. Isto é, que não querem prosseguir a marcha nas actuais condições; e ainda menos se conduzidos pela senhora. E acrescentam entre gritos e choro que só continuarão dentro daquele veículo à custa de muita pancada. 

Poder-se-á sempre dizer que o povo de Hong Kong não escolheu, e que também não manifestou oportunamente a sua oposição à solução negociada. E que até poderia tê-lo feito no tempo colonial. Em todo o caso, quanto a este ponto, penso que como qualquer pessoa de bem e de boa fé confiou no que lhe foi prometido, tanto pelo tutor colonial que lhe foi imposto após a Guerra do Ópio, como pelo mãe biológica da qual fora apartado há mais de 150 anos. 

Vinte e dois anos depois da transferência de soberania, embora tivesse começado a dar sinais anteriormente, a confiança desmoronou-se de vez.

Como num qualquer contrato de casamento, um dos cônjuges, neste caso o povo, fartou-se das juras e das promessas não cumpridas pelo outro, o Chefe do Executivo de HK. Juras e promessas avalizadas pelo sogro que vive em Pequim. Vê-se por aqui que não se trata, obviamente, de uma relação entre mãe e filho, ao contrário do que candidamente pensava Carrie Lam, ainda em Junho, em mais uma leitura distorcida da sua situação, digamos assim, político-familiar.

A senhora Carrie Lam, mais a mais sendo pessoa evangelizada e habituada a ouvir homilias, devia saber que por mais que os anos passem um casamento por conveniência só será eterno se a ele não sobrevir o sofrimento e a infelicidade de uma das partes. Se a estes se juntarem depois os maus tratos físicos, verbais e psicológicos por parte de um cônjuge autoritário e dominante, então estarão criadas as condições para a louça se começar a partir e os móveis voarem pelas janelas e varandas. Tudo perante a revolta dos filhos trintões que, não conseguindo arranjar casa para se mudarem, se sentem injustiçados e estão fartos de assistir às cenas de insulto e de estalada à hora da novela. A paciência destes é igualmente um recurso finito.

E é claro que chamar o vizinho, só porque é um primo bem colocado na polícia, com amigos em Macau e da confiança do sogro, para bater no cônjuge queixoso e nos filhos incompreendidos, em vez de procurar acalmá-los e resolver o problema sem violência, como gente civilizada, também poderá não ser a melhor solução. No limite zangam-se todos, não fica nada de pé, e ainda correm o risco de chegarem a 2047 deserdados pelos tios que têm o negócio das antiguidades e velharias.

Em termos sucintos é assim que estão do outro lado do delta do rio das Pérolas.

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herói

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.08.19
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(LUSA/KIMIMASA MAYAMA)

Um homem com a história de vida de Jorge Fonseca merece todo o respeito do mundo. Um homem com a coragem, a perseverança e o talento de Jorge Fonseca é um campeão. Um campeão para o ser não precisa de medalhas. Jorge Fonseca não precisava de nenhuma medalha para ser um campeão. Mas depois de tudo por que passou, e de tudo o que fez, se ainda consegue ser campeão do mundo de judo no Japão, batendo um outro campeão na final, e arrecadando uma medalha de ouro, isso é a conquista do universo. E um homem que consegue conquistar o universo de uma forma tão simples e humilde como ele o fez, que é como quem diz, conquistar a admiração de todos nós, dentro e fora de portas, é um homem que nos emociona, e que tornando-nos ainda mais pequeninos do que já somos nos faz sentir enormes. Quem tem este condão pode ser tu-cá-tu-lá com todos nós. E como isto não se explica, o Jorge Fonseca tem todo o direito de ser recebido como quer, com toda a gente a dançar, até mesmo pelos pés-de-chumbo. E qualquer que seja o resultado que venha a obter nos Jogos Olímpicos de Tóquio, ele entrou para a galeria exclusiva dos meus heróis. Porque os meus heróis têm nome. Este chama-se Jorge Fonseca e a única coisa que posso dizer-lhe é, na minha língua, que é também a dele, obrigado. Ficar-lhe-ei a dever a vida toda, tal como a muitos outros, mas não me importo, e peço-lhe desculpa pela franqueza. Tão simples quanto isto.

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blue

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.19

Lá fora chove intensamente. Cai o céu em mais uma noite de tempestade tropical. Relampeja e troveja quando, a propósito do admirável documentário de Bruce Weber, recordo o fabuloso Chet Baker e ouço Almost Blue.

Há sempre uma encruzilhada na vida de um homem normal. Talvez várias na vida de um homem que escape à mediania. Uma ou várias implicam escolher. Pode ser a decisão de dar ou não dar um beijo, o destino de uma paixão, a escolha de um amor (sim, o amor também é uma escolha). Para alguns a descoberta de uma vocação, por vezes a opção entre uma vida livre a sofrer ou uma do tipo vegetativa, rica e sem dramas. Com princípio, meio e fim, ignorando a dor, própria ou alheia.

Tirando aquela parte em que o entrevistador pergunta a Chet Baker qual terá sido o momento mais feliz da sua vida, cuja compreensão — digo eu, que não sou tão exagerado como ele ou Faulkner — só está ao alcance de um alfista(*), recordo aquele momento em que Baker, olhando para si próprio, diz o que aconselharia a um filho. Era mais ou menos isto: descobre o que queres ser, vai por ti, e depois procura ser um génio no que escolheste.

O problema é que nem todos têm o mesmo grau de loucura nas escolhas que fazem para atingirem a genialidade. E depois é preciso levar o resto da vida a conviver com isso. Uma chatice.

 

A diferença entre um homem e um génio está na sua dose de loucura.

E ser capaz de colocá-la ao serviço dos outros dando prazer a si próprio. Seja na literatura, na pintura, na música, na medicina, num artigo de jornal ou numa sala de audiências, sem nunca se esquecer que a genialidade só pode ser reconhecida se no meio de toda a loucura o génio ainda for capaz de realizar que vive em sociedade. E por causa dela.

Os outros tornam os génios menos infelizes quando reconhecem a sua loucura. Sem dizê-lo. E ao tirarem partido dela, em cada instante, ainda quando não o reconhecem, ajudam a prolongá-la. A realização do génio passa por trazê-lo até à nossa dimensão. Até à ignorância. É nisso que está a genialidade. E só os que humildemente o aceitam conseguem atingir esse estatuto. Almost Blue.

21539474_zKiM7[1].jpg(a foto tem direitos de autor)

(*) Contra tudo o que se poderia imaginar, Baker diz ter sido o momento em que guiou pela primeira vez o seu Alfa Romeo. Eu não vou tão longe, embora não possa deixar de sorrir.

(via Delito de Opinião)

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comentadores

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.19

O comentador oficial da Associação dos Advogados de Macau (AAM), isto é, desde 1995, com excepção do longo interregno entre 2000 e 2002, queixou-se de que os órgãos de comunicação social de Macau ouvem sempre os mesmos comentadores. Também me parece.

Quando o li até pensei que era o Guilherme Valente a queixar-se. Depois lembrei-me que já cá não mora. Nem ele nem o Camões.

É, em todo o caso, um problema sério e com raízes.

No tempo do governador Almeida e Costa já era assim. O Dr. Assumpção também se queixava do mesmo. Depois melhorou quando se andaram a fazer aquelas negociatas no tempo do Melancia. Como os comentadores andavam ocupados a enriquecer com as concessões e as obras não tinham tempo para comentar. E com o general Rocha Vieira as coisas também não andaram bem. Não havia comentadores. Só rumores. E quando alguém queria comentar pensavam logo em comprar o jornal. Ou o comentador. Alguns até vinham em excursão de Lisboa. E pronto, estava o comentário feito. Primeiro era à saída do Terminal do Porto Exterior, depois à chegada à sala VIP do Aeroporto.

Mas no essencial estou plenamente de acordo com as críticas. O queixoso tem toda a razão. Aliás, penso que devia queixar-se mais vezes. Não sei se já terá pensado fazê-lo ao Senhor Procurador. Ou ao Comissário Contra a Corrupção. 

Oxalá que o Dr. Rui Cunha (devia convidá-lo para as tardes da Fundação) e a Dra. Manuela António tenham tempo para ouvirem as suas queixas. O Dr. Frederico Rato não deve ter muito tempo para isso porque também anda ocupado a comentar. É como o meu amigo Miguel Senna Fernandes. A Dra. Amélia tem de contratar os artistas para o arraial e ultimamente só fala de portugalidades. E o Dr. Leonel Alves tem de dar uma mão ao Duarte nas coisas do Benfica. Gente ocupada. 

De qualquer modo, não se compreende que não lhe dêem ouvidos. A malta da imprensa sempre foi torcida. Rocha Diniz que o diga. Uma chatice.

É que, além do mais, só no escritório desse comentador da AAM, que às vezes também comenta para a Sociedade Nam Van, para os casinos, para a TDM, e mais uns quantos que assim de repente me lembro, há umas três dezenas de advogados, advogados-estagiários e juristas sempre disponíveis para comentarem todas as questões de actualidade jurídica e jurídico-política da RAEM.

E na AAM, que não é um sindicato nem um partido político, há mais três (e havia ainda mais um magistrado jubilado ao serviço do CSA que saiu e deve estar agora mais disponível para comentar).

O facto do Prof. Arnaldo Gonçalves não estar cá, do nosso Embaixador Carlos Frota acumular na TDM e no JTM, do Dr. Rangel se fartar de comentar no JTM e do nosso Albano estar no JTM e no Macau Daily Times não explicam tudo. São sempre os mesmos. E as opiniões não variam muito.

Ao Dr. Jorge Menezes sei eu que ninguém paga. Nem os gajos do Expresso nem os da RTP. Está mal. Vá-se lá saber porquê. Ele não cobra mas deviam pagar-lhe. Podia ser que assim deixasse de comentar.

E o Dr. Paulo Cardinal da única vez que comentou fizeram-lhe a folha na Assembleia Legislativa. O Dr. Taipa não comentava mas também lhe fizeram a folha antes que se lembrasse de começar a comentar. Era só o que nos faltava. O Taipa a comentar? O gajo dava-nos cabo da loja.

Eu faço o que posso, apesar de não poder ir a todas.

Espero, pois, que para o ano também seja dada uma oportunidade ao Dr. Paulino Comandante de presidir às comemorações do Dia do Advogado. E que seja ele a dar a entrevista anual à TDM por ocasião desse evento. Consta que o jornalista Gilberto Lopes está cansado de ouvir sempre o mesmo discurso (com nuances, é certo, em função do estado do tempo) e gostava de poder variar. Isto é, de fazer nesse dia uma entrevista em patuá jurídico.

Para não serem sempre os do costume. Quer dizer, o comentador do costume. O queixoso.

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fiscais

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.08.19

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Esta fotografia foi tirada na Av. Sir Anders Ljungstedt, esta tarde, por volta das 14:45. Do lado oposto ao BNU, próximo, entre outros, do MGM, do L'Arc, do Star World, da esquadra da PSP, da Direcção dos Serviços de Turismo e da Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental. O cenário é o habitual e reproduz-se noutros edifícios e locais do NAPE.

Centro Mundial de Turismo e Lazer? Cidade cosmopolita e virada para o turismo? Cidade limpa e agradável para se viver, circular e receber turistas? Ou capital do esterco e pardieiro para "excursionistas", agiotas e outros da mesma estirpe? Será que o IAM tem fiscais? O Dr. Alexis Tam costuma sair à rua? Isto é aceitável?

Se em vez de perderem tempo a identificar transeuntes no Largo do Senado, por causa de manifestações inexistentes, fizessem aquilo para que lhes pagam, talvez esta cidade fosse um pouco melhor, menos porca e com cidadãos mais civilizados.

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excursionistas

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.19

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(créditos: JTM)

Duas notícias, ambas relacionadas com o sector do turismo e publicadas ao lado uma da outra, na edição matinal do HojeMacau (22/08/2019), chamaram a minha atenção.

A primeira dessas notícias, com o título “Despesas – Turistas gastam menos 20,7% per capita”, dava conta de que os gastos médios por visitante durante o 2.º trimestre de 2019 tinham caído 20,7%, ou seja, menos 1583 patacas por visitante comparando-se com o mesmo período do ano passado. Acrescentava-se, curiosamente, que as despesas dos visitantes de Singapura, Coreia, EUA e Reino Unido cresceram em termos anuais.

Já a segunda notícia, com o título “Entradas – Número de visitantes cresce mais de 20 por cento até Julho”, informava que mais de 23 milhões de pessoas visitaram a RAEM nos primeiros sete meses do ano, correspondendo esse número a um aumento de mais de 20% face a igual período do ano transacto. Sendo feita a distinção entre “excursionistas” e “turistas”, admitindo eu que os segundos viajem sozinhos, verifica-se que aqueles aumentaram 33,6%. Todavia, este aumento teve como contrapartida que estivessem menos tempo em Macau. O grosso do fluxo veio da RPC, quase 17 milhões, representando este número um acréscimo de 21,7%.

Compulsados estes dados, afigura-se evidente concluir que o aumento do número de turistas que se verificou foi triplamente negativo. Não só gastaram menos, como permaneceram menos tempo, ainda contribuindo para a degradação das condições de circulação e de vida dos residentes e um aumento da poluição gerada, visto que os “excursionistas” deslocam-se de autocarro.

Os números divulgados mostram bem o baixo nível do turismo que chega a Macau. É cada vez pior.

Eu preferia ter menos turistas, mas mais qualificados, gastando mais e permanecendo mais tempo.

As multidões de “excursionistas” que enxameiam as nossas ruas e largos, falando alto e dando encontrões em quem passa, podem servir para fazer as delícias das estatísticas da DST, da Dra. Helena de Senna Fernandes e do Secretário Alexis Tam. Mas tirando algumas caixas de bolos e cosméticos que comprem, só servem para nos darem cabo do sossego e da cidade.

Já era tempo de olharem para os números dos “excursionistas” que vêm do interior da China e perceberem que a continuarmos com um turismo tão desqualificado não iremos a lado nenhum, e acabar-se-á por dar cabo do pouco que ainda resta de agradável na RAEM.

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democracia

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.08.19

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Desconheço qual seja o critério de José Pacheco Pereira (Visão, 14/09/2019, p.35) para classificar Hong Kong como uma democracia.

Se uma terra onde o Chefe do Executivo, que tem de merecer aprovação de Pequim, e o órgão legislativo não são escolhidos por sufrágio directo e universal pode ser considerada uma democracia, então as teses do cronista estão muito próximas das do PCC e da Dra. Sónia Chan, que ainda há dias na Assembleia Legislativa também considerou Macau uma democracia.

Hong Kong, como Macau, não é, nunca foi, uma democracia. Por mais cambalhotas que se dê. E é exactamente por Hong Kong não ser uma democracia, e ter sido prometido à sua população, nos artigos 45.º e 68.º da Lei Básica, a democracia e o sufrágio universal, que ali se luta. Não é pela manutenção do status quo deixado pelos ingleses que se trava o combate. Fosse isto e a senhora Carrie Lam e as forças pró-Pequim estariam felizes e contentes.

Um cronista não se pode deixar iludir pelas bandeiras que vê nas reportagens televisivas.

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exposição

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.08.19

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(foto daqui)

Esteve antes em Lisboa, e já aí está há alguns dias, mas como não sou muito dado a inaugurações e vernissages só no fim-de-semana, sem holofotes nem confusão, lá fui.

E confesso que fiquei francamente agradado com o que vi, não tendo por isso qualquer relutância em aconselhar uma visita. Refiro-me à exposição de fotografia comissariada por Rogério Beltrão Coelho que tem por título "Macau: 100 anos de fotografia". Está patente na Casa Garden e vale bem o tempo exigido.

Arrumada em dois pisos, com pormenores deliciosos nalgumas imagens que por lá se vêem, e para quem, dos mais novos, não conheceu a belíssima Praia Grande – antes de darem cabo dela da mesma forma que destruíram o património histórico edificado, e continuam a dar, para aprovarem e erguerem os monos que hoje temos, feios e degradados, os quais não serviram para outra coisa que não fosse o enriquecimento de alguns dos nossos tribunos e de mais meia dúzia de cavalheiros –, é uma oportunidade de revisitar o passado.

Da recordação dos muros que circundavam a baía ao Largo do Senado, ao Clube Militar, à muralha do Quartel de S. Francisco, à Penha, ao velho Palácio, ainda sem estar enclausurado, à construção da sede do BNU ou à frágil beleza das meninas da Rua da Felicidade, tudo completado com mapas antigos e filmes da época, está lá uma significativa parte da história do último século de Macau. 

O catálogo que me foi dado apreciar reflecte o cuidado colocado na mostra e constitui motivo mais do que suficiente para serem dados os parabéns a quem patrocinou, organizou e comissariou.

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descalabro

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.08.19

Uma pequena crónica de Dinis de Abreu chamou a minha atenção. O título é “O descalabro da Global Media” (JTM, 31/07/2019).

Para quem não sabe, convém dizer que a Global Media se anuncia como “um dos maiores grupos de Media em Portugal, marcando presença nos se[c]tores da Imprensa, Rádio e Internet”, contando no seu universo com “marcas de referência como a TSF, marcas centenárias como o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias”, entre outras de menor projecção e história. É também accionista da LUSA, “maior agência de notícias de língua portuguesa”, onde detém uma participação de 23,36%, de que é accionista maioritário o Estado português.

E que nos relata o experiente e reputado cronista? Em resumo, que o património do DN foi entregue à “gula imobiliária, perante a indiferença do Município [Lisboa] e do Governo”, que a sede do JN seguiu a “mesma lógica de vender os anéis para salvar os dedos”, que o Grupo tem vindo a ser paulatinamente destruído, entrou em colapso e tem o futuro comprometido.

Admito que haja quem tenha ficado espantado com o que aconteceu. Eu não.

Vejamos resumidamente os factos.

Em Novembro de 2016 foi anunciada a entrada da KNJ (Investment) Limited, liderada pelo empresário Kevin King Lun Ho, na Global Media, através de um investimento de 17,5 milhões de euros. A KNJ fora constituída em 2012 tinha como objecto social o “investimento imobiliário”, acrescentando depois o investimento “médico e saúde”, bem como “a restauração”, esta vista como “comes e bebes”, e não recuperação de antiguidades e velharias ou restauração de imóveis.

Quando li a notícia confesso que não percebi o que iria uma empresa com tal objecto fazer para um grupo de comunicação social. O programa anunciado parecia-me coisa a atirar para o megalómano, mas o apelido Ho, o facto do empresário ser sobrinho do primeiro Chefe do Executivo e director do Banco Tai Fung ainda deixava a hipótese de haver mais do que castelos no ar.

Já antes de isso, em Outubro de 2016, o próprio Kevin Ho dissera que “o conteúdo dos media do grupo não sofrerá alterações e não haverá despedimentos”, o que bem se compreendia porque em 2014 uma reestruturação da Global Media levara ao despedimento colectivo de 134 pessoas. A Global Media preparava-se para voltar aos “seus tempos de glória”, tendo para isso um plano a dez anos. Ora bem.  

Oito meses depois da assinatura do memorando, o Clube Português de Imprensa escrevia que o dinheiro de Macau estava “em falta na Global Media”. Assim, sem mais, de chofre.

Um ano volvido sobre a primeira data, em Novembro de 2017, o então vice-presidente da Global Media, anunciava que Macau iria dirigir a rede externa do grupo, cuja ambição era conquistar quotas de mercado nas áreas digitais e no espaço económico que representa a língua portuguesa”. Havia “a ambição de crescer”, e como “Portugal não conseguiu encontrar relações de parceria com o mundo lusófono eficazes e consistentes”, havendo necessidade de “proteger o jornalismo, encontrando formas de o pagar”. Como se isto fosse pouco, Kevin Ho ainda iria “ajudar a LUSA a desenvolver-se”. Um verdadeiro mecenas.

Pelo caminho, os 17,5 milhões de euros prometidos eram afinal 15 milhões, verba nada desprezível, mas situação normal entre quem se habituou a lidar com milhões como quem lida com tremoços e por isso nunca sabe quanto dinheiro tem disponível para “investir”.

Com uma regularidade impressionante, em Novembro de 2018, não sabendo eu se a escolha do mês tem algo a ver com as cheias que por essa altura do ano ciclicamente ocorrem nalguns locais, Paulo Rego deixou de ser vice-presidente do Grupo, passou a administrador não-executivo. Eu fiquei ainda mais desconfiado e pensei para com os meus botões: a água está a chegar à casa das máquinas.

Ainda em 2018, os trabalhadores começaram a ver atrasos nos pagamentos a que tinham direito, e 2019 viria confirmar, tristemente, as desconfianças que tinha quando, depois de ter lido que não iria haver despedimentos, me apercebi de que Ho se preparava para despachar uns meros duzentos trabalhadores, e começava a pairar o espectro da insolvência, pois não havia dinheiro para pagar aos fornecedores. Apesar disso, ainda há duas semanas, Kevin Ho admitia reforçar o investimento na Global Media. Visão de futuro, claro.

Neste momento está tudo muito mais transparente. Não há ninguém que em Portugal não esteja satisfeito. Até o Presidente português se reúne com o Sindicato dos Jornalistas, para comer umas chouriças e beber um copo de tinto, digo eu.

Dinis de Abreu está preocupado com o facto de Proença de Carvalho ficar “com o nome manchado e ligado ao naufrágio”. Pois eu não estou.

Tirando Stanley Ho, a CESL-ASIA e um ou outro dos antigos, fico preocupado, isso sim, com a imagem que alguns empresários locais ultimamente dão de cada vez que se metem em cavalarias. Andam de braço dado com aqueles autarcas que por lá temos, muito holofote, muito croquete, muita viagem, e no fim nada. Há tempos era um investimento gigantesco em Tróia. Depois veio a Global Media. Amanhã dizem que será um hotel no Porto. Anunciam sempre imensos milhões, projectos fantásticos, a longo prazo; depois é ver os balões esvaziarem-se rapidamente, os foguetes encherem-se de humidade e os milhões evaporarem-se. Serão mal aconselhados?

Seria interessante saber o que o Presidente Xi e os conservadores dirigentes do Partido Comunista Chinês pensam destes “investimentos”. Ou melhor, deste tipo de empresário.

E que nos dissessem se a imagem que um empresário delegado de Macau à Assembleia Popular Nacional, sobrinho de Edmundo Ho, deixou em Portugal em tão pouco tempo – “um descalabro”, escreveu Dinis de Abreu – se coaduna com os projectos de cooperação com os PALOP, com a estratégia do Fórum Macau ou com o objectivo “uma faixa, uma rota”.

Uma coisa é dizer a um jornal local, à laia de humor negro, que em Macau “não há especulação imobiliária”. Ou que não é necessária uma lei sindical. Ninguém o leva a sério. Outra é ser patriota, ter um nome sonante, e deixar em Portugal aquela pegada.

No fim, a gente revê o filme e só pergunta, entre nós, aqui, que contribuição deu Kevin Ho, através da Global Media, para a credibilidade e prestígio dos empresários de Macau? E aos investimentos chineses na Europa? Que confiança se transmitiu?

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campanha

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.07.19

O prazo para apresentação de candidaturas a Chefe do Executivo só termina amanhã, o que não impede que a pré-campanha, ou mesmo campanha eleitoral, já tenha começado. É preciso reconhecê-lo.

Embora tivesse sido anteriormente referido que os candidatos não podiam fazer campanha antes do período eleitoralmente definido, tendo-se esclarecido que não lhes seria  possível "promover os respectivos programas políticos", o certo é que a campanha efectivamente iniciou-se mesmo sem promoção do programa político. Sim, para quê perder tempo a promover o programa político e a discutir ideias com antecedência?

O candidato Ho Iat Seng teve o cuidado de esclarecer que só iria revelar o seu programa durante a campanha, até para não infringir a lei. Só que este compromisso constitui uma falácia. Na realidade, o candidato Ho Iat Seng está em pré-campanha, não havendo ninguém na Comissão Eleitoral que, perante as notícias e reportagens que vão sendo feitas, e que uma forma ou de outra vão promovendo o candidato, tenha lançado um aviso à navegação. 

Não faz qualquer diferença em termos de resultado final, confesso. Mas dizer que o candidato Ho Iat Seng está apenas a recolher opiniões, quando objectivamente se está a promover publicamente, e à sua candidatura, junto de múltiplas associações, é apenas mais uma forma de fazer de conta. 

E de tal forma assim é que, por exemplo, até o insuspeito Jornal Tribuna de Macau (JTM), pela pena do seu director, e o Ponto Final interpretam essas acções do candidato Ho Iat Seng como campanha eleitoral.

Vejamos: no JTM, no passado dia 19 de Julho, o seu administrador, en passant, depois de todo o espaço que concedeu, e tem concedido ao candidato (não tenho nada a ver com as opções editoriais mas nada me impede de comentá-las), escreveu (não foi um simples sms) que a visita ao seu jornal fora mais uma de recolha de informações, "no âmbito da sua campanha eleitoral".

Por seu turno, o matutino Ponto Final, no passado dia 4 de Julho, titulava que "Ho Iat Seng vai visitar Associação dos Advogados em pré-campanha".

Eu nunca tive dúvidas de que o candidato estava efectivamente em campanha antecipada ou em pré-campanha. Outros observadores, como se vê, pensam e escrevem o mesmo.

E a melhor prova de que em causa estão verdadeiros actos de campanha confirma-se pelas declarações que esta manhã li, também no Ponto Final, proferidas por uma fonte ligada "à comunicação de campanha do candidato" e por um deputado, "um dos três elementos que lideram a comissão de campanha". A "fonte" referiu que não vão ser visitadas associações ligadas aos chamados democratas porque "o programa de visitas" já está "completamente cheio". O segundo, embora dizendo que essas visitas não estão postas de parte, tratou de avançar que "há mais de 10 mil associações", como que a avisar que àquelas o candidato não irá.

Compreendo a posição. Não esperava que fosse de outra forma. E no que se tem visto só têm faltado as crianças com as bandeirinhas e as flores para oferecer ao candidato.

Estivesse verdadeiramente em causa a recolha de opiniões para elaboração de um programa eleitoral sério e credível, e houvesse um pouco de decoro, e certamente que o candidato Ho Iat Seng e a sua comissão de campanha teriam agendado visitas a outras associações, para além das antecipadamente escolhidas, de maneira a contemplarem a associação do deputado Sulu Sou e outras ligadas, ou não, aos democratas.

Até porque, por maioria de razão, se o candidato estivesse preocupado com todos os residentes e quisesse mesmo recolher opiniões, então não poderia também deixar de visitar as associações ligadas aos democratas, como as do deputado Sulu Sou ou do deputado Ng Kuok Cheong. Porquê? Porque estas foram a votos pelo sufrágio directo, tiveram muitos milhares de apoiantes e são muito mais representativas da população de Macau do que aquelas que o candidato escolheu visitar durante este período de "pré-campanha".  

Mas não era nada disso que estava em causa.

A pretensa "recolha de opiniões" é apenas o pretexto para as visitas e a visibilidade do candidato. As associações dos democratas não lhe dão votos no Colégio Eleitoral. E também não fazem parte do establishment de Macau que fez, ou fazia, negócios com a Administração, com a banca e os empresários conhecidos. Nem havia que ir agradecer apoios ou futuros votos, opino eu. Por isso não interessa saber o que pensam, quais as suas preocupações, nem que propostas têm para apresentar.

Deixemo-nos, pois, de espertezas.

Os cidadãos não são todos uns labregos, vindos sabe-se lá de onde, à procura de negócios ou de promoção social, embora haja alguns com idade, educação, dinheiro q.b. e que sem qualquer necessidade se esforcem por parecê-lo para se manterem nas boas graças do candidato. E ainda que fossem uns patuscos seriam tão residentes como os outros. Há quem esteja genuinamente preocupado com o futuro dos cidadãos da RAEM e com o cumprimento da Lei Básica. Há quem não queira fazer parte da banda de suporte ao candidato a troco de uns pastéis de bacalhau. Há quem tenha outras preocupações, também quem tenha filhos e esteja interessado no futuro destes e no das próximas gerações.

Repare-se que não sou um fundamentalista da lei. Sejamos claros. Eu entendo que proibir acções de pré-campanha e a discussão e debate de ideias de um futuro programa eleitoral antes do curto período de campanha é um perfeito disparate decorrente das "especificidades" locais. Mas o que está na lei deve ser cumprido até que a lei seja, se o for, um dia, alterada. Sempre pensei assim. E é assim com tudo. Posso criticar, não deixo de cumprir por muito que me custe. Não faço de conta para me poder safar entre os pingos da chuva. 

Não posso, por isso, deixar de registar que a candidatura nasceu mal, confessadamente sem ideias e, aparentemente, por imposição autocrática. E que muito mal continua.

Fosse outro o candidato e já teria sido, no mínimo, chamado à atenção. Como Ho Iat Seng é o candidato do regime, goza da simpatia dos "capitalistas patriotas", dos que são contra a existência dos sindicatos previstos na Lei Básica, de alguns abrilistas de ocasião e das igrejas locais, calculo que esteja tudo bem. 

Antes assim. É preciso que continue tudo a correr de feição. Sem ondas. Façamos, pois, de tolos. Amén.

(Nota: O texto do JTM é do administrador, não do seu director, como aliás resulta do acesso ao link, por isso foi corrigido no texto) 

 

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infelizes

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.07.19

Compreende-se que deslocando-se a Macau e à China a convite do Embaixador da RPC em Portugal, a delegação parlamentar portuguesa chefiada pelo deputado Sérgio Sousa Pinto, presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas na AR, esteja limitada nas declarações que faz. Aliás, seria tão incompreensível que fossem deselegantes para com quem os convidou como que para o agradecimento tivessem de repetir a anterior distribuição de lambidelas.

Mas, convenhamos, dizer que o que se está a passar em Hong Kong com as leis da extradição não é preocupação da Assembleia da República, sendo preocupação dos parceiros europeus de Portugal, do Parlamento Europeu e dos portugueses, que ainda são, que aqui vivem, e ao mesmo tempo, e na posição em que está, vir discutir com a Secretária para a Administração e Justiça questões relativas ao protocolo entre a Ordem dos Advogados e a AAM, é não ter a mínima noção das prioridades. Nem dos dislates.

Com tanta coisa importante e a preocupar quem cá vive, até parece que esse seria assunto para os fulanos tratarem com a Dra. Sónia Chan.

Já não bastava José Luís Carneiro não ler jornais, e ter dito que nenhum português lhe fez chegar quaisquer preocupações sobre a eventual aprovação de uma lei de extradição, o que era mentira, como agora temos os assalariados parlamentares, dependentes profissionais dos compadrios da paupérrima política nacional, a colocarem-se na posição habitual dos meias-lecas de cada vez que saem em excursão para fora da pátria.

É o que dá andarem a ouvir quem não devem, sem se informarem convenientemente, antes de botarem discurso. Há mais mundo para fora das irmandades e confrarias habituais.

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silêncio

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.06.19

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(créditos: Ponto Final)

Há muito que se afigurava inevitável. E o inevitável chegou ontem por via do Comité Disciplinar da FIFA. Dez mil francos suíços de multa e derrota na secretaria por 3-0, perante uma selecção perfeitamente ao alcance de Macau, por violação do art.º 5.º da Taça do Mundo de 2022 e do art.º 56.º do Código Disciplinar da FIFA.

À desonra, à vergonha, soma-se agora o silêncio. O silêncio dos responsáveis pelo futebol da RAEM, que a esta hora já deviam ter apresentado a sua demissão por manifesta falta de vocação e competência para o exercício das funções em que foram investidos. Deles e dos responsáveis governamentais pela área do desporto.

Será que o Chefe do Executivo, que Alexis Tam ou Pun Weng Kun sentem alguma vergonha pelo que aconteceu com a Selecção de Futebol de Macau? E ainda assim entendem nada dizer perante o que aconteceu? Logo eles que estão sempre prontos a agitar o papão da lei até para justificarem a sua própria inércia? E o Dr. Alexis como explica que seja exactamente no Egipto, que ocupa, juntamente com o Sri Lanka e a Turquia o nível 2 de alerta de viagens da Direcção dos Serviços de Turismo, que se esteja a realizar a CAN 2019, o Campeonato Africano das Nações? 

Posso compreender, perante tantos e tão promíscuos que são os interesses que envolvem a política, o desporto e os negócios locais, que seis anos depois dos primeiros alertas internacionais ainda o Governo da RAEM não se tenha preocupado, nem se preocupe, em apresentar uma proposta de lei na Assembleia Legislativa destinada a criminalizar o tráfico de influências. Ninguém quer que a RAEM pare para ter a sua elite empresarial e política no xilindró*, fazendo companhia a Ao Man Long e Ho Chio Meng. E todos sabemos que o que aconteceu em Hong Kong com Donald Tsang e outros membros dos Governos de HK seria impensável por cá. Mas, que diabo, uma palavrinha não custava nada.

E permitiria à opinião pública perceber que o facto de haver indíviduos que dependem da casta para sobreviver não os transforma automaticatamente em mudos, nem faz deles tipos intelectual, ética e moralmente eunucos.

Há silêncios que dizem tudo. Como há mínimos para quem exerce funções públicas. Ou devia haver.

 

(* - grafia brasileira, chilindró na grafia da norma portuguesa)

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