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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Terça-feira, 28.02.17

ladroagem

 

pedro ferraz da costa fiscaliza tap.jpg

"Acho extraordinário que seja possível deitar pela janela fora dezenas de milhares de milhões de euros e ninguém preste contas sobre o que é que aconteceu. O que é que o Banco de Portugal andou a fazer durante estes anos todos? Porque é que os senhores que saem, depois de não terem conseguido tomar conta dos recados, depois já podem voltar? Porque é que há esta dança de cadeiras e ninguém assume responsabilidades em relação a assunto nenhum? O que é que nos garante que não vai voltar a acontecer?"

"Porque é que neste caso [CGD], que custa ao erário público milhares de milhões, não se pode saber?"

"Ameaça ao regime? Pobre regime se depende só disso. Era uma ameaça aos ladrões."

"Como é que é possível pensar que uma tão grande parte da população aceita que uma parte importante dos impostos, que paga com esforço, seja para cobrir coisas que ninguém sabe bem o que é que foi? Lança-se suspeições sobre tudo no geral. Eu não acredito que todas as pessoas se portem mal. Agora, acho que é muito útil saber-se que, quando se tem determinados lugares, se pode ser responsabilizado pelo que se faz. Em Portugal, temos muita dificuldade em sair deste bom rapazismo, onde ninguém diz mal de ninguém, ninguém critica, porque ‘amanhã também posso precisar’. É um ambiente péssimo."

 

Alertado pelo título de uma notícia do Observador, fui ler a entrevista de Pedro Ferraz da Costa ao ECO (economia online).

Há muitos pontos em que estou em clara divergência com Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Conselho Directivo do Fórum para a Competitividade, mas não posso deixar de concordar com ele quanto às transcrições que acima faço.

Distâncias à parte, aquilo para que o entrevistado chama a atenção não constitui nada de novo. Em causa estão factos cujo conhecimento está ao alcance de qualquer cidadão minimamente interessado, factos que ciclicamente se repetem, de tal forma que ao fim de quatro décadas de democracia são quase que assumidos como se fossem normais. Só assim, aliás, se compreende que se continuem a fazer as coisas como sempre se fizeram, nunca se percebendo muito bem quem se quer ou se está a proteger nesse modo de assim fazer. A começar pelas comissões parlamentares de inquérito que não raro só servem para o espectáculo mediático.

E embora não deixe de ser preocupante que se tenha chegado ao ponto de ser um patrão, num país de tantos trabalhadores, a fazer tais afirmações e a colocar as interrogações que todos a nós próprios há muito devíamos ter formulado, importaria não restringir o âmbito dessas questões ao universo da CGD. Eu também quero saber, e todos devíamos querer saber, quem foram, quem são, os tipos (não vou ao ponto de lhes chamar "ladrões") que beneficiaram com as moscambilhas da PT, do BES, do BANIF e de todas essas empresas que andando paredes-meias com o Estado e com alguma maltosa que andou, e que ainda anda, alguns de forma dissimulada, pela política e os partidos, beneficiam das negociatas, dos esquemas e dos empréstimos, não prestando contas a ninguém, sendo permanentemente desresponsabilizados e dando cabo dos milhões que depois sobram para os portugueses pagarem.

É fundamental saber, até para que no futuro não haja governantes a incluírem em comitivas oficiais empresários em situação de insolvência.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 25.02.17

distracções

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 (foto Daniel Rocha/Público)

O País arranjou mais um motivo para se entreter, para se perder em discussões estéreis e, provavelmente, arranjar mais uma comissão para não concluir coisa alguma.

É normal que em Portugal os dirigentes se desresponsabilizem de cada vez que há problemas nas áreas sob a sua responsabilidade ou que as suas receitas não dêem os resultados esperados. E tanto faz que sejam membros do Governo, actuais ou passados, autarcas, administradores de empresas ou responsáveis partidários. As excepções são raras e contam-se pelos dedos de uma mão.

Todavia, não existe nada de mais reprovável num dirigente do que não só desresponsabilizar-se como ainda aproveitar para atirar responsabilidades para os inferiores hierárquicos. Como se eles, dirigentes, não estivessem lá para exercerem o poder, para mandarem, para tomarem decisões, para assumirem os riscos do mando, para usufruírem dos respectivos benefícios e cumprirem as obrigações que se esperam de um dirigente, das quais uma das menos olvidável será a do legado e do exemplo que deixem para os seus subordinados, embora sejam poucos os que se preocupam com a imagem que transmitem para dentro e para fora da organização a que pertencem.

Os maus exemplos têm-se multiplicado, alguns começando mesmo na Presidência da República e na Gomes Teixeira. De S. Bento, e do papel de alguns deputados, há muito que deixou de fazer sentido falar-se do que a maioria por ali faz, pois são poucos, em especial nos maiores partidos, os que produzem algo de útil e fazem mais do que levantar o braço ou carregar num botão nos momentos das votações, funcionalizada como está, a todos os níveis, a política e o exercício da função de deputado. São deputados mas se estivessem a picar o ponto num qualquer serviço da administração pública ou numa fábrica ninguém notaria a sua falta. 

O que neste momento se repete com a saga das "offshores", com as estatísticas que ficaram por divulgar, com os 10 mil milhões que voaram nas barbas do fisco, do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e dos titulares das Finanças, corresponde ao padrão habitual (e repare-se que não estou a discutir se era devido o pagamento de quaisquer impostos ou não). Uma vergonha que é a imagem de uma boa parte da nossa elite dirigente, daquilo que temos à disposição nos partidos e nos Governos e um exemplo da forma como os responsáveis são os primeiros a se desqualificarem, protegendo os partidos essa recorrente desresponsabilização.

Sempre pensei que responsáveis políticos, administrativos e empresariais que se limitam a colocar "vistos" nas informações e propostas que lhes chegam remetidas pelos subalternos dariam excelentes amanuenses, servindo para tudo menos para dirigir o que quer que fosse. Como se essa gente não fosse paga para dirigir, orientar e decidir.

Atirar para a Autoridade Tributária a responsabilidade pelas consequências dos seus próprios "vistos" (o que é que um tipo faz com um "visto"?), bem como a ausência de resposta às propostas que lhe foram enviadas para a divulgação das estatísticas, não está ao nível do que se espera de um secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, mas sim ao nível de um cabo de esquadra.

Não admira, pois, que à medida que se vai sabendo mais alguma coisa sobre o que foi o descalabro da gestão de Núncio e do CDS-PP nos Assuntos Fiscais, um cidadão normal fique preocupado ao recordar-se de ouvir o "atira-culpas" dizer que "quando os socialistas gastarem o dinheiro que ainda resta e a festa acabar, o CDS tem de estar preparado para exercer uma vez mais o exercício do poder e a sua acção governativa". 

Como já se viu que latosa é coisa que não lhe falta, calculo que para Núncio o dinheiro que os socialistas andam a gastar será aquele que resta, ou seja, aquele que ele e os seus pares no Governo não conseguiram que saísse do país com os tais 10 mil milhões, já que só assim se compreende a desfaçatez com que o afirma.

Mas esse é um problema do visado e do partido que lhe dá guarida.

o modo como tudo isto é visto pela direcção do partido a que Paulo Núncio pertence, que se permite afirmar "que sobre o combate à fraude e à evasão fiscal, nós estamos muito tranquilos, porque sabemos muito bem o que fizemos no anterior Governo" (vê-se), é um problema dos seus militantes, dos seus eleitores e de todos nós. Como também foi, e ainda é um problema de todos nós, só para referir alguns exemplos, o que aconteceu com José Sócrates ou com as PPP, com o desempenho presidencial de Cavaco Silva, com a CGD, com a PT ou com o modo como as nossas autoridades judiciárias continuam a investigar e a julgar.

Seria por isso bom que os portugueses não se distraíssem com os núncios e as freiras que por aí arengam, nem com os seus números de feira, perdendo de vista o essencial.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 10.02.17

kapok

"At least 15 out of the 20 most generously funded organisations can be traced in one way or another to a legislator or member of the EC.", Eric Sautedé, The facts, just the facts, Macau Daily Times

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 20.01.17

doentio

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Xinhua News Agency | Sun, 2017-01-08 MACAO, Jan. 8 (Xinhua) -- Chui Sai On, chief executive of China's Macao Special Administrative Region (SAR), on Sunday expressed his deep sorrow for the passing of former Portuguese president Mario Soares and great condolences to his family.

Soares had deep relations with Macao and he would be remembered forever, Chui said, noting that Soares had visited Macao three times. (...)

 

Xi expressed deep grief over the passing of Soares and his heart-felt condolences to the relatives of the former president.

The Chinese president hailed Soares as a great statesman and an old friend of the Chinese people, who had made great contributions to the establishment of China-Portugal diplomatic relationship and its growth, as well as the settlement of the Macao issue.

China pays great attention to developing relations with Portugal, and is willing to work together with the Portuguese side to enhance cooperation in different fields, and further promote bilateral ties, Xi added. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/01/2017, 22:11:47)

 

Chinese Premier Li Keqiang on Tuesday sent a message of condolences to his Portuguese counterpart, Antonio Costa, over the death of former Portuguese President Mario Soares.

On behalf of the Chinese government and the Chinese people, Li expressed deep grief to the Portuguese side and extended sincere condolences to Soares' family.

Soares was a highly respected statesman in Portugal and made great contributions to China-Portugal friendship and cooperation, Li said. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/1/2017, 22:37:52)

 

Na sequência do falecimento de Mário Soares, homem de Estado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Primeiro-Ministro e Presidente da República portuguesa, que entre outras coisas nomeou os últimos três governadores de Macau, isto é, aqueles que prepararam e conduziram a transferência de administração de Macau para a R. P. China, José Pereira Coutinho, deputado da Assembleia Legislativa, achou por bem apresentar um voto de pesar pelo falecimento daquele português.

Tratava-se, através dessa forma singela, aliás prática normal nos parlamentos dos estados civilizados, de homenagear alguém que em vida foi importante pelas suas acções, enquanto político e homem de Estado, manifestando o reconhecimento pelo seu papel, pela amizade, a solidariedade e o acompanhamento na dor àqueles que acabaram de sofrer a perda.

À partida, nada faria prever aquilo que aconteceu. Em especial, depois do Presidente chinês, do Primeiro-Ministro da R.P.C. e do próprio Chefe do Executivo da RAEM terem transmitido as suas condolências, a sua “profunda tristeza” (“deep sorrow”) e “profunda dor” (“deep grief”) pelo falecimento de Soares, aproveitando a ocasião para sublinharem o seu papel no aprofundamento das relações com a China e com Macau, enaltecendo o seu contributo para a resolução de uma questão legada pela história, que era a questão de Macau.

Recorde-se que em todos os momentos a R.P.C. enfatizou a forma exemplar como a transição foi conduzida e a questão de Macau resolvida, pelo que seria da mais elementar justiça que a Assembleia Legislativa de Macau, pela iniciativa de Pereira Coutinho, do seu presidente ou de qualquer outro deputado, a começar pelos nomeados pelo Chefe do Executivo, tomasse a iniciativa de apresentar esse voto de pesar.

Estranhei, pois, quando ao final do dia de ontem (16/01/2017) ao ouvir as notícias me apercebi de que o voto de pesar apresentado pelo deputado Pereira Coutinho na sessão plenária da Assembleia Legislativa de Macau fora votado por apenas 20 deputados, de um universo de 33, e que daqueles que votaram só 13 o fizeram favoravelmente. Ou seja, menos de 40% dos deputados da Assembleia Legislativa de Macau votou favoravelmente o voto de pesar por Mário Soares. E, coisa nunca vista em relação a um morto que foi só o mais importante homem de Estado português do pós-25 de Abril, o único a quem Portugal concedeu, desde 25/04/1974, um funeral com honras de Estado, o voto de pesar conseguiu reunir cinco manifestações contra e fez com que faltassem à votação tantos quantos os que entenderam votar favoravelmente o pesar (13 deputados). Gostasse-se ou não do cavalheiro, Soares foi um dos que teve um papel mais decisivo para que a transição de Macau se processasse em termos susceptíveis de aplauso internacional e em termos que cimentassem a credibilidade dos Estados envolvidos no plano das relações internacionais.

Para além das inexplicáveis ausências e votos contra, houve duas abstenções. Quanto a estas verificar-se-á que vieram de deputados ligados à Associação dos Operários (Kwan Tsui Hang e Lei Cheng I). Abstiveram-se mas podiam também ter votado contra, visto que os cinco votos contra também vieram todos de sectores tradicionais ligados aos interesses comerciais, ao empresariado mais conservador, às associações de operários, aos moradores, à associação de educação e à das mulheres, e às ricas e poderosas associações de beneficência, como a do Hospital de Kiang Wu e a Tung Sin Tong.

Compreendo que para quem cresceu e singrou no obscurantismo, à sombra dos poderes tradicionais, enredado e prisioneiro de um sistema semifeudal como este que ainda hoje vigora nas margens do Rio das Pérolas, seja difícil compreender o significado das sinceras mensagens de condolências enviadas a Portugal, aos seus representantes e ao seu povo, pelo Presidente da R.P.C., pelo Primeiro-Ministro Li e pelo Chefe do Executivo da RAEM.

Mas mais aberrante e inexplicável é entender o que leva o Presidente da Assembleia Legislativa, que é membro do 12.º Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular, a abster-se e o Vice-Presidente, Lam Heong Sang, a votar contra.

Eu não quero pensar que aquela gente que votou contra e a que se absteve num voto de pesar de tão grande significado afectivo para as relações entre Portugal e Macau e entre aquele país e a R.P.C. não tenha percebido que em causa não estava a revogação da lei eleitoral ou a marcação de eleições por sufrágio directo, mas apenas uma coisa tão simples quanto um voto de pesar. Uma manifestação de dor, de sofrimento e de solidariedade para com um povo amigo.

Mas ainda mais censurável foi a atitude dos treze deputados que resolveram arranjar outra coisa para a fazer à hora da votação, entre os quais quatro deputados nomeados, mais cinco vindos do sufrágio indirecto e quatro do sufrágio directo. De alguns destes já se sabia que o seu apego a Macau, à amizade luso-chinesa, e o seu apregoado patriotismo tinham tanto de sincero quanto têm de amor às patacas, aos dólares ou a qualquer outra moeda cuja cotação esteja em alta e seja susceptível de entrar nos seus bolsos. Mas quanto a outros ficará apenas a marca da ingratidão e da hipocrisia. O morto serviu enquanto serviu os seus interesses. Enquanto lhes propiciou honrarias, negócios, obras e contratos. Agora que morreu já não serve.

Tanto quanto me apercebi não houve sequer sugestões de alteração na redacção do voto ou nos seus fundamentos, de maneira a que pudesse haver consenso na hora de votar e não fosse transmitida para o exterior a triste imagem (mais uma) que deixaram.

O voto de pesar que a Assembleia Legislativa de Macau ontem aprovou com 13 ausências, 5 votos contra e 2 abstenções ficará para sempre registado como um dos mais tristes episódios daquela casa que durante tantas décadas foi um símbolo da autonomia de Macau e da vontade das suas gentes.

Hoje, a Assembleia Legislativa de Macau não passa de uma câmara anódina de composição de interesses sectoriais, onde a vontade e os interesses do povo de Macau ficam à porta para não perturbarem os interesses das elites instaladas que vivem à conta da sua exploração e consideram que a perpetuação de sistemas iníquos de injustiça e afronta aos seus cidadãos serve os interesses da R.P.C.. Não serve. E para além de não servir opõe-se ao que é pretendido pela R.P.C. para Macau.

Na fotografia que fica não é a R. P. C. que sai mal. Porque foram eles, deputados, e não a R.P.C., que não compreenderam o sentido do voto de pesar. Foram eles quem faltou na hora da chamada, quem votou contra e quem se absteve. Foram eles que quiseram ser mais papistas do que o Papa. Podiam ter manifestado a sua discordância, esclarecido as suas razões. Uma vez mais preferiram o silêncio e a fuga. Com isso mostraram quão falsas são as suas próprias juras de fidelidade a Macau e à amizade luso-chinesa. E como não são representativos nem dos interesses da população em geral, que preza a relação com Portugal e muitos estão-lhe agradecidos, em especial a Soares, por lhes ter proporcionado a oportunidade de viverem em Macau, evitando que fossem recambiados quando não tinham documentos para aqui permanecerem, nem as comunidades residentes com raízes macaenses e portuguesas, que não poderão deixar de encarar a atitude daqueles senhores deputados como mais um sinal de ingratidão.

Não para com Mário Soares, mas para com os portugueses em geral. Para com o povo português e para com todos os que falando português aqui vivem, trabalham e contribuem para a riqueza e diversidade de Macau. Mesmo os portugueses que não votaram ou que podem ter ficado com razões de queixa do Mário Soares político não deixarão de sentir esse voto de pesar que a A.L. aprovou como um voto pastoso e de falsa dor na hora de ser transmitido. Um voto de pesar doentio e sem qualquer significado, sinal de uma maior miséria moral como a que diariamente, até nestes pequenos gestos, se abate sobre a RAEM.

(Hoje Macau, 20/01/2017)

 

Nota: Fui hoje informado de que alguns dos ausentes estariam em serviço fora da Região. Admito que desses tivesse havido mais alguns que votassem favoravelmente. Pena é que tal esclarecimento não fosse prestado anteriormente em termos oficiais, de maneira a que a comunicação social também desse conta desse facto. O que, de qualquer modo, não serve de justificação para os votos contra e as abstenções. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 15.12.16

recomendações

palacio-governo.jpgNo próximo dia 20 de Dezembro cumprir-se-á mais um ano sobre a transferência de Macau para a R. P. da China. O 17.º aniversário está já marcado pelo julgamento do antigo chefe máximo do Ministério Público, o ex-Procurador Ho Chio Meng.

O julgamento ainda agora começou, mas tudo que aquilo que já aconteceu nesse processo e o que se está a passar recomendam que neste final de 2016 se olhe com alguma atenção para o caso e para o que este revela sobre o estado de putrefacção da governança da RAEM.

Se no chamado “caso Ao Man Long” o principal protagonista, com a família em paradeiro desconhecido, longe da R.P.C., assumiu uma posição de arguido silencioso e servil, predispondo-se a arcar sozinho com os mandos e desmandos do seu exercício do poder, o mesmo não sucede com o ex-Procurador.

Ciente de que aquilo que aconteceu o compromete irremediavelmente, bem como aos familiares e amigos, e colocará a nu as fragilidades do sistema político e judicial da RAEM, Ho Chio Meng mostrou desde o início não estar disposto a ser imolado na praça pública, assumindo o papel de mais um bode expiatório da forma censurável, ética e moral, por vezes também com contornos criminais, como têm sido conduzidos os destinos de Macau pelos titulares de alguns altos cargos.

Os mais velhos ainda se recordam daquilo que aconteceu em Macau durante décadas, dos abusos a que a sua governação se prestou por parte de alguns dirigentes de má memória e da forma miserável como se portou aos olhos dos cidadãos desta terra e dos seus interesses, em especial no cunhado “último terço” do período de transição.

Esperava-se, por isso mesmo, pese embora o modo como foi criada e se consolidou a elite política local, assente numa teia de relações familiares e empresariais que sempre contou com o poder político português e chinês para se fortalecer e ilegitimamente enriquecer, que a transferência de responsabilidades para a R.P.C. pudesse alterar o figurino habitual do uso e abuso dos poderes públicos e da proeminência dos cargos para moderar a gula devoradora de meia dúzia de titulares de cargos políticos, de altos funcionários, de uma imensidão de arrivistas, sofrendo da síndrome do carro com motorista e sopa de fitas, e de empresários, normalmente sempre os mesmos e com assento em tudo que é conselho consultivo, de administração ou de gaiteiros.

A China vai cumprindo a sua parte dentro daquilo que já era esperado, com as evasivas habituais, mas genericamente em respeito pela população de Macau e pelos compromissos assumidos. Os seus desejos foram prosseguidos, coisa que não se pode dizer dos seus interesses e dos da população de Macau. Nem uns nem outros não foram devidamente defendidos com a autonomia e o auto-governo da RAEM. As sementes era más e sem sol os frutos amadureceram ruins e amargos. Hoje caem de podres.

Quem não cumpriu a sua parte foi a elite política, económica, financeira e empresarial de Macau que aproveitou a dádiva autonómica para alargar a sua rede clientelar, fazendo do abuso um direito e do dever uma circunstância de facto manipulável de acordo com as conveniências do momento.

Os resultados deste modo de estar na vida e desta forma de governar governando-se, estiveram escondidos e foram disfarçados ao longo de anos, começando aos poucos a emergir. O lixo vem sempre à superfície. O caso Ao Man Long foi só o primeiro.

Podia ter servido para alguma coisa. Uma alteração de procedimentos, uma maior consciencialização dos problemas, uma mudança de rumo que dignificasse o exercício do poder e desse razões a Pequim para não se preocupar com o que aqui se passava. Infelizmente, di-lo a História, de elites corruptas pouco se pode esperar a não ser mais corrupção e uma dose acrescida de desvario.

Quando se vê o estado de degradação a que chegaram as instituições que formalmente garantem a autonomia da RAEM, a podridão que atingiu os mais diversos sectores, em que do concubinato ostensivo entre os titulares dos poderes públicos e privados e a promiscuidade entre o poder político e os seus companheiros de viagem é de tal forma incontornável e descarada, temos o processo de Ho Chio Meng para mostrar à população quão indigno é o sentido do exercício do poder por parte de alguns.

Sobre os aspectos estritamente jurídicos do processo há aí quem tenha a obrigação legal de se pronunciar. E outros há mais habilitados que já o fizeram com oportunidade e perspicácia sem com isso comoverem um poder judicial que segue impante nas suas práticas.

A mim preocupam-me os aspectos éticos e morais da forma como a autonomia tem sido exercida, o que me leva de jacto às bizarras justificações apresentadas pela Secretária para a Administração e Justiça sobre um telefonema que fez em tempos ao ex-Procurador a propósito da candidatura de um familiar a um emprego no Ministério Público.

O esclarecimento prestado à imprensa pelo gabinete da antiga responsável pela protecção dos dados pessoais é de molde a colocar em causa toda a confiança no sistema e no seu desempenho anterior. Dizer que em 2008 a Dra. Sónia Chan recomendou um familiar ao ex-Procurador para trabalhar no M.P., mas ao mesmo tempo negando qualquer pressão sobre o destinatário do telefonema, esclarecendo que nem sequer tinha possibilidade de exercer pressão sobre ele e, "muito menos" pretender qualquer "troca de interesses”, acrescentando que acreditava que no processo de recrutamento seriam mais consideradas as necessidades reais do serviço, as habilitações, académicas e a experiência, "entre outros requisitos”, servia então para quê? Combinar uma noitada de karaoke?

Não sabemos quais fossem esses "outros requisitos". Nem se entre estes se inclui o ser familiar ou amigo de membro do Governo ou da elite política, mas a verdade é que a Dra. Sónia Chan só pela explicação que deu já devia ter sido recompensada com umas férias em Moruroa. Ela, a porta-voz do gabinete e toda a família.

As explicações da Secretária deixam sem perceber para que foi então o telefonema. Se não visava constituir uma forma de pressão sobre o ex-Procurador para dar emprego ao familiar, se havia outros requisitos mais importantes para a contratação, para que serviria o telefonema? Para dizer que estava ali? Isso o ex-Procurador também sabia.. Qualquer pessoa normal que quisesse concorrer apresentava-se a concurso, prestava provas e depois aguardaria a decisão. Se tivessem sido cometidos atropelos ou se se sentisse injustiçada poderia reclamar ou recorrer. Confesso que não percebo a quem é que a Dra. Sónia Chan pretendia dirigir-se com o seu comunicado. A mim não era. Mas parece-me óbvio que quem assim actua no exercício de cargos de tão grande responsabilidade, pensando que os outros só cá estão para lerem as suas propostas, verem-na defender a ferro e fogo o cerceamento de liberdade públicas e ouvirem-na (e ao Dr. Alexis dizer aquelas coisas notáveis sobre a Saúde que não temos e devíamos ter), não possui "talento" nem perfil para os exercer. Pela prática de factos destes, e de outros semelhantes, rolam cabeças do outro lado da fronteira. E de gente muito mais “talentosa”.

Este é o grande drama de Macau. Na gestão da coisa pública não se revelam quaisquer talentos que beneficiem a comunidade e os únicos que nos são dados a conhecer são desvendados em auditorias, investigações policiais e processo judiciais, vindo invariavelmente acompanhados de esclarecimentos delirantes. Os dirigentes “desconhecem” o que se passa sob a sua alçada e organizam excursões familiares à Suíça a expensas do erário público. Acham isso perfeitamente normal porque o superior teve conhecimento e até terá incentivado a passeata. Arrendam imóveis, mas ao contrário de qualquer cidadão normal ou dos inquilinos de alguns poderosos que quando não pagam vão para a rua, eles não pagam nada durante meses a fio, fazendo obras para seu conforto e descanso que duram a vida toda sem que ninguém lhes diga nada, os confronte com os abusos ou considere estranho o que se passa. De caminho dão trabalho a familiares e amigos pelas vias menos ortodoxas, constituem empresas e associações, por vezes depois de deixarem apressadamente cargos dirigentes na função pública, para sorrateiramente beneficiarem da incompetência dos outros "talentos" que lhes distribuem as verbas que o jogo canaliza para os nossos cofres. No fim ainda apresentam justificações que em países sem “talentos”, e onde se come muito mais queijo, quando não desse prisão valer-lhes-ia um merecido prémio num festival humorístico (estranho que com tantos talentos nesta área ainda não haja um festival de dimensão internacional).

Acredito que tudo isto seja compatível com a síndrome do carro com motorista (adoro ver aquelas pilecas verdes do IACM com um tipo sentado lá atrás), mas lamento que a R.P.C. não tenha poupado a população de Macau a este deprimente espectáculo que se prepara para continuar em cena durante largos anos se não forem tomadas medidas rápidas e em força.

As perspectivas abertas pelo comunicado do Gabinete da Secretária para a Administração e Justiça, a senhora que germanicamente guardava os nossos dados pessoais e está pronta para zelar pela igualdade das candidaturas nos processos eleitorais, são tantas em matéria de investigações (concessões, hospitais, obras estradais, polícias, alfândegas, atribuição de subsídios, festivais, etc.) que, penso eu, a TDM devia criar um gabinete para acompanhar o que aí vem em matéria de julgamentos. Depois, com os tribunais a funcionarem ao ritmo dos casinos estou certo de que a estatística poderia continuar a ser anualmente divulgada sem haver o perigo de se envergonharem os guarda-livros ou ser desencadeada a ira do presidente dos advogados.

O que há de salutar em tudo isto é que quando a Longa Marcha do Presidente Xi Jinping finalmente chegar à RAEM já não será preciso desratizar o NAPE, a Praia Grande ou os Lagos Nam Van. Com os ratos todos alinhados diante dos novos altares à espera do espeto, com as ratas exangues e sem parceiros para continuarem a parir ratinhos talentosos, só sobrarão as baratas das saunas. As gordas. As comilonas. As de utilidade turística. Mas com estas não valerá a pena perder tempo nos tribunais.

Não, não defendo uma solução do tipo Duterte, sem uma instância de recurso, suspeições de toda a ordem e uma justiça, quando convém, a todo o gás. Não sou desses. E Macau não funciona assim. Aqui é tudo mais calmo, nada de alarido. Bastaria uma boa traulitada dada por um jornal decente, no sítio certo, no exacto momento em que acabassem a massagem e se passeassem pelas lojas do Cotai. Deixava-as logo espalmadas no mármore, reluzindo as suas curvas, brilhando com os reflexos dos garridos fatos de treino de seda dos estilistas italianos ostentados pelos “nossos” turistas. E ficavam prontas para um dia, quem saberá quando, serem recolhidas pelos porcalhões do lixo.

Desejo-vos um Bom Natal. E não poupem nos presentes. Com esta gente, às vezes, um simples telefonema, mesmo à borla, sai caro.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 14.11.16

envergonhado

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A menos de um mês da data agendada para o início do 1.º Festival Internacional de Cinema de Macau, a demissão do consagrado Marco Müller, seu director, antigo responsável por festivais em Roterdão, Locarno, Veneza e Roma, entre outros, pessoa sobejamente conhecida na China e no mundo da Sétima Arte, caiu como uma bomba. E levanta muitas interrogações e perplexidades.

Enquanto o próprio não falar e apresentar as suas razões, as declarações entretanto produzidas por quem ficará com a responsabilidade de conduzir o evento daqui para a frente foram, no mínimo, hilariantes e são sinal do amadorismo e da falta de noção que por cá se tem da importância e dimensão de um evento da natureza daquele que se queria produzir.

Ninguém sabe o que vai sair do " Committee" (o festival só tem como línguas na sua página oficial o inglês e o chinês), mas bastará olhar para os currículos da presidente e dos vice-presidentes executivos para se perceber que levaram a vida toda a ler a Première, frequentando festivais e ciclos de cinema e que estão habituados a tratar por tu os De Niro, as Binoche, as Deneuve, os Scorcese e os Tarantino que regularmente desembarcam em Macau, para com eles discutirem as escolhas feitas em Berlim, San Sebastian ou nas margens do Lago di Como.

A demissão de Marco Müller é uma vergonha para Macau porque representa o fim da única garantia de qualidade que um festival de cinema, com pretensões de grandeza internacional, podia apresentar. Para este desfecho não valia a pena tê-lo trazido.

Não deixa por isso de ser estranho que alguém com o passado e prestígio do director que se demitiu, do qual não consta que seja um amador irresponsável ou esteja habituado a ser um pau-mandado de quem está no poder, fosse arriscar-se a enterrar o seu nome e reputação no Cotai. Um profissional com o prestígio internacional de Müller, construído ao longo de décadas, que inclusivamente está habituado a trabalhar na China, não precisa de Macau para nada. E, evidentemente, não está disposto a contemporizar com o amadorismo dos "talentos" locais que valeram as prédicas do primeiro-ministro chinês, na Torre de Macau, quando por aqui passou no mês passado.

Agora podem tentar salvar a face de Macau, irreconhecível de tão chamuscada, mas alguém terá de explicar, em vez de manifestar espanto com uma decisão "inesperada", como é possível que um homem como Marco Müller consiga organizar quase tudo e mais alguma coisa em todo o mundo, sempre com apreciável sucesso, e depois venha estampar-se em Macau, com todos os milhões que puseram à sua disposição, saindo a três semanas do começo do evento a que emprestou o seu prestigiado nome para a divulgação internacional e para convencer realizadores e actores de renome a por aqui aparecerem. 

É por isso mesmo ridículo que depois da sua saída se tenha dito o que que se disse, designadamente quanto a uma eventual acção judicial contra o agora ex-director, sem que fossem prestadas quaisquer outras explicações, e fazendo de todos nós parvos. E que tenha, inclusive, havido o descaramento de dizer que "vamos manter tudo o maior possível, para ser tudo igual, mas a gente vai ter mais coisas, ainda vai ter mais coisas". Mais coisas? Como por exemplo? Rifas? Algodão doce? Divergências de opinião? Esta gente está a gozar com quem? Com Pequim?

O que aconteceu com Müller já tem antecedentes não constituindo nesse ponto, infelizmente, uma novidade. É apenas mais um triste sinal da forma alucinada como por aqui se gere a coisa pública. Mas o que torna tudo isto ainda mais delirante é ver como os milhões são esbanjados em patos de borracha e afins, e em iniciativas que podendo vir a representar uma mais valia para a RAEM acabam por ser tão mal conduzidas, e de forma tão básica e provinciana, que mais se parecem com a organização de concursos de dança ou de misses no Restaurante Portas do Sol. A reacção das autoridades, pela forma e modo como se produziu, só serviu para envergonhar ainda mais Macau e as suas gentes, quase fazendo esquecer tudo aquilo que de bom, e também de muito bom, com muitos menos "talentos", meios e milhões do que aqueles que agora estão disponíveis, por aqui foi realizado durante décadas. 

O crónico nepotismo, aliás herdado da administração portuguesa e agora aliado à protecção de uma míriade de associações e sociedades comerciais sem gente, história ou meios, algumas recebendo milhões sem que se perceba bem para quê, com que finalidade, nem que resultados apresentam, é de tal forma vergonhoso e indigno da seriedade das gentes de Macau que um destes dias ainda vamos ver um anúncio nos jornais a pedir uma intervenção cirúrgica na RAEM para que seja feita uma limpeza eficaz e sem contemplações, que elimine o abundante lixo que se vê no NAPE e todas as famílias de roedores, rastejantes e moluscos que, dotados do dom da ubiquidade, se reproduzem por terra, mar e no ar em todos os negócios, concursos e iniciativas promovidas pelo ou com a chancela do Governo de Macau.

Temo, confesso, é que nesse dia seja tanta a bicharada apanhada na rede, entre graúdos e amanuenses, que acabem a ter de fazer uma ponte aérea entre Pequim e Macau para dotar o Ministério Público de procuradores trilingues, isto é, versados em cantonense, mandarim e inglês comercial, com especialização em "invoices", "subsídios" e "talentos locais" que consigam dar conta do recado.

Em todo o caso, como o seguro morreu de velho, o melhor será também tratarem da melhoria dos formulários destinados à exportação. Esgotada a capacidade de acolhimento para todos os que há anos se preparam afincadamente para se instalarem nos renovados aposentos do hotel que a Direcção dos Serviços Correccionais mantém em Coloane, seria boa ideia alargar a diversificação económica à exportação do muito mexilhão e da praga de lagostins, também conhecidos como "empresários", "investidores" e "empreendedores", que infesta as margens do estuário do Rio das Pérolas, dando cabo do habitat de espécies naturais que durante séculos mantiveram o equilíbrio e a convivência com os vermes que as marés e tufões iam trazendo ao final da tarde para a saudosa baía da Praia Grande, sem danos de maior ao ambiente, ao contrário do que hoje sucede em que até os habituais níveis de humidade de Novembro estão descontrolados. Quem sabe se o IPIM não encontraria aí um novo maná?

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 26.10.16

aflitivo

Eu supunha que episódios do tipo Relvas e do tipo Sócrates não se iriam repetir e que teriam servido de lição. Uma vez vez mais estava enganado. A leviandade com que este tipo de situações, e outras idênticas, ocorre na nossa vida pública e o modo como os partidos contemporizam com isto é aflitivo. Bem sei que os outros eram membros do Governo, um era ministro e o outro primeiro-ministro, e ambos com fortes responsabilidades políticas nos respectivos partidos, e este é apenas um capataz, mas isso não afasta a gravidade da situação nem a posição em que deixam os seus partidos.

Um tipo que admite ser nomeado por um primeiro-ministro nas circunstâncias em que este foi nunca se devia ter demitido. Ele nunca deveria é ter sido nomeado. Mas tendo-o sido, o que partido devia fazer era instaurar-lhe um processo disciplinar com vista à sua exclusão, com base no art.º 14.º n.º 2 dos Estatutos do PS que prevê a exclusão daqueles que, sendo militantes, com a sua conduta acarretarem sério prejuízo ao prestígio e ao bom nome do partido.

Enquanto os partidos não cortarem a direito e não correrem com esta gente das suas fileiras, gente que revela uma tremenda falta de carácter e de idoneidade moral para estar na política e exercer cargos políticos e/ou de confiança política, os partidos vão continuar a fenecer lentamente e a desprestigiar a democracia, afastando o comum dos cidadãos da participação e obrigando-o a procurar refúgio em movimentos sociais e outras organizações da sociedade civil. Já era mais do que tempo para perceberem isto.

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por Sérgio de Almeida Correia




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