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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Sexta-feira, 24.11.17

estranhezas

Infarmed-1060x594.jpg

Desligado como vou estando dos fait-divers da pátria, estranho cada vez mais algumas notícias que me vão chegando e que vou lendo aqui e ali. Não se tratam sequer de comentários de terceiros, mas de puros factos sobre os quais fico depois a matutar.

Mal refeito, se é que se refez, da desastrosa gestão política da desgraça dos incêndios, do caso do armamento de Tancos e da atribulada candidatura do Porto a sede da Agência Europeia do Medicamento, eis que o Governo tem agora entre mãos a trapalhada do Infarmed

O primeiro-ministro diz que a comunicação "não foi a melhor". Está no seu direito de ser caridoso. O presidente da Câmara Municipal do Porto, ao que parece também sem pensar muito, ficou todo contentinho com o anúncio da mudança, o que numa situação destas – refiro-me ao atabalhoamento que se manifesta na forma como tudo foi preparado e anunciado, bem como pelas reacções de descontentamento dos trabalhadores (outra coisa não seria de esperar) –, revela em todo o seu esplendor um provincianismo atávico, muito pouco condizente com a postura moderna, inovadora, refrescante que tem assumido e que eu julgava ser a dele. Uma vez mais estava enganado. Basta ver a linguagem utilizada por ele para se referir aos que criticam a decisão.

Como alguém diria, é lá com eles. A mim é-me neste momento indiferente que transfiram o Infarmed para o Porto, para o Faial ou para as Selvagens, desde que não me chateiem nem me venham cravar. Mas que tudo isto me faz cada vez mais espécie, muita, é inegável. E não me sentisse eu (ainda) tão português (que raio de condição esta que à distância me faz sofrer tanto só de ouvir pronunciá-lo e de saber que o sou) mandava-os a todos para as urtigas.  

Pior do que esta cegada do Infarmed só me lembro mesmo daquela das secretarias de Estado do Dr. Santana Lopes. Pensadas com os pés, espalhadas pelo país e com os motoristas a fazerem aos 500km quase todos os dias para irem a Lisboa buscar e levar chefes de gabinete, adjuntos e assessores foram rapidamente abandonadas sem que alguém tivesse feito as contas aos verdadeiros custos e aos benefícios.

Se há tempo para mudar o Infarmed, como foi dito, qual é que foi então a pressa em anunciar as coisas, ainda com tudo por pensar e resolver? Estavam com saudades do Garcia Pereira? Somos um caso perdido. E caro.  

 

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 17.10.17

canalizador

s-l400.jpg

 

O ar já estava pesado. A terra ficou ainda mais com o inferno que persiste, pelo que aquela frase não podia ser mais apropriada: ''aquela merda ainda não entupiu... ”

 

Não se pode dizer que não tivessem feito tudo para isso. 

Quanto ao país, bom, já estava há muito. E não sei se haverá alguém que consiga desentupi-lo nas próximas décadas.

Não há purificadores do ar que cheguem. Nem mesmo em Marte.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 17.05.17

mal-entendido

Às vezes, um mal-entendido é um problema de comunicação. De outras vezes é um problema de inteligência, de iliteracia ou de ignorância. Mas a pior de todas as situações é a que acontece quando um mal-entendido é tudo isso. Isto é, um problema de comunicação, de inteligência, de iliteracia e de ignorância. Aí é o caos.

Não há nada que torne reversível o efeito multiplicador do desastre. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 15.05.16

números

Fear-of-death.png

Nascemos e crescemos como números. Quando morremos voltamos a ser um número. Entre esses momentos há alturas em que os números fazem sentido. Lampejos de humanidade. A morte leva-nos tudo menos esses momentos em que os números ganharam sentido. Porque um número, muitas vezes, substitui outro, articula o anterior, completa-o, não raro protege-nos. Quando se tem dois pais e duas mães os números fazem sentido. Quando se deixa de ter, o caminho torna-se mais longo.

A morte é o último número. O único que nos subtrai acrescentando dor.    

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 07.03.16

explicações

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Num país que continua a ter meio milhão de analfabetos, isto é, gente que não sabe ler nem escrever, a desastrada (e inaceitável) intervenção do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior na Assembleia da República pode ter muitas explicações. A começar pelo nervosismo. Essa será uma parte da história mas que, apesar de tudo, não a tornará desculpável.

A um primeiro-ministro que conjugava o verbo haver no plural junta-se agora um ministro que diz "interviu", em vez de interveio, e "tinhemos", em vez de tenhamos. O currículo do ministro pode ser o melhor do mundo, mas não há acordo ortográfico nem reforma educativa que remedeie o que aconteceu.

O ideal era voltarmos todos à Cartilha de João de Deus, a uma edição actualizada e aumentada, e que as televisões organizassem alguns concursos que, em vez de mostrarem analfabetos a dizerem asneiras e a exibirem os cus e as mamas à hora do jantar, ou que ande a perguntar aos concorrentes o preço dos electrodomésticos, os obrigasse a responder a questões sobre a cultura e a língua portuguesa. Um concurso que atribuísse prémios chorudos, em euros, e levasse os concorrentes a estudarem os tempos verbais, os advérbios, os pronomes e a fazerem provas de composição, talvez pudesse operar milagres. E, quem sabe, se até não poderia contar com o patrocínio do Presidente da República eleito e das fundações que por aí temos para levar todo o país a reaprender a ler, a escrever e a dizer. Eu também; que com estes exemplos que nos chegam em cada dia que passa vou desaprendendo e esquecendo o pouco que me ensinaram.

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 28.02.16

autonomia

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A detenção de Ho Chio Meng é uma tristeza, nunca se esperando que um homem à partida inteligente e bem preparado caia na tentação do vulgar larápio que não perde uma oportunidade. Mas para além de uma tristeza é também um cisma político, ético e moral de dimensões e consequências imprevisíveis para Macau.

Em quinze rápidos anos a voragem de meia-dúzia de bandalhos deu cabo de uma autonomia prevista para, pelo menos, mais cinquenta anos. Em vez de terem trabalhado para o seu aprofundamento e para o bem das gentes de Macau, andaram a trabalhar para eles próprios por todo o lado por onde passaram, inflacionando, especulando, poluindo, comissionando. 

Dir-me-ão que aprenderam muito com alguns portugueses de má memória que por cá andaram, sim, eu sei, e com alguns outros que por cá pregam com a Lei Básica numa mão e o missal e um livro de cheques na outra, mas ao menos que tivessem respeitado o povo de Macau e a confiança e o empenho de Portugal e da R.P. da China na garantia da construção de um futuro melhor para os seus cidadãos.

Assim, quando tudo isto terminar, não ficará nada de pé. A autonomia de Macau, o segundo sistema, os direitos humanos, o oásis no estuário do Rio das Pérolas, os sonhos de todos, não passarão de uma miragem num sistema neo-colonial de prestação de contas ao cuidado de ovelhas e grilos falantes. Um desastre. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 07.01.15

cara-de-pau

Quando está em causa o interesse e a saúde da comunidade, a incompetência de gestão não pode ser premiada, ao fim de meia dúzia de anos, com mais um ano probatório. E é preciso ter uma grande falta de amor-próprio, ausência de brio, e possuir um espírito de tal forma subserviente para depois de ser descomposto publicamente, recebendo uma reprimenda por manifesta falta de competência pelo responsável governativo, que o tinha ali ao lado, ter estofo para se manter em funções.

Que o homem não tinha perfil, nem qualidades, que o indicassem para o lugar era há muito público e notório. Que estivesse disposto a levar para casa um desaforo dessa grandeza, como se fosse uma criança mal comportada, aceitando que lhe dessem mais um ano para mostrar que nada vale, é que é novidade. 

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por Sérgio de Almeida Correia




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