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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Sexta-feira, 14.07.17

expectativa

É certo que a distância e o tempo nos dão uma outra visão das coisas. Se por um lado podemos amadurecer ideias e conhecimentos, afastando-nos da poeira dos dias, ao mesmo tempo tornamo-nos mais distantes em relação aos que nos são mais ou menos próximos. E as avaliações sobre o que as notícias nos trazem em relação ao trabalho que aqueles vão fazendo, num presente que nos é longínquo por força das circunstâncias da própria vida, são em muito balizadas pelo conhecimento anterior que se tem do trabalho que fizeram, ou que não fizeram, e do seu carácter, ou da falta dele. Este tipo de juízos não raro é injusto, sem que com isso seja menos sincero ou menos leal. As pessoas, às vezes, também mudam, e os erros corrigem-se.

Vem isto a propósito das alterações promovidas pelo primeiro-ministro no seu governo, mormente nalgumas secretarias de Estado. Não havendo insubstituíveis, e com muito trabalho pela frente, era natural que, mais dia menos dia, fosse necessário indicar alguém para os lugares que vagaram. E que isso se fizesse com brevidade, aproveitando-se a ocasião para ajustar a máquina, substituindo mais um ou outro elemento que estivesse com dificuldades na sua área ou que já tivesse dado provas de desajustamento político e/ou técnico. O objectivo de qualquer líder é ter uma equipa capaz, de confiança e que funcione de maneira a que a carta possa ser levada a Garcia em tempo útil, não ficando condicionado pelo aparelho partidário, a máquina da propaganda (todos têm uma) ou a comunicação social.

Não posso, por isso mesmo, estranhar que o primeiro-ministro tenha resolvido mexer na equipa de secretários de Estado, embora já me pareça esquisito que depois do que aconteceu na Defesa e na Administração Interna os ministros titulares dessas pastas se mantenham em funções. Se na Administração Interna, no limite da tolerância, ainda é possível admitir uma permanência em funções da senhora ministra, apesar do mais do que evidente desconforto pelo exercício do cargo, já na Defesa o caso pia diferente. O problema aqui não é apenas de desconforto. É difícil considerar um mero erro de casting um verdadeiro equívoco político que ainda por cima vem embrulhado em sobranceria.

Gostaria de recordar que os currículos académicos e profissionais não são só por si garantia de um bom desempenho político, de uma gestão equilibrada e de um contributo que acrescente alguma coisa. Isso dependerá também da vontade de cada um, da forma como se predispuserem a exercer as funções e também da sorte, que nestas coisas, como em tudo na vida, conta muito mais do que parece.

Confio assim, à distância, que as escolhas serão as melhores, que as mexidas vêm no tempo certo e irão surtir o efeito desejado, e que o primeiro-ministro está atento. Não quero com isto dizer que esteja tranquilo. Não estou, e não é apenas por causa dos números da dívida pública, cujo crescimento verificado nos últimos meses me deixa muito apreensivo.

Sucede que também desconfio de algumas mudanças, em especial quando não havia notícia de maus desempenhos e em causa estava gente séria e competente. A mim não me é indiferente a substituição de A por B desde que sejam ambos do partido, como não passo a aplaudir se o que sai não tinha cartão de militante e o que entra tem. Nunca foi o meu critério. Não é essa a minha preocupação, não é por essa contabilidade de merceeiro, tão do agrado da tralha de algumas secções e concelhias, que me guio.

Mas é claro que se há mudanças mais do que óbvias para qualquer cidadão, como seja a necessidade de substituição de quem se demitiu ou de quem mostrou não servir, há outras que precisam de ser devidamente explicadas aos cidadãos e aos militantes, que são os olhos e os ouvidos do partido, e os seus embaixadores junto do eleitorado. Tomar os outros por parvos (os eleitores não são estúpidos) não é um bom princípio em política. E, normalmente, costuma dar maus resultados, ainda que para desgraça do País a oposição esteja de rastos, não se recomende a ninguém, esteja entregue a quem já demonstrou não ter qualquer vocação, competência ou talento para sê-lo e que até para fazer um discurso em sede parlamentar tenha de recorrer ao que outros escreveram nas redes sociais. Um desastre.

Ouvir os outros continua também a ser um bom princípio, em especial se aqueles a quem se recorrer for gente que não depende do partido, nem anda à caça de uma promoção, de um estatuto ou de uma mordomia, para si ou para os familiares e amigos mais próximos. E hoje em dia, devíamos todos sabê-lo pelos maus exemplos que fomos tendo, dos mais recentes aos mais remotos e que ainda estão bem frescos, não é só a mulher de César que tem de ser e parecer séria. É César e a família toda, incluindo filhos, sobrinhos, afilhados, sem esquecer as concubinas e a criadagem. Por isso houve quem, sendo sério, por causa de uns míseros bilhetes para ir à bola, seja agora obrigado a ver pela televisão o que falta do campeonato, com claro prejuízo para todos.

Aos que saem agradeço o que fizeram por todos. Aos que entram desejo que sejam capazes de se superarem e fazerem o melhor. Nós cá estaremos para ir vendo e analisando o que por lá fizerem. Sem palas, amizades de circunstância ou fidelidades de sacristia. Já sabem que há peditórios para os quais nem a brincar podem contar comigo.

 

P.S. Aproveito para enviar daqui um abraço ao Miguel Freitas, que já apareceu carimbado como "segurista" e "homem do aparelho". Por mais carimbos que lhe coloquem, e a gente sabe de onde eles vêm, será difícil, ao contrário de outros que por lá andam há muitos anos sem fazerem nada que se veja para além de limparem o pó das cadeiras por onde vão passando com o cartão do partido, não esperar muito dele. Pela sua capacidade de trabalho, pelos seus conhecimentos na área da Secretaria de Estado que vai dirigir e pela sua seriedade. Espero que se rodeie de gente capaz, sem olhar à cor do cartão, e mostre o que vale. O País não é só Lisboa, todos esperam muito dele e o Algarve estará, com mais do que justificada razão, com atenção redobrada ao seu trabalho. Eu também.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 24.09.16

decoro

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"decoro (ô), s.m. respeito de si mesmo e dos outros; decência; compostura; dignidade; honestidade; vergonha; pundonor; nobreza. (Do lat. decôru-, "que convém")." - Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª edição

 

Mas será que é preciso ser arguido, acusado e condenado com trânsito em julgado para ter decoro? E vergonha? E senso? É cada vez mais evidente em cada dia que passa que não há um, dois ou três Partidos Socialistas, mas sim quatro. Há o de José Sócrates, há o dos amigos de José Sócrates, que se confunde com o primeiro em função das ocasiões, há o de António Costa e do Governo, que corre atrás das metas do défice e se esforça por cumprir compromissos com toda a gente e mais alguma, e depois há o dos portugueses que se revêem no PS e que não sabem em que PS hão-de confiar.

Oxalá esteja enganado, mas neste momento, se forem todos como eu, quer-me parecer que em nenhum deles. O pior é que nos outros também não se pode confiar.

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 27.03.16

inércia

Já houve tempo em que acreditei que um dia isto mudaria. Hoje tenho a certeza de que nunca irá mudar. Há muitos prismas de análise, muitas maneiras de justificar a forma como estas práticas se vão enraizando e reproduzindo, e até agora têm sido todas igualmente más. Para fazer melhor era também preciso saber fazer diferente. Correr riscos, dar o exemplo, mudar. E não é o facto de se manterem dois ou três da cor dos outros que serve de desculpa para o que se faz. Assunção Cristas também lá ficou com um comissário que não tinha para onde ir durante a travessia do laranjal.

Porque para contas de somar, subtrair, multiplicar e dividir há merceeiros que não falham e também apresentam resultados. Por isso nunca me revi neste tipo de práticas, nunca as aceitei, e serem feitas pelo PS não altera a minha maneira de ver as coisas. São tão medíocres os centristas e social-democratas que justificavam as suas miseráveis nomeações com o que se passava no tempo de Sócrates, como os que agora fazem o mesmo e saem em defesa do Governo justificando com o que se fez no tempo de Passos Coelho e Paulo Portas. Não há boys bons e boys maus.

A maré vai e volta mas os detritos que se mantêm à superfície e chegam à praia são sempre os mesmos. Latas velhas, bocados de esferovite, plásticos imundos, peixe podre. Muito. Ninguém se importa, ninguém os quer limpar porque isso dá muito trabalho. E continua-se a estender a toalha na praia, a levar a cadeirinha, mais o jornal com as palavras cruzadas, a grafonola para ouvir os discos pedidos e o bronzeador. Por mais janelas que se abram o cheiro será o de sempre.

Não há regime que aguente. Não há confiança que resista. No meu país só a inércia é que se reproduz. A inércia e os maus exemplos.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 29.01.16

cambada

Há acordos que os arguidos podem e devem fazer com o Ministério Público. Com o partido espero que quem manda tenha o bom senso de não fazer qualquer acordo e que sejam seguidos os procedimentos estatutariamente previstos para situações desta natureza. Quem assim procedeu não merece qualquer confiança, não está na política de forma séria, limpa, não faz qualquer falta aos partidos nem à democracia e, além do mais, dá cabo do nome da agremiação. Para esses só vejo um caminho. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 05.10.15

castas

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Agora que o espectáculo chegou ao fim e se começou a desmanchar a feira, já posso repetir o que digo há anos e nos últimos meses silenciei para não prejudicar ninguém e não correr o risco de me chamarem ave de mau agoiro.

Tenho muita pena de dizê-lo, mas irei continuar a bater na mesma tecla. O mau resultado nacional do PS resume-se a um problema de castas. Não de hoje, nem de ontem. O partido vai ter de decidir se quer continuar a fazer vinho com tudo o que aparece, misturando sem critério e a granel, apresentando uma zurrapa sem alma, sem profundidade, de consumo imediato e sem hipóteses de atingir a maturidade, produzida por produtores envelhecidos, que não se modernizam nem querem que a casa se modernize, ou se quer começar a escolher devidamente as castas, arranjar bons enólogos, renovar a adega para lhe tirar aquele cheiro a mofo que impregna o ar, e apresentar um produto decente, inovador, capaz de ser valorizado e de ser apreciado pelos portugueses sem necessidade de se lhes estar a prometer um salpicão com a fotografia de especialistas em sueca, PPP e futebol de estúdio.

Estar a produzir vinho para concorrer com os pacotes de cartão de Marco António Costa e o marketing de Assunção Cristas e Paulo Portas, feito de porta-chaves, amostras de lavanda e bandeirinhas, nunca me pareceu boa política. Porque a venderem em feiras, com a experiência deles em cervejas e a apresentarem maus produtos valorizados, eles são muito melhores.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 13.08.15

cozinheiros

Até aqui percebi quase tudo. Usaram fotografias que não deviam, ninguém lhes perguntou nada, assobiaram para o lado, riram-se, a coisa tornou-se insuportável e o tipo teve de sair para dar lugar a outro.

A parte que eu não compreendi foi a razão para ele sair da ERSE e ter feito tanto chinfrim. Era preferível ter ficado onde estava. Para se ser um cozinheiro não basta ter uma cozinha e um avental. Convém saber escolher os ingredientes, confeccioná-los decentemente e empratá-los. E é preciso contratar ajudantes à altura. O dono do restaurante devia saber isto antes de começar a distribuir a ementa pelos potenciais clientes. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 31.07.15

donativos

Um dos problemas de se estar longe é o de se saber o que se passa do outro lado do mundo em segunda mão. Às vezes pela forma mais estapafúrdia. É claro que o militante que faz um vídeo a manifestar as razões do seu descontentamento, e a sua expectativa quanto aos resultados eleitorais, está no seu direito à livre expressão. E não sendo anónimo, bem longe disso, de tal forma que até mostra a assinatura e o número de militante, tenho evidentemente de partir do princípio de que o aí relatado é verdadeiro. Não tenho, pois, razões para colocar em dúvida o convite de que no seu vídeo dá conta, formulado numa missiva assinada pelo secretário-geral do PS, quanto ao donativo que este lhe pede. Mas, de facto, se com esse pedido aos militantes se pretende igualmente dar publicidade aos doadores, não se vê em quê que isso pode contribuir para um bom resultado eleitoral, para a unidade do partido ou o fim pretendido.

Para além de ser constrangedor até para quem estaria disponível para contribuir - um tipo fica sem saber quanto há-de dar para depois, no momento da divulgação da lista e de ver o seu nome escarrapachado, não parecer mal aos olhos dos restantes militantes da sua concelhia e não ser acusado de pelintra ou de novo-rico -, há sempre o caso dos que não dão porque não têm meios para tal, porque estão desempregados ou porque lhes cortaram na reforma. Estes, para quem não conheça as razões, não deixarão de ser olhados de soslaio pelo facto de não terem contribuído. Não sei de quem partiu esta ideia peregrina de publicitar os donativos pelas secções, que pela sua natureza e dentro dos condicionalismos legais deviam ser naturalmente transparentes mas discretos. A mim parece-me uma insensatez.

Um partido político não é uma associação recreativa, um clube de charutos ou uma escola de tango. E a não ser que estejam também a pensar colocar placas ou azulejos com o nome dos doadores no Largo do Rato, transformando-o numa espécie de clube de futebol, o mais aconselhável seria o secretário-geral do PS dar instruções aos seus homens da campanha para ficarem quietos. E pensarem, pouco que seja, antes de agirem. De outro modo, poderão colocar ainda mais distante a cabazada de que o Nelson   está à espera.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 11.07.15

critérios

Eu ouvi Ana Catarina Mendes dizer quais é que eram os critérios. E concordei. E compreendo perfeitamente que haja uma mescla de veterania, experiência e juventude. Mas é evidente que há escolhas que não têm nada a ver com os critérios enunciados, porque os maus resultados políticos, o rasto de desilusão, o serviço às mais diversas "coligações", a defesa de interesses pessoais e de grupo em prejuízo da comunidade, a falta de visão política e a gestão local não recomendavam assomos à janela. Quanto mais a pretensão de lugares de proa. 

Tenho pena que assim seja, mas reconheço que há um critério que continua a imperar e que foi o mesmo que os levou a apoiar todos os líderes anteriores e o actual sempre com a mesma convicção. E interesse. Falo do amiguismo. E por isso é que, perdoe-se-me a presunção, estou como o Jorge de Sena. Tenho imensas saudades do país, das gentes, dos amigos, da família, de todos vós. Do Portugal que suportam, não. E aqui, neste meu exílio voluntário, "é evidente que não alterei em nada a minha posição, nem a minha firmeza. Apenas cada vez melhor vejo as engrenagens da política, e desespero da incompetência, que vejo mais generalizada e prestigiosa".

É a vida, eu sei. E com ela não me conformo. Mesmo longe.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 26.03.15

cábulas

Aquilo que há um ano era veementemente negado tornou-se ao fim de doze meses numa inevitabilidade.

Podiam ter aprendido alguma coisa com as meias-verdades e as aldrabices dos que os antecederam, mas a partidarite e a cegueira política e ideológica eram de tal forma graves que preferiram aldrabar os portugueses enquanto lhes atiravam areia para os olhos. Uma coisa é dizer que não há custos, outra é escamoteá-los, negá-los, ridicularizá-los desde a primeira hora para por fim acabar a admitir uma "minimização" de custos do lado dos contribuintes.

Qualquer solução teria custos. A escolhida pode ter sido a menos gravosa para os contribuintes, mas ainda assim não valia a pena ter mentido de forma tão descarada dizendo que os contribuintes não iriam suportar quaisquer custos. Se outros não houvesse sempre haveria os sociais.

É esta tão flagrante falta de seriedade no exercício do poder, no exercício da actividade política, e que persiste há várias décadas, que torna tudo mais difícil neste país. Pior só mesmo vir agora dizer que se se for governo se vai pagar a toda a gente e mais alguma.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 27.02.15

chatices

Há muito que digo que na política não se pode ter um discurso para dentro e outro para fora. Por isso, a questão de fundo não é o incómodo que provoca. Ou a saída de Alfredo Barroso. Isso é o que menos importa, como o próprio Barroso certamente concordará.

A questão que releva é curta, não precisa de alarido, e resume-se a isto: com que legitimidade, com que autoridade, se criticarão amanhã os deslizes dos outros? É só isto.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 01.12.14

pressa

Agora pergunto eu: qual é a pressa? Por que razão estão tão ansiosos por conhecer o Programa de Governo de António Costa?

As eleições, como já avisou o nosso excelso Presidente da República, serão marcadas entre 14 de Setembro e 14 de Outubro. O PS já anunciou que dará a conhecer o seu programa em Março de 2015, ou seja, seis meses antes da data em que previsivelmente ocorrerão as eleições legislativas. Seis meses são tempo mais do que suficiente para os portugueses poderem conhecer as propostas, perceberem o que fará o PS se for governo. E decidirem tendo presente o passado recente. Pode é já não dar tempo para Passos Coelho e Paulo Portas inventarem algo novo, mas esse é um problema deles, não é dos portugueses.

Já era tempo do PS voltar a fazer a agenda, em vez de andar a reboque de tontos.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 16.09.14

primárias

Agora que o processo das primárias do PS se aproxima do seu epílogo, e concretizada que está a inscrição de mais 7000 "simpatizantes", num universo global que atingirá cerca de 250.000 cidadãos, gostaria de aqui deixar algumas palavras antes de serem conhecidos os resultados finais:

1. Tal como muitos outros que se preocupam com o declínio da participação e dos níveis de militância nos partidos políticos, que em meu entender conduzem a uma deslegitimação dos partidos e uma desqualificação da própria democracia, desde há muito que também defendo a abertura dos partidos a não militantes.

2. No entanto, essa abertura deveria ser concretizada em termos suficientemente amplos de maneira a abranger o maior universo possível de cidadãos, mas ao mesmo tempo de modo a que, mantendo-se a separação de estatutos entre militantes e não militantes, não se despromovesse os primeiros em prol dos segundos dentro de uma instituição que daqueles depende.

3. Quanto ao processo em curso devo dizer que o considero incorrecto quer quanto ao tempo e ao modo como foram conduzidos, quer, ainda, quanto às consequências que o mesmo acarretará qualquer que seja o resultado que se venha a registar.

4. Em relação ao tempo, considero que o actual secretário-geral do PS teve três anos para avançar com a sua concretização e regulamentação sem ter tido necessidade de fazê-lo em cima do joelho, mais como reacção, por despeito, à situação desencadeada por António Costa, do que como consequência de uma acção convicta, devidamente maturada e oportunamente preparada.

5. Reprovo, igualmente, a excessiva prolação do processo de inscrição, no que não podia deixar de ser entendido por qualquer observador independente como uma tentativa de melhor controlar o processo de "arregimentação" de "simpatizantes".

6. Registo, ainda, a incapacidade quanto a este processo de um controlo efectivo das inscrições, de maneira a evitar-se que militantes de outros partidos pudessem participar nas primárias, cumulando o seu estatuto de militantes de outras forças com o de "simpatizantes" do PS. O factos dos cadernos serem divulgados não garante a não inscrição de militantes de terceiros partidos, sendo que teriam de ser estes a controlar que os seus próprios militantes não se inscreveriam neste processo das primárias. Trata-se de um controlo que será exercido, se for exercido, por terceiros, externamente, o que para mim é inaceitável.

7. Acrescente-se que a participação dos não militantes e a abertura do partido à sociedade poderia processar-se em termos tais que não fosse a decisão dos "simpatizantes" a impor-se à dos militantes. Pode ser que a vontade de uns e de outros se mostre coincidente, mas se não for, isto é, se a dos "simpatizantes" divergir e se impuser à dos militantes, qual será a consequência disto, como é que estes reagirão e avaliarão o seu estatuto?

8. Tal como defendi em várias reuniões que tiveram lugar no Algarve, numa delas com a presença de Jorge Seguro Sanches, o processo das primárias, desde logo para escolha dos candidatos às câmaras municipais, que a ter tido lugar nos termos por mim defendidos até poderia ter evitado mais uma humilhante derrota para o PS em Faro, entendo que a participação dos não militantes num processo do tipo das primárias não deveria ser decisivo quanto à escolha dos candidatos dos partidos, única forma de proteger o estatuto de militante (dos vivos, é claro).

9. A participação de não militantes num processo de abertura do partido à sociedade deveria ter lugar, primeiro, através da apresentação de um conjunto de nomes por parte do partido - candidatos -, susceptível de incluir militantes e independentes, que depois seria colocado à apreciação dos não militantes e que permitiria uma ordenação das escolhas que resultassem dessa consulta.

10. Aos militantes ficaria depois reservada a decisão final, num processo exclusivamente interno em que participariam os dois ou três nomes mais "votados" pelos não militantes, devendo aqueles decidir qual o nome que o partido deveria então apoiar e propor ao eleitorado.

11. Se fosse escolhido um candidato diferente daquele que tivesse obtido maior número de votos na consulta junto dos não militantes, os militantes assumiriam o risco e a responsabilidade da escolha, cabendo-lhes sempre a última palavra. Assim, tal como o processo está delineado e irá ocorrer, nada garante que não venha a surgir uma cisão entre a vontade do partido e a dos "simpatizantes".

12. Finalmente, lamento que num processo tão participado não tenha sido possível concretizar o voto electrónico, que apesar das críticas é utilizado em países como a Alemanha, o Canadá ou a Austrália, entre nós também por pelo menos um clube desportivo, e que também não seja permitido, nem aos militantes nem aos outros que se inscreveram, votar no local onde estiverem no dia do escrutínio, que poderá não ser o mesmo em que se inscreveram, mediante a apresentação do seu documento de identificação e do cartão de militante. Já nem falo do voto por antecipação. Na era da informática, num país e num partido que até foi responsável pela concretização do passaporte electrónico, do cartão do cidadão e de um Citius que até há pouco funcionava e serviu de exemplo e modelo para outros países, é pena que não se tenha aproveitado esse saber e experiência num processo como o das primárias.

As questões não são tão simples quanto a pressa de colocação no terreno deste processo possa aparentar. Perdeu-se uma boa oportunidade para se criar um processo que pudesse inovar e servir de modelo a outros partidos. Apesar disso, espero que não se perca a hipótese de discuti-lo e de melhorá-lo, levando a discussão sobre matérias que a todos interessam até onde mais gente possa inteirar-se das questões e manifestar-se. Porque esta é uma discussão que diz respeito a todos os partidos e a todos que se preocupam com a saúde da democracia, independentemente dos calendários eleitorais e das regulares lutas de capoeira onde muitos - e não só de Lisboa - ainda se revêem.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 21.08.14

jagunçada

(Coronel imortalizado por Jorge Amado que espera poder votar nas primárias do PS)

 

Uma candidata às eleições da Federação Distrital de Braga, apoiada por António José Seguro, escreveu ao JN repudiando declarações publicadas neste jornal que lhe foram atribuídas, esclarecendo que nunca as proferiu. Em causa estavam as afirmações, entre aspas, de que o pagamento de quotas de militantes já falecidos por familiares seria "normal" e de que tal pagamento constituiria uma "espécie de homenagem" aos mortos. Até prova em contrário darei crédito ao desmentido de Maria José Gonçalves.

Só que, entretanto, leio que Álvaro Beleza, outro "segurista" que há um ano considerava as primárias inoportunas e que este ano, devido ao repto de António Costa, rapidamente mudou de ideias, enaltecendo um processo preparado em cima do joelho que só tem servido para o achincalhamento público do maior partido da oposição, veio pedir que o pagamento de quotas deixe de ser obrigatório. Não sei se o objectivo será acabar de vez com a militância, colocando os militantes ao nível dos simpatizantes, americanizando os partidos portugueses, ou se será apenas mais uma tirada de ocasião. De qualquer modo, Beleza, de acordo com o DN, denunciou a existência no partido de um "sistema de jagunços" que funciona "como o nordeste brasileiro no tempo dos coronéis". Apontou o dedo a Mesquita Machado que "ganhou com certeza muitas eleições internas a pagar quotas dos outros". 

Como a procissão ainda vai no adro, surge agora Miguel Laranjeiro, a desvalorizar o pagamento de quotas por terceiros, ao mesmo tempo que recusa mostrar os comprovativos dos pagamentos feitos por estes porque, imagine-se, em causa estaria o "sigilo bancário". De caminho, lá por Coimbra, está o caos instalado, aguardando-se o resultado de uma providência cautelar.

Álvaro Beleza, "com certeza", para falar como fala sabe o que está a dizer. E, se assim é, as declarações de Miguel Laranjeiro até serão normais.

Tenho pena, de facto, que a invocação do sigilo bancário sirva, neste caso, para proteger jagunços. Porque para quem apregoa a transparência, a ética e outras coisas que às vezes dão jeito, o primeiro passo seria a denúncia dos jagunços que pagaram as quotas dos falecidos e de, pelo menos, mais vinte militantes. A primeira coisa que um líder sério, cujo poder é posto em causa por um "sistema de jagunços", deveria fazer seria esclarecer essas situações e promover a instauração de processos disciplinares, visando a expulsão de quem pagou as quotas dos falecidos e dos terceiros que, ainda vivos e com voz, se queixaram. Porque é essa jagunçada que descredibiliza a política e os partidos.

Invocar procedimentos incorrectos de ontem - por parte de quem até ajudou Seguro a chegar onde está - para justificar as golpadas de hoje, desvalorizando-as, só prova, afinal, uma coisa: que o sigilo bancário protege os jagunços. E também que as eleições para as federações e as primárias do PS são pouco transparentes e controladas por quem invoca o sigilo bancário para proteger a jagunçada de que fala Álvaro Beleza. Prova de que quanto aos métodos em nada se distinguem de quem noutros partidos usou dos mesmos para chegar à cadeira do poder.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 14.08.14

insolação

 

Sabendo-se que conta com todos, com excepção daqueles que antecipadamente excluiu, espero que António José Seguro anuncie rapidamente o seu governo de coligação. E as pastas. O referendo entre militantes, para evitar "arranjinhos de poder e caprichos pessoais", parece-me uma excelente ideia. O ideal era realizá-lo já, se possível para a semana, tirando partido do início da época futebolística.

Creio é que também seria conveniente aproveitar-se a oportunidade para se perguntar aos militantes se estão de acordo com a presença dos elementos do Governo Sombra, de Jorge Jesus e dos Xutos e Pontapés nessa frente alargada. O Rojo é que teria de ficar de fora porque o Bruno de Carvalho antecipou-se. O referendo poderia então funcionar, aos olhos dos simpatizantes, como um estímulo para a maioria absoluta. E, já agora, como umas primárias antecipadas.

Se a coisa corresse bem poupava-se tempo. Quem sabe se também as primárias?

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 03.08.14

resumo

Um tipo lê as coisas que o Tozé agora deu em dizer e no fim só pode tirar uma conclusão. Quando o rapaz estava a dissertar sobre a promiscuidade entre os negócios e a política, quando se referia à linha de fractura entre a nova e a velha política, ao clima de podridão e às meias-tintas, à mistura entre negócios, política e vida pública, afinal não estava a referir-se ao Costa, nem aos gajos da capital que olham com desdém para os que vêm da província. Mas a mandar um recado aos seus apoiantes. Com muito afecto, é claro. Apesar da senhora presidente da Comissão Parlamentar de Saúde não ver nisso qualquer incompatibilidade. Incompatibilidade, para falar verdade, também não vejo. E penso que estas coisas devem ser assumidas sem meias-tintas, de preferência usando a mesma conta bancária para se receber o salário e os bónus que aquela malta (estou a conter-me) foi distribuindo generosamente à gente simpática, educada, disponível e compreensiva do centrão. Vejo é semelhanças. Muitas. Entre o que ele e Passos Coelho dizem e fazem. Como já via com um outro figurão ou com Cavaco Silva. Sempre com o ar mais sério e generoso do mundo. É a política com "p" pequenino. Com "p" de "portugal". De "ps", de "política". E também de muitas outras palavras começadas com "p", sobejamente conhecidas do Tozé, que me abstenho de enumerar para não estragar o domingo a quem tem a bondade de me ler.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 26.07.14

bonifrate

"Quero fazer aqui este pacto de confiança, a de que todos juntos, cada um com a sua responsabilidade, de mobilizar o maior número de portugueses para se inscreverem nas primárias e de dizerem de uma vez por todas que quem governa Portugal somos todos e não uma corte de iluminados em Lisboa, que decide e impõe a seu belo prazer aquilo que deve ser feito em Portugal"

 

Com o passar das semanas, vendo a terra fugir-lhe debaixo dos pés, mas também a sensatez, a temperança e a dignidade, já nem vê para onde dispara e acaba por acertar nele próprio. Agora que resolveu assumir o papel de Luís Filipe Menezes, de Alberto João ou de Mendes Bota do PS, é altura de também lhe perguntar por onde tem andado, há quantos anos vive em Lisboa e com quem costuma conviver quando está na capital. Será que só se dá com "expatriados"? E, já agora, que fez pela regionalização desde que está à frente do PS? Pelo Algarve, por exemplo.

No país do faz-de-conta é fácil perceber por que dava jeito a tantos que ele continuasse a fazer de conta que liderava. Como fez questão de prolongar a sangria até ao Outono ainda vamos ter mais dois meses para o ouvir subir a parada. De uma coisa já estou certo: daqui para a frente a cotação do dislate vai ser sempre a subir.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 09.06.14

receita

Ao próximo líder do PS, que não sei quem será, na hora de recolher apoios só lhe recomendo que medite no seguinte: os mesmos que estiveram com José Sócrates foram os mesmos que estiveram com Seguro e que agora já estão com António Costa. E que estarão com o que se lhe seguir.

Para construir é preciso primeiro ter ideias e critérios, depois saber escolher, em terceiro lugar ter uma linha de rumo e, por fim, falar com oportunidade e sem meias-palavras, correndo o risco de desagradar e de ser impopular junto do "aparelho", dos velhos amigos da jota, dos notáveis, dos compagnons de route, dos oportunistas, dos subservientes e bajuladores, e também dos "chicos". Em especial junto destes.

Procurei antes transmitir isto. Não resultou com Sócrates. Também não resultou com Seguro. Pode ser que nunca resulte, mas eu insisto. Insistirei sempre. Não cobro nada.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 03.06.14

escrito

O essencial da "crise" no PS já tinha sido dito por quase toda a gente. Desses textos de quase toda a gente fiquei na memória com um do João Miguel Tavares publicado no Público, de 29 de Maio p.p., com o sugestivo título de "Simplesmente patético". Hoje, o João Miguel reincide com "O Verão Quente de 2014", no que é muito bem acompanhado pela notável pena do José Vítor Malheiros. Confesso que depois de todas as desilusões dos últimos três anos prefiro ver a "crise" pelos olhos de quem está de fora. Não serve de conforto, é certo, mas pelo menos permite perceber que eu não precisava de óculos para ver o que se estava a passar. Difícil vai ser fazer a contagem dos ratos que correm desaustinados de um lado para o outro do convés, enquanto o barco adorna, por não saberem em qual dos botes salva-vidas terão mais hipóteses de sobreviver. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 28.05.14

dislates

Não temos condições para andar todos os dias a brincar aos congressos quando em dois anos tivemos duas vitórias que infligiram duas derrotas históricas à direita

Não sei o que diria se tivesse obtido uns módicos 44,53 % nas europeias, mas tenho pena que tenha sido necessário haver uma recondução em 2013 e fosse preciso esperar por "duas derrotas históricas à direita" para se ver o óbvio. A ver se desta vez não acaba tudo em águas de bacalhau, com abraços e palmadinhas nas costas. Como da última vez.

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por Sérgio de Almeida Correia




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