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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Quinta-feira, 23.02.17

maneiras

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Creio que há alguns anos abordei o assunto num ou noutro texto. Porque ter maneiras continua ser nestes dias velozes do turismo de massas uma necessidade para o bem-estar de qualquer comunidade. Macau não constitui excepção.

Volto ao assunto por entender que os Serviços de Turismo de Macau e o IACM, que tantas campanhas têm feito em prol da cidade, da sua oferta turística e da sua promoção, também deviam prestar atenção a este ponto. Digo isto, além do mais, devido à oferta hoteleira e gastronómica existente. Com a modernização e o crescimento da indústria do jogo, surgiram dezenas de hotéis, centenas de restaurantes, muitos deles com elevadíssima qualidade e susceptíveis de enriquecerem aquilo que a RAEM pode dar aos seus visitantes, mas igualmente aos residentes.

Se em tempos se sentiu necessidade de fazer campanhas, acompanhadas de sanções pecuniárias contra os prevaricadores, visando demovê-los de fumarem em todo o lado e de andarem a cuspir para o chão em todo o lado e mais algum, dos passeios das ruas ao interior dos elevadores, não vejo qual a razão que pode impedir aquelas duas entidades, e já agora a PSP, de fazerem uma campanha para elevação dos níveis de civilidade de quem nos visita, e também dos muitos que aqui vivem e aos quais não foi oportunamente ensinando o bê-á-bá da convivência em sociedade.

São pequenas coisas que, sendo corrigidas, podem transmitir uma outra imagem da cidade e de quem cá vive a quem nos visita, ao mesmo tempo que contribuirá para um ambiente mais saudável.

Seria por isso desejável que a Direcção dos Serviços de Turismo (DST), o IACM, a PSP, e eventualmente outras entidades, com o patrocínio do Chefe do Executivo, se empenhassem numa campanha de grande dimensão – que não deverá ser motivo para dar mais uma choruda quantia a ganhar aos do costume –, capaz de se mostrar visível logo nos postos fronteiriços de entrada na RAEM e, em especial, nas escolas, através de cartazes, distribuição de panfletos, pequenos filmes nos canais de televisão e spots nas rádios, nas línguas oficiais e em inglês. Uma campanha que, entre outras coisas, poderia ensinar as pessoas a comerem de boca fechada e sem fazerem barulho, a usarem adequadamente os fai-chi e os talheres, a não se espreguiçarem em público e muito menos quando estão sentadas à mesa em restaurantes e cafés, a não entrarem nos edifícios e nos hotéis e a não se sentarem nos restaurantes de boné enfiado na moleirinha, a não levarem a faca à boca (em circunstância alguma), a não arrotarem, a evitarem palitar os dentes desbragadamente enquanto estão à mesa, a não atirarem os guardanapos para o chão quando se levantam, a não arrotarem sem curarem do sítio onde estão e de quem está na mesa ao lado, a não atirarem lenços usados ou papéis para o chão nem pela janela dos táxis, obrigando os condutores a respeitarem as passadeiras, os peões, a sinalização semafórica e as regras de condução estradal, enfim, impondo um conjunto mínimo de maneiras que fizesse a quem nos visita sentir-se num local civilizado, de gente com maneiras e que sabe receber que chega. A Associação de Mútuo Auxílio dos Condutores de Táxis, que só preocupa em aumentar a bandeirada e meter maços de notas nos bolsos dos seus associados também se deveria empenhar em ensinar-lhes boas maneiras, como, por exemplo, não cuspirem pela janela e ajudarem os passageiros a acomodarem as malas na bagageira. 

Se estas pequenas coisas, que muitos em casa não puderam aprender e foram pela vida fora desconhecendo, sem compreenderem a sua importância e alcance, ainda que hoje sejam gente abastada e que ascendeu a posições com algum estatuto (incluindo deputados), não forem transmitidas às futuras gerações e aos que chegam, nomeadamente do outro lado das Portas do Cerco, Macau nunca deixará de ser uma mini-metrópole onde os bons hotéis e restaurantes convivem alegremente com a incivilidade, por vezes com a selvajaria de alguns clientes e turistas, bem como com a falta de limpeza das ruas e as más maneiras nos restaurantes, nos casinos e nos hotéis, por mais luxuosos que sejam.

O Dr. Alexis Tam e o Chefe do Executivo deviam pensar nisto. Civilizar também seria um caminho para a diversificação. Para transmitirmos uma outra imagem e termos outro tipo de turistas, bem diferente da tropa fandanga em que a DST apostou nos últimos anos para melhorar as estatísticas e que vai inundando os locais mais aprazíveis da cidade sem um módico de educação e de civilização. 

Transformar Macau numa cidade aprazível passa em muito por aqui. Pela educação. E deve começar nas escolas. As crianças gostam de aprender, assimilam com facilidade, e na sua inocência confrontam os mais velhos quando estes falham nas boas maneiras. Só a educação pode fazer a diferença em Macau, elevar os padrões e aproximar a RAEM da civilização e dos modelos asiáticos mais desenvolvidos que a devem inspirar. Por algum lado se tem de começar.

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por Sérgio de Almeida Correia




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