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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Domingo, 18.05.14

zen

Esta tarde, em conferência de imprensa no Consulado Geral de Portugal em Macau, depois de há vários dias andar a elogiar a forma como tem sido cumprida a Declaração Conjunta que Portugal e a China assinaram sobre a Questão de Macau, e de ter ontem condecorado o Chefe do Executivo da RAEM, o Presidente da República protagonizou mais um daqueles momentos que revelam a forma como não tem, ou não quer ter, acesso à informação fundamental para o exercício do seu cargo.

Com efeito, um dos problemas mais candentes que os portugueses que querem fixar-se em Macau enfrentam de há uns anos a esta parte, prende-se com a recusa sistemática, ou inusitada dificuldade, com que muitos compatriotas se deparam na obtenção de vistos e de bilhetes de identidade de residente para que na Região Administrativa Especial de Macau possam viver e trabalhar. Dificuldades que outros, de outras nacionalidades e de países com muito menos ligações a Macau, não enfrentam.

Dos dados conhecidos, posso dizer-vos que há 26 portugueses que desde 2012 aguardam por um título que lhes dê direito a aqui residir, e que dos cerca de 300 que foram pedidos o ano passado mais de metade foi recusada. Acrescento que, em muitos casos, há gente que tem familiares a residir em Macau com condições para acolhê-los, muitos possuem ofertas de trabalho firmes e sérias, incluindo nas operadoras de jogo e em empresas de dimensão considerável, e que não dormem na rua. Pois há gente que depois de estar largos meses à espera de uma resposta, mesmo quando tem já um contrato de trabalho cuja execução depende da emissão do documento, e que lhe permitiria viver sem dificuldades, isto é, com um salário mensal para um jovem com menos de trinta anos, por exemplo, equivalente a € 3.000,00 (três mil euros), livres de impostos, vêem os pedidos chumbados com argumentos que alegam insuficiência de meios para viverem decentemente em Macau. A este propósito é público e notório que não existe um salário mínimo legal, que ainda há semanas a Assembleia Legislativa recusou uma proposta nesse sentido, e que são dezenas de milhares os que aqui vivem, designadamente chineses vindos do outro lado, filipinos, tailandeses e indonésios, com salários equivalentes a um sexto do valor que acima deixei.

Pois bem, apesar dos múltiplos alertas e queixas que têm sido endereçados às autoridades competentes, incluindo portuguesas, directamente, através dos membros do Governo que por aqui passam, e de numerosas notícias e artigos de jornal que há anos chamam a atenção para esse problema, o Presidente da República mostrou-se estupefacto por ter conhecimento desta situação no decorrer da conferência de imprensa que teve lugar no Consulado, quando para tal foi questionado por um jornalista. E a única coisa que foi capaz de dizer foi que essa atitude é contraditória com as declarações que têm sido feitas pelas autoridades chinesas.

É inacreditável, e a todos os títulos inaceitável, o desconhecimento que o Presidente da República revelou sobre uma matéria desta importância e para a qual o Governo não tem conseguido, através dos canais diplomáticos próprios, encontrar uma solução. E é pena que sendo esta uma questão fundamental para a vida de muita gente tenha acontecido um momento destes. O que me leva de novo a questionar sobre aquilo de que o Presidente tem conhecimento e sobre a natureza da informação que lhe é veiculada por quem tem a obrigação de chamar a sua atenção para estes problemas, afinal aqueles a que importava  dar um "empurrão", no sentido da resolução, aproveitando a visita do Chefe de Estado e a extensa comitiva que trouxe, na qual se inclui o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Espero que, por isso mesmo, no intervalo dos brindes e das condecorações, duas delas para antigos sindicalistas, um dos quais actualmente deputado na RAEM, e uma outra para a primeira responsável pela Casa de Portugal em Macau, pessoa que aqui recebe e vive o drama de todos os portugueses que a procuram em busca de ajuda, o Presidente tenha tempo, e em especial a humildade que normalmente lhe falta e que os portugueses conhecem, para ouvir o que aqueles lhe terão a transmitir, já que, infelizmente, quem tinha a obrigação de fazê-lo, nomeadamente os seus assessores e o Governo, está mais preocupada com os arranjos florais da romaria, as eleições e a distribuição de convites para o habitual foguetório do que em tratar e resolver os problemas das pessoas.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 13.05.14

visita

I democratici che non vedono la differenza tra una critica amichevole e una critica ostile della democrazia sono anch’essi imbevuti di spirito totalitário. Il totalitarismo, naturalmente, non può considerare come amichevole alcuna critica, perché il principio dell’autorità finisce necessariamente col contestare il principio dell’ autorità stessa” – Karl Popper, La società aperta e i suoi nemici. Platone totalitário, Roma, Armando Editore, 1973, vol. I, pp. 265.

 

Não é a primeira vez que me sirvo da citação que acima transcrevi de Popper. Achei por bem voltar a fazê-lo no início deste texto pelo significado daquilo que ali se encerra no momento em que o Presidente da República se prepara para iniciar uma viagem à China. Penso que por ela se explica a necessidade deste texto ser devidamente interpretado e temporalmente situado, o que não permite leituras implícitas. Aqui, o que parece é e só vale o que cá está.

Dizem os jornais, a minha fonte de informação privilegiada, que o PR far-se-á acompanhar do vice-primeiro-ministro e líder do CDS-PP, do ministro dos Negócios Estrangeiros, do ministro da Economia e do ministro da Educação e Ciência. Para além deles, seguirão também viagem cerca de oitenta empresários, representantes de nove universidades, mais alguns falidos e desacreditados sempre à espreita de uma oportunidade de reabilitação, bem como os oportunistas da praxe e … uma fadista.

Tirando a inclusão da fadista, com lugar cativo à mesa de Belém, e de um ex-governador de Macau, que fez as manchetes dos jornais locais, nacionais e internacionais, entre outras razões, por ter criado uma fundação para si e os seus amigos com o dinheiro dos outros sem lhes dar cavaco - facto que será sempre bom recordar pelas repercussões externas que teve quando se anuncia uma missão “das mais importantes de sempre em todo o seu mandato, pelo alcance político, económico, cultural e académico de que se reveste” - , confesso que a composição da comitiva é de tudo o menos importante, embora registe que a Presidência da República continua a privilegiar esse lado frívolo das missões oficiais que consiste em convidar os amigos. Mas como em relação a estas coisas os chineses, mesmo quando registam, não comentam, importa que nos foquemos no essencial, deixando para os bastidores da visita e os sumos depois das massagens os pormenores sobre as encomendas de compras de joalharia, malas e relógios contrafeitos que farão sucesso entre os amigos na hora do regresso.

Seria bom que, já que se celebram apenas 35 anos do estabelecimento de relações diplomáticas com a RPC, que a comitiva nacional tivesse a noção do tempo e se recordasse que este não tem a mesma dimensão para chineses e ocidentais. A percepção desse facto implicará um módico de humildade por parte do PR, sendo obviamente dispensáveis declarações do tipo “eu fiz”, “eu disse”, “eu escrevi”, “foi um governo meu que”, e por aí fora, expressões que os portugueses bem conhecem mas que seria conveniente moderar nas entrevistas e discursos oficiais. Seria desagradável que por essa razão fosse depois necessário recordar-lhe alguns factos em relação às quais sofre de um défice crónico de memória.

Depois, seria conveniente que prestasse a devida atenção a quem está no terreno e mantém o distanciamento necessário para não embandeirar em arco com o primeiro brinde que seja feito à comitiva, ou o que lhe seja segredado pelos especialistas que avaliam a realidade pelo número de estrelas dos hotéis que lhes foram destinados ou o número de pratos dos banquetes. A China sabe receber os seus convidados e normalmente fá-lo com o mesmo desvelo em relação a todos, apesar de dificilmente esquecer gafes protocolares e o permanente sorriso dos seus dirigentes não seja particularmente compreensivo para com o sentido de humor nacional, o anedotário político e a bazófia de alguns empresários dados a contas de mercearia.

Também seria aconselhável que da parte do MNE, que apenas estará na primeira parte da viagem, e do ministro da Economia, se salientasse que a venda de imobiliário a preços inflacionados para pagamento de comissões no interior da China e em Portugal, salvar da insolvência alguns empresários próximos do partido do senhor primeiro-ministro ou dar crédito a autarcas medíocres e manhosos, não se confunde com a política de atribuição de vistos dourados, e que o investimento que o País privilegia é aquele que seja susceptível de criar riqueza, permitir a transferência recíproca de know-how e gerar exportações e postos de trabalho. Se há coisa que os chineses saibam fazer é criar riqueza, e sendo gente séria espera que do outro lado também esteja gente à altura, e não pacóvios manhosos e endinheirados à procura de vender gato por lebre, de um lugar ao sol ou de um motivo para se rirem no almoços do Gigi ou nas sardinhadas estivais da Comporta.

O conhecimento chinês em matéria de novas tecnologias, modernização de equipamento ferroviário, em especial no que à alta velocidade diz respeito, no momento em que se dão os primeiros avanços num projecto que visar ligar por via terrestre a China aos EUA, implicando a construção de um túnel subaquático no estreito de Bering, deverá merecer a devida atenção das autoridades portuguesas, atento o estado de decrepitude que atingiram os carris nacionais, a necessidade de se fazer avançar a alta velocidade para ajudar o nosso desenvolvimento a custos suportáveis e de se encontrar uma saída para a longa crise que atravessamos. 

A defesa do interesse nacional em questões de índole técnica, económica e cultural não deverá, todavia, fazer esquecer a nossa responsabilidade em matéria de direitos humanos, defesa da liberdade de deslocação, manifestação, reunião e expressão, e a rejeição total e completa da pena de morte. Os péssimos exemplos terceiro-mundistas que nesta matéria têm chegado dos EUA, não podem deixar de constituir matéria de reflexão e de defesa do legado histórico das nações civilizadas em quaisquer circunstâncias.

Reservo nestas breves linhas uma palavra final para a situação de Macau. A degradação dos padrões de vida dos residentes, face ao que seria expectável e desejável há uns anos, é hoje um facto incontornável. Sem prejuízo das fartas responsabilidades que a última administração tem na actual situação – a política de vistas curtas levou a que fossem os chineses a promover após 1999 o desenvolvimento que deveria ter sido conduzido e liderado pela administração portuguesa antes da transferência –, Portugal não pode deixar de chamar a atenção com a necessária firmeza para a política de não concessão de autorizações de residência a cidadãos nacionais com base em argumentos espúrios e nos complexos pós-coloniais de alguns idiotas.

O cumprimento integral da Declaração Conjunta exige que Portugal alerte a RPC para o que está a acontecer e que tome uma posição inequívoca sobre a degradação ambiental e da paisagem urbana da RAEM, sobre o descontrolo na entrada e saída de turistas e o que esse descontrolo afecta na qualidade de vida de quem cá vive e trabalha, bem como para as dificuldades que a ausência de um política e de uma estratégia locais para o desenvolvimento imobiliário provocam em constrangimentos ao mercado habitacional. Impõe-se que a oportunidade seja aproveitada para sublinhá-lo sob pena de se permitir o desvirtuamento do sentido dos compromissos assumidos entre os dois Estados e de se entregar o respeito integral pelos seus princípios às “contingências do mercado”. A defesa da Declaração Conjunta na letra e no espírito não é uma defesa dos interesses nacionais. Bem pelo contrário, essa é uma obrigação de Portugal e da RPC assumida reciprocamente para com os residentes de Macau. E estes são todos os que aqui vivem e pagam os seus impostos, qualquer que seja a sua nacionalidade, a etnia ou a cor da pele.

Se para além disso for possível reforçar o compromisso das autoridades chinesas para com a língua portuguesa e lançar as bases para uma política mais consistente de sua defesa, ultrapassada diariamente em todos os serviços públicos locais pela comunicação em língua inglesa, já não seria mau.

Do nosso cônsul-geral espero que consiga transmitir aos responsáveis nacionais a necessidade de se encontrar uma solução aceitável que ponha cobro à patente indigência de meios humanos e económicos da nossa representação, incompatíveis com as responsabilidades nacionais e a necessidade de um reforço da nossa presença na Ásia no momento actual. É inaceitável que a legalização de um simples documento – reconhecimento de uma assinatura - leve uma semana e implique a quem não está cá a fazer turismo três deslocações, pelo menos, aos serviços consulares. E longas esperas. Ou que aos contratados locais que prestam serviço no Consulado sejam pagos salários ridículos para o nível de vida da cidade e aquilo que se lhes quer exigir. De igual modo, o que aconteceu com as obras de renovação da residência consular ou do novo auditório, por muito agradecidos que estejamos, e estamos, aos cidadãos nacionais e empresas que as financiaram e executaram, até pelo seu valor irrisório relativamente ao que estava em causa, ou por comparação com os juros que o país paga aos seus agiotas ou foi retirado aos bolsos dos reformados, não pode repetir-se e seria um mau princípio se a excepção se tornasse a regra.

Enquanto português e homem livre, condição que faço questão de diariamente sublinhar onde quer que esteja, resta-me desejar os maiores sucessos à viagem do Presidente da República à China, desde já me penitenciando pelo facto de não me predispor a levantar o convite que o Consulado colocou à disposição dos nacionais que queiram confraternizar com o visitante. O facto de não confundir a instituição com o seu titular não me obriga a fazer de hipócrita. Outros, mais dados ao lustre, estou certo que abrilhantarão os salamaleques, cumprindo esse papel com o habitual empenho e a sua inexcedível subserviência a quem transitoriamente manda e distribui comendas curriculares para seu próprio deleite e afirmação.

(Hoje Macau, 13/05/2014)

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 25.04.14

cantão (5)

Estas breves notas de viagem ficariam demasiado incompletas sem uma referência ao novo museu da cidade de Cantão. Fazendo jus ao desenvolvimento de uma arquitectura renovada, a sua imagem impressiona pela cor vermelha que rompe o cinzento tão típico da região nesta altura do ano. Uma vez mais aberto todos os dias, com entradas gratuitas incluindo para estrangeiros, é um repositório do passado histórico, cultural e etnográfico da cidade. Com inúmeras indicações em chinês e inglês, ali é possível encontrar trajes regionais, costumes, a reprodução de casas e vilas tradicionais, réplicas de antigas embarcações usadas no comércio e de barcos-dragão, até gravuras do período colonial e do período da Guerra do Ópio, com imagens da antiga feitoria de Shamian, porcelanas de diversas dinastias, quadros a óleo e a fauna e flora da região. Uma vez mais com recurso a elementos multimédia da última geração, famílias inteiras, muitas vindas do interior da província, passeavam-se sem nos atropelarem nem incomodarem, registando também neste aspecto a diferença relativamente ao que acontecia há duas décadas.

Não sei se por causa das epidemias relacionadas com o terrível H5N1, ou se em resultado da evolução verificada no país a todos os níveis, as instalações sanitárias, outrora verdadeiros depósitos escatológicos onde a maioria se recusava a entrar, são agora, incluindo as que surgem em muitos outros locais públicos, dotadas de papel, desinfectantes, água e sabonete líquido em profusão. As toalhas de papel podem ter-se esgotado mas haverá pelo menos um secador de mãos japonês ou alemão a funcionar. Já o mesmo não direi das imundas casas de banho nacionais, a começar pelas das nossas estações de comboios, de algumas áreas de serviço das auto-estradas ou do Aeroporto da Portela, onde ainda recentemente tive oportunidade de registar uma reclamação no balcão da ANA devido à imundície que encontrei logo pela manhã após ter feito o check-in na área das partidas internacionais.

 

Como a evolução e o desenvolvimento de uma cidade não poderá ser visto apenas nas zonas mais modernas, resolvi percorrer parte da cidade antiga que eu já conhecia de anteriores deslocações, quer ao longo do rio, a partir de Shamian pela  Yanjiang West Road, quer por algumas artérias pedonais, como a Beijing Lu, que continua a ser um paraíso para os amantes de artigos contrafeitos, dos Rolex e IWC às malas tipo Hermès a preços de saldo. A apreensão das mudanças é imediata. Agora, ao longo do rio há uma via para bicicletas, que deixaram de ser um instrumento de trabalho para se transformarem em objecto de lazer, sendo possível ver muitos velocípedes de última geração, das melhores marcas, daqueles que fazem sonhar os habitués do percurso Cascais-Guincho. As coisas mudaram tanto que agora até os vendedores de fruta, legumes e cana de açúcar, se fazem transportar em triciclos dotados de motores do tipo das antigas Solex. Os autocarros são muito mais novos e menos poluentes, as paragens têm placas e indicações várias, nos cruzamentos já ninguém se atropela porque há semáforos e em muitos locais câmaras de vigilância. A limpeza melhorou, dos papéis às beatas, e pese embora uma noite, ao regressarmos a pé ao hotel, nos tenhamos confrontado com dois ratos em fuga. Nada que não tivesse visto já em Lisboa, Londres ou Nova Iorque, ou até na garagem do meu escritório. Antes era normal ver o lixo amontoado pelas esquinas, os caixotes e sacos depositados na via à espera que alguém os recolhesse. Actualmente há contentores de lixo como os nossos. Creio que talvez ainda não tenham consciência da necessidade deles serem regularmente lavados, mas o avanço é indiscutível num espaço de tempo relativamente curto, ainda que medido pelos nossos padrões.

 

As noites são hoje muito mais iluminadas, mas por volta das 23h as luzes mais intensas vão-se apagando. O que não invalida que alguns edifícios emblemáticos, como o velho edifício da Alfândega ou o soberbo Banco da Agricultura, continuem com os focos ligados até mais tarde. O espectáculo das iluminações começa a rivalizar com o de algumas outras grandes cidades ocidentais e é motivo de orgulho dos locais. Um passeio interessante poderá ser feito ao longo das margens do rio, ao cair da noite, numa das muitas embarcações que a partir de diversos pontos da cidade oferecem esse serviço, como se estivéssemos em Paris ou Amesterdão.

 

Do outro lado do rio a majestosa Canton Tower está entre as mais altas do mundo. Tem 600 metros de altura e um observatório a 433, sendo possível dar um passeio no exterior, quando o tempo o permite, numa espécie de carrossel. A Torre Eiffel, em Paris, tem 324 metros e por aqui já se pode ter uma ideia do que é a vista de lá de cima, em dias claros. À noite também está iluminada, possuindo no seu interior restaurantes e algumas lojas, e o metro vai até lá.

Enfim, em jeito de conclusão alguns diriam que são tudo maravilhas. Não caio nesse erro e tenho a sensação de que não será o facto de um destes dias começar a funcionar o elevador mais rápido do mundo (72km/hora) num edifício de escritórios, de uma companhia aérea local ter encomendado à Boeing mais seis dezenas de aviões de passageiros da última geração, que irá iludir outras realidades como os linchamentos populares que de um momento para outro podem ocorrer em qualquer local, a dificuldade em acomodar os direitos humanos, o passado próximo, a liberdade e processos transparentes e democráticos à imensidão do país. Por ora são realidades que não conseguem conviver. Só que de quem evoluiu tanto e tão depressa em pouco mais de duas décadas, levando educação e conhecimento a tantos milhões depois de ter passado num século por uma guerra civil, ter sofrido a humilhação da Manchúria, vivido a Guerra Fria com constantes revoluções e convulsões internas, purgas cíclicas e a ostracização dos seus melhores quadros, recuperou depois Hong Kong e Macau nas condições de segurança e paz em que o fez, estando a cumprir aquilo a que se comprometeu e que ainda recentemente deu mais um passo no aprofundamento das relações com Taiwan, é de admitir que as próximas duas décadas caminhem ao mesmo ritmo.

Esta é a China que o Presidente da República irá encontrar em Maio, quando aqui se deslocar em visita oficial. A política de pequenos grandes passos começa a dar frutos. Muitos. Para os homens livres, e que têm como aspiração e horizonte de vida sentirem-se cada vez mais livres, o tempo de viajar na China enquadrado e escoltado terminou. Essa experiência é agora parte da minha memória. Estou satisfeito por isso. Por mim e pelos chineses. E por conhecer a nova realidade. Hoje passo a fronteira sozinho, com o meu passaporte e um visto para entradas múltiplas válido para dois anos, emitido sem necessidade de explicações ou de responder a inquéritos imbecis, como alguns a que para entrar nos Estados Unidos já me pediram. Do outro lado, compro o meu bilhete para um comboio de alta velocidade, marco o meu hotel pela internet, levanto dinheiro nas ATM, desloco-me livremente, e mesmo sendo um ocidental posso circular discretamente. Não tenho de dar satisfações a ninguém. Se nos anos 80, ou ainda nos 90, do século passado, me dissessem que isso seria possível na China em 2014, eu não acreditaria. Ainda há milagres. E bem menos dolorosos do que muitos supunham.

E, também, dos que aqueles a que os portugueses, lamentavelmente resignados perante a catástrofe dos partidos que têm e as respectivas classes dirigentes, se habituaram nos últimos anos; fazendo com que a celebração de 40 anos de liberdade se tenha transformado num miserável jogo de comadres que se dilui em discursos de circunstância, questões protocolares próprias de parolos e idiotices institucionais de estalo. Enquanto os outros, partindo de patamares muito mais baixos, evoluem e os ultrapassam.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 24.04.14

cantão (4)

Um dos grandes problemas com que há algumas décadas os europeus se confrontavam ao viajarem pela China era a dificuldade em encontrar uma alimentação que satisfizesse padrões mínimos de higiene na sua preparação e confecção, e que fosse aceitável para os respectivos padrões culturais. A província de Guangdong foi desde há muito considerada uma das pérolas gastronómicas da China, não sendo por acaso que o tradicional Dim Sum, ou Yum Cha entre os falantes de cantonense, teve aqui as suas origens. Apesar disso, durante muitos anos só era possível fazer refeições decentes nos hotéis e muitas vezes, mesmo aí, não raro em condições deficientes. De todos os países asiáticos que conheci, talvez aquele onde se comesse pior fosse na China, situação que durante muitos anos me "impediu" de fazer deslocações mais longas e estadias mais prolongadas pelo interior. Tirando uma ou outra cidade costeira, Pequim e Xangai eram os únicos destinos onde eu sabia que melhor ou pior me "safaria".

A situação é na actualidade incomparavelmente melhor. Os hotéis continuaram, obviamente, a servir boas refeições, o que se tornou mais evidente pelo aparecimento de dezenas e dezenas de novos estabelecimentos de cadeias internacionais de cinco estrelas. Aí há sempre a garantia de se comer bem, embora se saiba de antemão que a conta será proporcional ao número de estrelas. E quanto a estes deixo desde já aqui duas notas. Uma para o italiano Il Prego, que me foi também recomendado, mas onde cheguei tarde para o almoço, no quadragésimo andar do West Inn Guagnzhou, cuja fotografia aqui deixo. A outra é para o super referenciado "G", no Grand Hyatt.

 

Mas para lá dessas alternativas mais caras, Cantão tem hoje um conjunto de restaurantes, de rua e em centros comerciais, que podem deixar descansado o mais intraquilo gastrónomo ocidental. Sem contar com os restaurantes chineses, dos mais económicos aos dos roteiros internacionais do tipo Michelin servindo a melhor e mais requintada cozinha chinesa, há uma profusão de pequenos restaurantes belgas, franceses, turcos, tailandeses e japoneses, onde é possível comer uns bons mexilhões, um peixe muito razoável, sushi, sashimi, tempura e tepaniaki de grande qualidade com a melhor carne das vacas de Kobe.

Convém, igualmente, não esquecer as numerosas steak houses, americanas, australianas e neo-zelandesas, o já famoso 1920, alemão, que abriu agora uma terceira casa na zona nova de Tianhe, bem como os bares irlandeses, onde também se podem fazer excelentes refeições. Na Xingsheng Road, nas imediações do Hotel W Guangzhou (Starwood Hotels & Resorts), é mesmo possível encontrar um restaurante cuja ementa anuncia a confecção dos seus pratos com azeite português e que, entre outras "especialidades", apresenta no cardápio um bacalhau assado com batatas a murro.

Quanto aos irlandeses, sempre bem dispostos e generosos, deixo aqui a sugestão de visitarem o McCawley´s, numa rua interior, com entrada a partir do 16 da Huacheng Avenue (shop 101, estação de metro de Zhujiang New Town, TianHe District), onde também se pode encontrar um simpático restaurante francês e um, creio, australiano. O Mc Cawley´s foi o bar do ano em 2012 e 2013 e aí é possível encontrar gente de todas as origens, beber um óptimo café, saborear as melhores cervejas e os maltes mais puros, servidos por chineses jovens expressando-se num inglês de primeira água, e ver os golos de Cristiano Ronaldo ou Fernando Torres.

Por falar em café, este tornou-se numa moda e foi uma agradável surpresa. Casas como o famoso Costa, a Pacific Cofee Company ou o popular Starbucks, que se especializou na preparação de mistelas derivadas do genuíno, são como cogumelos nalgumas zonas da cidade e estavam presentes em quase todos os centros comerciais onde entrei. Há máquinas excelentes, as marcas italianas entraram em força e é possível beber café bem tirado e de boa qualidade, coisa que até na Europa é difícil conseguir em muitas cidades. Em Cantão já ninguém desespera por um café.

De todos os locais onde estive deixo aqui uma nota especial para Le Jardin d`Olive (101-48, Ti Yu Xi Lu, junto à saída H do metro de Ti Yu Xi, Tian He District), cujas decorações natalícias devem ficar de um ano para o outro, também num beco que dá acesso a um páteo interior. Tirando esses pormenores, recomendo as vieiras St. Jacques e os mexilhões no forno. Para quem gosta, que não é o meu caso, cuja única ave que reconheço não é comestível, pertence à família das de rapina e chama-se Vitória, aconselha-se uma das quatro opções do pato (com molho de laranja e mel, de vinho, de pimenta preta ou de paté). Quem o comeu deliciou-se. Os preços são 1/3 ou 1/4 dos praticados nos bons hotéis e há vinho para várias bolsas. O schnauzer da dona não ladra, só aparece no final da refeição e é suficientemente esperto e civilizado para não sair da zona da caixa e não incomodar os clientes. Tem uma esplanada simpática, embora sem vista, suficientemente ampla para se fumar um charuto no final da refeição. Para estes, os apreciadores de puros e boa música, as alternativas também são várias. O bar do Grand Hyatt, no vigésimo segundo andar, onde fica a recepção do hotel, acolhia na altura o pianista e saxofonista John Cole. É pequeno mas suficientemente acolhedor para merecer uma visita e uma charutada, graças à sua excelente extracção. E,  com sorte, encontram-se lá alguns portugueses, como os que aproveitaram a Páscoa para irem promover os seus produtos à Feira Internacional.

À semelhança do que acontece em Hong Kong, em Seul e nalgumas cidades do Japão, é normal aparecerem restaurantes nos pisos mais baixos dos edifícios de escritórios, os quais estão, em regra, devidamente assinalados e possuem simpáticas hospedeiras que convidam os transeuntes a subir. Num deles, visitei o Landmark Bistro. Publicitado como sendo o restaurante do "Chef Alan", que possuía um passado em restaurantes estrelados, pois trabalhara no Jean Georges (New York City) e no Citronelle (Washington DC), revelou-se um fiasco. Não pela comida, de boa qualidade e confecção, nem pelo preço, bastante aceitável para o local e para os créditos do cozinheiro, mas pela comprovação de que um mau serviço é um verdadeiro desastre que arruína em dois tempos a reputação do melhor restaurante. Da colher de sopa retirada do prato da minestrone e pousada directamente sobre a toalha imaculadamente branca (a ideia era utilizá-la para servirmos o prato seguinte), aos talheres do risotto de trufas negras e chocos salteados com os quais pretendiam que comêssemos o lombo de pimenta, sem esquecer a deficiente iluminação do espaço e o aviso, às 21h, de que a cozinha encerrava às 22 e o restaurante às 22.30, aconteceu de tudo um pouco. Valeu o bom humor da minha companhia, fazendo-me notar os excelentes grissinos e o pão de azeitona. Ah, e também a sobremesa. Uma magnífica tarte maçã para dois que vai ao forno numa frigideira e é assim que chega à mesa, feita numa massa finíssima, a lembrar a dos melhores pastéis de Tentúgal, polvilhada com açúcar em pó e acompanhada, ainda morna, de gelado de baunilha. Convenhamos que soube a pouco. O "Chef Alan" trabalhou em excelentes restaurantes, tem uma casa optimamente localizada e bem decorada, mas passou tanto tempo em volta dos tachos e fornos que se esqueceu de dar umas luzes à mulher - chefe de sala - e à rapaziada sobre a importância de um serviço decente. Com mais uns anos e o aumento da concorrência é natural que venha a melhorar.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 21.04.14

cantão (1)

Já não me recordo se a última vez que estive em Guangzhou, entre nós, portugueses e ocidentais, mais conhecida por Cantão, foi há mais de 20 ou se há 25 anos. Sei, no entanto, que foi há bem mais de duas décadas. E de todas as vezes anteriores em que lá estive, ou que por lá passei a caminho de outros destinos, fiz o percurso entre Macau e essa cidade de barco, subindo o delta do rio, de carro, por estradas e caminhos miseráveis, e algumas vezes pelo ar, a partir de Zhuai, em helicópteros velhos da Sikorsky, que pingavam líquidos vários a partir de diversos pontos na cabine quando este meio de transporte se tornou numa alternativa para nos fazer poupar tempo.

Volvidos todos estes anos regressei para ver se me apercebia da evolução verificada e das mudanças entretanto concretizadas. A conclusão a que chego é que a quarta revolução está em marcha. Pouco mais de um século passou desde que Sun Yat-Sen, a partir do berço de Wuchang, desencadeou a primeira revolução (Outubro de 1911), pondo termo ao domínio Qing e proclamando a República da China. Agora, cem anos depois da revolução nacionalista, passada a revolução de 1949 (Mao) e a era de Deng, dando corpo ao "Chinese dream", reafirmado por Xi Jinping no momento em que este assumiu a liderança do PCC, aí está a terceira cidade chinesa a comprovar a velocidade da mudança e a rapidez com que se sai da pobreza para a liderança da nova era tecnológica.

(Zhujiang New Town, vista norte do Grand Hyatt)

As oito horas de barco, as quase seis horas de carro que levava de Macau a Cantão na década de 80 do século passado, foram agora substituídas pelos pouco mais de 50 minutos que ligam a cidade fronteiriça de Zhuai-Gongbei à Guangzhou South Station, percurso que actualmente se realiza num comboio climatizado de alta velocidade, com duas classes e circulando à tabela. O barco semanal foi substituído por comboios-bala que saem de 30 em 30 minutos. Ainda me lembro de em 1 de Maio de 1986 ter visto milhares de homens trabalhando, sem a ajuda de máquinas, na construção da auto-estrada Zhuai/Cantão. Nunca mais me esqueci da data exactamente por ser o Dia do Trabalhador e dos estaleiros ao longo da velha estrada estarem todos decorados com bandeiras coloridas do tipo das que ainda hoje se vêem na Festa do Avante. Duas décadas depois a China tem a maior e mais densa rede de comboios de alta velocidade do mundo. Cantão, onde a circulação era difícil e lenta, cheia de pó e sempre em obras, tem hoje uma rede de metropolitano com 9 linhas que cobrem mais de 260km de extensão. Aquele que era o meu hotel preferido, em Shamian, o White Swan, está fechado para obras de remodelação. A nova cidade deslocou-se para Tianhe e as decrépitas lojas da Beijing Lu deram lugar a moderníssimos centros comerciais onde a Prada discute espaços com a Rolex ou a Porsche. Os velhos hóteis foram substituídos por dezenas de novos hotéis, do Ritz-Carlton ao Grand Hyatt, do Sofitel ao Hilton. A cerveja Tsintao morna que nos era oferecida pode agora ser servida gelada ou facilmente trocada por uma Heineken, uma Stella Artois ou uma Kronenbourg. A cidade viu crescerem os parques e as monumentais torres de escritórios da última geração. As bicicletas foram substituídas; primeiro por motociclos, depois por utilitários japoneses e carros da gama alta alemã. A quantidade de gente que hoje fala inglês não tem comparação possível com o que acontecia há vinte anos, quando era raríssimo, mesmo dentro dos poucos bons hotéis que havia, encontrar alguém que falasse um inglês aceitável. A cidade foi sede dos Asian Games em 2010 e o esforço que então foi necessário fazer reflecte-se na nova arquitectura da cidade, nos edifícios inteligentes, nos novos e amplos espaços verdes, na criação de uma nova mentalidade com preocupações ecológicas e ambientais. Cantão é hoje a imagem de uma China muitíssimo mais moderna, jovem e insatisfeita, que continua a procurar avidamente o progresso.

(Huacheng Road a partir do flyover que liga o Guangzhou International Finance Center ao GTLand Plaza)

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por Sérgio de Almeida Correia




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