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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Terça-feira, 24.11.15

pensamentos

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 (créditos: J.S. Goulão/LUSA)

 

Toda a gente compreende que nem todos me mereçam a mesma confiança e que me seja mais fácil simpatizar com A do que com B. Nada me obriga, por outro lado, a ser simpático com C. Não conheço o C de nenhum lado, o tipo é de uma região que eu não aprecio particularmente, tem um riso gozão, pertence a uma família política que não é a minha, conhece e dá-se com gente de quem eu não gosto, gente que não me faz salamaleques e que quando me fala parece que o faz por favor.

O problema é que o C é agora o meu interlocutor. Eu queria que o A fosse o escolhido, convidei-o a tomar o lugar, mas os outros tipos não o quiseram. Rejeitaram-no liminarmente e depois de me fazerem a folha querem que eu designe o C para o lugar, solução com a qual não concordo. Nunca concordarei.

Agora, das duas uma: ou eu faço de conta que sou eu quem manda nisto tudo, coisa que de facto não poderei fazer porque iria parecer mal e me iriam acusar de ter mau perder, ou, sem querer dar o braço a torcer, para depois não me fazerem acusações, faço de conta que estou a fazer tudo para o designar criando mil e um incidentes para evitar a solução que já dizem ser inevitável.

É certo que terei sempre uma parte da audiência comigo, e com os gritos da outra gentalha não me preocupo, aliás nunca me preocupei. O problema é com aqueles que eu pensava que estavam comigo e que já me começam a olhar de soslaio. O Marcelo, a Manuela e o Mendes até parece que alinham com eles, em vez de ficarem calados. Também nunca gostei deles.

A solução cínica pode ser a que me protege mais e me deixa ficar mais bem visto junto dos meus. No fim até poderei não ter alternativa. Daqui a uns dias ninguém na Europa irá perceber o atraso, nem as minhas dúvidas, e ficarão admirados com algumas das exigências que eu tenho vindo a formular. Mas estando de partida, com a reforma garantida, não tenho com que me preocupar. E até pode ser que depois me nomeiem para qualquer coisa internacional, com algum prestígio, para calar a boca dos que cá dentro falam contra mim.

Confesso que neste momento estou na dúvida sobre o que irei fazer. Os tipos estão a ficar exasperados, mas já que estou a ser sacaninha também já não tenho nada a perder.

Acho que vou fazer ao C mais meia dúzia de exigências. O tipo não vai poder dar resposta nos termos que eu quero e dessa forma continuo a deixá-los entalados. E sendo cínico nunca serei tão ostensivo que me acusem directamente do que ando a fazer. Bastar-me-á ir invocando o interesse nacional, os mercados, a estabilidade, ir falando de bananas, e a coisa ficará sempre na dúvida. Não me custa nada fazer de chaparro. Queimado já eu estou. Sempre podem vir dizer que ao A não exigi coisa alguma, mas a esses responderei que ele venceu as eleições. Não teve maioria, concedo, mas não foi por minha culpa. E os safados do C também podiam ter dado uma ajuda e teriam ficado asseguradas as condições que eu queria.

Aqueles tipos foram fazer exactamente o que eu não desejava e lhes disse para não fazerem. Foi de propósito. Mancomunaram-se com os comunistas, com os hippies e com aquela malta dos charros e do amor livre só para dizerem que tinham uma maioria na assembleia e me entalarem. Lixaram-me mas eu agora também vou lixá-los. Até posso vir a indigitá-lo, mas depois vou vetar-lhe os nomes e entalo-o de novo. O orçamento que se dane. A Constituição já era. Agora é que os gajos vão ver que quem manda sou eu. Vão ficar a conhecer-me. Faço-lhes a vida negra e se for preciso novo resgate poderei depois dizer ao povão que os tinha avisado e que a culpa foi deles. Estafermos. Nunca lhes perdoarei.

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por Sérgio de Almeida Correia





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