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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quinta-feira, 06.10.16

mérito

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Por momentos pensei que o desfecho pudesse ter sido outro, apesar da consistência de que dera mostras nas provas anteriores e na forma aparentemente tranquila como as foi superando. A entrada em cena de um "fantoche" encomendado pela Alemanha e a chanceler Merkel, com a conivência da rapaziada às suas ordens junto da União Europeia, a começar pelo seu ilustríssimo presidente da Comissão, e com o eurodeputado Mário David (PSD/PPE) fazendo de mestre de cerimónias, levou a que durante algumas horas pairasse a solução de mais um desfecho medíocre na escolha do nome que o Conselho de Segurança da ONU iria propor à Assembleia Geral. Confesso, pois, que ao aperceber-me, ontem à noite, através de canais televisivos internacionais (CNN, France 24, BBC World e Al Jazeera) da escolha do nome de António Guterres para próximo secretário-geral da mais global e universal das organizações, fiquei imensamente satisfeito. Creio que a maioria dos portugueses, com excepção dos ressabiados e ignorantes da praxe, também terá ficado.

António Guterres poderá não ter sido um bom primeiro-ministro (eu acho que podia ter sido muito melhor), ou pelo menos o primeiro-ministro que os portugueses gostariam que tivesse sido, em especial no seu segundo mandato, quando os lobbies do PS e o país real lhe retiraram o tapete, mas isso não retira qualquer mérito ao resultado que agora alcançou e ao extraordinário trabalho que fez ao longo de dez anos em prol dos refugiados de todo o mundo. E, pelo ineditismo do processo que foi seguido, aliado à circunstância de ser a primeira vez que um ex-primeiro-ministro, que foi alto dirigente político, ter sido o indicado para ser proposto à Assembleia Geral para assumir o lugar, podem ser bons presságios para a ONU e para o Mundo.

Guterres deu provas de ser o melhor preparado para o lugar. A experiência política e executiva à frente do PS, de Portugal e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a fluência em vários idiomas, o espírito tolerante, apaixonado e humanista, talhado ao longo de décadas e de intenso trabalho cívico, a capacidade de intervenção em momentos críticos e de diálogo são hoje qualidades imprescindíveis no exercício de um mandato como o de Secretário-Geral da ONU. Viajante incansável, homem culto, civilizado e de carácter, incapaz de se envolver, directa ou por interposta pessoa nas moscambilhas e esquemas que proliferam na ONU e, lamentavelmente, ainda hoje em Portugal, na sequência dos maus exemplos herdados dos governos Barroso, Passos Coelho e Sócrates, Guterres reúne hoje um consenso à sua volta que é capaz de lhe dar as condições ideais para o desempenho de um mandato histórico, não obstante a agudeza e premência da resolução de problemas como a crise Síria, os refugiados, os desafios do clima e a protecção dos direitos humanos, com especial incidência nos Estados Unidos, nalguns países árabes, em África e na Ásia.

O histórico resultado alcançado, pela repercussão que está a gerar (basta ler a imprensa internacional e ver o que aí se escreve), faz do nosso compatriota uma esperança nas imensas capacidades da alma humana e no seu poder de superação das dificuldades. Mas é, ao mesmo tempo, sinal da responsabilidade e da maturidade adquirida por Portugal e os portugueses no mundo complexo das relações internacionais e da diplomacia.

O mérito de Guterres, indiscutível na forma como se preparou para o lugar e no alto nível da suas prestações, e que deve ser reconhecido, não pode ser dissociado do esforço colectivo, e não só dos portugueses, gerado em torno da sua candidatura. Porque em causa não está só o interesse nacional mas um mundo bem mais vasto, carente e perigoso do que o rectângulo, não podendo o futuro Secretário-Geral sofrer do mal geral do umbiguismo, nem reduzir-se a uma dimensão nacional que não é, nem nunca foi, a da gesta dos portugueses enquanto construtores de um mundo global, pacífico e equilibrado.

É justo por isso mesmo recordar que depois de Freitas do Amaral ter chegado a presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, de Jorge Sampaio ter sido Alto Representante da Aliança das Civilizações, de Portugal ter desempenhado um papel fundamental na mediação de alguns conflitos, de se assumir como um Estado de referência no diálogo Norte-Sul, na ligação da Europa com África, não só lusófona, e a América do Sul, do papel desempenhado na resolução do problema timorense, com uma intervenção extremamente meritória na Bósnia-Herzegovina, no Afeganistão, nos problemas da pirataria no corno de África, para só citar alguns exemplos, a eleição de Guterres constitui um marco histórico da diplomacia portuguesa, da sua capacidade de intervenção e um reconhecimento da sua valia.

De Guterres esperamos todos que seja mais do que o simples funcionário administrativo previsto no artigo 97.º da Carta da ONU, que seja capaz de promover as reformas de que a organização carece, e que até estas estarem concluídas consiga gerar os consensos necessários para poder fazer uma interpretação extensiva dos seus poderes, mostrando-se capaz de conferir à função a visibilidade, o papel e a dignidade que perdeu, servindo os interesses da paz e da justiça universais.   

Faço votos de que dentro de cinco anos, António Guterres, se tiver que deixar o lugar, conclua o seu mandato ainda com maior aclamação e apoio do que aqueles que geraram a sua escolha pelo Conselho de Segurança, cuja ironia maior residirá no facto do anúncio do seu nome ter sido feito pelo representante da Rússia, exactamente um daqueles países de quem se temia um veto à sua candidatura. Que honre o mandato que lhe vai ser conferido é o que desejo. Honrando-o estará a honrar o seu próprio nome e o nosso, de portugueses, cidadãos do mundo e para o mundo, dando voz a quem dele depende para compreender que a vida tem sentido, faz sentido e dá-nos sentido. A todos, e não só a alguns.

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por Sérgio de Almeida Correia





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