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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quarta-feira, 31.12.14

memórias

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A primeira imagem que retive quando saímos da turbulência foi a dos campos de arroz de Surabaia. Chovia com intensidade. Pouco antes, o piloto avisara-nos de que teríamos de rumar a Juanda para reabastecer a aeronave em virtude de não haver combustível suficiente para se continuar à espera de uma aberta que nos permitisse aterrar em Denpasar. Não sei porquê, mas o verde dos campos de arroz tem sobre mim um efeito estranhamente tranquilizador. Talvez porque mesmo nos dias de chuva, quando o céu está mais pesado e o seu cinzento mais carregado e com tendência a deprimir-nos, a profundidade desse verde me faça comungar da explosão de vida que dos campos irradia. Há muito que queria ver os terraços de arroz e os cumes dos vulcões, embrenhar-me na floresta e mergulhar nas águas quentes daquela ponta do Índico, cujo nome de repente se mistura com o de dezenas de mares e estreitos feitos do apelo ao desconhecido. Recordava-me de há muitos anos ter lido um artigo, amplamente ilustrado, cujo título era "Flores after the storm", e depois mais alguns outros que tinham em comum o facto de referirem que as águas indonésias ficavam mais ricas depois dos temporais. Quando a vida regressava à normalidade, quando a transparência voltava, havia mais alimento e os grandes cardumes também regressavam. Com os campos de arroz também se passará algo semelhante. Parecem mais verdes, mais puros. Por razões várias, incluindo a inexistência de relações diplomáticas entre Portugal e a Indonésia, a minha confrontação com aquelas águas e campos foi sendo adiada. Concretizou-se agora. A realização de velhos sonhos sempre traz consigo um turbilhão de emoções. Mais intenso quando há todo um conjunto de circunstâncias a rodeá-los, onde se mistura a alegria com a apreensão, com a saudade e a ausência, com a preocupação com terceiros que estão longe, carentes, e aos quais não se pode acudir num momento tão especial como o Natal. Não sou de balanços, mas não sendo insensível ao que fica para trás sou incapaz de seguir em frente sem rever o passado. Quando volto a cabeça e atiro um olhar sereno sobre o que jaz, sobre a memória que nos transportará para o momento seguinte, para o trilho de novos sonhos, vejo a minha alma soltar-se durante breves instantes, fazer a triagem e cuidadosamente recolher o que nos permitirá seguir em frente e nos acompanhará no futuro que se avizinha. Nesse exercício percorro palavras, cores, gestos, olhares, momentos de ternura, de verdadeiro afecto, num caleidoscópio que se aproxima e se afasta até parar imóvel no momento em que num rápido semi-cerrar das pálpebras me endireito, olho para o que tenho diante de mim e me preparo para o dia seguinte.

Do passado sabemos apenas que existiu. Que foi. Do futuro teremos sempre a certeza do que connosco transportamos. E o que transportamos é o que não nos trai. É isso que nos dá a felicidade. A certeza de que existimos. Uma palavra, um sorriso, um beijo, uma imagem. Por vezes, apenas o cheiro da terra húmida, o sabor a sal, a paz de um campo de arroz. O que não nos trai é o que fica das memórias.

Um Bom Ano para todos vós.

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por Sérgio de Almeida Correia





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