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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quinta-feira, 16.06.16

galináceos

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Este ano o El Niño está a fazer-se sentir mais cedo e de forma mais intensa por estas paragens. A humidade e o calor, só por si, têm produzido efeitos muito nefastos no tecido social e urbano da RAEM, mas a sua recente conjugação com o El Niño ameaça agravar o estado da crise.

Desconheço, é verdade, se para o que está a acontecer se recorreu a algum bruxo, curandeiro ou às crenças milenares do feng shui, embora a insensatez revelada por algumas decisões e a forma como vão sendo transmitidas para a opinião pública indicie a substituição do pesadelo das vacas loucas por um outro ainda pior onde as galinhas, aves de capoeira por natureza imundas e de uma estupidez aflitiva, se apoderam do mundo subjugando a civilização aos seus caprichos, numa reedição macabra dos pássaros que Hitchcock levou ao cinema.

O caso é preocupante porque de acordo com os relatos que ouvi na rádio e televisão, e fazendo fé nas notícias que li, perante uma situação de grave risco epidémico provocado pela penetração em Macau e nas regiões vizinhas do vírus H7N9, alguém se lembrou de fazer uma consulta pública e encomendar um estudo no qual se foi perguntar à população se estava de acordo com a proibição da venda de aves de capoeira vivas e se admitia a sua substituição por animais refrigerados.

Inicialmente, não percebi o sentido de tal consulta e admiti que em causa estivesse uma qualquer outra situação de menor importância em termos de saúde pública. Ontem à noite acabei por confirmar as minhas piores suspeitas. Não obstante a proibição da importação e venda de aves de capoeira vivas já estar em vigor em Hong Kong, devido aos elevados riscos que se correria com a manutenção da situação anterior, e de já haver notícias do registo de casos importados por estas bandas, alguém se lembrou de ir perguntar à população se concordava com a adopção de uma medida de proibição.

E a situação é de tal forma caricata que perante o que aconteceu em Fevereiro, em que foram abatidas cerca de 15 mil aves no mercado abastecedor de Macau, "depois de agentes patogénicos terem sido encontrados no mercado provisório do Patane" (Ponto Final, 16/06/2016), e de os resultados da consulta pública e do estudo encomendado, de acordo com os quais 24% dos inquiridos estão a favor da medida de proibição e 33% se afirmaram indiferentes, em vez de se proibir de imediato a importação de aves de capoeira vivas como medida cautelar, se entendeu avançar "faseadamente" pela substituição das aves vivas por aves refrigeradas.

O sentido da consulta efectuada é de tal forma aberrante que isso me leva a questionar se um destes dias o Governo irá fazer uma consulta pública aos dependentes de heroína e de cocaína a perguntar se estão a favor ou contra a venda livre desse produtos em farmácias e supermercados com garantia de qualidade e a preços controlados. Eu pensava que em matéria de saúde pública, perante o risco de epidemias graves e susceptíveis de causarem danos gravíssimos à população, que haveria alguém habilitado e com capacidade de decisão que fosse capaz de decidir em termos tais que todos fossemos protegidos do risco de eventuais epidemias e que o interesse público prevalecesse.

Pelos vistos, não há nem se prevê que venha a haver. É que em em vez disso entendeu-se ir perguntar a quem não tem sequer consciência dos riscos epidémicos da propagação do vírus H7N9, se estava de acordo com uma decisão que, como muitas outras, não deveria nem poderia ser objecto de qualquer consulta pública. Ninguém se lembraria de fazer uma consulta à população do estabelecimento prisional de Coloane a perguntar se prefere cumprir a pena lá ou em casa, ou se quer sair à sexta-feira à noite para ir relaxar ao Divino e voltar à segunda-feira, pernoitando no Hotel Lisboa. Da mesma forma que os pais não perguntam aos filhos se querem almoçar e jantar chocolates, em detrimento da carne, do peixe ou dos vegetais. E um médico não pergunta a crianças diabéticas se querem que lhes sejam receitadas umas fatias de Abade de Priscos, em vez de se lhes impor uma dieta alimentar de acordo com o que é melhor para elas, protegendo a sua saúde e um crescimento saudável até que os destinatários das decisões tenham idade, conhecimento e capacidade para por si decidirem o que mais lhes interessa assumindo os respectivos riscos. Só num bananal é que os governantes detentores do poder e que têm por missão defender a saúde pública se lembrariam de ir fazer uma consulta pública tão insana, expondo-se a tamanho ridículo.

Perante esta situação, que reflecte bem os efeitos do El Niño na RAEM, já ninguém se pode espantar quando vê um pato de borracha amarelo de dimensões descomunais transformado, pela módica quantia de seis milhões de patacas, em atracção "turística". Ou assiste ao ruir, à conveniente hora da missa, do telhado de uma igreja que faz parte do património da cidade classificado e protegido internacionalmente. Ou, ainda, imagine-se, se indigna com a transferência de um Cartório Notarial fundamental, de uma zona nobre e central e instalado num belíssimo edifício integrado numa zona histórica e também ele classificado, para um qualquer buraco da zona norte, promovendo a entrega definitiva do centro histórico de Macau às hordas de pseudo-turistas que sob um calor inclemente, e atrás de bandeiras coloridas, quando não estão de cócoras a palitar os dentes e a cuspir, vão chinelando e percorrendo aos gritos e empurrões as tabancas do Largo do Senado e ruelas adjacentes, onde se abastecem de leite em pó, cremes hidratantes e imitações de mau gosto.

Bem que eu gostava de não ter visto os responsáveis pela cultura e pelo turismo de Macau, numa destas tardes, debaixo do sol de Junho, num lago da cidade, pedalando de forma tão vigorosa que não estivessem eles dentro de gaivotas cheguei a temer estar a assistir a uma nova versão do canto dos cisnes. E também gostaria acreditar que tudo isto, consultas públicas incluídas, que vai de linhas de metro à preservação de edifícios, não passaria de um sonho mau. Com a consulta sobre as aves de capoeira e a garantida continuação da sua entrada, vivinhas, com todos os vírus e mais alguns e prontas para serem abatidas e vendidas pelos mercados da cidade, que durante mais uns anos libertarão o cheiro pestilento dos galináceos e seus detritos, fico com a certeza de que o vírus H7N9 já chegou. Está é misturado com o El Niño, entrou num processo de mutação acelerada e instalou-se na Praia Grande, nas gaivotas dos Lagos Nam Vam e seus arredores, embora poucos se tenham apercebido disso.

Espero é que da maneira que as coisas estão, com o avançar da época dos tufões e depois do pato amarelo, não transformem o H7N9 e os galináceos em mais um motivo de atracção turística e cultural. Peço, pois, para já, que as autoridades de Macau não dêem este passo decisivo para a afirmação internacional da RAEM. Desconfio que a Organização Mundial de Saúde e a R. P. da China ainda não estão preparadas para encarar as decisões desses talentos que se especializaram na organização de consultas públicas e assimilarem esse novo patamar de excelência rumo à diversificação. À loucura. E que de uma vez por todas declarará o fim da pós-modernidade.

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por Sérgio de Almeida Correia





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