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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quarta-feira, 13.05.15

macau1950.jpg

A caminho do velho Ténis Militar Naval, ao começo da noite, sou travado logo a seguir ao quartel dos bombeiros, antes de entrar na Praia Grande. Lá em baixo, junto às ameias da Fortaleza do Bom Parto, pude ver  a luz das velas que transportavam. Seguiram por ali fora, compassadamente, em silêncio, protegidos da noite quente e húmida pela brisa que se desprendia da copa das frondosas árvores. Ao lado, em silêncio, os atletas e caminhantes de outros credos, alguns sem credo, quem sabe, cumpriam o seu ritual diário. Para cima e para baixo. Parámos todos. Não houve buzinas. Descreveram a curva da Calçada da Praia e tomaram o seu caminho até à Igreja de Nossa Senhora da Penha. Alguns milhares, num silêncio apenas cortado pelas suas orações. Quando os últimos deixaram a Avenida da República, iniciando a subida para a Penha, pudemos então avançar. De dentro do carro, em silêncio, senti a noite. Um pouco mais acima, os focos iluminavam a igreja. E o Bela Vista. Do outro lado, em silêncio na distância, os néones do Grande Lisboa, do Star World, do Wynn. O outro mundo da luz. Pouco depois, enquanto esperava, de raquete na mão, com Santa Sancha ali por cima, espiando-me, como tantas outras vezes acontecera no passado, vendo os reflexos que me chegavam dos novos lagos, ouvi os cânticos que em louvor se elevavam. Por momentos pensei que o tempo tinha parado. Dir-se-ia que tudo estivera sempre ali. Como o tempo. Eu continuo lá, como há trinta anos. Como se estivera sempre ali todos os 13 de Maio. À espera de os ver. No mesmo tempo, com a mesma noite, vendo a mesma luz, protegido pelo mesmo silêncio. Pela sua fé. A fé não se descreve. A fé não se vê. E, no entanto, ela ali está. Em silêncio, entre aquela mole compacta e serena que vê os séculos passarem. Ou serão os séculos que os vêem passar e os vão acolhendo? Sem mercadejar com os santinhos e a água benta, cada um com a sua vela, cada um segurando a sua luz, buscando a sua estrela, sabe-se lá em que língua, em que dialectos. Vão por ali, dialogando com o que não se vê, com quem não está, com quem foi, em silêncio. Sinto-os aconchegados. Vejo os seus rostos, a sua serenidade. A fé deve ser isto. E eu ali, para ali, transportando o tempo comigo, em silêncio, como se nada daquilo fosse possível. Como se nada existisse a não ser aquilo. Aquele silêncio, aqueles cânticos, aquela paz. Aquela luz. Que me traz e que me leva, quando quer, quantas vezes sem eu saber. Silenciosamente. Como se eu não fosse também daqui. Como se eu não fosse também um dos deles. Como se eu não tivesse fé.

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por Sérgio de Almeida Correia





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