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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quinta-feira, 16.01.14

desabafo

Os resultados do trabalho de investigação da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento, para os quais a Teresa Ribeiro já havia oportunamente chamado a atenção e de que a edição de 15 de Janeiro pp. do Público dá conta, para lá de enfatizarem aquilo que é mais chocante, ou seja, de que os portugueses quanto mais instruídos e mais ricos menos solidários são, revelam a falta de uma dimensão essencial, a mais importante da educação, que é a dimensão humana e relacional. Este aspecto é ademais sublinhado pelo investigador Lourenço Xavier de Carvalho quando refere que essa dimensão “está cada vez mais afastada dos currículos”e que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”. As pessoas embora tornando-se competitivas e tecnicamente preparadas tornam-se insensíveis aos outros.

Os resultados do estudo não constituem propriamente uma novidade para quem ande na rua, acompanhe o dia-a-dia, fale com adultos e menos adultos e, em especial, se predisponha a ouvir o que a maioria dos nossos dirigentes vai debitando.

A assinatura do memorando de entendimento com a troika, na linha do que já antes vinha dos “famigerados” PEC, o que em tempos fomos ouvindo a Teixeira dos Santos, ao ex-primeiro ministro e a alguns dos membros do seu executivo, ou que posteriormente escutámos a Passos Coelho, Vítor Gaspar, Hélder Rosalino, Mota Soares, Maria Luís Albuquerque e tantos outros, para só me referir aos mais próximos e aqueles cuja “desfaçatez” está mais presente, será apenas a ponta de um iceberg que foi paulatinamente crescendo sem que a maioria das pessoas se apercebesse das suas verdadeiras consequências e da dimensão, este sim, não o outro, do “monstro”.

É o “monstro”da insensibilidade que acompanha o desenvolvimento da ignorância global sobre a nossa própria condição e nos impede de ver o mal que daí resulta para o desenvolvimento e crescimento saudável de qualquer sociedade. Sou a favor da competição, sou um acérrimo defensor do mérito e da valorização das competências técnicas e profissionais, que fique bem claro. Mas continuo a não conceber que desenvolvimento e que tipo de sociedade será possível alcançar se os seus padrões de qualificação desvalorizam a dimensão humana das acções que nela se produzem.

E aqui, quer se queira quer não, voltamos a entrar na velha discussão sobre o papel da escola, sendo para o caso indiferente se essa é pública ou privada. Porque, se virmos bem as coisas, quando a família falha, quando o núcleo fundamental se desestrutura, seja por os tempos serem outros e vivermos numa sociedade “pós-modernista”, seja porque a indiferença se substituiu a um simples olhar para quem está ao lado, assistindo-se ao crescimento de manifestações de índole individualista que desviam a atenção do essencial e desvalorizam a dimensão humana da nossa relação com a economia, com as finanças, com a ciência, com a arte, enfim, com o mundo, falham os próprios pressupostos da formação.

O acto de ler, por exemplo, sendo um acto profundamente individualista, e não me refiro à leitura pública de textos, é um acto que nos aproxima dos outros e é incomensuravelmente mais humano e saudável do que os videojogos que invadiram as casas de todos nós e atiram adolescentes em idade de ler, ver um bom filme ou ouvir um bom disco para o recolhimento dos seus quartos ou para sofás de onde a custo se levantam na hora das refeições ou quando a bexiga aperta.

Quando a família falha e a escola também em igual medida, e ambas de uma forma crassa como se vê pelos resultados do estudo, é preciso que o Estado, que as suas instituições, aquelas para as quais os nosso impostos contribuem, fosse capaz de aparecer e colmatar o vazio, preenchendo essa vertente da formação.

No caso português a falha tem tal dimensão que não só nos mostrámos absolutamente incapazes de nos governarmos – o que significa que os dirigentes que a sociedade formou para a dirigir para além de serem recorrentemente mentirosos e aldrabões são igualmente maus do ponto de vista da gestão colectiva – como, ainda por cima, cultivámos um padrão de desenvolvimento que é a vergonha da herança de Erasmo, de Montaigne ou de Thomas More.

Dinheiro, poder, estatuto, cartões de crédito platina, bons carros, fatos de fino corte, sapatos de luxo, viagens à Cochinchina em classe executiva, refeições estreladas pela Michelin, tudo isso tem o seu espaço numa sociedade equilibrada sem que para corrigir excessos seja necessário cortar na reforma dos mais humildes, dos que mais trabalharam e dos que mais pagaram para não terem de viver os últimos anos das suas vidas sujeitos às contingências de lares e casas de repouso, sujeitos a maus tratos e à caridade de terceiros, nem despachar os mais capazes para o outro lado do mundo contando com as remessas deles e dos seus filhos para pagarem os vícios e os excessos dos incapazes e ignorantes que tomaram de assalto todas as zonas de conforto da política, da sociedade, da diplomacia e do Estado em geral, sem nunca nada de útil terem feito para merecê-lo. Não pode haver uma sociedade equilibrada enquanto se desvalorizar tanto o olhar sobre os outros, enquanto todas as críticas forem tomadas a peito pelos visados e vistas como ofensas pessoais, enquanto o humor for sempre interpretado como chacota, gozo e inveja, e, pior que tudo, se condescender com a disfuncionalidade social e juvenil ou comportamentos aberrantes dos titulares de cargos políticos, tratando-os como inevitabilidades do século XXI ou o preço a pagar pelo desenvolvimento.

Se não formos capazes de atalhar caminho começando por “educar” os nossos dirigentes e mostrando-lhes o caminho para onde deverão seguir, com troika ou sem troika, visto que aqui a componente económico-financeira até será a mais desprezível e ainda que não possamos descurar o cumprimento das nossas obrigações internacionais, o problema jamais terá uma solução adequada que nos liberte de fantasmas e nos faça reencontrarmo-nos com o nosso passado, sem necessidade de se continuar numa espera eterna por um qualquer vulto saído do mais tacanho sebastianismo, de um vendedor de pátrias e de credos, ou iluminado vendedor de banha-da-cobra que um dia acorda com vontade de ser primeiro-ministro.

Nunca a aposta na educação foi tão fundamental para se garantir a liberdade e a independência de um povo. Nunca o Estado moderno foi tão importante. Nunca os portugueses precisaram tanto de um Estado forte e de partidos políticos e dirigentes à altura do momento. 

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por Sérgio de Almeida Correia





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