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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Segunda-feira, 24.07.17

cgd

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Eu já tinha sido alertado para esse problema, só que estando longe por vezes tenho mais dificuldade em aperceber-me dos contornos do que vai acontecendo em Portugal.

Desta vez recebi um email dessa mais do que centenária instituição criada por "Carta de Lei de 10 de Abril de 1876, no reinado de D. Luís, sendo na altura Ministro da Fazenda Serpa Pimentel e presidente do 34º Governo Constitucional Fontes Pereira de Melo". Inicialmente criada para recebimento de depósitos obrigatórios, quatro anos depois da sua fundação viria a ser determinada – Carta de Lei de 26 de Abril de 1880 – a criação da Caixa Económica Portuguesa, administrada pela Junta do Crédito Público, por intermédio da Caixa Geral de Depósitos, cujo objectivo era "o recebimento e a administração de depósitos voluntários de pequenas quantias, com o propósito expresso de difundir, promover e incitar nas classes menos abastadas o espírito de economia".  

Os tempos mudaram e depois de múltiplas vicissitudes, a CGD acabaria por se transformar numa sociedade anónima de capitais públicos com uma natureza de banco universal e puramente concorrencial. Apesar disso, a CGD continua a referir ser sua missão "a oferta de soluções para as necessidades financeiras das famílias portuguesas ao longo dos vários momentos do seu ciclo de vida, fomentando a poupança e o investimento nacional".

Não vou perder tempo com a lengalenga que a CGD verteu para o seu site na Internet, mas gostaria de chamar a vossa atenção para o problema que me leva a escrever estas linhas e que, penso eu, afecta largas centenas de milhares, eventualmente milhões de portugueses que desde sempre contaram com a CGD para se protegerem dos BES, dos BANIF, dos BPN e dos BPP da nossa praça.

Acontece que, depois de ter servido de porto de abrigo para clientelas várias, dando emprego a múltiplos comissários políticos, e distribuindo o dinheiro que estava à sua guarda de múltiplos pequenos, médios e grandes depositantes por negócios ruinosos, sem quaisquer das garantias que pedia a um pequeno contribuinte que precisasse de uma dúzia de euros para comprar um apartamento T1 na Brandoa, a CGD vai entrar, presumo que com o aval do Presidente da República e dos responsáveis pela nomeação da actual administração, numa fase em que de banco dos portugueses pobres, reformados e remediados, das pequenas e médias empresas, dos emigrantes e dos pequenos aforradores, se vai transformar num banco para ricos num país onde os ricos têm o dinheiro noutros bancos e em bancos fora de portas, não precisando da CGD para nada.

Na sequência de uma notícia de Junho passado", a CGD anunciou que vai mudar as condições das contas bancárias para criar, diz a publicidade, uma "conta caixa à medida". Pensava eu que seria à medida dos seus clientes, isto é da maioria dos seus depositantes, e que isso seria feito tendo em atenção a sua missão de "oferecer soluções financeiras para as famílias portuguesas", "fomentando a poupança  e o investimento nacional", dando mostras de "uma actuação socialmente responsável", respeitando os "interesses confiados" e os princípios da "não discriminação, tolerância e igualdade de oportunidades". Mas não, enganei-me. As contas de depósito na CGD vão deixar de respeitar todos esses princípios que são apregoados pela instituição e que seriam de esperar da actuação de um banco público responsável e socialmente comprometido.

Com efeito, de acordo com esse referencial de sensibilidade social e respeito pelos mais desfavorecidos que é o Dr. Paulo Macedo, a partir de agora só os clientes com mais de 65 anos de idade e pensão de reforma inferior a 835,50 euros é que continuarão a não pagar pela conta à ordem. Todos os outros, que em tempos foram convidados a abrir contas na CGD para domiciliação dos seus rendimentos – salários e/ou pensões – ou com património financeiro igual ou superior a 5.000 euros, o que na perspectiva do Dr. Paulo Macedo e de quem o nomeou deve fazer deles uns "Gulbenkians", vão passar a pagar para ter o seu pouco dinheiro guardado na CGD.

Perante o que me foi esclarecido pela instituição e vem no jornal, esses ricaços, se quiserem manter uma isenção de pagamento para serem clientes da CGD, "passam a ser obrigados a ter cartões de débito e de crédito e a utilizá-los pelo menos uma vez por mês, o que implica uma despesa efectiva, tendo em conta o custo (anuidade) destes produtos, a que podem acrescer ainda juros, se passarem a utilizar o fraccionamento dos pagamentos a crédito".

Uma vez que os juros que a CGD já hoje paga são absolutamente ridículos para quem lá tem as suas poupanças, calculo que seja por esta via que esse banco onde ainda existem, ao que me dizem mas poderei estar enganado, "capitais públicos", deve pretender estimular a poupança dos portugueses, captar os depósitos dos emigrantes e cumprir a sua função social, de acordo com os referidos princípios da não-discriminação, da tolerância e da igualdade de oportunidades, dando a todos, incluindo desempregados, reformados e pensionistas a possibilidade de imaginarem que continuam a sustentar os desvarios da maltosa dos defuntos BES e BPN, bem como de todos os outros cujos administradores e accionistas se encheram convivendo alegremente com o poder político enquanto o país e os portugueses empobreciam.

Com os novos critérios da CGD, quem lá tiver rendimentos domiciliados, vencimento ou pensão ou for titular de património financeiro acima de cinco mil euros, com um cartão de débito, que é hoje algo indispensável no nosso quotidiano, terá de pagar numa "Conta S" a módica quantia de 30,00 euros por ano. Sem isso irá pagar 40 euros anuais. Se for parar a uma "Conta M" vai pagar entre 48 e 72 euros anuais, e numa "Conta L" pagará entre 84 e 108 euros por ano. Em termos sumários é isto.

Eu compreendo que seja necessário pagar os salários do Dr. Paulo Macedo e daquela catrefa de administradores, entre executivos e não-executivos, que a CGD tem, e que também importe pagar os desmandos das últimas décadas, as reformas com valores mensais de muitos milhares de euros de gente tão respeitável como o Eng.º Mira Amaral, a Dra. Celeste Cardona ou o Dr. João Salgueiro, e de outros que por lá passaram durante uma dúzia de meses; ou os empréstimos que a CGD  andou a fazer para financiar as compras de acções noutros bancos com o dinheiro dos depositantes e contribuintes, empréstimos que depois tem dificuldade em cobrar. Como também compreendo que seja necessário recuperar os quase quatro mil milhões de euros que a CGD perdeu em seis anos, mais os créditos de cobrança duvidosa dos empréstimos aos amigos e os prejuízos de 38,6 milhões decorrentes das saídas do pessoal, já sem falar nas aventuras algarvias.

Mas para além da informação que é dada para a maioria dos clientes que são abrangidos pelas novas regras ser pouco clara e confusa, também confesso que não percebo por que razão clientes como eu e outros que em nada contribuímos para os desmandos que ocorreram na CGD ao longo de décadas, com o aval do poder político, para enriquecimento da cambada que com pouco ou nenhum esforço se aproveitou da democracia para singrar, destruir a economia nacional e empobrecer o país, vamos agora ter de pagar a virtuosa gestão do Dr. Paulo Macedo e seus compinchas, e bem ou mal a dos que os antecederam, acabando todos "empacotados" em "contas-pacote".

Não sei de quem foi esta brilhante ideia de colocar uma vez mais os portugueses com poucos rendimentos e que não têm hipóteses de colocar o seu dinheiro no Luxemburgo, nas BVI ou em Hong Kong, a pagarem os desvarios de quem nos (des)governou. De qualquer modo, sem  estímulos à poupança em Portugal, com a CGD a comportar-se desta forma desonesta e esportuladora para com os portugueses que nela confiaram ao longo de várias gerações, penso que o melhor mesmo será começarmos todos à procura de alternativas numa instituição que, ainda que não pagando ou pagando juros ridículos pelo que lá colocamos, não nos cobre para guardar os nossos modestos rendimentos e poupanças.

A CGD e a sua administração, em vez de cortarem nos salários dos administradores, nas mordomias destes, no papel, nas cadernetas, na burocracia, nos elefantes que criaram, resolveram investir contra os seus clientes mais desfavorecidos.

A CGD e a sua administração não merecem a confiança dos portugueses, ainda que continuem a merecer a confiança política do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças.

E como pequeno aforrador e, já agora, emigrante, tenho vergonha de que isto esteja a acontecer com essa instituição que em cada dia que passa se vai esquecendo dos únicos que lhe deviam merecer confiança e respeito. Isto é, aqueles que ao longo dos anos lhe confiaram as poupanças contribuindo para o seu engrandecimento e que nunca lhe ficaram a dever tostão ou avo. É esta a compensação – empacotados pelo Dr. Paulo Macedo e pagando pelo empacotamento – que os portugueses recebem pelo apoio dado à CGD durante décadas. Uma inqualificável vergonha.

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por Sérgio de Almeida Correia




6 comentários

De Anónimo a 27.07.2017 às 14:29

Sou cliente da CGD há uns 40anos, nesses tempos até davam bons juros! Chegue a receber de 6em6 meses, 200 contos, nesse tempo era contos! Era bom, era! Hoje o que lá tenho e nada é quase a mesma coisa, o juro é 1,47 aos 6 meses! Como tenho a misira reforma de 200€ , não sei abrangida! Mas se fosse, garanto k retirava td o que lá tivesse, não iria pagar pra eles se governassem com o meu dinheiro! Pelos vistos, com td o que se está a passar, com os nossos bancos, voltamos ao antigamente, vai pró colchão! Prq já não há confiança em banco algum! PORTUGAL está uma lastima!

De Cojones, cunho. a 27.07.2017 às 17:36

Portanto, este caro anónimo, há muitos anos atrás, anos oitenta, presumo, sacava da CGD, só em juros, 400 contitos por ano. Ou seja, o equivalente a 2.000,00 € actuais. Nos dias de hoje, para se ter esse rendimento é preciso ter um depósito a prazo, na CGD, de qualquer coisita como 150.000,00 €. Pois muito bem, para um gajo que, após uma vida de trabalho (supondo que este anónimo trabalhou) só recebe uma "misira" reforma de 200,00 € e, no entanto, conseguiu acumular, com o ordenado de miséria que lhe proporciona a "misira" reforma, um rico bolo de 150.000,00 €... Ó anónimo, ou andaste a assaltar bancos com o pai das gémeas, ou és gaja e andaste a dá-lo!

De Cojones, cunho.todos os a 27.07.2017 às 14:36

Estou em total sintonia com o expendido. Todavia, entendo que esse tal de Paulo Macedo é um "ganda" bronco, um tapado, um gajo incompetente, que só serviu para nos fo#er enquanto por cá andou o governo do Passos e a troika contratada pelo Sócrates do desgoverno PS. E é um incompetente, etc., etc., porquê? Porque um gajo inteligente, como eu, por exemplo, não andava com rodriguinhos de ai isto e ai aquilo... Comigo passava-se logo à acção. Isto é. É preciso endireitar as costelas à CGD? Fácil. À surrelfa e sem dizer nada a ninguém, nacionalizava todo o dinheiro que estivesse depositado na CGD, fosse do falecido Américo Amorim, do Zé Camarinha, do amigo do Sócrates, enfim, de todos esses filhos da pureza e de todos os outros doutra natureza, à excepção do meu bago, está claro. E o cunho do Juncker, esse esquentador da treta que safou o Luxemburgo do anonimato com esquemas semelhantes, até viria para a televisão dizer que Portugal já não era só o Cemtino e o CR7, mas também este humilde patriota e do qual (de mim) diria, o cunho tem cojones.

De Maria Araújo a 27.07.2017 às 14:50

Há alguns anos que deixei de receber o vencimento por esta instituição, transferir para o banco que me concedeu empréstimo para a casa.
Hoje, e apesar de ter algumas queixas ( o que se paga de comissão de gestão de conta, e do que se recebe de juros das poucas economias que se tem, é ridículo) do banco onde tenho conta há mais de 20 anos, fiquei revoltada quando ouvi esta notícia da CGD. E eu que ainda pensei voltar para esta.
No lugar dos clientes, cancelava-a.
Sinceramente, fiquei de pé atrás quando em 1996 fui saber das condições de empréstimo para a casa, e o funcionário entregou-me uma cópia, ilegível, das mesmas e me disse para ler aquilo e fazer as contas.
Nunca mais lá fui.
Este parágrafo está excelente:

"
Eu compreendo que seja necessário pagar os salários do Dr. Paulo Macedo e daquela catrefa de administradores, entre executivos e não-executivos, que a CGD tem, e que também importe pagar os desmandos das últimas décadas, as reformas com valores mensais de muitos milhares de euros de gente tão respeitável como o Eng.º Mira Amaral, a Dra. Celeste Cardona ou o Dr. João Salgueiro, e de outros que por lá passaram durante uma dúzia de meses; ou os empréstimos que a CGD andou a fazer para financiar as compras de acções noutros bancos com o dinheiro dos depositantes e contribuintes, empréstimos que depois tem dificuldade em cobrar. Como também compreendo que seja necessário recuperar os quase quatro mil milhões de euros que a CGD perdeu em seis anos, mais os créditos de cobrança duvidosa dos empréstimos aos amigos e os prejuízos de 38,6 milhões decorrentes das saídas do pessoal, já sem falar nas aventuras algarvias."

Cumprimentos.

De Bruno Silva a 28.07.2017 às 00:24

O Zézito é da minha terra, e adora correr as feiras do gado e do caprino, com entrada gratuita, tendo como intuito o de recolher o máximo de chapéus de sol, canetas e sacos de oferta. Mas não há almoços grátis (expressão que o César das Neves "roubou" a Milton Friedman), o Zézito gastou tempo, gastou combustível, e teve um custo de oportunidade em relação a outras atividades que poderia ter exercido enquanto andou a recolher brindes.

E o Zézito, que tem conta na caixa, nunca pagou um chavo por ter uma caderneta, por ir às máquinas atualizar a caderneta todos os dias, por ter um funcionário que o atende na agência sempre que precisa de tirar uma dúvida, ou pelo extrato que recebe em casa todos os meses. Além disso, o Zézito começou a utilizar a "interneta" que a alzira lhe mostrou, e até gosta volta e meia de ver os movimentos da conta online, sem pagar um tostão.

Agora o Zézito sente-se ofendido por lhe cobrarem 2,5 EUR por mês. Apesar do Zézito ter manias, e a minha mulher não ir à baila com a mulher dele, devo confessar que o Zézito até não é burro: está é mal habituado!

De Maria Araújo a 28.07.2017 às 17:40

Tem razão. O Zézito está mal habituado... Em tudo!
Atenção que nunca condenei cobrarem comissão de gestão de conta, mas sim o exagero entre o que cobram e os juros das economias que se tem.

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