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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Sexta-feira, 25.04.14

cantão (5)

Estas breves notas de viagem ficariam demasiado incompletas sem uma referência ao novo museu da cidade de Cantão. Fazendo jus ao desenvolvimento de uma arquitectura renovada, a sua imagem impressiona pela cor vermelha que rompe o cinzento tão típico da região nesta altura do ano. Uma vez mais aberto todos os dias, com entradas gratuitas incluindo para estrangeiros, é um repositório do passado histórico, cultural e etnográfico da cidade. Com inúmeras indicações em chinês e inglês, ali é possível encontrar trajes regionais, costumes, a reprodução de casas e vilas tradicionais, réplicas de antigas embarcações usadas no comércio e de barcos-dragão, até gravuras do período colonial e do período da Guerra do Ópio, com imagens da antiga feitoria de Shamian, porcelanas de diversas dinastias, quadros a óleo e a fauna e flora da região. Uma vez mais com recurso a elementos multimédia da última geração, famílias inteiras, muitas vindas do interior da província, passeavam-se sem nos atropelarem nem incomodarem, registando também neste aspecto a diferença relativamente ao que acontecia há duas décadas.

Não sei se por causa das epidemias relacionadas com o terrível H5N1, ou se em resultado da evolução verificada no país a todos os níveis, as instalações sanitárias, outrora verdadeiros depósitos escatológicos onde a maioria se recusava a entrar, são agora, incluindo as que surgem em muitos outros locais públicos, dotadas de papel, desinfectantes, água e sabonete líquido em profusão. As toalhas de papel podem ter-se esgotado mas haverá pelo menos um secador de mãos japonês ou alemão a funcionar. Já o mesmo não direi das imundas casas de banho nacionais, a começar pelas das nossas estações de comboios, de algumas áreas de serviço das auto-estradas ou do Aeroporto da Portela, onde ainda recentemente tive oportunidade de registar uma reclamação no balcão da ANA devido à imundície que encontrei logo pela manhã após ter feito o check-in na área das partidas internacionais.

 

Como a evolução e o desenvolvimento de uma cidade não poderá ser visto apenas nas zonas mais modernas, resolvi percorrer parte da cidade antiga que eu já conhecia de anteriores deslocações, quer ao longo do rio, a partir de Shamian pela  Yanjiang West Road, quer por algumas artérias pedonais, como a Beijing Lu, que continua a ser um paraíso para os amantes de artigos contrafeitos, dos Rolex e IWC às malas tipo Hermès a preços de saldo. A apreensão das mudanças é imediata. Agora, ao longo do rio há uma via para bicicletas, que deixaram de ser um instrumento de trabalho para se transformarem em objecto de lazer, sendo possível ver muitos velocípedes de última geração, das melhores marcas, daqueles que fazem sonhar os habitués do percurso Cascais-Guincho. As coisas mudaram tanto que agora até os vendedores de fruta, legumes e cana de açúcar, se fazem transportar em triciclos dotados de motores do tipo das antigas Solex. Os autocarros são muito mais novos e menos poluentes, as paragens têm placas e indicações várias, nos cruzamentos já ninguém se atropela porque há semáforos e em muitos locais câmaras de vigilância. A limpeza melhorou, dos papéis às beatas, e pese embora uma noite, ao regressarmos a pé ao hotel, nos tenhamos confrontado com dois ratos em fuga. Nada que não tivesse visto já em Lisboa, Londres ou Nova Iorque, ou até na garagem do meu escritório. Antes era normal ver o lixo amontoado pelas esquinas, os caixotes e sacos depositados na via à espera que alguém os recolhesse. Actualmente há contentores de lixo como os nossos. Creio que talvez ainda não tenham consciência da necessidade deles serem regularmente lavados, mas o avanço é indiscutível num espaço de tempo relativamente curto, ainda que medido pelos nossos padrões.

 

As noites são hoje muito mais iluminadas, mas por volta das 23h as luzes mais intensas vão-se apagando. O que não invalida que alguns edifícios emblemáticos, como o velho edifício da Alfândega ou o soberbo Banco da Agricultura, continuem com os focos ligados até mais tarde. O espectáculo das iluminações começa a rivalizar com o de algumas outras grandes cidades ocidentais e é motivo de orgulho dos locais. Um passeio interessante poderá ser feito ao longo das margens do rio, ao cair da noite, numa das muitas embarcações que a partir de diversos pontos da cidade oferecem esse serviço, como se estivéssemos em Paris ou Amesterdão.

 

Do outro lado do rio a majestosa Canton Tower está entre as mais altas do mundo. Tem 600 metros de altura e um observatório a 433, sendo possível dar um passeio no exterior, quando o tempo o permite, numa espécie de carrossel. A Torre Eiffel, em Paris, tem 324 metros e por aqui já se pode ter uma ideia do que é a vista de lá de cima, em dias claros. À noite também está iluminada, possuindo no seu interior restaurantes e algumas lojas, e o metro vai até lá.

Enfim, em jeito de conclusão alguns diriam que são tudo maravilhas. Não caio nesse erro e tenho a sensação de que não será o facto de um destes dias começar a funcionar o elevador mais rápido do mundo (72km/hora) num edifício de escritórios, de uma companhia aérea local ter encomendado à Boeing mais seis dezenas de aviões de passageiros da última geração, que irá iludir outras realidades como os linchamentos populares que de um momento para outro podem ocorrer em qualquer local, a dificuldade em acomodar os direitos humanos, o passado próximo, a liberdade e processos transparentes e democráticos à imensidão do país. Por ora são realidades que não conseguem conviver. Só que de quem evoluiu tanto e tão depressa em pouco mais de duas décadas, levando educação e conhecimento a tantos milhões depois de ter passado num século por uma guerra civil, ter sofrido a humilhação da Manchúria, vivido a Guerra Fria com constantes revoluções e convulsões internas, purgas cíclicas e a ostracização dos seus melhores quadros, recuperou depois Hong Kong e Macau nas condições de segurança e paz em que o fez, estando a cumprir aquilo a que se comprometeu e que ainda recentemente deu mais um passo no aprofundamento das relações com Taiwan, é de admitir que as próximas duas décadas caminhem ao mesmo ritmo.

Esta é a China que o Presidente da República irá encontrar em Maio, quando aqui se deslocar em visita oficial. A política de pequenos grandes passos começa a dar frutos. Muitos. Para os homens livres, e que têm como aspiração e horizonte de vida sentirem-se cada vez mais livres, o tempo de viajar na China enquadrado e escoltado terminou. Essa experiência é agora parte da minha memória. Estou satisfeito por isso. Por mim e pelos chineses. E por conhecer a nova realidade. Hoje passo a fronteira sozinho, com o meu passaporte e um visto para entradas múltiplas válido para dois anos, emitido sem necessidade de explicações ou de responder a inquéritos imbecis, como alguns a que para entrar nos Estados Unidos já me pediram. Do outro lado, compro o meu bilhete para um comboio de alta velocidade, marco o meu hotel pela internet, levanto dinheiro nas ATM, desloco-me livremente, e mesmo sendo um ocidental posso circular discretamente. Não tenho de dar satisfações a ninguém. Se nos anos 80, ou ainda nos 90, do século passado, me dissessem que isso seria possível na China em 2014, eu não acreditaria. Ainda há milagres. E bem menos dolorosos do que muitos supunham.

E, também, dos que aqueles a que os portugueses, lamentavelmente resignados perante a catástrofe dos partidos que têm e as respectivas classes dirigentes, se habituaram nos últimos anos; fazendo com que a celebração de 40 anos de liberdade se tenha transformado num miserável jogo de comadres que se dilui em discursos de circunstância, questões protocolares próprias de parolos e idiotices institucionais de estalo. Enquanto os outros, partindo de patamares muito mais baixos, evoluem e os ultrapassam.

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por Sérgio de Almeida Correia





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