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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quinta-feira, 24.04.14

cantão (4)

Um dos grandes problemas com que há algumas décadas os europeus se confrontavam ao viajarem pela China era a dificuldade em encontrar uma alimentação que satisfizesse padrões mínimos de higiene na sua preparação e confecção, e que fosse aceitável para os respectivos padrões culturais. A província de Guangdong foi desde há muito considerada uma das pérolas gastronómicas da China, não sendo por acaso que o tradicional Dim Sum, ou Yum Cha entre os falantes de cantonense, teve aqui as suas origens. Apesar disso, durante muitos anos só era possível fazer refeições decentes nos hotéis e muitas vezes, mesmo aí, não raro em condições deficientes. De todos os países asiáticos que conheci, talvez aquele onde se comesse pior fosse na China, situação que durante muitos anos me "impediu" de fazer deslocações mais longas e estadias mais prolongadas pelo interior. Tirando uma ou outra cidade costeira, Pequim e Xangai eram os únicos destinos onde eu sabia que melhor ou pior me "safaria".

A situação é na actualidade incomparavelmente melhor. Os hotéis continuaram, obviamente, a servir boas refeições, o que se tornou mais evidente pelo aparecimento de dezenas e dezenas de novos estabelecimentos de cadeias internacionais de cinco estrelas. Aí há sempre a garantia de se comer bem, embora se saiba de antemão que a conta será proporcional ao número de estrelas. E quanto a estes deixo desde já aqui duas notas. Uma para o italiano Il Prego, que me foi também recomendado, mas onde cheguei tarde para o almoço, no quadragésimo andar do West Inn Guagnzhou, cuja fotografia aqui deixo. A outra é para o super referenciado "G", no Grand Hyatt.

 

Mas para lá dessas alternativas mais caras, Cantão tem hoje um conjunto de restaurantes, de rua e em centros comerciais, que podem deixar descansado o mais intraquilo gastrónomo ocidental. Sem contar com os restaurantes chineses, dos mais económicos aos dos roteiros internacionais do tipo Michelin servindo a melhor e mais requintada cozinha chinesa, há uma profusão de pequenos restaurantes belgas, franceses, turcos, tailandeses e japoneses, onde é possível comer uns bons mexilhões, um peixe muito razoável, sushi, sashimi, tempura e tepaniaki de grande qualidade com a melhor carne das vacas de Kobe.

Convém, igualmente, não esquecer as numerosas steak houses, americanas, australianas e neo-zelandesas, o já famoso 1920, alemão, que abriu agora uma terceira casa na zona nova de Tianhe, bem como os bares irlandeses, onde também se podem fazer excelentes refeições. Na Xingsheng Road, nas imediações do Hotel W Guangzhou (Starwood Hotels & Resorts), é mesmo possível encontrar um restaurante cuja ementa anuncia a confecção dos seus pratos com azeite português e que, entre outras "especialidades", apresenta no cardápio um bacalhau assado com batatas a murro.

Quanto aos irlandeses, sempre bem dispostos e generosos, deixo aqui a sugestão de visitarem o McCawley´s, numa rua interior, com entrada a partir do 16 da Huacheng Avenue (shop 101, estação de metro de Zhujiang New Town, TianHe District), onde também se pode encontrar um simpático restaurante francês e um, creio, australiano. O Mc Cawley´s foi o bar do ano em 2012 e 2013 e aí é possível encontrar gente de todas as origens, beber um óptimo café, saborear as melhores cervejas e os maltes mais puros, servidos por chineses jovens expressando-se num inglês de primeira água, e ver os golos de Cristiano Ronaldo ou Fernando Torres.

Por falar em café, este tornou-se numa moda e foi uma agradável surpresa. Casas como o famoso Costa, a Pacific Cofee Company ou o popular Starbucks, que se especializou na preparação de mistelas derivadas do genuíno, são como cogumelos nalgumas zonas da cidade e estavam presentes em quase todos os centros comerciais onde entrei. Há máquinas excelentes, as marcas italianas entraram em força e é possível beber café bem tirado e de boa qualidade, coisa que até na Europa é difícil conseguir em muitas cidades. Em Cantão já ninguém desespera por um café.

De todos os locais onde estive deixo aqui uma nota especial para Le Jardin d`Olive (101-48, Ti Yu Xi Lu, junto à saída H do metro de Ti Yu Xi, Tian He District), cujas decorações natalícias devem ficar de um ano para o outro, também num beco que dá acesso a um páteo interior. Tirando esses pormenores, recomendo as vieiras St. Jacques e os mexilhões no forno. Para quem gosta, que não é o meu caso, cuja única ave que reconheço não é comestível, pertence à família das de rapina e chama-se Vitória, aconselha-se uma das quatro opções do pato (com molho de laranja e mel, de vinho, de pimenta preta ou de paté). Quem o comeu deliciou-se. Os preços são 1/3 ou 1/4 dos praticados nos bons hotéis e há vinho para várias bolsas. O schnauzer da dona não ladra, só aparece no final da refeição e é suficientemente esperto e civilizado para não sair da zona da caixa e não incomodar os clientes. Tem uma esplanada simpática, embora sem vista, suficientemente ampla para se fumar um charuto no final da refeição. Para estes, os apreciadores de puros e boa música, as alternativas também são várias. O bar do Grand Hyatt, no vigésimo segundo andar, onde fica a recepção do hotel, acolhia na altura o pianista e saxofonista John Cole. É pequeno mas suficientemente acolhedor para merecer uma visita e uma charutada, graças à sua excelente extracção. E,  com sorte, encontram-se lá alguns portugueses, como os que aproveitaram a Páscoa para irem promover os seus produtos à Feira Internacional.

À semelhança do que acontece em Hong Kong, em Seul e nalgumas cidades do Japão, é normal aparecerem restaurantes nos pisos mais baixos dos edifícios de escritórios, os quais estão, em regra, devidamente assinalados e possuem simpáticas hospedeiras que convidam os transeuntes a subir. Num deles, visitei o Landmark Bistro. Publicitado como sendo o restaurante do "Chef Alan", que possuía um passado em restaurantes estrelados, pois trabalhara no Jean Georges (New York City) e no Citronelle (Washington DC), revelou-se um fiasco. Não pela comida, de boa qualidade e confecção, nem pelo preço, bastante aceitável para o local e para os créditos do cozinheiro, mas pela comprovação de que um mau serviço é um verdadeiro desastre que arruína em dois tempos a reputação do melhor restaurante. Da colher de sopa retirada do prato da minestrone e pousada directamente sobre a toalha imaculadamente branca (a ideia era utilizá-la para servirmos o prato seguinte), aos talheres do risotto de trufas negras e chocos salteados com os quais pretendiam que comêssemos o lombo de pimenta, sem esquecer a deficiente iluminação do espaço e o aviso, às 21h, de que a cozinha encerrava às 22 e o restaurante às 22.30, aconteceu de tudo um pouco. Valeu o bom humor da minha companhia, fazendo-me notar os excelentes grissinos e o pão de azeitona. Ah, e também a sobremesa. Uma magnífica tarte maçã para dois que vai ao forno numa frigideira e é assim que chega à mesa, feita numa massa finíssima, a lembrar a dos melhores pastéis de Tentúgal, polvilhada com açúcar em pó e acompanhada, ainda morna, de gelado de baunilha. Convenhamos que soube a pouco. O "Chef Alan" trabalhou em excelentes restaurantes, tem uma casa optimamente localizada e bem decorada, mas passou tanto tempo em volta dos tachos e fornos que se esqueceu de dar umas luzes à mulher - chefe de sala - e à rapaziada sobre a importância de um serviço decente. Com mais uns anos e o aumento da concorrência é natural que venha a melhorar.

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por Sérgio de Almeida Correia





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