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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Terça-feira, 29.10.13

medo

Raul Rêgo (Diário Político), estando preso, falava de incompreensão relativamente a Angola e aos movimentos que na década de sessenta do século passado lutavam pela autodeterminação e a independência, não se esquecendo de referir que do outro lado da sua cela também estava preso Agostinho Neto. Quatro décadas volvidas e de novo se fala em incompreensão. Mas incompreensão de quê?

Fátima Campos Ferreira fez desfilar no Prós e Contras de ontem à noite uma multitude de figurantes, entre gente séria e laparotos, para discursarem sobre as relações entre Portugal e Angola e as pretensas incompreensões que "poluem" as relações entre os dois países. No final, bastaram duas palavras para demonstrar o tempo que se perdeu naquele estúdio. Entre a ingenuidade e a "cabotinice" - que terá o bacalhau a ver com as relações entre Estados? - a apresentadora fez questão de sublinhar a dificuldade que era ter outros convidados em estúdio e que muitos havia que, tanto de um lado como do outro, mesmo depois de se comprometerem acabavam por rejeitar a comparência em estúdio.

Como alguém ajuizadamente referiu, a literatura pode ter algumas respostas aos problemas recentes, incluindo para a ausência dos convidados que se fazem desconvidar e para a forma pressurosa como alguns empresários, cujas laranjas não apodrecem dentro do porão dos navios à vista de Luanda,  correm a deitar água na fervura. A leitura das memórias do dia-a-dia de Angola desse grande artífice das relações entre os dois povos, recentemente desaparecido, que foi o embaixador Pinto da França, pode ser um bom começo para quem queira perceber o que se esconde por detrás do actual relacionamento e das declarações do senhor "dos Santos". 

Não há nisto nada de incompreensivo. Como não havia no tempo de Raul Rêgo.

O que há, sempre houve, é o medo a pairar sobre as relações ente Estados e sobre o carácter dos homens. Há medo nos negócios, como há medo nos compromissos políticos. Há medo do que possa vir do outro lado. Sobretudo há medo das palavras. Quer se queira quer não as relações entre Portugal e Angola são relações assentes no medo. Não é preciso ler o Jornal de Angola nem o Expresso para se perceber isso. O medo de um é a liberdade do outro.

Enquanto prevalecer o medo não haverá estratégia, não haverá perenidade nas relações, inexistirá a confiança, que é a base de qualquer relação. Porque é a confiança que torna credíveis as expectativas, porque é a confiança que aproxima os homens. Os povos já perceberam isto. As actuais elites nunca perceberão. 

O mau político tem medo. Da mesma forma que o corrupto também tem. O medo é a força dos cobardes, dos fracos, dos receosos, da gente de carácter mole. As relações entre Portugal e Angola desde 1975 que assentam no medo. Por isso não passam de relações circunstanciais e interesseiras.

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por Sérgio de Almeida Correia





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